A caça em Nerevia foi um exercício de paciência e frustração. A terra morta ofereceu pouco, e os raros animais que restaram eram magros, doentes e ariscos. Deitado no topo de uma falésia em ruínas, com o vento salgado chicoteando seu capuz, Darius observou a linha cinzenta do horizonte. Abaixo, na praia de areia escura, Elize roeu impacientemente os ossos de uma ave marinha, um lanche que mal serviu para atiçar sua fome crescente.
“Ela precisava de mais”, concluiu Darius, o próprio estômago roncando em concordância. Ele não comeu nada substancial havia dois dias, e sua promessa de caçar algo de verdade para a dragão provou-se mais difícil do que imaginou.
Seu olhar varreu o oceano revolto, procurando por qualquer sinal de vida: um cardume arrastado para a costa, uma foca desgarrada, qualquer coisa. Ele viu um ponto escuro se mover contra as ondas, crescendo lentamente. Um barco. Era tosco, malfeito, com a madeira escura e inchada como a de um cadáver que passou tempo demais na água.
Darius estreitou os olhos, a mente voltando instantaneamente às Crônicas de Livia. “Será que esse barco veio de além da névoa? Seriam esses os navegadores das terras que os Reis esconderam?” Ele tentou enxergar algum símbolo ou estandarte que confirmasse suas suspeitas, mas a embarcação parecia apenas uma carcaça flutuante, sem pátria. “Se existem outros continentes, que tipo de povo eles carregam? Seriam eles os responsáveis por essa podridão?”
O instinto o mandou recuar.
“Pessoas significavam problemas. Testemunhas.”
Mas a curiosidade, uma falha que ele ainda não conseguiu expurgar, o manteve ali, imóvel, observando.
À medida que o barco se aproximou, a verdade se revelou, e foi mais feia do que qualquer criatura que ele havia caçado na floresta. Não era um barco de pesca ou de comércio; era uma gaiola flutuante. De seu interior, assim que a embarcação ancorou na orla, figuras humanas acorrentadas umas às outras foram chutadas para a praia, empurradas por homens armados que riram com uma crueldade casual.
O primeiro impulso de Darius foi virar as costas.
“Não é problema meu. Minha missão é outra. Minha guerra é maior. O único problema agora é alimentar a minha dragão.”
Ele se concentrou em Elize, no seu dever de protegê-la, de se fortalecer e de se preparar para o verdadeiro inimigo. Aquilo pareceu apenas o ruído de um mundo já condenado.
“Não há nada que eu possa fazer.”
Mas seus olhos voltaram para a cena, para os rostos vazios e desesperados, para as correntes que brilharam sob o sol fraco. Aquela era a praia de Nerevia. Aquela era a sua terra. E aquelas pessoas... eram o seu povo.
Darius havia jurado a si mesmo que não se envolveria. Quis apenas passar despercebido e não se meter em problemas. Ele precisava manter um dragão vivo e achar informações naqueles livros velhos sobre como lidar com as criaturas que ele mesmo trouxe do inferno. Mas, no fundo, soube que não podia permanecer indiferente. A responsabilidade pulsou dentro dele como um tambor surdo, lembrando-o de cada rosto marcado pela injustiça e de cada vida perdida por omissão. A imagem das crianças que ele salvou meses antes — sujas, marcadas, mas vivas — queimou em sua mente.
Ele recuou para as sombras da ruína, o coração como uma bigorna de raiva fria. A caça foi esquecida. Ele seguiria aquelas pessoas. Descobriria quem estava por trás daquilo. E então, faria o que precisava ser feito: libertá-las.
“Se bem que o que eu preciso mesmo é apenas cuidar de mim e da Elize, e voltar vivo com soluções para meus amigos.” A mente dele pensou uma coisa, mas a consciência o arrastou para outra. Um dia, ele prometeu a si mesmo que libertaria o seu povo. Custe o que custasse, era a hora de colocar os planos em prática.
— Elize, fique aqui! — disse Darius, aproximando-se dela. — Seja uma boa garota e depois volte para o bunker, ok? Eu vou ali e já volto.
Elize ronronou, como se dissesse: “Quero ir!”. Darius encostou a testa na dela e acariciou o pescoço, sentindo sua respiração quente.
Ele se afastou, seguindo na direção para onde os prisioneiros eram levados. Movendo-se pela floresta como uma sombra, Darius acompanhou as figuras acorrentadas à distância, com o ódio borbulhando baixo em seu peito, até que os viu sendo reunidos em um acampamento improvisado perto das muralhas do castelo.
Sentado no trono do imenso salão de treinos, onde antigamente seu pai gostava de ver os soldados, um homem de cabelos ruivos discursava para seus capangas. O "Falso Príncipe". O impulso de desembainhar a espada foi quase irresistível. A vingança era um veneno doce em suas veias, prometendo um alívio rápido para a dor que o consumia. Ele poderia acabar com aquilo agora. Seria fácil.
Mas então, a memória veio, indesejada. O porão de treinos, o corte em sua mão, o sangue na lâmina... e o sorriso indecifrável no rosto de seu pai. Era orgulho? Era satisfação? Aquela dúvida o assombrava mais do que qualquer monstro. Aquele semblante era uma fechadura para um segredo que ele precisava desbravar.
O usurpador ruivo era apenas um sintoma. A doença, a verdadeira podridão, havia começado muito antes. As respostas não estavam na ponta de sua espada, ainda não. Estavam no silêncio do castelo.
Ele recuou para as sombras. A decisão já estava tomada. Aquele homem morreria, sim. Mas primeiro, Darius saquearia os segredos de seu próprio lar e libertaria todos os inocentes.
A noite caiu como uma mortalha sobre Nerevia. Ele encontrou o caminho que conhecia desde a infância, uma janela nos aposentos de seu pai, deixada entreaberta. Deslizou para dentro do quarto como um sopro de ar frio. O lugar estava revirado, profanado pela presença do usurpador. O ar cheirava a vinho e arrogância.
Ignorando a bagunça, foi direto para a pesada escrivaninha de carvalho onde seu pai passava as noites em claro. Com os dedos, procurou o mecanismo oculto que viu o pai usar apenas uma vez. Um clique. Um painel falso se abriu, revelando um compartimento secreto. Lá dentro, coberto por uma fina camada de poeira, havia alguns diários de couro, pesados e frios ao toque. Darius pegou os diários e partiu dali, decidido a voltar para salvar os prisioneiros.
Chegando ao bunker, Elize já estava lá. Ele começou a ler, e a imagem do pai forte e imponente que guardava na memória começou a se desfazer.
"Quatro Reinos, quatro Heróis. É o que as crônicas dizem. Mas elas mentem. Falam de igualdade, mas como pode haver igualdade quando Nerevia é a menor das nações? William Vórtex tem seus ventos traiçoeiros, Ignel Campbell tinha seus dragões, e Stoneval, além do maior território, tem a força da própria terra. E nós? Temos o oceano. Um oceano calmo, passivo. Uma herança de Livia, uma mulher que valorizava a defesa em vez do poder. Fomos amaldiçoados com a fraqueza desde o início."
Darius franziu o cenho ao ler as próximas linhas, que revelavam a negligência dos outros soberanos:
"Eles sabem que o selo está enfraquecendo. Eu os avisei no conselho, mas Robert Stoneval apenas riu, dizendo que eu via fantasmas onde havia apenas marés. Eles cortaram nossas rotas de suprimentos, deixando Nerevia à própria sorte, enquanto se banqueteiam em suas fortalezas de pedra e fogo. Eles me chamam de Rei, mas sou apenas o guardião do legado mais fraco. Sinto o desdém deles em cada reunião. Eu mereço mais. Nerevia merece mais."
Passando as páginas, encontrou o desespero de um homem sem sucessores:
"Anos se passam e o salão do trono permanece silencioso. Nenhum riso de criança. Nenhum herdeiro para carregar o nome Draven. Sou uma piada. Um galho seco em uma árvore genealógica gloriosa. A pressão me sufoca. Eu daria qualquer coisa. Qualquer coisa por um filho."
Nos outros diários, encontrou a verdade final:
"Encontrei-o nos textos proibidos. Um ritual para contatar o que existe além do véu. Noite após noite, no porão sob o trono, eu chamei. E hoje, ele respondeu. Não com uma aparição, mas no reflexo de um espelho de obsidiana. Uma sombra com olhos de brasa, uma voz que não usava som. A criatura prometeu-me o que eu mais desejava: um herdeiro homem, um príncipe com um poder que faria os outros reinos se curvarem. O preço? Uma ninharia para tal recompensa. Além de conter resquícios dele dentro do futuro herdeiro, apenas uma relíquia de família. A Lâmina de Nerevia. A Primeira Chave. Eu aceitei. Entregarei a espada. E meu filho está a caminho."
O diário escorregou das mãos de Darius, caindo no chão com um baque surdo. O ar não entrou em seus pulmões. Ele apoiou-se na escrivaninha, com a cabeça girando. As peças se conectaram com uma violência brutal. A fraqueza de seu pai. O desejo por um herdeiro. A troca. Um filho em troca da Chave.
Ele não foi concebido. Ele foi comprado.
A lembrança do Arauto chamando-o de "Mestre". A forma como ele entendia a língua das sombras. O poder frio e sombrio que explodia dele em momentos de fúria. Aquele poder, a força de dominar mais de um elemento... não foi uma bênção.
Foi a maldição.
Ele era o pagamento? Resquícios de demônio dentro dele... o que isso significava?
Que porra estava acontecendo? Quem ele era? Darius cambaleou até um fragmento de espelho quebrado na parede. Encarou seu próprio reflexo. Os cabelos loiros e os olhos azuis que não eram de seu pai e nem de sua mãe. Mas por trás deles, na profundidade de sua pupila, ele viu.
Uma sombra. Um brilho negro. A herança do Vácuo.
"Eu sou o cavalo de Troia deles", sussurrou para o vazio. "Os outros Reis nos abandonaram na miséria, e meu pai, em sua cegueira, abriu a porta para o monstro que eu agora carrego no peito."
A imagem no espelho que vira no dia em que o reino caiu não foi um delírio. Foi um presságio.