Os quatro meses seguintes transformaram as ruínas de Nerevia em um campo de caça, e Darius, no predador supremo. Durante o dia, ele foi uma sombra nos escombros, um sopro de vento mortal nas florestas amaldiçoadas. As criaturas corrompidas que assombraram a mata aprenderam a temê-lo. Além de caçar essas abominações, a cada dois dias precisou realizar investidas na divisa do reino de Stoneval para alimentar uma Elize cada vez maior e mais faminta.
À noite, sua caça voltou-se para os homens do usurpador. Patrulhas inteiras desapareceram sem deixar rastros, comboios de suprimentos foram encontrados vazios e, por vezes, jaulas de escravos foram descobertas abertas e abandonadas, com seus ocupantes libertos na escuridão. Darius nunca imaginou que a humanidade pudesse ser tão podre. No coração do bunker, Darius utilizou uma forja antiga para dar vida ao seu novo braço direito. O minério base veio de uma pequena arca de ferro que ele encontrou escondida nos níveis inferiores do refúgio: pedras brutas e raras, rotuladas como fragmentos colhidos na Garganta do Inferno antes da queda. Eram cristais que um dia pulsaram no berço dos dragões, mas que ali, no silêncio do bunker, pareceram esperar por alguém que soubesse despertar seu poder.
Para conferir uma resistência que desafiava as leis da natureza, ele fundiu ao metal as escamas negras que Elize soltou durante seu crescimento voraz. O material dracônico foi a única substância capaz de conter e estabilizar a energia volátil do minério da cratera sob o calor de uma forja divina. Darius não agiu por instinto cego; ele mergulhou nos diários e crônicas de César, que guardavam segredos milenares sobre a metalurgia das sombras e a forja de armas lendárias.
A têmpera foi um ritual de agonia e precisão. Darius não usou água; ele banhou o metal rubro no fogo primordial de Elize, compreendendo que o sopro do dragão era, em si, a arma definitiva. Enquanto a lâmina rugia sob o calor, ele derramou o próprio sangue sobre o metal incandescente. O sangue que um dia abriu o portão agora serviu como o amálgama final, selando o pacto entre o criador, a fera e a arma. No ápice do processo, ele canalizou sua fúria e o seu elemento relâmpago para dentro da estrutura molecular da espada. Sob o choque da eletricidade e do Vácuo, o cristal e as escamas se transmutaram, assumindo um tom de negro absoluto, tão profundo que pareceu devorar a luz ao redor.
O resultado foi a Matadora de Demônios. Ela não foi apenas uma ferramenta de morte; foi o peso de seu pecado transformado em corte, uma extensão física de sua própria alma, forjada no único lugar onde o fim do mundo começou.
Darius usou o restante do minério e as escamas excedentes para forjar um Machado Dracônico de duas lâminas, pesado e imponente, destinado a Marsalla. Ele sabia que, embora ela tivesse o dom de curar, o mundo agora exigia que ela fosse uma fortaleza. As escamas negras incrustadas no cabo e nas lâminas não serviam apenas para o corte; elas eram uma proteção, um escudo dracônico que manteria Marsalla segura enquanto ela abria caminho pelo campo de batalha. Ele sabia que a força dela precisava de um condutor à altura da destruição que viria. Além das armas prontas, ele começou a produzir e estocar novas lâminas e reforços feitos com as escamas que Elize continuava a trocar; um arsenal secreto sendo preparado para o dia em que o mundo finalmente enfrentaria o verdadeiro inferno.
Ele enviou pergaminhos secretos a Luciel perguntando sobre a presença dos tiranos. A resposta que obteve foi direta: Nerevia estava sob a responsabilidade de Stoneval.
“Que porra o Rhazer está fazendo?”, questionou-se em fúria silenciosa. “Será que ele esqueceu que Elize e eu estamos aqui? Ou será que não entende nada sobre paternidade?” Darius sentiu o amargor na garganta; não que fossem crianças comuns, mas Elize precisava de um lar seguro, e o silêncio de Stoneval parecia uma traição.
Pelos interrogatórios que ele próprio conduziu, descobriu que o "príncipe" agia de forma ilegal. Os soldados sob seu comando eram, em sua maioria, desgarrados e desertores de vários exércitos, embora Darius tenha visto alguns usando a insígnia da Rosa Azul.
Salvou cerca de duas mil pessoas e conseguiu pedir reforços a Luciel, que enviou Ignes e Mikkel para resgatar os sobreviventes. O Reino do Fogo estava mais estável e protegido; lá, Darius também obteve dicas cruciais sobre como controlar seu novo elemento. Mesmo sem passar por exames oficiais, ele já possuía a maestria de um nível mestre. “Finalmente te alcancei, Rhazer”, o pensamento o fez sorrir de forma sombria.
Nerevia ficou conhecida como uma terra sem lei, e Darius resolveu ser o protetor letal daquele lugar. Para os sobreviventes oprimidos, ele se tornou um mito sussurrado ao redor de fogueiras clandestinas: o "Fantasma de Nerevia", o "Vulto da Noite" ou, talvez, o espírito vingativo do antigo rei que se ergueu para punir os tiranos.
Enquanto a lenda crescia do lado de fora, o homem por trás dela passou as noites mergulhado no silêncio empoeirado do bunker. Sob a luz trêmula de uma lamparina a óleo, ele devorou os diários, pergaminhos e crônicas secretas da biblioteca de César. Foi ali que os nomes tomaram forma: ele aprendeu sobre o Vácuo Eterno, sobre os generais conhecidos como Arautos e suas fraquezas, e sobre a praga que corrompia a terra, à qual ele mesmo deu o nome de "Entes da Noite". Cada descoberta, cada hierarquia demoníaca do Nível 5 ao 0 e cada tática de combate foi meticulosamente documentada.
Ao fim de cada noite de estudo, ele transcreveu suas descobertas para um pergaminho. Com uma gota de seu próprio sangue e uma palavra sussurrada na língua das sombras truques esquecidos que aprendera nos tomos proibidos, o papel desfez-se em cinzas e renasceu a quilômetros de distância, nas mãos de Gust.
A cada dia, a cada morte e a cada segredo desvendado, sua resolução tornou-se mais dura e afiada.
“Se para destruir os demônios que assolam meu lar eu preciso abraçar a escuridão que corre em meu sangue, então que o mundo se prepare para o novo inferno que eu trarei.”