A primeira visão que todos tiveram foi a de um monstro de pedra e fogo rugindo, cuspindo rios incandescentes de magma que escorriam do topo do vulcão, passavam pela floresta até o mar. O calor era sufocante, o cheiro de enxofre queimava as narinas, e cada respiração tornava-se mais penosa que a anterior.
A lava se movia como serpentes vivas, traçando riachos flamejantes que riscavam a paisagem em padrões quase hipnóticos. Mesmo a dois quilômetros de distância, o calor fazia a pele latejar e os pelos do corpo arrepiarem como se todos estivessem sendo assados vivos. Alguns recuaram, incapazes de enfrentar a fúria da natureza. O vento soprava abrasador, arrastando consigo partículas de cinza e poeira.
Aquele era Ignel, o reino outrora conhecido como lar dos dragões. A fumaça rodopiava em torno da cratera, criando véus densos que apagavam a linha entre montanha e céu. A cidade real erguia-se ao lado do vulcão, mas o caminho até ela era um inferno: florestas em chamas, rios de lava e um solo tão quente que derretia sob os pés, um terreno em que qualquer passo em falso poderia ser o último.
Os jovens estavam no topo de uma montanha, exaustos após dois dias de caminhada desde o Reino de Vórtex. À frente deles, finalmente, se erguia Ignel: um reino construído ao pé de um vulcão, onde o terreno funcionava como barreiras vivas erguendo-se contra qualquer intruso.
Para alcançá-lo, teriam de atravessar aquele terreno.
— Se pisarmos ali, vamos morrer — disse Lior, olhando para o vulcão com medo.
— É um espetáculo de poder e destruição — afirmou Mikkel, com um sorriso. — Parece uma dança ancestral entre a terra e o fogo!
Zayan, o tutor que os guiava desde o Reino Vortex, os observava com olhar sério.
— A primeira lição é a seguinte: sei que estão com fome e cansados, precisam de banho, mas para chegar ao Reino de Fogo, precisam atravessar.
— E onde está o Reino do Fogo? — perguntou Max, receoso. — Só vejo fumaça.
— Está ali — respondeu Mikkel, apontando com o dedo. — A fumaça atrapalha, mas é bem ali.
— Escutem: vocês têm apenas uma hora. É melhor que cheguem todos, superem seus limites aqui e agora! — disse Zayan, desaparecendo entre as névoas.
Na realidade, eles não viam nada com clareza. Quando diziam que o sangue dos moradores de Ignel ardia como lava, agora parecia impossível duvidar.
Ninguém se movia. As respirações eram curtas e rasas, e o único som era o rugido distante do vulcão. Mãos agarravam as próprias roupas, rostos pálidos olhavam para a paisagem infernal, incapazes de formular um plano, uma palavra sequer.
— Caramba! Vamos morrer! — exclamou Ryo, apertando a barra da saia de Marsalla, assustado.
— Sobrevivemos para morrer — disse Nara, mãos coladas ao tronco, revelando seu medo.
— Não vamos morrer — respondeu Mikkel. — Se conseguirmos passar por isso, chegamos ao Reino. Lá, o Rei e seus súditos controlam o Yin e Yang; com isso o oxigênio volta ao normal, é como estar no máximo em uma sauna.
— Impressionante que uma pessoa consiga controlar esse monstro — disse Marsalla, olhando para o vulcão. — Será que eu consigo?… Não quero ser um peso.
Ryo ainda segurava a barra da roupa, tremendo de medo. Ela passou as mãos pelos cabelos, pensando: “Preciso cuidar dos gêmeos, porque provavelmente os outros só vão se preocupar consigo mesmos.”
Os 36 jovens precisavam chegar ao Reino, mas o vulcão parecia um obstáculo difícil de superar. O calor era tão grande que os fazia querer desmaiar.
— Vai ser moleza, gente! — disse Leonar, tentando trazer esperança. Mas, mesmo com sua magia de terra, sabia que se pisasse em determinado ponto, a terra poderia derreter, assim como sua vida. Era melhor não arriscar.
Darius sabia que não seria fácil.
— Se ficarmos, perderemos. Se avançarmos, morreremos. E se formos pela terra, torraremos — disse, preocupado.
— Como pode olhar para isso e não ter noção do que fazer? — disse Leonar, nervoso, enxugando o suor da testa. — Vida real pesa!
Darius cerrou os dentes. Olhou para Marsalla, pensando: “Se estivesse sozinho, daria um jeito…, mas com 36 jovens, a quantidade era o problema.” Ele deu um risinho tímido para ela, tentando disfarçar o desconforto.
Olhando para o vulcão, ele se sentou no alto do monte, sentindo o ar quente invadir seus pulmões. Sua conexão com o Yang era intensa; os pelos do corpo ainda estavam eriçados, diante da energia densa da montanha. O vulcão rugiu, um som profundo que fez o chão tremer sob os pés dos jovens, como se dissesse: “vem quente que tô fervendo”.
Mikkel bateu o punho na própria mão, empolgado.
— Ele está nos esperando! — disse, vibrante. Ele era o único ali que demonstrava entusiasmo diante do seu lar.
— Pessoal, vamos pensar — sugeriu Leonar. — Se alguém tiver alguma ideia, a hora é agora.
Magos d´água tinham desvantagem sobre o elemento fogo e Darius percebeu o medo nos olhos deles, imaginando Marsalla naquele estado. Levou as mãos à cabeça, frustrado. “Merda… toda vez que conseguimos nos superar, algo pior aparece. Estou cansado disso.”
As reservas de proteção natural do vulcão eram impressionantes, muito mais intensas do que em Nerevia. Qualquer pessoa teria desistido. Era exatamente isso que estava sendo testado: a força de vontade deles.
Ele se levantou, respirando fundo, sentindo o ar pesado.
— Quem tem o elemento vento? Vamos voar! — afirmou, virando-se para os aliados.
As expressões nos rostos deles mostravam descrença. “Fracos”, pensou Darius, mas sabia que todos precisavam chegar do outro lado não apenas pela sobrevivência, mas pelo futuro plano de vingança.
Darius conversou a sós com Leonar, e chegaram a um consenso: precisavam atravessar o vulcão de forma inteligente e segura, evitando contato direto com a lava, até o pé do Reino de Ignel.
Leonar analisou a situação com rapidez e sugeriu:
— Precisamos de algo que nos proteja do calor e da pressão do magma. Um “barco” de terra poderia nos levar, se conseguirmos estabilizá-lo no ar.
— Já sei! — interrompeu Mikkel, com os olhos brilhando. — Posso usar meu fogo para endurecer a terra, Max pode molhar para dar firmeza e eu aplico uma explosão para impulsionar a estrutura.
— Eu posso controlar o oxigênio — completou Marsalla — para umidificar o ar e permitir que todos respirem melhor. Assim, a magia de cada um funcionará corretamente.
— Lior usará gelo para criar uma barreira ao redor do barco, refrescando a estrutura e protegendo-nos do calor — acrescentou Nara.
— E eu e os elementares de vento ajudaremos a impulsionar e estabilizar o barco — disse Darius, olhando para os amigos. — Mas ainda assim, só caberá uma parte do grupo por vez.
— Então faremos duas viagens — concluiu Darius. — Primeiro levaremos a primeira leva e depois voltaremos para buscar o restante. Todos devem chegar vivos, cada passo é crucial.
— Não! Vamos por terra, nós soldados de Stoneval e os soldados de Ignel. — Sugeriu Wagner, um jovem esperto de Stoneval.
Leonar franziu a testa:
— É arriscado… o calor é intenso.
— Vamos dar um jeito, se ficarmos sempre dependendo de vocês nunca vamos evoluir. — Ele reuniu mais da metade do grupo dos 36 jovens ali.
— É perigoso, sim — admitiu Darius — só que assim atravessaremos mais rápido e espero que cheguem vivos, não morram! — Na verdade ele não se importava muito com outras pessoas, mas acreditava que com uma boa estratégia eles conseguiriam.
— Relaxa, você não é o único gênio aqui! — Wagner respondeu e avançaram, descendo a colina.
Os jovens começaram a colocar o plano em ação. Leonar e os demais usuários de terra moldaram a estrutura do barco-dragão, cada partícula controlada para criar a forma perfeita. Mikkel aquecia a terra, aumentando a resistência, enquanto Nara molhava a superfície, garantindo que tudo se mantivesse coeso. Marsalla manipulava o ar, formando uma barreira respirável para todos. Max e Mikkel preparavam a explosão de propulsão, controlando cuidadosamente fogo e hidrogênio, enquanto Darius guiava a corrente de vento para estabilizar a estrutura.
Lior mantinha a barreira de gelo firme, protegendo todos do calor sufocante, e os gêmeos Ryo e Ryn controlavam o vento lateralmente, mantendo o equilíbrio do barco-dragão no ar. Em uma coreografia perfeita, a equipe combinava elementos e poderes, transformando medo em ação.
Do alto, eles podiam ver a equipe de Wagner abrindo caminho pela terra incandescente, enquanto o barco-dragão avançava como um trenó vivo, rasgando o ar quente. Cada segundo era tenso; a estrutura tremia sob o calor intenso e a pressão do magma.
Finalmente, avistaram o Reino de Ignel. Uma barreira mágica surgiu à frente, e ao atravessá-la, o calor se dissipou como um alívio súbito. Mas a velocidade era incontrolável, e o medo voltou: ninguém havia pensado em como frear o barco, e se continuassem bateriam no casarão a frente.
— E agora? Como paramos? — gritou Marsalla em pânico.
Leonar engoliu em seco, sem saber o que fazer. Foi então que Darius saltou do barco em pleno voo, pairando sobre o grupo. Canalizando correntes de vento poderosas, conseguiu desacelerar a estrutura e guiá-la para um pouso seguro. O impacto no chão foi forte, mas nenhum jovem se feriu gravemente.
O plano tinha funcionado. O medo ainda vibrava no ar, mas a lição estava clara: a cooperação, o controle e a coragem eram tão vitais quanto a magia em si.
Exausto pelo esforço extremo, Darius caiu de quatro ao chão, sentindo cada músculo queimando e o Yang pulsando em seu corpo. Marsalla correu até ele, colocando as mãos firmes em suas costas. Sua magia começou a aliviar a tensão, ajudando-o a recuperar o fôlego. Ela agiu instintivamente, o corpo se moveu sozinho, para curá-lo e, ao perceber, suas bochechas coraram.
— O que você está fazendo? — murmurou Darius, surpreso. Não moveu a cabeça, mas seu Yang reconheceu: aquelas mãos que o sustentavam e o curavam, eram dela.
Marsalla permaneceu silenciosa, concentrada, ajudando-o, até que a equipe inteira começou a sair do dragão, reunindo-se ao redor deles. Leonar se jogou ao chão, buscando oxigênio:
— Darius você está acabado!
— Olha quem fala — riu ele, sarcástico, apesar de exausto.
Ao levantar os olhos, Darius avistou as paredes do reino. Construído em pedra vulcânica negra, suas paredes grossas e janelas estreitas lembravam antigas fortalezas, resistentes a séculos de calor e lava. Torres baixas se erguiam em ângulos irregulares, como se cada pedra tivesse sido colocada com precisão milenar. Um amplo pátio de pedra se estendia à frente, e soldados armados mantinham posição, atentos à chegada dos jovens. Cada detalhe transmitia força, imponência e a sensação de que aquele lugar era moldado pelo fogo e pelo tempo.
No centro do pátio, uma plataforma elevada abrigava o rei, com armadura ostentando o símbolo de um vulcão, e sua esposa, elegante e imponente. A presença de ambos exalava autoridade e poder contido. Mais adiante, uma menina de expressão séria, com cabelos curtos e negros, observava atentamente, demonstrando curiosidade e desconfiança. Entre os vários soldados, Darius reconheceu Luciel, comandante do exército dos quatro reinos, com postura firme e olhar penetrante.
Zayan se aproximou, passos calmos, batendo palmas com um toque de aprovação.
— Nada mal. Até que vocês não são um fracasso completo.
Darius respirou fundo, tentando se recompor, mas as pernas ainda tremiam e os músculos ardiam. Marsalla permaneceu ao lado, discretamente aliviando seu cansaço com leves toques de cura.
O resto da equipe observava o pátio com olhos arregalados, ainda atônitos com a travessia. Alguns recuperavam o fôlego, outros olhavam em volta, fascinados com as paredes negras e as inscrições antigas gravadas nas pedras, que contavam histórias esquecidas de dragões e batalhas de eras passadas. Ryo e Ryn se entreolharam, entendendo a magnitude do que haviam acabado de conquistar.
Luciel avançou, impondo respeito:
— Parabéns! Achei que demorariam mais.
— Nós tivemos apenas uma hora!” — rebateu Leonar.
Luciel sorriu, mostrando o exército atrás dele.
— Era um teste. Para medir a resiliência de vocês. Se falhassem, iríamos buscá-los. Afinal, vocês são nossa última esperança.
Darius percebeu outros seis cavaleiros de Stoneval, cada um com presença mais imponente que o outro. Um jovem de cabelos negros e olhos verdes aproximou-se dele, postura soberba.
— Então você é Darius Kaelen... Bem eu esperava mais de você.
O tom de desdém fez Darius se erguer ainda com dor, encarando-o firme.
— Quem é você?
— Sou o próximo imperador. — o rapaz arqueou a sobrancelha confiante.
Darius sorriu com sarcasmo, sentindo o desafio:
— Vou ter que pagar para ver, então.
O ar no pátio parecia vibrar com o choque de energias, pequenas correntes de vento levantavam brasas das tochas, e fragmentos de pedra se moviam levemente ao redor, como se a própria terra percebesse a tensão crescente. A câmera imaginária captava o contraste entre os dois: a determinação de Darius, esculpida pelo esforço extremo, e a arrogância juvenil do autointitulado imperador. Dois furacões prestes a colidir.
No fundo, os olhos do rei percorriam o local, captando a energia que emanava dos dois jovens. Um arrepio sutil percorreu sua coluna, pressentindo o despertar de algo ancestral. Finalmente, ele se levantou:
— Sejam bem-vindos ao berço dos dragões. Antigamente, este lugar era um santuário dessas feras. Dizem que quando o equilíbrio do mundo se romper, elas ressurgirão. Talvez, aqui, vocês estejam prestes a testemunhar algo que mudará suas vidas para sempre.