*Um Ano Depois*
O grande salão de treinamento de Vórtex vibrava com o som metálico de espadas se chocando e o eco de feitiços sendo lançados. Do alto da plataforma central, Zambo observava em silêncio, os braços cruzados. Um meio sorriso surgiu em seu rosto ao ver a destreza dos jovens, mas desapareceu no instante em que seu olhar se voltou para o céu cinzento de Vórtex. Seus dedos tamborilavam nervosamente sobre o braço cruzado — um tique que só aparecia quando ele sentia que algo estava muito errado.
Um ano havia se passado desde o nascimento de Elize; um ano desde a morte de Lior e a confirmação de que os demônios haviam retornado. O céu sobre Vórtex parecia permanentemente nebuloso, e o vento que soprava pelas falésias carregava o peso de presságios antigos. O treinamento dos sobreviventes tornara-se mais brutal, quase desumano; não havia mais espaço para erros.
Aquele último ano mudara tudo. As novas catástrofes já não eram eventos isolados; tornaram-se uma praga constante. Vilarejos inteiros eram devastados da noite para o dia, e plantações apodreciam nos campos. A própria natureza parecia estar em guerra consigo mesma. Alagamentos causados pela elevação do nível do mar, acidez das águas que limitava a vida marinha, ondas gigantes, tempestades, tufões e terremotos varriam o continente sem aviso. Territórios outrora férteis foram corrompidos pela escuridão ou destruídos pelas forças da própria terra, tornando-se incapazes de sustentar qualquer forma de vida.
O calor aumentava a cada dia. O vento, antes frio e puro, agora soprava quente e pesado. O Oryn da terra — a energia vital que alimentava todas as criaturas — enfraquecia cada vez mais. Sem ele, o equilíbrio do yin e yang se perdia, e as pessoas adoeciam com mais frequência, perdiam força e, por fim, iam esquecendo o que significava estar em harmonia com o mundo.
Feras antes reclusas, agora famintas e agressivas, migravam em massa, invadindo vilas pesqueiras e competindo com os humanos por cada pedaço de terra segura. Pessoas simplesmente desapareciam. A destruição se espalhava: vidas perdidas, moradias soterradas, ecossistemas inteiros em colapso. O desequilíbrio ambiental gerava fome, doenças e prejuízos tão grandes que as economias dos três reinos entraram em ruína.
Com o aumento da frequência e da intensidade desses desastres, as populações foram forçadas a abandonar suas terras. E, além de tudo isso, começaram a surgir enxames de criaturas do vácuo, que faziam parte do exército conhecido como “Entes da Noite”, que, até então, acreditava-se servir ao Lorde Demônio.
De um lado, a fúria de uma natureza desesperada; do outro, criaturas sombrias que consumiam lavouras, plantas, animais de pequeno porte e iam extinguindo praticamente toda a vida marinha. Tudo isso culminou na Grande Evacuação. Habitantes das vilas mais vulneráveis dos três reinos foram transferidos para as terras altas de Stoneval, o último refúgio seguro.
O que restou das forças militares foi reorganizado. Soldados e agentes de elite, agora sob o comando direto dos Grão-Mestres, receberam uma única missão: proteger as famílias reais e tudo o que ainda restava da terra.
Diante de um mundo em colapso, os sobreviventes precisaram desenvolver novas habilidades, aprender a lutar sem o auxílio pleno do Oryn e redescobrir formas de coexistir com uma terra que já não os reconhecia como filhos, mas como invasores.
Por isso estavam todos ali. Embora devessem estar no Reino da Terra para a próxima fase do treinamento, ordens superiores os obrigaram a retornar e se aquartelar em Vórtex. Os relatórios de inteligência e as visões de Gust eram claros e aterrorizantes: Vórtex seria o próximo alvo e muito em breve.
A maior parte do que sabiam a respeito das criaturas e do desequilíbrio vinha das mensagens criptografadas de Darius. A missão que Gust lhe havia dado fora buscar respostas nas ruínas de Nerevia, tornando-o a principal fonte de informação da aliança. Foi ele quem encontrou os textos antigos que classificavam os demônios por uma escala de ameaça: Nível 5 para os mais fracos, até Nível 0, para o próprio Rei Demônio. Foi ele quem avisou que o Arauto de Ignel era apenas uma criatura de Nível 3. E foi ele quem deu nome à praga que se espalhava.
Darius os chamou de “Entes da Noite”. Dentro desse exército, havia criaturas de vários níveis, conforme se acreditava: quanto mais chaves caíam, mais o portal se abria e mais criaturas poderosas emergiam. Até então, haviam enfrentado apenas as pragas menores, que se moviam como revoadas de pássaros ou nuvens de insetos, corrompendo tudo o que tocavam. Árvores ganhavam garras; animais dissolviam-se em sombras, assumindo formas semelhantes a insetos voadores.
E o mais assustador: todos os enxames e futuras criaturas surgiam de uma única direção Nerevia.