Os dragões dançavam no céu azul de Ignel, rasgando as nuvens majestosamente. Suas escamas, vermelhas como rubis incandescentes, refletiam a luz do sol poente, irradiando um brilho que tingia o horizonte em tons de fogo. Cada batida de suas asas poderosas ecoava como trovões distantes, fazendo o chão tremer levemente, enquanto o vento rodopiava em redemoinhos ao redor de seus corpos colossais. As nuvens, antes densas e pesadas, pareciam se abrir em reverência, deixando-os cruzar os céus como cometas flamejantes, traçando rastros de luz e fumaça que pintavam a imensidão.
Nos vilarejos abaixo, pescadores e crianças paravam tudo apenas para olhar o espetáculo: acreditavam estar vendo os próprios deuses dançando sobre o horizonte.
— Olhem com atenção — disse Zayan, apontando para a parede diante deles. — O que estão vendo é a essência de Ignel, capturada por um artista que presenciou os dragões dançando nos céus.
Os adolescentes se aproximaram das janelas altas, olhos arregalados, tentando absorver cada nuance da pintura. Ryo e Ryn trocaram olhares impressionados; Mikkel parecia hipnotizado; Marsalla passou a mão no ar, como se pudesse tocar as escamas brilhantes através da parede. Darius, silencioso, apenas observava, sentindo o peso da história e o poder contido naquele momento.
Dentro do museu de Ignel, os jovens se detiveram diante das janelas, ainda presos ao espetáculo celestial retratado nas paredes. Com a narração de Zayan, a pintura parecia ganhar vida. Vários jovens, por exemplo, mantinham os lábios entreabertos, como se não conseguissem respirar diante da grandiosidade. Darius estreitava os olhos, atento, quase desconfiado, como se a beleza escondesse um peso que os outros ainda não percebiam.
A voz de Zayan ecoava pelo salão, grave e cadenciada, trazendo-os de volta à realidade:
— Antigamente, o mundo vivia em desequilíbrio, com os vales assolados pela destruição e o Rei Demónio à solta.
O guia, um homem alto de cabelos grisalhos presos para trás, caminhava devagar, e a sua voz ressoava contra as paredes imponentes do museu. O ar cheirava a poeira antiga e pedra fria. Havia pinturas de dragões em pleno voo, batalhas devastadoras, heróis em meio ao caos. Sobre um pedestal de mármore, numa redoma transparente, repousava um ovo de dragão adormecido há mais de duzentos anos, e a sua superfície pulsava levemente, como se ainda respirasse em silêncio. Ao seu lado, em uma almofada de veludo desbotada, estava uma bainha de metal escuro que parecia sugar a luz: a Segunda Chave.
— Até que quatro jovens heróis: William Vórtex, Robert Stoneval, Lívia Nerevia e Ignel Campbell, se uniram para enfrentar a grande ameaça.
Os passos dos jovens ecoavam contra o chão de pedra, o silêncio entre eles mostrava que estavam absorvendo cada detalhe. O guia parou diante de uma tapeçaria gigantesca. Nela, Robert Stoneval surgia montado sobre um dragão colossal, as asas abertas no meio do céu azul. Na borda inferior da tapeçaria, cinco brasões estavam bordados em fio de ouro, quase apagados pelo tempo: Nerevia, Campbell, Vórtex, Drymorth... e Aetherius.
“Darius leu o último nome, Aetherius, mas ele não significava nada. Apenas um nome antigo, perdido na poeira da história.”
— Para derrotar o Rei Demónio, os heróis buscaram a ajuda dos dragões. Com um ato de coragem, os quatro guerreiros conquistaram a harmonia. Mas eles perceberam que não podiam matá-lo. O poder dele era grande demais.
— Então eles não o mataram? — perguntou Max, coçando a cabeça, confuso.
O guia abanou a cabeça lentamente.
— Não. Eles o selaram. Usaram quatro artefatos. Quatro Chaves, e prenderam-no numa dimensão entre mundos. E, para proteger estas Chaves, eles fundaram os nossos Quatro Reinos sobre elas. Cada reino não é apenas uma nação; é o guardião de uma das fechaduras que mantém o mal adormecido. É por isso que a balança é sagrada. Se um dos reinos cai... uma das fechaduras quebra-se.
O guia suspirou, e o seu olhar pousou com uma tristeza profunda sobre as crianças de Nerevia.
— E agora, Nerevia caiu. A primeira fechadura quebrou-se. É por isso que o mundo está para acabar! — Então... — Darius afirmou, mostrando que agora muita coisa fazia sentido na sua cabeça.
— Sim e é por isso que vocês tiveram que vir mais cedo. Porque as criaturas que antes estavam seladas... agora podem retornar a qualquer momento. É apenas uma questão de tempo.
O grupo trocou olhares, alguns visivelmente inspirados. Lior, com os olhos arregalados e um leve sorriso curioso, ergueu a mão:
— E os dragões?
O guia suspirou fundo, com expressão carregada de respeito quase sagrado.
— O mundo havia entrado em paz, e uma presença tão poderosa não poderia coexistir com a harmonia. — Ele ergueu a mão, indicando o vulcão visível além das janelas. — Dizem que aqui repousam os corpos adormecidos dos dragões, e que um dia retornarão, quando a balança do mundo se romper.
Houve um silêncio pesado. O ar parecia mais denso, como se as palavras ecoassem além do som.
Leonar quebrou a tensão, bufando alto, estampando um sorriso debochado:
— Baleelaaaa! — prolongou, arrancando alguns risos nervosos. — Impossível de acontecer!
Darius bufou, desviando o olhar para as tapeçarias. O cara do dia anterior ainda ocupava sua mente, mas ele se conteve.
— Você está bem? — perguntou Marsalla em voz baixa, olhos verdes analisando cada detalhe do rosto dele.
Ele não respondeu de imediato. O maxilar se contraiu, e o olhar desviou para o chão.
— Por que você veio? — rebateu seco. —Não tem o que fazer aqui.
Marsalla sentiu um baque surdo no peito, como se tivesse errado um degrau. O sangue subiu para suas bochechas e as palavras saíram antes que ela pudesse controlá-las.
— Eu vim porque quero te proteger... — seus olhos se arregalaram, percebendo a sinceridade de suas palavras. — proteger não só você. Proteger todos. Meus colegas... o restante do povo do reino de Nerevia.
Um silêncio pesado caiu entre eles. Darius sentiu uma fagulha queimar dentro do peito, uma dor e um calor que não soube distinguir. Mas a interrupção veio com a voz firme de Zayan:
— Prestem atenção!
Ambos se afastaram quase ao mesmo tempo, como se agradecessem à interrupção, caminhando em direções opostas.
Zayan, imponente, postou-se diante do grupo. Sua presença parecia aumentar o peso do ambiente.
— Agora que já conhecem o passado, vamos falar do futuro. Vocês ficarão aqui e treinarão por dois anos. Aprimorarão sua essência vital . A maioria de vocês domina um lado da balança , mas aqui aprenderão a dominar de verdade o poder que carregam.
Ele ergueu a mão, e todos sentiram a temperatura aumentar, como se o próprio solo vibrasse sob os pés.
— O calor é avassalador. O magma corre sob esta terra, aquecendo tudo. O rei e os líderes mantêm o controle, mas se não dominarem suas habilidades, será algo que exigirá esforço extremo e disciplina. Cada passo exige controle e consistência.
O silêncio pesou. Alguns jovens trocaram olhares tensos; outros cerraram os punhos, determinados.
— Também haverá o exame de classes, para determinar o nível de cada um. Aprendiz, Adepto, Nexus, Deliberado, Mestre e Grão-Mestre. Vocês ainda são aprendizes — disse Zayan, olhando cada rosto com intensidade. — Sejam atentos: também treinarão ao lado de aprendizes talentosos de Stoneval e Ignel, incluindo o herdeiro Rhazer Drymorth.
Os jovens se entreolharam novamente.
— Eu guiarei vocês até metade do caminho. Depois, terão aulas com Luciel. Agora, vão para os aposentos. Nos vemos à noite.
À noite, os aprendizes vestiam uniformes: roupas brancas leves, resistentes ao calor, com detalhes verdes e dourados para as moças.
No grande salão de refeições, os trinta e seis jovens se acomodaram em mesas de madeira escura. O teto alto, sustentado por pilares negros de pedra vulcânica, refletia a luz das tochas. O cheiro de especiarias e carne assada preenchia o ar.
Darius sentou-se entre Mikkel e Lior, mas seus olhos vagavam constantemente pelo salão. Marsalla ria discretamente com Nara, cabelos ruivos longos como fogo líquido refletindo a luz das tochas.
Alguns jovens de Stoneval e Ignel não disfarçavam olhares curiosos para Marsalla e ele percebeu. Um gosto amargo e possessivo subiu à sua garganta. Travou o maxilar, desviou o olhar, mas o incômodo queimava como o próprio fogo de Ignel.
O riso coletivo explodiu em uma mesa vizinha:
— E os dragões?
Todos caíram na gargalhada, desacreditando das histórias antigas. Mas uma jovem de cabelos escuros mantinha os olhos fixos em Darius, negros como carvão em brasa, devorando-o com o olhar, provocando uma pressão invisível que o incomodava.
Então, os portões gigantes se abriram e uma procissão de soldados atravessou o salão, armaduras reluzindo à luz vermelha do fogo, com o brasão de rosas azuis no peito.
O sangue de Darius gelou em suas veias. Um arrepio gélido percorreu sua nuca.
O símbolo que havia marcado a noite em que seu reino foi destruído. A fumaça, os gritos, o chão coberto de sangue. Tudo explodiu em sua mente de uma vez só, como se o inferno tivesse se reaberto diante dele.
Seus olhos dilataram, e a aura ao redor de seu corpo vibrou, descontrolada. Ele não moveu um dedo, mas a sala inteira sentiu a pressão da raiva, como se o ar tivesse ficado mais pesado.
Foi então que a jovem de cabelos escuros avançou.
Com um grito, lançou um soco carregado de energia Yang do fogo, mirando diretamente o rosto dele.
Darius abaixou. Rápido. Sentiu o calor do golpe passar a centímetros de sua pele. Ela girou o corpo, tentando acertar-lhe um chute lateral. Ele desviou. Um passo curto. O golpe encontrou apenas o chão, rachando-o em estilhaços incandescentes.
Darius deu um mortal para trás, aterrissando em cima de uma mesa. Copos e talheres se espalharam pelo ar antes de despencarem no chão. O salão inteiro parou. Os aprendizes, horrorizados, olhavam com olhos arregalados. Marsalla levantou-se meio instintivamente, a mão no peito, pálida de preocupação. Lior franziu as sobrancelhas, pronto para intervir caso seu melhor amigo precisasse de ajuda. Leonar, mesmo boquiaberto, tentava se conter. Até Mikkel, que raramente se calava, apenas apertou os punhos, aflito.
— Parem! — alguns soldados gritaram, avançando.
Mas antes que pudessem intervir, o rei levantou uma das mãos.
— Deixem-os, só um pouco.
O combate se acendeu ali mesmo. A princesa chutava rápido, socos e investidas chamejantes, enquanto Darius desviava com movimentos secos, a dúvida pulsando em seus olhos. Ele não queria lutar. “Que porra está acontecendo aqui?”
— Você tem uma aura assustadora... intenções obscuras! — ela acusou, com a voz firme, antes de dar um chute frontal.
Darius ergueu o braço, desviou com o vento, empurrando-a alguns passos para trás. Seus dentes se cerraram.
— Não me importa se é mulher. Se ousar me ameaçar de novo... é melhor tomar cuidado comigo.
Os amigos tentavam gritar, mas os estilhaços de energia abafavam suas vozes. A princesa ergueu a mão e liberou uma parede de fogo que isolou os dois, o calor os cercava como um inferno particular, impedindo que outros se aproximassem.
— Para de falar e age demônio do cabelinho! — Preparando uma investida frontal, ela avançou. Darius ergueu o braço, canalizando energia no punho.
—“Agora te derrubo, boneca dos infernos.”
E quando os dois ataques estavam prestes a colidir. Um estrondo cortou o ar. Uma barreira de terra, dura como aço, ergueu-se entre eles, impedindo o impacto. O chão tremeu e o choque da energia ressoou, causando uma ventania que derrubou talheres, levantou os forros da mesa e outras coisas. A barreira de terra não se desfez. Todos olharam, surpresos, para a figura que a ergueu. Revelando sua identidade, através dos burburinhos, o Herdeiro do trono de Stoneval. De pé, com uma postura altiva e um gesto calculado, jogou os cabelos pretos para o lado com um charme ensaiado, os olhos verdes faiscando arrogância.
— Calma, calma... — disse com um sorriso debochado. — Assim vai acabar com a nossa festa e estragar o lindo rosto da princesa.
“Que droga de príncipe e princesa... ambos arrogantes.” pensou Darius, revirando os olhos com desdém.
O príncipe aproximou-se devagar, e o sorriso não desaparecia.
— Darius Kaelen... confesso, eu esperava mais de você. Apanha até de mulher?
Os olhos de Darius faiscaram de raiva.
— Qual é o seu problema, cara? Não conseguiu fazer um amiguinho?
O príncipe inclinou a cabeça, a voz como veneno doce.
— Desde que estava em meu reino, todos falavam de você. Luciel falava de você. Zayan falava de você. Até o Mestre Gust falou de você.
Darius piscou, surpreso, interrompendo.
— Mestre Gust?
— Sim. Ele foi, o meu mestre. E da última vez que o vi, comentou de você. Disse que era especial. Forte. Proeminente. Um menino brilhante." O sorriso do príncipe se abriu, maquiavélico. — E... e sabe o que isso me fez sentir?
Darius arqueou a sobrancelha.
— Medo?
— Não seja bobo. Foi tédio.
Ele se aproximou até quase encostar o rosto ao de Darius e sussurrou em seu ouvido:
— Desde então... sempre quis te conhecer. Por isso me dei ao trabalho de vir para Ignel.
Darius sorriu torto:
— Eu sabia que fazia sucesso com as garotas... agora, meninos também? Isso sim é novidade para mim.
O príncipe bufou e soltou uma risadinha nervosa:
— Um fracasso como você jamais faria meu coração acelerar. Estou claramente decepcionado. Eu achava que você seria... mais legal...mais forte. Mas até agora, não passa de um nada, desperdiçando as próprias habilidades.
Não deu tempo de Darius reagir ao insulto, seus colegas chegaram ao redor dele. Naquele momento, Darius não sentiu como se houvesse perdido. Definitivamente, aquilo não ficaria assim.