Durante os dias seguintes, enquanto Darius inspecionava o lugar, Elize, com a curiosidade de um filhote, afastou-se e enfiou a cabeça em um corredor escuro. Um instante depois, um pequeno pio assustado ecoou pelo salão. Darius virou-se e a encontrou em pânico, com o focinho e parte do pescoço cobertos por grossas e antigas teias de aranha. Ela se debatia, e apenas se emaranhava mais.
Darius sorriu.
— Calma, sua boba — ele sussurrou. Com cuidado, foi puxando os fios grudentos de suas escamas, limpando seu focinho. — Viu só? Não era nada.
Quando terminou, Elize esfregou a cabeça em seu peito, em um gesto de gratidão. Darius abaixou-se e encostou a testa na dela. Não precisavam de palavras. Naquele toque, a comunicação era perfeita.
“Calma. Eu estou aqui. Você está segura.” Ele sentiu a gratidão dela e um amor puro que o aqueceu por dentro. Olhando para ela, percebeu que, em breve, ela não caberia mais ali.
Os dias no bunker transformaram-se em uma rotina de exploração silenciosa. Enquanto Elize dormia aninhada em um canto, aquecendo a poeira antiga com seu calor dracônico, Darius vasculhava as prateleiras. Cada livro era uma peça de um quebra-cabeça que ele não entendia. Eram histórias, registros, genealogias..., mas nada que explicasse o caos do mundo.
Até que sua mão, correndo por uma fileira de lombadas de couro, sentiu algo diferente. Um livro que não se movia. Intrigado, ele o forçou e ouviu um clique baixo e profundo. A estante inteira rangeu e afastou-se da parede, revelando um compartimento secreto, protegido do tempo e da poeira. Lá dentro, repousava um único volume, grande e pesado, encadernado em um couro negro que parecia beber a luz. Na capa, em letras prateadas e gastas, ele leu: “Crônicas do Despertar”.
Ele o abriu sobre uma mesa, e o cheiro de tinta antiga e segredos preencheu o ar. Não era um livro de história comum. Era um diário, escrito com uma caligrafia elegante e urgente por Livia Nerevia, no ano de 1900.
Havia várias páginas rasgadas e, em uma delas, na parte de baixo, percebeu nomes: Aetherius, Vórtex, Nerevia, Stoneval, Ignel. Em outras páginas, também rasgadas, viu símbolos: “Montanha, ondas, redemoinho, rosa e um vulcão”.
Mas não havia explicação; não fazia sentido. Ele já havia visto aqueles nomes em Ignel. Havia mapas de antes da divisão dos reinos, nomes antigos de soldados, desenhos à mão de dragões e nomes lendários como Robert, Livia, Vórtex e Ignel. Havia também nomes que não conhecia, como Louan, Marx e Mister, além de vários outros. Apenas um ele reconhecia muito bem: Eryons.
Já imaginava que seu nome fosse inspirado em alguém importante do passado, mas quem seria esse Eryons?
Darius virava as páginas empoeiradas. A caligrafia era elegante, mas às vezes apressada. No topo das páginas, havia várias datas, como em um diário pessoal, mas uma dessas páginas em especial chamou sua atenção.
Curioso, ele começou a ler.
Última Batalha. 1900
Vencemo-la hoje, se é que a isto se pode chamar de vitória. O ar cheira a cinzas e o silêncio está preenchido pelos fantasmas dos amigos que perdemos. Tantos mortos, tantos que nunca verão a paz pela qual lutaram. Serão destinados a serem sombras, a vagarem sem rumo e sem descanso.
Nós o chamávamos de Rei Demônio, mas agora compreendo. Ele jamais foi um rei, pois nunca desejou um trono. Não era um conquistador, pois não queria terras. Ele era algo muito mais antigo, muito mais fundamental. Ele era fruto do próprio Caos feito carne e sombra, a tempestade nascida da fúria e fruto de nossas decisões.
O Vácuo que veio antes de tudo, a escuridão faminta que existe entre as estrelas, sempre esteve lá. O mal sempre existiu, não como uma escolha, mas como uma força da natureza, o contrapeso inevitável para a ordem. Nosso mundo havia se tornado pacífico em demasia, o Equilíbrio tão perfeito, que a menor das ondulações foi suficiente para que o Caos transbordasse. Ele não invadiu nosso mundo; nós o criamos.
Se arrependimento fosse válido, diria o quanto estou pesarosa. Quero muito acreditar que o que fizemos foi pela paz e pelo bem maior. E nós somos apenas jovens: William, de uma vila nos penhascos varridos pelo vento; Ignel, das montanhas de fogo; Robert, dos vales férteis; e eu, das enseadas de águas calmas. Quatro estranhos unidos por um único propósito: enfrentar o furacão.
Lutamos. Ah, como lutamos. E hoje, o selamos. O Rei Demônio não foi destruído, pois sua essência é parte do Vácuo. Ele foi aprisionado, mas sabíamos que selo algum duraria para sempre. Portanto, a arma que forjamos com nosso sangue e esperança, a Lâmina do Equilíbrio, precisava ser desfeita. Dividimos seu poder em quatro essências, quatro corações, quatro Chaves que manteriam as fechaduras do mundo trancadas.
Cada um de nós jurou proteger uma peça. Fundamos nossos reinos sobre elas. A Primeira Chave, a própria Lâmina, foi confiada a mim em Nerevia. A Segunda Chave, a Bainha, a Ignel Campbell. A Terceira Chave, a Joia do Pomo, a William Vórtex. E a Quarta Chave, o Cabo, ficou com Robert Stoneval, o que teve de dar o maior sacrifício, fundindo-a à sua própria linhagem.
Mas há um segredo sobre o que fizemos após a batalha, um peso que carrego em meu peito e que me tira o sono. Para garantir que o selo jamais fosse perturbado, William, Robert e Ignel decidiram que o mundo precisava ser diminuído. Eles redefiniram os mapas. Escolheram lugares estratégicos para erguer nossos reinos, cercando o epicentro da destruição e criando uma barreira invisível que distorce o próprio horizonte.
Eu argumentei. Gritei que esconder a verdade e isolar o nosso povo era criar uma prisão. Mas eu era apenas uma mulher entre três guerreiros obcecados pelo controle. Minhas palavras foram tratadas como histeria ou fraqueza. Eles silenciaram minha voz e assinaram o decreto que dividiu a terra.
O povo que habita Nerevia, Stoneval, Ignel e Vórtex agora acredita que vive em uma ilha cercada por um oceano de nada. Eles não sabem que, além da névoa que forjamos, existem outros continentes, outras terras e espécies que continuam a viver, alheias à nossa desgraça. Trancamos o nosso povo neste pequeno canto do mundo para vigiar uma tumba.
"O pacto que sustenta o nosso mundo foi batizado no sangue dos quatro; e apenas o sangue de um dos quatros possui o peso necessário para romper o que prendemos. Onde o sangue real tocar a Chave sem o devido ritual, o selo gemerá em agonia, a fechadura se curvará e o fim de tudo começará a rastejar para fora das sombras."
"Pois o selo foi forjado em sacrifício, uma troca equivalente de vida por tempo. Assim como a alma e o sangue de Robert Stoneval foram o preço final para trancar o portão, o sangue de um de nossos descendentes será a única oferenda capaz de abri-lo novamente. Se uma única Chave cair, uma fechadura se romperá, e o início do fim terá sido escrito."
"Saibam, porém, que as Chaves são mais do que guardiãs do Vácuo; elas são os olhos dos Reis. Enquanto estiverem em seus lugares, o horizonte permanecerá oculto sob um véu de névoa e esquecimento. Eles as mantêm separadas não apenas para proteger o selo, mas para garantir que o povo jamais olhe para o mar e perceba que habita uma gaiola dourada. Mas, se um dia o Desbravador as reunir, o véu cairá e os mundos além do Mar das Almas serão enfim revelados. O preço dessa verdade, contudo, será o colapso de nossa mentira de mil anos."
"Um único corte, uma única gota de um herdeiro descuidado, é o suficiente para que a escuridão reconheça o caminho de volta."
Oro para que esta paz dure, mas sei que o que fizemos não foi uma solução, apenas um adiamento cruel. O Equilíbrio é uma dança, e o Caos... o Caos é paciente. Me desculpem por aceitar este mundo de mentiras. Vivam em paz o máximo que puderem.
Livia Nerevia.
Darius fechou o livro com um baque surdo, o som ecoando nas paredes de pedra como um tiro de misericórdia. O coração martelava contra as costelas, um tambor desgovernado que parecia querer romper sua carne. Sua mente corria em uma velocidade alucinante, conectando, com uma precisão cruel, as palavras da ancestral com as tragédias sangrentas de sua própria vida.
A Bainha... estava em Ignel. Ele pensou no museu, no ovo estilhaçado, na história do artefato sagrado. A energia do choque entre o seu poder e o de Rhazer não criara a vida de Elize do nada; ela apenas oferecera o sacrifício final para destruir a Segunda Chave.
A Joia do Pomo... em Vórtex. A Terceira Chave.
O Cabo... em Stoneval. A imagem da Stoneword, a espada de Rhazer, brilhou em sua mente com uma clareza dolorosa. O cabo ornamentado, a forma como o príncipe a segurava com tanta posse... o poder nunca viera da lâmina. Viera do cabo. A Quarta Chave estava nas mãos de seu maior rival.
O fôlego ficou preso em sua garganta, como se uma mão invisível apertasse seu pescoço. Faltava uma. A Lâmina... em Nerevia. Uma arma confiada ao seu reino. A lembrança não o atingiu como um soco; veio como um sussurro gélido, uma imagem de um tempo e um lugar que ele tentara, em vão, esquecer.
Sua mente vagou e, subitamente, ele não estava mais no bunker.
Tinha seis anos novamente. Estava no porão de treinos sob o castelo, onde o ar era denso, frio e cheirava a pedra úmida. No centro do chão de pedra polida, havia um símbolo estranho gravado — um círculo com um asterisco de oito pontas que seu pai chamava de "a porta", embora ele nunca tivesse entendido o porquê. Seu pai estava lá, observando-o tentar erguer uma pesada espada real. Darius lembrava-se do desejo desesperado de impressioná-lo, de provar que era digno, de ser forte como ele.
Então, ele tropeçou.
A dor foi um choque agudo, mas o que veio depois foi o verdadeiro horror. Ele olhou para a palma da mão e viu o sangue brotar, um vermelho vivo e chocante contra a pele pequena. Uma gota pingou, depois outra, caindo diretamente sobre o fio prateado da Lâmina e escorrendo para o chão, manchando o centro exato do símbolo em forma de estrela.
Ele se lembrava do que sentira em seguida. Não fora apenas dor física. Fora um frio sobrenatural que subiu por seu braço, um zumbido baixo que vibrou através da pedra e um tremor profundo que só ele pareceu sentir, algo que o arrepiou até a alma. O símbolo no chão pareceu piscar por um microssegundo, absorvendo seu sangue com uma fome milenar. O semblante no rosto de seu pai... o que era aquilo? Medo? Nervosismo? Ou uma satisfação sombria?
Darius olhou agora para a cicatriz quase invisível em sua mão, que pareceu arder como se o corte tivesse sido feito naquele instante. As palavras do diário ecoaram em sua cabeça como uma sentença: "...assim o sangue de uma de nossas quatro linhagens será a chave para abri-lo novamente."
A queda de Nerevia não foi um simples ataque político. Foi a primeira peça do dominó a cair, a primeira fechadura a se quebrar. E tudo começou ali, naquele reino frio, com o sangue de uma criança curiosa que só quis ser um herói.
O pai dele não fez o pacto. O pai dele não deu início ao fim do mundo. O pai dele não desfez o selo.
Foi ele.
Seu coração disparou, bateu com tamanha força que ele sentiu o pulso latejar nas têmporas. O ar tornou-se rarefeito, escapou de seus pulmões; ele abriu a boca, mas nada entrou. Foi como se as paredes do bunker estivessem se fechando, esmagando seus ossos, transformando o refúgio em um túmulo. Ele tentou inspirar, mas o oxigênio pareceu se recusar a entrar, deixando-o tonto, trêmulo e febril.
As lágrimas surgiram, quentes e ácidas, queimaram enquanto escorreram por seu rosto sujo de fuligem. Elas não foram lágrimas de tristeza; foram o transbordar de um ódio direcionado a si mesmo.
— Não, não, não! Não pode ser verdade! — o grito saiu rasgado, uma súplica inútil ao vazio.
A dor, a perda de Lior, a destruição de sua casa, a luta desesperada... tudo ganhou um novo e terrível sentido. A grande e amarga resposta o atingiu com o peso de uma montanha caindo sobre seu peito: ele foi o causador de todas as desgraças.