Após aquele golpe monstruoso do Kai, um ataque devastador de fato, vendo o estrago agora eu consigo dizer: aquilo foi absurdo.
Algo mudou, o olhar daquele monstro em forma de mulher havia sido alterado.
A garota percebeu.
Nós não queríamos lutar, e aquele ataque era a prova disso, afinal, quem desperdiçaria um golpe tão devastador daquele só para se exibir?
"I-Isso..."
Ela olhava pra ele com um certo desconforto misturado com admiração.
"...foi incrível."
O silêncio durou alguns segundos, quase como se o tempo tivesse sido congelado; nenhum dos três dizia uma palavra sequer.
Tensão.
Desconfiança. Era nítido, ao observar seu corpo, que ela estava na defensiva. Eu não julgo, afinal ninguém confia em alguém que poderia te matar com um ataque de maneira imediata.
...
Então—
Ela cedeu, com um movimento relaxado, quase imperceptível; estava desfazendo sua guarda, de maneira tão segura que, mesmo assim, não possuía brechas para ataques surpresa.
"Certo... vocês estavam falando a verdade."
Ela estendeu a mão, após finalmente ceder à nossa palavra e persistência.
"Ayla."
Ela dizia, com uma seriedade e calma tão serena quanto um verdadeiro militar, cumprimentando a mim.
"...Ayla?"
"Esse é o nome da troglodita...?"
Pensei, enquanto ainda tentava raciocinar e assimilar de maneira completa o que havia acontecido, e o quão monstruosa era aquela garota — e nada feminina.
...
"Eduardo. Mas pode me chamar de Ed."
Apertei a mão dela; a aura que ela emanava agora era mais calma, porém ainda era algo assustador.
"E o garoto ali é o Kai."
Kai guardou a espada na hora, porém não tirou a mão da empunhadura de sua arma, mantendo sua postura.
E se aproximou, com calma e cautela.
Percebi algo de imediato: uma leve e sutil diferença na maneira de observação e cautela por parte dela.
O olhar presente em sua face, e o foco dela—
Estava nele. Era bem justificável o porquê, mas ela não estava apenas o observando; era como se estivesse admirando a força dele.
Analisando.
Medindo.
Já comigo—
Era diferente.
Mais tranquilo.
Mais seguro. Sua reação comigo era mais descontraída; ela parecia se sentir mais no controle quando o assunto era a minha pessoa.
Como se eu não fosse uma ameaça significativa aos olhos dela. Se por acaso ela possuísse conhecimento das minhas habilidades, será que isso mudaria seu pensamento? Óbvio que não, isso não faria a mínima diferença naquela ocasião.
É, infelizmente...
Ela estava certa. Eu não tinha nenhuma capacidade destrutiva, diferente do Kai; apenas minhas análises e meu raciocínio. Afinal, minhas habilidades primárias eram inúteis para combates diretos, e a única coisa que me mantinha vivo e a par dele era minha capacidade mental e intelectual.
Ficamos um tempo conversando, contando sobre o que estávamos fazendo até nos encontrarmos, sobre como era nossa vida antes de todo o ocorrido, e a quantidade de monstros que havíamos matado até o momento.
Conversamos por um tempo, sem contar ou analisar por relógios ou coisa do tipo. Não sei quanto tempo se passou, mas foi o suficiente. Uma coisa ficou clara: era o bastante para criarmos uma certa conexão, um vínculo que nos permitiria, pelo menos, enfrentarmos e continuarmos seguindo até o boss.
Em seguida, nos dirigimos para o nosso local designado, rumo à floresta adentro, em direção ao objetivo comum que todos nós compartilhávamos.
Algum tempo depois—
Encontramos algo que elevou nosso sentido de alerta, e que demonstrava que a área que estávamos prestes a averiguar era perigosa.
Corpos humanos, como se fosse um verdadeiro cemitério público — a única diferença é que não havia coveiros ou caixões no local, apenas um mar de corpos.
Destruídos, corpos mutilados, faltando membros, ou seres que estavam em dois lugares ao mesmo tempo, dividindo somente a morte como igual.
Silêncio. Era a única reação de nós três ao presenciar aquela cena. A reação inicial foi apenas observar aqueles seres destruídos, sem reação, sem sequer conseguir dar opinião naquele momento.
Embora não conseguisse reagir, a cena me fez sentir uma mistura de sentimentos, um borbulhar de sensações, e um peso indescritível, como se fosse um oceano me esmagando.
Kai desviou o olhar, quase como se não quisesse ou não conseguisse presenciar uma cena daquelas.
Mão na boca.
Ânsia. Sua cor de pele, por um momento, parecia a de um cadáver, de tão branco que ele ficou.
Eu...
E Ayla...
Só encaramos, eu talvez pela minha experiência a mais, e ela pelo treinamento que teve, independente de qual tenha sido.
"Por isso eu odeio essas malditas criaturas esverdeadas. A única coisa que sabem fazer é causar sofrimento e atacar na surdina."
Minha voz saiu baixa.
Mas carregada.
Ayla não respondeu.
Só observava, com um olhar sério e sombrio.
Tentando ignorar o que tínhamos acabado de ver, seguimos nosso caminho rumo ao boss, pensando, ao mesmo tempo, tentando assimilar aquilo que vimos.
E eu só repetia uma coisa para mim mesmo.
"Eu preciso me acostumar com isso logo."
Eu pensava, afinal, isso iria se tornar cada vez mais comum; cenas como essas seriam frequentes.
E então—
Avistamos um grupo de monstros se movendo.
Goblins.
Mas não eram somente os goblins que chamavam atenção; aqueles malditos estavam carregando gaiolas, e elas estavam carregadas com pessoas, como se fossem animais de estimação.
"Esses filhos da puta..."
Sussurrei.
Kai e Ayla já estavam prontos; a convicção e a vontade de avançar eram visíveis em seus olhos.
Antes que eu pronunciasse qualquer palavra ao garoto, ele já estava com a mão no cabo da espada.
"Nem precisa dizer, senhor Ed."
Eles se posicionaram definitivamente. Estávamos um pouco distantes de onde eles pareciam estar indo, então não conseguiríamos forjar um ataque surpresa, mas mesmo assim avançaram, bloqueando o caminho dos goblins.
Poderíamos esperar — meu pensamento estava em conflito, mesmo com eles já praticamente no ataque.
Segui-los para descobrirmos mais, para onde eles estavam indo? E se os humanos fossem realmente uma entrega — do jeito que eles estavam sendo transportados, quem ou o que estaria recebendo?
Mas—
E se alguém morresse nesse meio-tempo? Porém, será que havia mesmo alguém vivo ali? Não dava para ver com clareza, mas ferimentos eram visíveis na maioria dos corpos presentes nas gaiolas.
Eu consegui me aproximar mais, mantendo uma distância segura, mas suficiente para observar com clareza.
Eu estava entre dois caminhos.
"Vale a pena mesmo colocar os dois em risco, por pessoas desconhecidas?"
"Não dá só pra gente esperar e seguir em frente?"
Não dava, não agora que já estávamos à vista dos goblins.
Eles avançaram contra a horda, começando um combate — mas aqueles dois juntos contra meros goblins nem podia ser chamado de combate; era outra coisa.
Outro massacre. Ayla parecia uma aberração da natureza, e Kai se movia com uma precisão que beirava o absurdo; os corpos eram fatiados quase no mesmo segundo em que outros já estavam caindo.
Eu fiquei nas sombras.
Não era hora de bancar herói.
Eu era o mais fraco ali; qualquer deslize, mesmo contra goblins, e eu poderia acabar destruindo a sincronia deles.
Mas—
Mesmo assim—
Eles dois...
Funcionavam tão bem juntos que pareciam companheiros veteranos de guerra. Acho incrível o quão visível fica a mudança do garoto quando ele está empunhando sua espada.
"Quem diria..."
Soltei uma risada baixa.
Enquanto eles limpavam aqueles malditos vermes verdes, eu me esgueirava para perto das jaulas, usando o stealth acumulado durante meus anos de jogos.
Contornando.
Entrando pelos espaços.
Eliminando os guardas. Minha adaga, mesmo não sendo tão útil em combates diretos, era perfeita para uma ocasião como essa.
Abrindo caminho até liberar a entrada das gaiolas. Com os guardas mortos e os combatentes sendo totalmente destruídos pelos dois lá atrás, só faltava uma coisa.
Os cadeados.
Um por um, eu fui abrindo com a maior velocidade possível, para não correr o risco de algum deles ser atraído por mim.
E então—
Acabou.
Silêncio.
Gaiolas abertas. Eu deveria me sentir aliviado por ter conseguido, porém o silêncio veio logo em seguida, com a realidade sendo jogada na minha cara, quase como uma faca perfurando meu peito. E eu percebi: o mundo é cruel, e agora parece que só existe o cruel, e o mundo se foi.
Sangue...
Corpos estáticos.
Todos mortos.
"Droga..."
Fechei os olhos.
Apertei os punhos, com uma força tão grande que minha palma chegou a sangrar.
"...tarde demais."
Meu estado de raiva estava tão grande que, ao ouvir passos atrás de mim, imediatamente me virei atacando com a adaga.
Ao me virar, percebi que eram Ayla e Kai, do lado de fora.
Ela não disse uma palavra, nem mesmo se mexeu.
Eu abaixei a adaga, olhando para baixo, desamparado e me sentindo culpado.
Ela olhou todos os corpos com uma velocidade absurda, mas o óbvio estava evidente: mortos e mais mortos.
"Isso é... repugnante." — Ela falava com um tom de indignação.
"Senhor Ed... isso é horrível..." — foi a única coisa que Kai conseguiu dizer.
Eu não respondi, eu não conseguia. O garoto era novo demais para entender a complexidade daquilo. Ayla possuía um treinamento militar avançado, sua mente era forte e preparada para esse tipo de situação. Mas e eu? Eu estava no meio dos dois; eu entendia e não conseguia assimilar aquele massacre.
Mas então algo chamou nossa atenção — talvez fosse um brilho naquela escuridão, um sinal.
Um som fraco.
Respiração.
"...tem alguém."
Foi a única coisa que eu pensava.
"Por favor, tem que ter, pelo menos uma pessoa, por favor."
No meio daqueles corpos, um brilho.
Uma criança.
15... talvez 16 anos de idade.
Cabelos azuis.
Sua respiração estava fraca, pesada; o importante é que ele estava vivo.
"Ayla... olha ali."
Nos aproximamos de onde ele estava.
"Ei... ei, garoto..."
Segurei-o.
Inclinei o corpo.
"Respira devagar... tá tudo bem agora..."
"Ele está muito machucado, senhor Ed..."
"Ed..."
Ayla se aproximou.
Observando.
"Os ferimentos dele..."
Ela analisava com calma.
"Não são letais de imediato."
"Mas são profundos o suficiente pra fazê-lo sangrar até morrer."
"Os pontos vitais... todos preservados."
"Cortes nos braços... nas pernas... esses ferimentos não foram feitos para matar alguém."
"Quase como se..."
"Não fosse esse o objetivo."
Terminei.
Ela assentiu.
"Exatamente."
Fomos olhar os outros corpos e deixamos o garoto com o Kai.
O padrão—
Se repetia.
"Os cortes evitam fuga."
Falei, ajoelhado, analisando os cortes; mesmo sem ter conhecimento médico, aquilo era visível.
"Sim..."
Ayla analisava outro corpo.
"Quase como se eles estivessem sendo usados como algo, talvez... alimento. Os goblins não pareciam querer devorar esses humanos, pelo menos não completamente. Talvez esses seres estivessem sendo tratados como gado."
"Preparados para o abate."
Eu ouvia ela dizer, olhando para os corpos.
"...gado?"
Algo travou dentro de mim.
Naquele momento—
Eu entendi.
O mundo, de fato, acabou.
"Humanos..."
Minha voz saiu mais pesada.
"...estão tratando os mais fracos como mercadoria."
"Para monstros."
"Isso é repugnante."
"Isso é nojento."
"Isso é..."
"Abominável."
"Eduardo...?"
Ela me chamava.
Humanos são inteligentes o suficiente para debilitar seres sem a necessidade de matá-los, seja com armadilhas ou ataques de armas específicas. Então não era possível que fosse outro tipo de ser fazendo aquilo.
E se o Kai não estivesse comigo?
E se eu estivesse sozinho?
Eu estaria ali, muito provavelmente eu estaria.
Dentro de uma gaiola.
Ou pior—
Morto.
Não importava o motivo.
Não importava quem.
Uma coisa ficou clara.
"Eu preciso ficar mais forte."
O pensamento foi simples.
Mas—
Pesado.
E dessa vez—
Eu estava completamente certo disso: ser forte agora não era uma vontade, era uma necessidade, tanto para me manter vivo quanto para ajudar os dois, caso precisassem de mim.
Não importa como, eu preciso ficar mais forte.