Aquele palhaço maldito me encarava com um sorriso completamente distorcido, um sorriso de quem sabia que só ganharia e não o contrário.
Mas não era só ele.
Atrás de mim... tinha alguém.
E a sensação era clara.
Um predador... olhando pra presa, se eu aceitasse, vai saber o que aconteceria comigo, porém caso eu recusasse, uma coisa era clara, eu morreria.
"Bom... se é o único jeito de sobreviver..."
Respirei fundo.
"...eu aceito, seu palhaço de merda."
"Olha a boca, pequeno Ed." ele respondia em tom de deboche.
No momento em que apertei a mão dele—
Uma aura roxa começou a se espalhar.
Mas não era só o roxo...
Eram várias cores misturadas... se movendo... girando...
Vivendo.
E no sorriso dele...
Eu vi.
Dentro de sua boca, estrelas, como se seu sorriso fosse o próprio universo.
As mesmas do livro de Zyon.
Então—
Acabou, ao firmar o contrato com aquele palhaço, parece que as dúvidas ou suspeitas, seja lá o que for, que eles tinham sobre mim, acabaram de ser descartadas.
Zyon não disse mais nada.
Só olhou pra trás uma última vez, mantendo seu olhar desconfiado, apático e frio, se dirigindo para uma espécie de buraco no espaço, eu tentei olhar de relance para ver algo do outro lado, mas a pontada que senti na minha cabeça foi algo que me impediu, até mesmo meus olhos eu senti queimar, como se só olhar de relance fosse apagar e destruir minha própria existência.
Kyn foi diferente.
Muito diferente.
Assim que o contrato terminou—
Ele desapareceu.
E reapareceu no centro do céu.
Flutuando.
Rindo.
Gritando como se quisesse que o mundo inteiro ouvisse.
"HAHAHAHA!"
"OS PREPARATIVOS FORAM CONCLUÍDOS!"
"COM ISSO, DAREMOS INÍCIO AO PRIMEIRO CENÁRIO!"
A voz dele ecoava por todos os lados.
"PARA AQUELES QUE SOBREVIVEREM, O FUTURO OS RECOMPENSARÁ!"
"PARA AQUELES QUE MORREREM..."
Uma pausa.
O sorriso abriu mais.
"...bem..."
"HAHAHAHAHAHA!"
"QUE SE DANE! ISSO INFELIZMENTE SÓ MOSTRARÁ A PRÓPRIA FRAQUEZA DE VOCÊS, LUTEM, SE FORTALEÇAM E ENTÃO, SOBREVIVAM, SE VOCÊ NÃO LUTAR, NÃO HAVERÁ A MÍNIMA CHANCE DE SOBREVIVER."
"UM ADEUS DO SEU AMIGO COLORIDO!"
Silêncio.
"O quê...?"
Sobreviver?
Ele quer... que a gente se mate ou algo assim?
"...eu sabia."
"Esse palhaço é o capeta."
Foi então que senti algo no peito.
Olhei pra baixo.
Uma tatuagem.
Um palhaço.
"...certo."
"Então um contrato gera uma marca."
Ok.
Não demorou muito.
O caos começou.
E não foi como eu imaginei.
Eu achei que seriam monstros.
Tipo aquelas novels que eu lia de vez em quando.
Mas não.
Era pior.
Muito pior.
Humanos.
Matando humanos, eu achei que ia demorar mais para essas coisas de fato começarem a acontecer, mas parece que minhas supostas análises e conclusões dessa vez não estavam corretas.
E olhando lá de cima...
Eu entendi o porquê, e já consegui perceber algo que poderia, não, poderia não, seria extremamente valioso e útil no futuro.
Itens.
Assim como em jogos—
Os mortos dropavam itens.
Então pra sobreviver...
Você tinha que matar.
"Mas sério que esse é o único jeito...?"
"Droga... pensa, Ed."
Pensa, pensa, pensa.
"Porra, é difícil pensar quando se estava consumido pelo medo, depois disso nunca mais julgo personagem de filme de terror."
"Espera."
"Sistema."
Ele tinha falado algo assim, não tinha?
"...será que..."
"Abrir janela de sistema."
[Janela aberta]
[Nome: Edward]
[Idade: 28]
[Habilidade Primária: Reset]
[Classificação: Rank SSS]
[Descrição: Concede um reset total a qualquer dano ou habilidade, revertendo causa e efeito, ignorando probabilidades e acertos garantidos, deixando o usuário imune à existência ao ser ativada.]
[Observação: O meio de ativação só ocorre quando o usuário possuir uma visão distorcida do acontecimento - como achar engraçado, legal ou empolgante.]
"...que porra é essa?"
Uma habilidade dessas...?
"Eu posso simplesmente ser imortal?"
Mas—
A condição, era óbvio que uma habilidade quebrada não possuiria um meio de ativação simples, não é mesmo?
"...quem que em sã consciência acharia a morte algo engraçado?"
Aquele palhaço.
Olhei mais uma vez a janela.
[STATUS: HUMANO]
[CARACTERÍSTICAS]
[FORÇA: 5 INTELIGÊNCIA: 7]
[AGILIDADE: 4 RESISTÊNCIA: 4]
[PERCEPÇÃO: 4]
Meus status estavam... ok.
Nada absurdo.
Mas tinha algo na caixa de mensagens.
De início pensei nas regras, nenhum dos dois haviam se aprofundado nessa parte das regras, nem mesmo em nada muito complexo relacionado ao sistema em si para falar a verdade.
Mas—
Quando o assunto era jogos, minha capacidade de raciocínio era dobrada, existe uma espécie de "compartimento secreto" nos jogos.
Recompensas também vão pra lá.
Então eu abri.
"Olha só."
[Um presentinho pra você, pequeno Ed hehe]
[Adaga Mahat: Rank D]
[Classificação: Ao infligir danos críticos a oponentes, um efeito de loucura e distorção de percepção é infligido no alvo, podendo inverter sentidos ou até burlar a noção espacial do alvo.]
"Mahat...?"
"Hahaha..."
"Esse palhaço é um arrombado."
Mas—
O item não era ruim.
Nada ruim, era bem interessante na real, principalmente para um item inicial.
Se isso é Rank D...
"...imagina um Rank A."
Um sorriso escapou.
Por um momento...
Eu esqueci do caos lá fora.
TOC.
TOC. TOC.
Batidas.
Na porta da cobertura.
Meu corpo travou.
"Droga..."
O medo percorreu meu corpo rapidamente, gelando minha espinha.
Pelo menos eu estava armado naquele instante, então não senti o medo em sua forma mais plena ou de maneira que me deixasse irracional, o que deixava as coisas menos perigosas para o momento.
As batidas ficaram mais fortes.
Mais rápidas.
Mais pesadas.
Monstro?
Humano?
Não dava para saber, e mesmo assim, eu não estava com nenhum pingo de vontade de saber o que estava do outro lado daquela porta.
Eu ia sair—
Mas parei.
Algo fez sentido, um brilho veio em minha mente naquele instante de hesitação sobre sair ou ficar.
Olhei pro vazio.
O lugar onde o prédio estava antes.
"Zyon..."
"Ele não apagaria aquele prédio sem motivo."
Pelo menos era o que dava para deduzir ao analisar seu jeito e natureza, mesmo sendo algo que não posso afirmar com certeza.
Mesmo querendo me matar...
Não faria isso à toa, não ele pelo menos.
E outra coisa que eu consegui perceber analisando o desastre de lá de cima.
Humanos também dropam itens.
Não só monstros.
"...entendi."
Se alguém mais pensou nisso—
Vai dar merda, afinal, a chance de eu não ter sido o único a chegar nessa conclusão era algo grande, eu necessito chegar lá antes.
Talvez todo aquele tempo trabalhando com análise...
Caçando fraude.
Erro.
Sistema.
E os jogos...
Me fizeram pensar nisso.
[AVISO DO SISTEMA]
[Adquirido 1 ponto de Percepção]
"Olha só..."
"Finalmente algo útil."
Pela primeira vez...
Algo bom.
Percebi que o barulho parou.
Silêncio.
Então—
Já tinha acabado, o que quer que estava ocorrendo lá fora, tinha chegado ao fim.
Mas por baixo da porta...
Sangue.
Escorrendo.
Só que—
Escuro demais.
Quase preto, uma cor totalmente anormal, o que me deixava mais tranquilo de alguma forma.
"...não é humano."
Equipei a adaga.
Devagar.
Girei a maçaneta.
Estilo aquele jogo de zumbi clássico, onde o protagonista é um policial.
Sem fazer barulho.
Abri a porta, devagar, tentando ao máximo não fazer nenhum tipo de barulho.
Como imaginei.
Um cadáver de lobo, uma espécie de lobo nunca vista por mim antes, com pelagem escura, tão escura quanto um pedaço de carvão e olhos vermelhos como sangue.
Eu pensei em pegar o elevador para acelerar o ritmo, porém algo era nítido, esse "atalho" poderia causar problemas muito grandes para mim mesmo, já que o barulho atrairia monstros.
Escadas, essa era a melhor opção no momento.
Menos risco.
Menos barulho.
O prédio...
Estava vazio, algo que era estranho.
Muito estranho.
Ainda mais depois de uma luta ali em cima, o que era para ter aumentado a movimentação e o fluxo de pessoas nesse local.
Então eu vi.
Corpos.
Nos corredores.
Pessoas que trabalhavam comigo.
Agora...
Mortas.
Não dava pra saber o que fez aquilo.
O lobo...
Ou algo pior.
Mas—
Era nojento, algo covarde e sem nexo.
Quando cheguei no quarto andar—
Ouvi gritos.
Vindos da rua.
Mas continuei descendo.
Sem ligar muito.
Eu não conhecia ninguém mesmo, não tinha necessidade nenhuma de querer bancar o herói naquele momento.
Chegando no segundo andar, me lembrei de uma passagem secreta que havia nesse local, que levava para a minha melhor hipótese de saída e escapar daquele local.
Direto pra frente do prédio, era para onde esse local me levaria.
"Usava isso pra ir embora mais cedo..."
"...agora é pra sobreviver."
Grande ironia do destino, ou talvez não?
Acelerei.
Não sabia se ainda tinha coisa ali dentro.
Finalmente.
Do lado de fora.
Um mar de corpos, corpos estavam espalhados por todo lugar, canto e espaço naquele momento.
De novo.
E aí caiu a ficha.
Os corpos dentro do prédio...
Não tinham loot, o que significava somente uma coisa.
"Alguém pegou."
"Ou matou."
"As pessoas... e o lobo."
"Merda."
"Esqueci disso."
Sem perder tempo—
Fui direto pra cratera, se eu conseguisse upar muito rápido de maneira fácil, seria naquele local.
Aproximei devagar.
No stealth.
Sem fazer barulho.
Então—
Uma voz.
"Olha só..."
"Parece que eu não fui o único a pensar, né."