*Um Ano Antes*
Após a cerimônia que transformou em fumaça os corpos de Lior e de tantos outros, o silêncio que se instalou em Ignel era mais pesado que qualquer grito de batalha. Ele só foi superado pela euforia do nascimento de Elize, a primeira dragão em séculos. Mas restava uma pergunta aterrorizante: o que fazer com uma criatura divina em um mundo que mal conseguia lidar com seus próprios demônios?
Enquanto Rhazer se preparava para retornar a Stoneval, pressionado pelo pai e por seus deveres de herdeiro, ele e Darius tomaram uma decisão difícil. Elize precisava ser levada para longe dali. Sabiam que o mundo seria cruel com uma criatura tão rara e que ainda não tinham força suficiente para protegê-la. Mantê-la distante dos olhos ambiciosos era a única forma de garantir sua segurança, pelo menos por enquanto.
— Leve-a para Nerevia — disse Gust, com o olhar fixo nas ruínas distantes do mundo. — O reino caído é o único lugar onde um dragão pode crescer sem ser uma arma ou uma maravilha para olhos curiosos. E não se esqueça: há coisas que precisam ser mostradas, não ditas.
Ele se aproximou de Darius e apertou seus ombros com firmeza.
— Veja e descubra o seu mundo através das vivências.
A despedida foi breve, mas carregada de um peso silencioso.
— Cuida dela por nós — Rhazer disse enquanto fazia carinho na cabeça de Elize. — Se ela se machucar, eu te mato!
Darius assentiu.
Ele mal se despediu dos outros. Não queria prolongar o clima de partida, nem permitir que a dor da ausência começasse antes mesmo da separação. Com um último aceno para Marsalla e para Diana, a pequena princesa geniosa, trocou olhares com Leonar e os outros jovens. Darius deu as costas para o que restava de sua nova família. Partiu junto de sua filha atípica: ela pelos ares, e ele pela terra.
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A viagem de três dias foi um borrão de silêncio e poeira. Darius caminhou, sentindo o peso do mundo em cada passo, enquanto Elize, ainda pequena demais para carregá-lo, voou em círculos curiosos acima dele, uma sombra dançante sob o sol impiedoso. Ela era sua única companhia, um lembrete vivo do fogo que ele e Rhazer haviam libertado.
Quando finalmente chegou aos arredores de seu antigo lar, o cheiro de sal e decadência o atingiu como um golpe físico. Ele seguiu por um caminho que conhecia de cor, até a árvore solitária que se tornara o túmulo de seus pais. A caveira da cabeça de seu pai e os ossos de sua mãe, brancos e frágeis, ainda repousavam entre as raízes, como se a própria terra os tivesse abraçado.
Com as mãos trêmulas, Darius pegou uma única flor silvestre que encontrara pelo caminho. Cavou um buraco entre as raízes e pôs os ossos de seus pais dentro, com a flor por cima.
— Ainda não desisti da minha vingança, eu só a adiei. Obrigado por tudo.
Mais palavras morreram antes de serem ditas em voz alta. Não havia o que dizer. Ele se ajoelhou ao lado dos restos de sua mãe e viu, entre as vértebras do pescoço, o brilho opaco das conchas. O colar que ele e Anya haviam feito. Com um cuidado reverente, ele o pegou, sentindo a textura áspera e familiar, e o colocou em seu próprio pescoço. Ali, sozinho, o príncipe que não mais existia se permitiu chorar.
Darius caminhou em silêncio pela colina, o vento frio arrastando o cheiro familiar de sal, ferrugem e cinzas. Nerevia pareceu um cemitério. Mas os mortos não gemem. O som que cortou o ar — uma cacofonia de desespero com choro infantil, vozes rudes e aço batendo em pedra — fez seu corpo inteiro congelar.
Ele se abaixou atrás de um muro desmoronado. O coração pulsou em um ritmo surdo e pesado, um tambor de guerra anunciando o horror. O que ele viu não apenas o fez perder a fé; fez com que ele odiasse o que restava da humanidade.
Homens armados, cobertos de fuligem e arrogância, supervisionavam um grupo de sobreviventes magros e quebrados, tratando-os como gado. E as crianças... elas estavam magras a ponto de os ossos marcarem a pele, sujas, com olhos grandes e vazios que já não esperavam nada. Algumas estavam presas em jaulas de madeira, amontoadas como animais. Outras, amarradas a estacas de pedra. No centro do acampamento, uma fogueira ardeu, e a dança das chamas refletiu no rosto de um homem corpulento, com barba desgrenhada e olhos que brilhavam com a mais pura loucura.
Ele ergueu um ferro em brasa, a ponta incandescente sibilando no ar.
— A revolução de Nerevia começa agora! — bradou ele, a voz grossa reverberando nas ruínas. — Vocês são a base do novo império! Carregarão a marca do príncipe renascido!
"Príncipe?", Darius se questionou.
A bile subiu pela garganta de Darius. Seu povo, em sua própria casa, era marcado em nome de uma mentira que usava o seu título.
O ferro, branco de tão quente, saiu das brasas. O homem arrastou um garotinho pelo braço, o cabelo escuro e desgrenhado caindo sobre um rosto pequeno demais para tanto terror. A imagem veio como uma lâmina, afiada e fria: Lior. Era assustadoramente parecido.
O ferro encostou na nuca da criança. O cheiro de carne queimada se misturou ao de fumaça, e o grito que se seguiu não foi humano. Foi o som de uma alma sendo rasgada. Darius sentiu o grito atravessá-lo como uma lança, pregando-o no lugar. Das jaulas, as outras crianças choraram, com as mãozinhas agarradas às grades.
— Léo! Léo!
Aquele nome. Aquele maldito nome. Um eco do passado, de seu maior fracasso, de seu irmão perdido. A dor que ele tentou enterrar agora rugia dentro dele, um vulcão em erupção. O mundo ao redor perdeu a cor, estreitando-se até se tornar um único ponto de fúria gelada.
Ele puxou o capuz sobre o rosto. A sombra tomou forma.
O que se seguiu não foi uma luta. Foi uma sentença de morte silenciosa. Ele se moveu não como um guerreiro, mas como um espectro de vingança. Sua lâmina piscou na escuridão. Gargantas foram abertas antes que o ar pudesse se transformar em som. Corações foram perfurados. Corpos caíram no chão empoeirado, com os olhos arregalados de surpresa, apagando-se antes mesmo de entenderem o que os atingiu.
Em menos de um minuto, tudo estava quieto. O único som era o crepitar do fogo e o choro baixo e assustado das crianças.
O cheiro era insuportável: sangue fresco, fumaça, suor e excrementos; um ambiente insalubre. E ali, naquele lugar, ele se lembrou de si mesmo: um menino de dez anos, encolhido e quebrado, impotente enquanto seu mundo queimava. Ele respirou fundo, mas o ar só trouxe nojo. Nojo do mundo. Nojo de si mesmo por não ter chegado antes.
Sua mão se fechou em uma das estacas de madeira da jaula, apertando com tanta força que o material estalou e se partiu. Uma lasca afiada perfurou a palma de sua mão, mas ele mal sentiu. O sangue escorreu, quente e escuro, pingando no chão. Ele precisou sentir alguma coisa. Qualquer coisa além daquele vazio gelado.
— S-senhor...? — uma vozinha frágil o fez olhar para baixo.
Uma menininha, tão coberta de fuligem que era impossível saber onde terminava a pele e começava o pó, apontou para a mão dele.
— O senhor... se machucou?
Ele olhou para o próprio sangue, para a ferida aberta. As lágrimas que escorreram de seus olhos não eram de dor física. Era ódio. Puro e simples.
Darius se ajoelhou e, com as mãos ainda tremendo de fúria, começou a soltar as crianças, uma a uma. As correntes caíram no chão com um som seco e pesado. A última a ser solta foi uma menina pequena que se encolheu quando ele a tocou.
— Calma... — a voz dele saiu rouca, quase um sussurro. — Acabou. Vocês estão livres.
Ele se afastou, dando-lhes espaço. As crianças se amontoaram juntas, um pequeno grupo trêmulo. O menino mais velho, o mesmo "Léo" que fora marcado, olhou para Darius com olhos que já tinham visto o fim do mundo. Ao seu lado, um rapaz um pouco mais velho, talvez com uns treze anos, tomou a frente.
— Quem... quem é o senhor? — perguntou ele com a voz fraca, mas firme.
Darius permaneceu sob o capuz.
— Alguém que não gosta de ver crianças em jaulas. O que aconteceu aqui?
A menininha, que se agarrava à perna do rapaz mais velho, começou a chorar baixinho.
— Foi o príncipe, senhor... o homem que se diz nosso príncipe.
— Ele não era príncipe, é só um torturador, Amelia — corrigiu o rapaz mais velho, abraçando-a. Ele se virou para Darius, com a raiva superando o medo. — Meu nome é Silas. Nós éramos de uma vila de pescadores na costa. Há quatro anos, os homens dele chegaram e levaram todos que podiam trabalhar. Disseram que era para reconstruir Nerevia em nome do "filho do rei" que havia retornado.
Léo, o menino marcado, tocou a própria nuca com a ponta dos dedos, estremecendo.
— Era mentira. Ele nos transformou em escravos. As marcas... ele dizia que eram para nos identificar. Se tentássemos fugir, os outros reinos nos devolveriam. Ninguém se importa conosco. Fomos abandonados aqui pelas três nações.
Darius sentiu o sangue gelar. O abandono. A indiferença. Ele fechou os olhos, mas não conseguiu bloquear as imagens.
— E... e os que não servem? — perguntou Darius, temendo a resposta.
Foi a pequena Amelia quem respondeu, com a voz abafada pelo choro.
— Quando ficamos doentes... ou cansados demais... eles nos levam para a floresta. Para as criaturas comerem.
Dentro de Darius, ele conseguiu ouvir tudo ao imaginar. Ele respirou fundo, forçando o ar para dentro dos pulmões.
— E agora? Para onde vocês vão?
Silas ergueu o queixo, reassumindo seu papel de líder.
— Eu sei o caminho de volta para onde nossas famílias se esconderam. É longe, mas... nós conseguimos.
Darius olhou para os rostos magros e assustados. Viu a fome em seus olhos. Sem dizer uma palavra, ele retirou a mochila que carregava e tirou de dentro os pães, as frutas secas e o cantil de água que havia separado para sua própria jornada.
— Peguem — disse ele, empurrando a comida na direção de Silas. — Vocês vão precisar mais do que eu.
Silas hesitou, olhando da comida para o estranho encapuzado.
— Mas e o senhor?
— Eu me viro — respondeu, forçando um leve sorriso. — Agora vão. E não olhem para trás.
Silas assentiu. Ele reuniu as crianças, distribuiu a comida e, após um último olhar de gratidão e medo para a figura sombria que os salvou, guiou seu pequeno bando para longe das ruínas.
Darius os observou partir. Quando eles desapareceram, o silêncio retornou. Ele estava sozinho novamente, com o estômago vazio e uma dragão faminta para alimentar. E, pela primeira vez, ele não sentia apenas ódio. Sentia o peso esmagador de uma coroa que nunca pediu. Aquelas crianças eram seu povo, e ele havia falhado com elas.
Com o corpo pesado pela viagem e a alma envenenada pela fúria Darius encontrou o local que César descreveu: sob uma ponte de pedra caída, escondida por videiras. A entrada do bunker não era uma porta normal, mas como a de um cofre. Um disco de metal maciço e sem fechadura aparente. Levou quase uma hora de esforço bruto, empurrando e procurando o mecanismo oculto, até que, com um rangido profundo, a porta cedeu.
O ar que saiu de dentro era antigo e mofado. Ele precisou abrir a passagem o suficiente para que Elize pudesse passar de lado. Lá dentro, a escuridão deu lugar a uma vasta biblioteca circular, as prateleiras empoeiradas repletas de livros. Havia caixas de comida enlatada, roupas velhas e um silêncio que parecia ter séculos de idade.
Ele tossiu com a poeira, riu de alívio e chorou de saudade, tudo ao mesmo tempo. Ele estava seguro. Estava em casa.
Mais tarde, enquanto organizava algumas latas de comida que achou, sentiu um cutucão insistente em suas costas. Era Elize, olhando para ele com seus grandes olhos dourados, a barriga roncando audivelmente. Ele se lembrou da viagem, de como precisou caçar esquilos e aves para satisfazer o apetite voraz do dragão.
Mas ali naquele reino, mal havia oxigênio, quem dirá algum animal.
— Tudo bem, tudo bem, já entendi — disse ele, rindo. Ele pegou uma das latas em conserva que estava por ali, cheia de vegetais e legumes em conserva, e a abriu, oferecendo a ela. A comida estava passada da data de validade, mas não faria mal a um dragão. Ele esperava que não.
Elize se aproximou, farejou o conteúdo... e então soltou um espirro indignado, lançando uma pequena nuvem de fumaça.
“Você está brincando comigo? Onde está a carne?"
Darius não aguentou e caiu na gargalhada. Uma risada genuína, alta e livre, a primeira que ele dava em muito tempo.
— Ok, ok, mensagem recebida — disse ele, enxugando uma lágrima de riso. — Amanhã eu vou até a fronteira, e eu caço algo de verdade para você, sua carnívora mimada.
Ela soltou um pequeno ronronar satisfeito, aninhando-se perto dele, enquanto a primeira noite no refúgio esquecido caía sobre eles, um breve momento de paz.