“5 ANOS DEPOIS”
O sol castigava o campo de treino, transformando o ar em ondas trêmulas de calor que dançavam sobre as rochas e dunas. O vento soprava suavemente, levantando pequenas nuvens de poeira que se dissipavam rapidamente. O cheiro da terra seca e quente preenchia o ar, misturando-se com o som do silêncio, quebrado apenas pelo suave ranger das pedras sob o peso do sol. No centro da arena, dois cristais brilhavam em pedestais de pedra: um azul e outro vermelho, pulsando como corações de energia, suas luzes refletindo-se nas rochas ao redor.
Do alto de um penhasco, Zambo observava. Sua voz ecoou pelo vale, grave e firme:
— Lembrem-se: não é sobre força bruta. É sobre estratégia. Conquistem o cristal... e não matem ninguém. E que comece o terceiro embate.
As equipes de seis membros se dividiram em lados opostos cada um carregando seu cristal. No time azul estavam Darius — ainda movido pelo sede de poder ,mas determinado —, Marsalla, de olhar atento e movimentos ágeis; Lior, com os punhos cerrados e olhos ardentes; Mikkel, sempre alerta, medindo cada passo; e os gêmeos Ryn e Ryo — pequenos, ágeis, cabelos castanhos e olhos sempre cintilando de energia, capazes de conjurar rajadas de vento.
No time vermelho, Leonar — sólido como uma montanha e com uma postura inabalavél — assumia a liderança. Ao seu lado estavam Kael, dominante de fogo com cabelos rubros e olhar flamejante; Max, dominava o elemento água, sereno mas intenso; Nara, mestra em ilusões de névoa que usava elemento vento; Aron e Rigel, dois jovens da terra, tão firmes quanto paredões.
O silêncio se rompeu quando Mikkel explodiu no ar em chamas e avançou como uma tocha viva:
— Vamos fazer eles tremerem!
Várias esferas incandescentes voaram de suas mãos, obrigando Leonar a erguer um muro de pedra que rangeu ao suportar o impacto. Darius permaneceu imóvel por um instante, seus olhos frios percorrendo cada detalhe do campo de batalha.
Ele observou os redemoinhos de água de Lior, a fluidez com que Marsalla puxava correntes de água do subsolo, e os movimentos calculados de Leonar, que parecia fundir-se com a terra, tornando-se uma extensão dela firme, letal e confiante. O terreno se estendia por quase cem metros, um campo vasto e traiçoeiro onde cada equipe precisava proteger seu cristal e, em conjunto, destruir o do adversário.
— Avancem, mas não se separem. — disse Darius em tom mais alto do que o normal, sua voz ecoou claramente entre os membros da equipe.
Calmo e cauteloso, ele sentia o fluxo do Yin no ar. Canalizava as gotículas suspensas de água como se a umidade lhe sussurrasse os próximos movimentos inimigos demorou para um prodígio como ele, mas também dominou o elemento agua. Com um gesto, ergueu uma corrente de vento que impulsionou os outros à frente, enquanto ele próprio corria logo atrás, atento a qualquer ataque. A areia da arena levantou-se em nuvens, cegando temporariamente os oponentes.
De repente, Kael surgiu de uma trincheira aberta por Leonar. Erguendo o arco em chamas: dezenas de flechas flamejantes cortaram o ar. Algumas miravam direto em Mikkel, que estava indo na frente em alta velocidade. Darius reagiu antes que todos. Uma rajada de vento desviou parte do ataque; em seguida, uma muralha líquida elevou-se diante deles como um véu transparente. O choque transformou fogo em vapor, que se espalhou em estalos. Mesmo assim, uma das flechas atingiu o chão e explodiu perto de Ryo, queimando-lhe o pé. Mikkel olhou para trás, surpreso, ainda no ar, sem chance de desviar:
— Eu devia saber que você ia aparecer, para me salvar.
Darius não respondeu. Apenas avançou, olhos fixos no cristal vermelho. A batalha se intensificou. Leonar ergueu pilares de pedra, moldando um labirinto que se fechava em torno dos adversários. Sorriu com malícia. Alto, cabelos cacheados castanhos e mais de 1,80 de altura, impunha respeito não apenas pelo corpo, mas pela arrogância típica dos guerreiros de Stoneval.
Marsalla reagiu inundando o chão. Correntes de água derrubaram parte das barreiras. Seus cabelos longos se agitavam, mas sua expressão serena não vacilava. Um véu aquoso envolvia sua pele como armadura. Enquanto lutava, ela tentava chegar até Ryo para curá-lo. Lior avançava em direção ao cristal adversário. Um escudo líquido endurecia em gelo à sua frente. Leonar atacou com rajadas de pedras, mas com agilidade Lior pulava de rocha em rocha, desviando dos ataques. Um vento soprou forte, interrompendo o novo ataque que pretendia ser devastador.
— Merda! Para de se intrometer, ventania! — rosnou Leonar tentando provocar Darius.
Darius apenas sorriu de canto, provocativo. Rajadas de vento partiram dele, afiadas como lâminas invisíveis, completando o avanço de Lior.
Nara entrou em cena. Criou múltiplas cópias ilusórias de si mesma, condensava o ar e adicionava partículas de água, aumentando a densidade formando uma névoa, confundindo Marsalla.
— Não vai passar! — debochou, rindo.
Marsalla, no entanto, percebeu o gemido de Ryo e decidiu ir ajudá-lo. Conjurou uma esfera de água e a lançou como bomba contra Nara, que ergueu a névoa para aparar. Um sopro firme rasgou a cortina. Nara reconheceu de imediato quem estava por trás e rugiu de raiva.
— Que saco! — chiou a ilusionista.
Marsalla aproveitou a brecha: correu e acertando Nara com um jato que a lançou uns metros para trás. Leonar usou a terra para suavizar a queda da companheira.
— Obrigada! — gritou Nara, levantando-se e voltando à corrida.
Em um instate Darius voou para o centro junto com Mikkel enfrentavam Kael e Leonar. O fogo explodia contra redemoinhos de vento e água, criando colunas de vapor. Aron e Rigel socaram o chão, erguendo nova muralha de pedra e bradaram:
— Não vão passar, Darius!
— A pedra racha. O vento não. — respondeu ele, frio. Fundindo vento e água, moldou uma lâmina de pressão que cortou a muralha ao meio, abrindo caminho. Poeira e pedras voaram contra eles. Aron agilmente levantou outra barreira de pedra, enquanto Rigel forçou um terremoto que abriu novo buraco sob os pés da equipe azul.
Ryn tropeçou, caindo imediatamente. Darius reagiu em fração de segundo. Uma torrente de vento ergueu o menino no ar, enquanto Marsalla, atenta, formava barreiras líquidas para afastar escombros. Ryn pousou suavemente ao lado do irmão, que já estava sendo curado pelas mãos da jovem.
Enquanto isso, Lior duelava contra Max, outro sobrevivente de Nerevia. Água contra água, gelo contra correnteza. O embate estremecia as paredes do labirinto . Max tentava avançar para quebrar o cristal. No meio do caos, Darius correu. Vento envolvia seu corpo, água o cobria como segunda pele. Ele estava perto de alcançar o cristal vermelho, mas faltava derrubar a barreira de Aron. Kael tentou bloqueá-lo, mas Darius murmurou:
— Tarde demais.
Antes que tocasse o cristal, Nara atacou com várias flechas de vento e Kael disparou nova chuva de flechas flamejantes. O campo se incendiou, o que fez Darius e Mikkel recuar. Mikkel tentou controlar as chamas do adversário, mas não conseguiu devido à intensidade do fogo. Darius ergueu os braços. O vento sugou o oxigênio das chamas, e jatos de água resfriaram o chão. O fogo morreu sufocado. Seus olhos cruzaram com os de Mikkel.
— Controle as chamas. Se não conseguir... eu controlo por você.
Mikkel sorriu de canto, ofegante:
— Sempre roubando a cena, né? Vou me preparar.
— Eu protejo você. — gritou Darius, erguendo um redemoinho de vento como barreira.
Leonar, sorrateiro, tentou ataque gigantesco, moldando lâminas de pedra para atingir Mikkel por trás, mas Darius fez um redemoinho dançar em movimento circular elegante, dissipando o ataque.
— Eu cuido deles — disse firme.
Lior, inspirado, lançou um redemoinho de água contra Leonar, aproveitando que estava distraído, mas este desviou, redirecionando contra Marsalla. Ela percebeu e concentrou mais energia, formando um campo protetor de água ao redor, mantendo a si mesma e os gêmeos a salvo.
— Se não posso vencer vocês... destruirei o cristal! — rosnou Leonar, forçando uma abertura gigantesca no chão, pretendendo atravessar mais de 60 metros até chegar ao cristal azul, protegido pela barreira de gelo de Lior.
Mas Mikkel já havia condensado energia suficiente.
— Redemoinho de Fogo Explosivo!
Lior, percebendo que o ataque de Mikkel chegaria primeiro, manipulou a água para liberar seu potencial inflamável, dividindo-a em hidrogênio e oxigênio. A mistura explosiva se juntou às chamas de Mikkel, criando uma onda de fogo gigantesca que rugia e crepitava. Darius percebeu a situação e adicionou a velocidade do seu elemento vento ao ataque conjunto de Mikkel e Lior. A força do vento multiplicou a potência do ataque, atravessando a barreira de gelo e destroçando o cristal vermelho. Única coisa que Max, Rigel e Aron puderam fazer foi se proteger das chamas.
No entanto, Lior, desprotegido e desfocado, foi atingido pelas fortes correntezas de Max e iria colidir contra o solo, mas uma corrente de vento o segurou, impedindo que fosse jogado bruscamente. Lior sentiu alívio momentâneo ao ser salvo.
Enquanto isso, a força do terremoto causado por Leonar fez com que o cristal azul e a proteção de gelo se quebrassem, porém alguns segundos depois. Leonar murmurou, incrédulo:
— Isso é liderar. Proteger os fracos e manter o objetivo à frente.
Parecia impressionado, mas também um pouco irritado.
— Esse exibido!...
O apito ecoou pelo vale.
— Vitória do time azul! — anunciou, Zambo.
Lior, encharcado e exausto, jogou-se no chão ao lado de Darius.
— Se não fosse você, eu seria um patê nadando no fundo do vale agora mesmo. Valeu meu melhor amigo.
— Da próxima vez, não dependa de mim. — respondeu Darius, impassível.
O silêncio pairou. Então Lior riu e jogou uma pedrinha nele — Você não muda, não é?
Darius apenas sorriu de canto, olhando o horizonte.
O campo estava devastado: pilares quebrados, poças de água, areia encharcada e fumaça no ar. Os aprendizes agora quase guerreiros estavam exaustos, mas sorrindo. Darius sabia: aquilo ainda era apenas um jogo. Mas a guerra real estava por vir.
Zambo, de cima da colina, respirou, aliviado, sentindo que tinham feito um bom trabalho com o treinamento que havia dado a eles por 5 anos. No alto das rochas, a água e a terra pareciam finalmente se acalmar, mas a energia do jogo ainda vibrava no ar, como se o terreno lembrasse cada golpe, cada magia lançada.
O espírito de equipe e a amizade haviam se fortalecido, e cada criança sabia: no próximo ano, os desafios seriam ainda maiores, mais intensos. As crianças assustadas não eram mais crianças; tornaram-se jovens fortes e apoiavam umas nas outras, e naquele momento ajustando roupas rasgadas, limpando terra e suor do rosto, rindo e suspirando aliviados.
— Parabéns a todos — começou Zambo, com voz firme, porém acolhedora. — Este foi o último treinamento sob meu comando. Vocês cresceram, se tornaram jovens fortes, conscientes e capazes. Nem todos saíram ilesos, mas todos aprenderam o valor da luta, da proteção e do trabalho em equipe. Aprenderam a superar seus próprios limites.
— Agora, vocês se preparam para o Reino do Fogo — continuou Zambo. — Dois anos de treinamento intensivo em um lugar onde o ar é rarefeito, o calor extremo desafia até os mais experientes, no pé do vulcão, onde a lava derretida flui como um rio de fogo e a terra treme sob os pés. Vocês ficarão mais fortes, é lá que haverá o exame para decidir qual nível vocês são capazes de alcançar, e cada decisão pode significar a diferença entre a vitória e a derrota. Será mais difícil, mais perigoso. Mas se sobreviverem, nos reencontraremos em dois anos no Reino da Terra.
— Lembre-se, o Reino do Fogo não perdoa os despreparados.
— É verdade, lá é o lugar dos mais fortes — Mikkel completou.
— Por isso você veio para cá, né? — Lior debochou do amigo amigavelmente. — Lá não duraria nada, viraria churrasquinho.
Todos caíram na risada.
— Não riam, o verdadeiro inferno vai começar — Zambo disse, sério. — Por enquanto, tratem de descansar. Hoje haverá um banquete para vocês. Dos 97 que chegaram, apenas 36 estão aqui, rumo a se tornarem os mais fortes.
As crianças engoliram em seco, sentindo o peso das palavras de Zambo. No horizonte, o sol começava a se pôr, tingindo a barreira de água e as rochas com tons alaranjados e dourados.