Capítulo 1:
"Eu sou Vazio"
Arco 1: Capítulo 2
POV: "???"
Ele continuou andando.
Na Zona Infernal, não havia dia ou noite. Apenas aquele cinza eterno — pesado, imutável. Escuridão era outra coisa: a ausência de tudo o que um dia tornara a vida possível. O espaço entre as coisas que importavam.
Através das terras mortas. Através dos lugares abandonados.
Seus passos ecoavam no silêncio — metálicos, constantes, hipnóticos. Cada pisada levantava uma pequena nuvem de poeira cinzenta que logo se dissipava. Nada ali durava.
A cada passo fora de sua casa, lá estavam eles.
Os seres amaldiçoados.
Monstros com aparências defeituosas — corpos que um dia foram humanos, agora distorcidos em formas que a natureza jamais pretendera. Braços crescendo de lugares errados. Rostos sem traços. Olhos que brilhavam com uma dor antiga.
E o ser chamado Empty, que carregava os mesmos defeitos, era quem os matava.
Empty caminhava entre eles como uma sombra entre sombras. Não conhecia medo. Não conhecia raiva. Apenas sentia aquela pressão no peito, que ele nunca entendia sozinho.
A cada movimento da espada.
A cada cabeça de maldição decepada.
O manuseio era limpo.
Preciso.
A lâmina negra traçava arcos perfeitos no ar — o mesmo movimento centenas, milhares de vezes repetido. Ele aprendera com o livro. Com a prática. Com a repetição. Com a necessidade.
Algumas maldições eram mais fortes que outras.
Algumas lutavam mais. Algumas fugiam. Algumas, em seus momentos finais, eram quase... gratas.
Mas Empty sempre vencia.
Ele nunca hesitava.
Nunca largava sua espada.
Seus dedos enluvados apertavam o cabo com a mesma pressão desde a primeira vez que o forjou. A arma era uma extensão de seu corpo — talvez a única extensão que ele entendia.
Ele nunca falhava em eliminar uma maldição em seu caminho.
Não importava se estivesse com pressa. Não importava se houvessem outras adiante. Se uma cruzava seu caminho, a espada respondia.
E quando ele as derrotava, ele via.
Pessoas.
A cada cabeça decepada. A cada maldição derrotada.
Figuras emergiam — primeiro névoa, fumaça, depois mais sólidas, mais reais. Homens. Mulheres. Às vezes crianças. Todos com aquela expressão que ele conhecia dos livros — os sorrisos.
Elas sorriam para ele.
E desapareciam.
E suas histórias.
Fragmentos — imagens que vinham sem aviso, preenchendo sua mente com coisas que ele jamais vivera. Um velho, arrependido, morrendo sem largar seu vício. Uma mulher triste que apenas sonhava com a independência que nunca teve.
A história de cada um.
Cada maldição derrotada era uma lição.
Empty absorvia aquelas histórias — recebendo, armazenando, acumulando fragmentos de vidas que não eram suas.
Mas a resposta nunca vinha.
Ainda assim, a pergunta estava lá.
Em algum lugar.
Dentro daquele peito que deveria conter nada.
Uma maldição derrotada. A memória de um velho arrependido, morto sem largar seu vício.
Empty ficou parado por muito tempo depois daquela.
Uma maldição derrotada. A memória de uma mulher triste, que nunca viveu a independência que queria.
Empty viu seu rosto. Jovem. Bonito. Mas seus olhos haviam desistido antes de seu corpo.
Cada um daqueles momentos.
Empty sempre ficava.
Até o fim. Até ver cada fragmento, cada imagem, cada rosto. Até ver os sorrisos finais — aqueles sorrisos que, por um instante, eram para ele.
Ele fez isso por anos.
Sozinho.
Sem ninguém real.
Ele não podia tocá-los.
Não podia falar com eles.
Não podia ser visto.
Em todas as memórias, em todos os sorrisos, Empty nunca podia tocar aquelas figuras.
Elas atravessavam-no — como se ele fosse feito da mesma névoa que elas.
Ele apenas observava.
Pelo menos, era o que o mundo queria.
Até aquele momento...
O silêncio que se seguiu à batalha no galpão era o som do mundo desistindo de si mesmo — a respiração lenta de um cadáver que ainda não sabia que estava morto.
Empty atravessou os portais retorcidos como um homem passando pelas mandíbulas de uma fera abatida. O vento golpeava sua armadura com punhos de poeira cinzenta que subiam em espirais, dançavam sobre os escombros e se dissolviam no ar espesso.
Ele andava sem pressa.
Então, o silêncio foi estilhaçado.
Não com um rugido. Não com o som de bestas ou o estalo de estruturas desabando. Veio com algo pior: uma voz humana. Despedaçada pelo medo.
— Não! — gritou o garoto.
Empty parou.
O som era agudo, real, vindo de duas figuras que emergiam da névoa de poeira como náufragos emergindo de um mar de concreto. Um rapaz — magro como uma vela prestes a se apagar — corria com sua irmã nos braços. Ela estava pálida, inconsciente, a cabeça balançando para trás como uma boneca de pano que alguém esquecera num canto.
O garoto correu e viu Empty em sua direção.
Outra maldição, pensou. Droga.
Este era o fim. Duas maldições no mesmo caminho.
Empty sacou sua espada.
O metal negro refletiu a luz cinzenta, e por um instante, algo passou por sua mente — não um pensamento, não uma decisão, apenas o eco antigo de todas as outras vezes. Maldição adiante. Espada sobe. Cabeça rola.
O garoto correu para o outro lado, desviando de Empty.
Empty está pronto para golpear. Para eliminar mais uma.
Mas então, atrás do garoto, algo mudou.
Empty sentiu.
Sua mão apertou a espada. Seu corpo, que nunca se tensionava, se tensionou.
A maldição de elite emergiu da poeira como um pesadelo tomando forma.
Um uniforme de soldado desbotado pelo tempo. Uma máscara de chumbo cobrindo todo o rosto, lisa e impiedosa. E ao seu lado, um lobo massivo — não um lobo comum, mas uma criatura feita da mesma substância da escuridão, olhos brilhando com a fome ancestral de coisas que um dia foram e não são mais.
Algo no peito de Empty se agitou.
Não era medo — ele não conhecia medo. Era aquele mesmo impulso de sempre: a mão apertando a espada, o corpo se inclinando para a luta. A única linguagem que ele conhecia.
Ele saltou.
O salto foi longo, preciso, direcionado não ao garoto, mas à ameaça atrás dele. A lâmina negra cortou o ar, apontada para o coração da maldição de elite.
Os olhos de Raphadun acompanharam o movimento. Rápido. Quase instantâneo.
A maldição à sua frente — aquela que ele temia — não viera para ele. Saltara para matar outra maldição.
Não havia tempo para perguntas. Havia apenas o instinto de sobreviver. Com a garota nos ombros, com todas as forças que restavam em seu corpo exausto, Raphadun gritou:
— TELEPORTE!
O mundo se torceu como pano sendo espremido.
O ar ficou denso, as cores dessaturaram, e Empty se sentiu puxado — não por sua própria vontade, mas pela corrente da magia, arrastado como um galho na correnteza de um rio invisível.
Quando a realidade se assentou novamente, a cena era diferente.
O galpão estava para trás. Agora estavam numa clareira cercada por ruínas, o chão coberto de detritos que ninguém jamais recolheria.
— Merda! — ofegou o garoto.
Seus olhos se arregalaram ao notar o intruso. Ele tropeçou para trás, protegendo a irmã desmaiada com o próprio corpo. Seu rosto era um mapa de desespero — olheiras profundas, lábios rachados, um corte fresco na testa ainda escorrendo um sangue fino.
— Você... uma maldição! Não se aproxime!
Empty observou.
Seus olhos varreram os arredores. Procurando. Ele virou a cabeça. Olhou em várias direções. Nada. Apenas ruínas. Apenas silêncio. Apenas os dois humanos.
Sua mão na espada apertou.
Havia algo no medo deles que ele reconhecia. Não o sentimento — ele não conhecia medo. Mas a forma. O tremor. O recuo instintivo.
Ele já vira aquilo antes. Nos livros. Nas ilustrações.
Os humanos nos livros tremiam também. Antes do príncipe salvá-los.
E então eles sorriam.
Empty queria os sorrisos.
Empty se moveu em direção ao garoto.
A espada ainda estava em sua mão. Passos lentos, deliberados. O garoto tentou se levantar. Falhou. Caiu de joelhos, ainda segurando a irmã.
Empty parou diante deles.
A espada subiu.
Raphadun fechou os olhos.
E então...
Uma explosão de luz.
Diferente de qualquer luz que Empty já vira. Viva. Furiosa.
Luna estava de pé.
Sua mão brilhava — amarelo radiante, mais dourado que qualquer coisa. Seus olhos verdes estavam abertos, e neles ardia uma chama.
A explosão atingiu Empty em cheio no peito.
Ele foi arremessado para trás como uma folha seca. Seu corpo voou, girou no ar, e colidiu com uma pilha de escombros que desabou sobre ele com um estrondo.
— Luna! Você acordou! — O grito do garoto era alegria e alívio.
— Raphadun... — A voz dela saiu fraca. — O que aconteceu? Conseguimos escapar? Achei que seria nosso fim.
— Sim... Mas pelo menos você desintegrou a maldição que...
Ele não terminou.
Porque, dos escombros adiante, algo se moveu.
Empty se levantou.
Luna encarou. Seu corpo tremia, os últimos vestígios de poder ainda bruxuleando em suas mãos. Ela tentou permanecer de pé, mas suas pernas ameaçavam ceder.
— Ele... levantou... — murmurou Raphadun.
— Isso é... impossível... — A voz de Luna era um fio. — Qualquer maldição é eliminada pelo meu... poder de luz...
Sua força se esgotou. Ela caiu.
Raphadun a pegou antes que ela atingisse o chão.
— Luna...
Este era o fim. A criatura se erguera sem esforço, sem um arranhão, sem qualquer sinal de que seu ataque fizera qualquer diferença.
Mas Empty não se moveu.
Ele ficou parado, olhando para baixo.
Algo estava diferente. A luz... não doía. Não como o vento em sua pele. Não como as batalhas.
A luz brilhava, como qualquer maldição em suas ilusões.
Mas a diferença não era apenas o jeito como a luz aparecia.
Era ser sentida do jeito que era sentida.
Era ver parte de sua armadura danificada em seu peito.
Algo que uma maldição nunca poderia fazer.
E o mais impressionante: um humano que existia apenas em memórias e desenhos em livros estava diante dele.
Mesmo naquele mundo sombrio e assustador.
Poderia haver algo incrível: luz.
Algo que ele nunca vira antes naquele lugar.
Empty piscou — um movimento raro, quase esquecido.
Seus olhos encontraram os dois humanos caídos. O garoto abraçava sua irmã, olhos fechados, esperando o fim. A garota estava pálida, inconsciente, o rosto virado para o lado.
Ele começou a se aproximar.
Raphadun sentiu os passos. Apertou a irmã contra o peito. Encolheu-se sobre ela.
Empty parou diante deles.
A mão enluvada se ergueu.
Raphadun apertou os olhos.
Então, um toque.
Frio. Metal. Descansando em seu rosto.
Permanecendo ali.
Raphadun abriu os olhos.
Empty estava ajoelhado diante dele. Cabeça inclinada. Olhos fixos em seu rosto.
Para Raphadun, a mão era fria.
Para Empty, era estranha, impossível.
A pele do garoto era macia. Viva. O coração sob sua mão disparava — errático, rápido.
Vivo.
Empty observou. Os olhos arregalados do garoto. A respiração lenta da garota.
Vivos. Ambos vivos.
O garoto, ao ver aquelas mãos, ficou desesperado.
— Não... Por favor... LUNA!
"Por que...", pensou ele. "Por que temos que ser sempre tão... estúpidos?..." Ele diz, chorando e desesperado. Preparando-se para a morte inevitável.
Empty apenas continuou, com sua mão ali.
Quando estava prestes a puxar a espada da bainha...
A garota se mexeu.
Acordada. Súbita. Violenta. Seus olhos encontraram a cena — a mão da maldição no rosto de seu irmão.
— Larga... meu irmão...
— MALDIÇÃO MALDITA!
Sua mão se ergueu. A luz floresceu de sua palma. Dourada. Quente.
Os olhos de Empty se fixaram nela.
Ele não se moveu. Não desviou o olhar.
A luz doía. Mas ele não conseguia parar de observar.
O que é isto?
O brilho vacilou. Sua mão tremeu. Seus olhos reviraram — ela tombou para frente.
Empty a pegou.
Delicado. Quase cuidadoso. Seus braços — os mesmos braços que decepavam cabeças de maldições — acolheram seu corpo inconsciente.
Quente. Ela também é quente.
Ambos quentes. Ambos vivos. Ambos respirando.
— O que... é esta maldição...
Seus olhos encontraram os de Empty. Breves. Confusos.
Então reviraram.
Ele desmaiou.
Empty permaneceu imóvel.
Uma estátua em meio às ruínas, segurando a garota inconsciente, observando o garoto caído a seus pés.
O vento soprou. A poeira dançou.
Ele não se moveu.
Apenas observou.
O peito do garoto subindo e descendo. O da garota também. Dois ritmos. Dois corações. Duas vidas.
Vivos.
Algo em seu olhar mudou.
Empty se ajoelhou lentamente.
Colocou a garota ao lado do irmão. Ajeitou sua cabeça sobre um pedaço de pano. Acariciou seu cabelo — um toque tão leve que mal fazia contato.
Então sentou-se no chão empoeirado, a poucos metros de distância.
E esperou.
Seus olhos não se fecharam.
Ele apenas observou.
O ritmo da respiração deles. Os pequenos movimentos durante o sono. O jeito como o garoto, mesmo inconsciente, alcançava sua irmã.
A luz mudou. O vento mudou. A poeira dançou.
Empty não se moveu.
Ele apenas observou.
E esperou.
Depois de algumas horas, Raphadun abriu os olhos lentamente.
Teto desconhecido — vigas de madeira apodrecidas, teias de aranha nos cantos, rachaduras por onde a luz cinzenta se infiltrava.
Então as prateleiras.
Dezenas delas. Enfileiradas contra as paredes. Transbordando de objetos: livros com capas desbotadas, utensílios enferrujados, brinquedos quebrados, roupas rasgadas.
Luna estava ao seu lado, ainda inconsciente, sua respiração lenta mas constante. Ambos estavam no chão — não sobre concreto frio, mas sobre uma pilha de panos velhos. Sujos, sim. Mas estranhamente confortáveis.
Raphadun não entendeu. Onde estavam?
Então ele viu Empty.
Do outro lado da sala. Andando de um lado para o outro. Passos lentos. Deliberados. Sua armadura negra refletia a luz tênue — sombras dançando nas paredes.
O coração de Raphadun disparou.
Ele nos trouxe para cá.
Luna ainda dormia. Ele não podia acordá-la. Não podia fazer barulho.
Ele fingiu que dormia.
Olhos fechados. Mas pálpebras entreabertas — o suficiente para ver através dos cílios.
Empty andava. Parava diante de objetos. Olhava cada um.
Então, algo estranho.
Empty pegou um objeto da prateleira — uma panela amassada, sem cabo — e jogou no chão. O metal ecoou. Oco. Ele observou a panela por um momento. Pegou outro — um sapato gasto — jogou também. Depois um copo. Depois um pedaço de pano.
O que ele está fazendo?
Empty pegava coisas. Examinava. Jogava. Pegava outras.
Estranho.
Horas se passaram. Ou pareceram.
Anos neste lugar. Fugindo do Perseguidor. Milhares de maldições... E nunca vi uma única...
Ele pensou.
Ele se lembra de Empty saltando sobre o Perseguidor.
Tentando matar outro...
Músculos doendo. Boca seca. Fome roendo.
Preciso comer. Preciso acordar Luna. Preciso sair.
A fome continuava.
Horas se passaram.
Talvez um dia inteiro.
Luna ainda dormia.
E a criatura, sempre distante, mas às vezes sempre observando.
Empty parou diante de uma prateleira.
Depois de horas mexendo nos pertences deles.
Seus dedos percorreram as lombadas dos livros. Pararam num. Puxaram-no — cuidadosamente. Diferentemente. Reverentemente.
Ele o abriu.
Raphadun reconheceu as ilustrações de longe. Um livro infantil. O Conto dos Príncipes.
Empty começou a imitar as figuras.
Ergueu os braços como um homem no livro. Inclinava a cabeça como o príncipe. Levantou uma perna — perdeu o equilíbrio — tentou de novo. Desajeitado. Mecânico.
O que... essa merda...
Foda-se essa merda!
PRECISO ESCAPAR COM LUNA
Aquele idiota atacou o perseguidor... Calculamos errado e fomos para o mecanismo errado!
E agora estamos aqui...
Já deveríamos estar mortos
Fugir... Pensar em fugir...
Mas como?
A única maneira seria...
Aproveitar que ele não está nos matando.
Se eu continuar fingindo que estou morto aqui...
Vou morrer de fome.
Luna pode já estar morta.
Ela não está se mexendo.
Se eu me mexer, morro.
Vou morrer.
Mijando nas calças.
Ele continuava pensando.
Empty virou mais páginas. Chegou ao príncipe — jovem, nobre, coroado. Fitou a figura.
Então se virou para o espelho na prateleira.
Olhou para si mesmo.
Raphadun viu o reflexo — armadura negra, elmo cobrindo o rosto, postura rígida. Empty olhou para o livro. Olhou para o espelho. Inclinou a cabeça para um lado. Depois para o outro.
Então, no reflexo do espelho, os olhos de Empty encontraram os olhos abertos de Raphadun.
Raphadun congelou.
Fechou os olhos rapidamente — mas tarde demais. Sentiu Empty se virar. Sentiu passos se aproximando. Sentiu a presença parar diante dele.
Coração disparado. Mal posso me levantar. Se ele atacar...
Empty sentou-se.
O chão cedeu ligeiramente sob seu peso. A centímetros do rosto de Raphadun.
Então nada. Apenas a presença. Apenas espera.
Minutos. Horas. Olhos bem fechados. Respiração controlada. Tentando não tremer.
Mas Empty estava ali. Observando.
O que ele quer?
Então, algo em seu rosto.
As mãos de Empty. Frias. Metálicas. Mas estranhamente delicadas. Dedos percorreram sua testa. Desceram a ponte do nariz. Tocaram suas bochechas.
Explorando. Sem pressa. Sem agressividade. Apenas curiosidade.
Dedos encontraram sua boca. Tocaram seus lábios. Os separaram ligeiramente. Escorregaram contra seus dentes.
Raphadun queria gritar. Queria se afastar. Queria desaparecer.
Mas não conseguia se mover. O medo o paralisava.
Raphadun estava prestes a desmaiar.
Ele sabia que este poderia ser o fim.
Por quê? Por que a maldição ainda não os matara?
Maldições sempre faziam isso.
Matavam humanos.
Sem pensar duas vezes.
Mas Empty continuou.
Empty continuou. O queixo. As orelhas. O cabelo.
Ele está me estudando. Porra... Estou morto.
Finalmente, Empty parou.
Raphadun sentiu a presença se afastar. Abriu os olhos — apenas um pouco.
Empty estava olhando para o lado. Para Luna.
Não.
Empty se levantou. Andou até a garota. Ajoelhou-se ao lado dela. Suas mãos se ergueram em direção ao rosto dela.
— NÃO!
A espada de Empty saiu da bainha — tão rápido que Raphadun não a viu. Apenas sentiu o ar se mover. Então metal frio pressionou sua garganta.
Ele congelou.
Sabia que assinara sua própria sentença de morte.
Não conseguia se mover para escapar.
Gritar por socorro? Não, nada.
Ele apenas disse.
E rezou.
Que eles não morressem.
Ou se Luna já estivesse morta há muito tempo, ele não sabia.
Seus olhos encontraram os olhos vazios do elmo. Nada ali. Nenhuma emoção. Nenhuma ameaça. Nenhuma promessa. Apenas vazio.
Um longo momento. A espada voltou à bainha.
Empty se virou para Luna novamente. Mãos se ergueram.
— NÃO!
Eu disse de novo, vou morrer!
Empty parou. Olhou para ele. Para Luna. Para ele novamente.
Suas mãos foram à boca de Raphadun.
Cobriram-na.
O que esta maldição pensa que está fazendo?
Raphadun tentou gritar — sons abafados. Grunhidos inúteis.
Então Luna se mexeu.
— O quê... — Ainda com os olhos fechados.
— LUNA! — gritou Raphadun. Sabia que não podia. Mas foi um alívio ver que a salvação do mundo, aquela que ele jurara ao pai proteger a qualquer custo, ainda estava viva. — Droga! — Gritou novamente. Sabia que podia morrer assustando a maldição adiante, mas fez mesmo assim por desespero. Empty observou os dois, sempre inclinando a cabeça.
Ela piscou. Visão turva. Viu a cena: Empty, cobrindo a boca de Raphadun. Ambos olhando para ela.
Luna olhou para Raphadun.
Olhou para o lado, viu a maldição.
Olhou para Raphadun novamente.
Para a maldição novamente.
Tentou se afastar. Empurrou o chão com mãos fracas. Tentou se levantar. Pernas não obedeciam. Caiu.
— O-onde estamos?
— RAPHADUN! — ela gritou.
Empty tirou a mão da boca de Raphadun. Afastou-se ligeiramente. Continuou observando.
— Irmã! — Raphadun respirou. — Você está bem?
— Graças a Deus...
— Fraca... — Luna tentou novamente. Falhou. — Estou fraca... Não consigo...
Ela tentou se levantar de novo, mas viu que não tinha mais forças, que não podia lutar, não podia correr.
NADA.
— Sim... — A voz de Raphadun é pesada. — Eu também... Quando te transportei... Transportei isto...
Ele olhou para Empty.
— Esta maldição! — Os olhos de Luna estavam fixos na figura escura.
Empty observou.
Empty ouviu eles falarem, as palavras eram como grunhidos, nunca entendidas.
Ele abriu a boca. Forçou ar pela garganta.
Nada. Apenas um sopro fraco e inútil.
Ele se levantou e andou até uma das prateleiras. Seus olhos percorreram os objetos.
— Quando nos recuperarmos, vamos fugir — disse Luna, voz firme apesar da fraqueza. — E se esta maldição tentar nos impedir, lutamos!
— Certo — respondeu Raphadun, mas seu olhar ainda seguia Empty.
A criatura juntou vários objetos em suas mãos. Um copo. Uma colher. Um pedaço de pano. Uma boneca sem olhos. Um livro. Empilhou tudo desajeitadamente, braços cheios, o livro equilibrado no topo da pilha.
— O que ele está... fazendo? — Luna perguntou.
— Não sei...
Empty voltou para perto deles.
E, diante de seus olhos atônitos, jogou todos os objetos no chão.
O copo rolou. A colher tilintou. A boneca caiu de bruços.
Empty ajoelhou-se, pegou o copo — velho, rachado, sem cabo — e o ergueu. Trouxe a centímetros do rosto de Luna. Depois trouxe para perto de Raphadun. Depois olhou para ela novamente.
— O que... — Luna começou, mas não soube terminar.
Empty largou o copo. Pegou o livro.
Abriu na primeira página. Mostrou a eles.
Folheou lentamente. Página por página. O príncipe salva pessoas. O príncipe e a princesa. O vilão é derrotado. As pessoas sorriem.
Raphadun olhou para Luna. Para as imagens. Para Empty.
— Ele deve pensar que somos nós — ele apontou para o príncipe e a princesa.
Luna não respondeu. Apenas encarou Empty.
Empty continuou. Virou mais páginas. Parou.
Uma ilustração: um personagem solitário, apartado dos outros, sem expressão. Abaixo, uma palavra: Empty.
Empty deixou o livro aberto naquela página. Seu dedo tocou a figura. Depois apontou para si mesmo.
— Empty... — murmurou Raphadun.
— Rapha! Para com isso!
— Eu não o entendo... — ele disse.
Luna revirou os olhos e bufou.
Empty fechou o livro. Pegou outros objetos. Mostrou um por um. Uma pedra. Uma flor seca. Um pedaço de metal brilhante.
Então parou.
Sentou-se ali, diante deles, observando.
Depois de um tempo, a fome.
As mãos de Luna se ergueram. A luz floresceu de suas palmas — fraca, vacilante, mas presente. Duas pequenas esferas douradas se formaram no ar.
— Luna...
— Eu tenho que conseguir! Senão, vamos passar fome! — disse Raphadun.
— Eu sei... Eu também.
Ela entregou uma para Raphadun.
Eles levaram as esferas à boca. A luz se dissolveu em suas línguas. Espalhou-se por seus corpos.
Empty observou. Seus olhos estavam fixos nas mãos de Luna. Na luz. Nas esferas.
Ele se aproximou.
— AFASTA! NÃO TOQUE NISSO!
A mão de Empty alcançou a esfera.
— FAZ ISSO PRA ELE PARAR, LUNA!
— Droga!
Luna se concentrou. Mãos tremeram. Uma nova esfera se formou — menor, mais fraca, quase se dissolvendo. Ela a entregou a Empty.
— Por que você fez eu dar aquela coisa para ele? — Luna perguntou, a voz uma mistura de confusão e um tremor que ela não conseguia controlar.
O medo ainda estava ali. Frio. Enraizado.
— Acho que estou... Vou...
Ela engasgou. Seu estômago se embrulhou, e ela engoliu em seco, forçando a bile de volta.
Raphadun olhou para ela, depois para Empty.
O ser armado agora estava sentado na cadeira, segurando a pequena esfera de luz que Luna criara. Ele a observava com uma atenção quase hipnótica.
— Olhe para ele... Não é normal... — Raphadun disse, fazendo um gesto com o queixo.
Empty aproximou a esfera de seu rosto. Seus olhos — atrás da máscara, ainda assim perceptíveis — fixaram-se nela. Então, lentamente, ele a cheirou.
Como se, através do nariz, pudesse entender o que aquela coisa quente e luminosa era.
— Se... formos na onda dele... Podemos recuperar nossa mana e... sair daqui.
Raphadun virou-se para sua irmã.
— O que você acha? Senhora Planos-Zero?
A provocação era leve, mas carregava um peso que nenhum dos dois ignorava.
Luna o encarou.
— Esse... é o seu plano, então?
— Estamos fracos — disse Raphadun, a voz agora mais baixa. Mais séria. — Não vamos conseguir ficar de pé, e eu não consigo nos teletransportar. Nem se quiséssemos.
Ele fez uma pausa. O silêncio entre eles era preenchido apenas pelos pequenos sons de Empty manipulando a esfera — o leve roçar de suas manoplas contra a superfície luminosa.
— A verdade... — Raphadun continuou, e havia algo novo em sua voz. Algo que Luna não ouvia desde que entraram na Zona Infernal. Culpa. — É que por sua causa, fomos para o mecanismo errado. E o Perseguidor nos encontrou.
Ele ergueu os olhos para ela.
— Já deveríamos estar MORTOS agora. Entende?
Luna abriu a boca para responder. Nada saiu.
— Eu...
Ela não terminou.
Raphadun suspirou. O peso sobre seus ombros era visível — um fardo que nenhum garoto de sua idade deveria ter que carregar.
— Confie em mim — disse ele, a voz agora mais suave. — Este é o melhor plano que temos.
Empty pegou a esfera. Segurou-a diante dos olhos. Estudou sua luz.
Luna olhou para Empty. Ódio e medo.
Então ele se levantou. Andou até uma prateleira. Colocou a esfera sobre ela. Cuidadosamente.
Voltou para seu canto. Sentou-se. Observou.
— Eu odeio ele... — murmurou Luna.
— Não vamos conseguir dormir com aquela coisa nos encarando.
— Você tem razão. É assustador — disse Raphadun.
Empty sentou-se em seu canto. Observando. Então, lentamente, seus olhos se fecharam.
— Mais uma coisa... Agora descobrimos que maldições dormem.
— Tente dormir, Luna. Eu vigio.
— Não. Eu desmaiei por horas. É sua vez.
— Luna...
— Deixa a fera comigo. — Ela sorriu. Não o enganou.
— ...Não faça... coisas estúpidas... — ele disse, adormecendo.
Raphadun quis discutir. O cansaço venceu. Seus olhos se fecharam.
Silêncio.
Luna ficou ali, sentada, observando a figura imóvel no canto. A criatura que dormia. Que colecionava objetos. Que queria sua luz.
O que você é? O que você quer?
Empty não respondeu. Dormiu.
Ou talvez apenas fingisse.
Lá fora, a noite avançava.
