Quando terminamos de analisar, voltamos para onde estavam Kai e o garoto.
Graças a Deus ele estava acordado. Ainda respirava fraco, mas só isso — estar acordado — já era uma boa notícia.
Kai já tinha feito alguns curativos nele, e parecia ter usado algum item de cura, provavelmente comprado com o ouro da caçada que estava executando.
Os ferimentos mais leves haviam sumido parcialmente, mas os mais graves, os perigosos, tinham sumido por completo.
A respiração estava se estabilizando aos poucos.
"E aí, garoto... o que houve?"
Perguntei, querendo obter alguma resposta, nem que fosse algo mínimo. Porém algo era nítido antes mesmo de ele responder.
O trauma foi forte. Dava para ver na expressão dele, na rigidez do corpo, nos olhos mais arregalados que o normal. Ele suava frio e ainda tinha dificuldade para falar.
Os olhos evitavam contato direto por tempo demais.
Mas—
O que me preocupava mais do que qualquer coisa, além daquele garoto, era quem o carregava nos braços.
Era Kai. E, olhando bem, o garoto que carregava outro garoto estava tão acabado quanto ele.
O semblante dele estava pesado.
Cansado.
Muito mais do que ele deixava transparecer.
Ele já tinha usado aquela habilidade absurda.
Depois enfrentou uma horda de goblins — e isso não era algo que se deveria fazer no estado em que ele se encontrava.
Somando a isso a falta de descanso: ele não havia dormido direito em nenhum momento da nossa caminhada.
A respiração dele estava irregular. Nem pesada, nem estável — como se, mesmo sem ter recebido nenhum golpe, ele estivesse sentindo dor.
Ele estava ofegante.
Os olhos—
Abertos só na força da vontade.
"...ele vai cair a qualquer momento."
Fingi que não percebi. Se o garoto queria se manter forte, eu não ia impedi-lo. Aparentemente não era nada demais — provavelmente seus ataques tinham consumido muita mana e estamina, e ele só precisava de um tempo pra se recuperar.
"Certo... já que o garoto está melhor, vamos continuar a viagem."
E assim seguimos. Mesmo com Kai insistindo em aguentar firme, graças aos meus olhos consegui achar caminhos mais seguros para avançarmos, evitando confrontos desnecessários e guardando o máximo de energia possível.
Depois de um bom tempo caminhando, parecia que finalmente teríamos algum descanso: encontramos uma espécie de cabana. Nada de especial — pequena, simples —, mas o suficiente para abrigar nós quatro com segurança. Quanto menos espaço, menor o risco de sermos pegos de surpresa.
Entramos com cuidado. Podia muito bem ser uma das armadilhas usadas pelos caçadores de humanos. Passo a passo, revistamos o lugar inteiro antes de relaxar.
Observando.
Ouvindo.
Nada de perigoso.
Depois de verificar tudo—
Finalmente—
Podíamos descansar.
"Eduardo e Toshi... vocês podem descansar primeiro."
Ayla disse, com aquela convicção que não deixava espaço pra discussão.
Eu queria aceitar na hora.
Mas—
Olhei para o Kai.
Ele ainda estava de pé.
Se forçando a ficar em pé, na verdade.
"Não estou cansado... pode descansar com seu filho, Kai."
Falei em tom leve, como se aquilo não fosse grande coisa.
"N-Não, senhor Ed... eu estou bem."
"...está se fazendo de forte."
Pensei, com um leve sorriso de canto. O garoto mal se aguentava e ainda tentava bancar o durão.
"Anda logo, garoto. Vai dormir."
"Está bem, então..."
Ele deitou.
Ao lado da criança, que já dormia pesado, completamente apagada.
E não demorou nada pra ele também apagar.
"Olha só... pra quem estava bem, você dormiu rápido, hein."
Soltei uma risada baixa.
O silêncio voltou.
E, com ele, o clima estranho com a Ayla.
Mesmo já caminhando juntos fazia um tempo, ficar sozinho com ela ainda era como estar perto de um animal selvagem — um daqueles que, ao menor deslize seu, decide que você é a ameaça.
Ela não era de falar muito. Pelo menos não comigo.
E eu não ajudava em nada, sempre travando na hora de puxar assunto.
Foi então que percebi.
Algo estranho.
Quando olhei para ela—
Vi.
[CONTRATANTE: General Divino]
"...o quê?"
Pisquei, achando que era coisa da minha cabeça.
Olhei para o Kai, só pra confirmar.
[CONTRATANTE: A Lâmina Dupla]
"...o que são esses nomes?"
Aos poucos, aquilo começou a fazer sentido — a maestria que ele demonstrava com a espada.
Aquela técnica.
Aquele golpe.
E o cansaço logo depois. Tudo aquilo estava ligado. Kai provavelmente usava algum tipo de técnica ligada a esse "contratante" para melhorar sua precisão com a espada — algo que cobrava um preço alto do corpo dele.
Ou seria o contrário? Talvez o contratante fosse forte demais, e o status atual de Kai simplesmente não aguentasse o peso completo das técnicas.
"Então..."
Olhei para Ayla, tentando entender se ela tinha o mesmo tipo de marca.
"...é isso."
O estilo dela dependia do corpo no limite, em estado pleno — a arma dela era o próprio corpo.
"Ah... Ayla... acho que tenho algo pra você."
"Hã?"
Abri o inventário. Tinha me lembrado de um par de faixas que ganhara lootando uns mobs; como meus atributos eram baixos demais pra elas fazerem diferença, ficavam só ocupando espaço.
[Faixas do Punho de Ferro: Rank C]
[Características: Aumenta a força do usuário em 5]
[Habilidade única: Danos críticos aumentam o próximo golpe em 50%]
"Aqui."
"Isso seria totalmente inútil pra mim agora."
"Ah... obrigada?"
E o silêncio voltou. Nenhum de nós dois sabia manter uma conversa simples — era difícil sustentar qualquer diálogo com ela.
Sem perceber, depois de um tempo calado, acabei adormecendo.
Quando me dei conta—
Não estava mais na cabana. Estava em outro lugar. Um lugar em ruínas — destruído, acabado, coberto de escombros, como se uma guerra tivesse passado ali e não deixado nada em pé.
Eu estava sentado.
Em um trono.
Ou pelo menos parecia um trono, e eu ainda conseguia pensar com clareza, então aquilo não era só um sonho qualquer.
"...o que é isso?"
E na minha frente—
Um ser.
Feito de sombra pura. Uma figura demoníaca, quase impossível de descrever direito — a forma lembrava aqueles demônios de mangá, com dedos longos e pontiagudos, o corpo todo errado de um jeito que doía olhar.
Olhos—
Vermelhos.
Como brasa, mas com uma luz dourada no meio que chegava a ofuscar.
Dentes afiados.
Ele estava sentado, numa pose relaxada, como se aquilo tudo — as ruínas, eu ali paralisado, ele em pessoa — fosse a coisa mais normal do mundo.
"Olha só..."
Ele me olhava com interesse.
"...isso é interessante."
Eu não conseguia me mexer.
Nem falar.
Só ouvir.
"Você consegue me ver... garoto?"
Um sorriso se abriu no rosto dele.
Devagar.
"Isso mostra sua superioridade."
Ele se levantou.
Devagar também, como se tivesse todo o tempo do mundo.
"Vou te dar um presente. Isso não deveria ser possível agora — você é fraco demais pra ter chegado a esse domínio tão cedo. Isso mostra que você realmente é..."
O resto das palavras embaralhou na minha cabeça. Não consegui entender nada do que ele disse depois.
"Em troca..."
"Nos entretenha."
Ele sumiu.
E apareceu bem na minha frente.
Num instante só — como se a distância entre nós dois nunca tivesse existido de verdade.
Sem reação.
Sem tempo pra reagir.
Uma garra tocou minha testa.
E então—
Calor.
Não. Algo bem pior que isso.
Fogo — mas não um fogo qualquer. Era como se a minha própria existência estivesse sendo queimada por dentro.
Meu corpo inteiro. As entranhas ardendo, os ossos parecendo gritar, os músculos se contraindo como se todo o meu corpo estivesse sendo espremido de uma vez, de dentro pra fora.
A dor—
Era absurda. Insuportável. Uma agonia que não parava, que não dava trégua nem por um segundo.
Foi quando, em desespero, acordei.
Respiração pesada.
Suor escorrendo.
Kai já estava acordado; agora era ele quem fazia a guarda.
Toshi e Ayla—
Ainda dormindo.
Kai me olhava com os olhos arregalados, travado, um misto claro de medo e preocupação estampado no rosto.
"Senhor Ed... está tudo bem?"
"Ah... s-sim..."
"...o que foi aquilo?"
"Quem era aquele cara..."
"E o que ele fez comigo?"
Perguntas em cima de perguntas. E, de novo, nenhuma resposta boa pra dar. Até quando as coisas vão continuar assim?