Bem-vindos ao meu mundo de memórias perdidas
Postado por: Isaque | Sábado - 4 de fevereiro de 20XX
Bom dia! É mais um lindo dia de sol aqui em Vila Douravia!
Para quem está chegando por aqui agora, prazer! Eu me chamo Isaque, tenho 14 anos e sou um leitor de memórias — alguém que adora cheirar livros velhos, folhear páginas amareladas e ler histórias que estão além dos livros: as memórias dos seus antigos donos!
Neste blog, eu registro minhas descobertas sobre minha cidade e seus habitantes, visitando sebos e livrarias públicas em busca de histórias escondidas. Sou basicamente um arqueólogo de memórias perdidas, rs.
As pessoas da minha sala me acham estranho por gostar disso, mas eu não ligo.
Bem, estou saindo para uma nova caça. Caso eu descubra algo interessante, voltarei. Até o próximo post!
PUBLICAR?
PUBLICADO.
Últimas postagens:
0 visualizações…
0 visualizações…
…
Nada de novo por aqui… admito que pelo menos algumas visualizações me alegrariam. Que seja, eu não faço isso para ficar famoso, de todo jeito.
Termino de me arrumar, desço as escadas, me despeço da minha mãe e, antes de sair, faço carinho no meu cachorro. Normalmente, ele é meu parceiro de caça, mas, bem, talvez eu tenha mentido no meu post… não estou indo em nenhuma caçada, e sim, apenas para o meu trabalho.
Com meu tênis novo, cumprimento a rua de paralelepípedos enquanto corro até o sebo do velho Antônio, onde convenientemente trabalho meio período, ajudando a cuidar do lugar, já que ele está velho demais para dar conta de tudo sozinho.
Essa cidade é bem antiga, cercada de altas torres abandonadas. Gosto de subir nelas e ler enquanto observo o céu até escurecer. Eu diria que é quase meditativo.
Essa é uma cidade focada no comércio, então várias pessoas de fora vêm aqui, tornando-a um prato cheio para um leitor de memórias como eu — um alto fluxo de coisas de outros lugares vindo para cá, cheios de memórias e histórias.
Enquanto corro em direção ao sebo — quase tropeçando duas vezes — vou cumprimentando as pessoas na rua: a moça da barraca de fruta, os senhores que ficam jogando dominó na praça e até o vizinho chato que só cumprimenta as pessoas quando está bêbado. Por algum motivo, sempre me dei melhor com pessoas mais velhas — meu problema mesmo é com o pessoal da minha idade… Eu não tenho muitos amigos, para falar a verdade. Talvez seja por isso que faço o que faço: não há ninguém para me julgar e me chamar de estranho diretamente, me deixando livre para curiar a vida dos outros à vontade.
Enfim, cheguei no sebo — levemente atrasado, por isso corri. Me ajeito e arrumo meu cabelo bagunçado, respirando fundo para acalmar o coração pós-cárdio e, por fim, entro no mundo mágico das coisas usadas.
Cumprimento o velho Antônio e começo a limpeza pela sessão de CDs e discos. Admito não me interessar tanto por música, então os limpo rapidamente para poder ir logo aonde de fato quero ir: a sessão de livros.
Há vários livros por aqui, de vários gêneros e autores. Noto que tem alguns livros faltando desde a última vez que mexi por aqui, talvez tenha mais alguém vindo aqui quando não estou.
Aposto que esses tantos livros já passaram por várias mãos e que estão recheados de histórias diferentes. O que procuro hoje é algum livro bem velho: daqueles que já estão quase caindo aos pedaços, igual às torres que cercam esta cidade. Para minha felicidade, encontro um livro que bate com minha descrição, talvez não tão acabado — o que, pensando bem, é para o melhor. A julgar pelo título, parece ser um romance. Não sou muito fã de romances — aposto que consegues imaginar o motivo —, mas já que estou aqui, vamos dar uma conferida.
Abro o livro e sou surpreendido por uma mensagem na contracapa: parece ser uma dedicatória para alguém. A tinta é velha e é difícil de ler — a letra da pessoa que escreveu também não está ajudando —, mas, com um pouco de esforço, consigo desvendar a mensagem, e ela diz:
“Para Gabrielle,
Aposto que gostarás deste aqui. A história até lembra um pouco nós dois: a protagonista é gentil e imponente como tu, enquanto o cavalheiro é encrenqueiro e corajoso como eu. Ha, ha…
Se lembra do café que tomamos na padaria perto da estação? Precisamos ir lá novamente experimentar os pãezinhos recheados!
O que acha de nos encontrarmos por lá e depois darmos uma volta na pracinha ali perto hoje ao fim da tarde? Tem algo que quero lhe dizer…
Com carinho,
Pedro”
Uma mensagem de amor! Que belo achado!
Quando será que isso foi escrito? O que aconteceu? Será que…
Minha mente se enche de cenários e possíveis respostas. Minha curiosidade não me permite procurar por outros livros ou seguir em frente com o trabalho, então, me decido de que essa será a aventura de hoje.
Fecho o livro e o coloco debaixo do braço, indo até o velho Antônio perguntar de quem era este livro, numa tentativa de tentar coletar o máximo de informações possíveis.
— Ah, esse livro? Não lembro de pegá-lo com alguém, provavelmente só colocaram na caixinha de doações. Desculpe, garoto — responde o velho dono deste também velho sebo, quase cochilando em sua cadeira.
Droga, isso complica as coisas um pouco, mas, no fim, não é isso que eu busco? Desafios? Aventuras? Pois agora é minha missão saber que fim teve essa história e como está o provável casal hoje em dia!
Fico enrolando um pouco até o velho Antônio finalmente cair no sono, assim posso escapar. O primeiro passo do meu plano é passar pelos dois lugares citados no texto, mas, como o livro é antigo, é correto afirmar que talvez esses lugares não existam mais, além de que eles ficam perto do centro da cidade, lugar este que não costumo ir frequentemente.
Finalmente, o velho cai no sono e o tal arqueólogo aqui zarpa para explorar. Ao sair pela porta, abro o livro novamente para ler de novo a dedicatória e tentar descobrir para onde ir, porém, percebo uma garota — até que bonitinha — se aproximando. Ela parece estar inquieta enquanto caminha em direção ao sebo. Percebo que estou parado em frente à porta, então me afasto um pouco para o lado e volto a ler, entretanto, para minha surpresa, a garota para na minha frente, encarando o livro que estou lendo.
— Esse livro… é “Sonetos de um coração apaixonado”? — pergunta a garota para mim.
De repente, fico com vergonha, percebendo o quão estranho deve ser um garoto como eu lendo um livro como esse em público… o que será que ela vai pensar de mim?
— Ah, na verdade… — tento me explicar utilizando da melhor estratégia que um homem pode usar: honestidade.
— É que…
Porém, percebo que sou bom apenas em pensar, não em falar, então apenas viro o livro para ela ver a dedicatória.
— Oh! É o meu livro! — grita a garota, quase acordando o velho Antônio de seu senil sono lá dentro.
— O-o quê?! O livro é seu? — pergunto, surpreso e também com medo de que o velho tenha acordado.
— Sim! Quer dizer, ele era do meu primo, mas ele pediu para eu me livrar dele, então, decidi doá-lo aqui ontem, mas…
A garota parece excitante em continuar, então decido falar algo:
— Bem, eu achei muito interessante essa dedicatória escrita nele… — explico, envergonhado e com medo de ser zombado, como sempre sou.
— É por isso que estou aqui, na verdade — responde a garota, rindo. — Eu havia lido essa dedicatória e mesmo assim o doei, mas acabei me arrependendo. Me senti fascinada lendo uma mensagem tão bonita como essa e decidi que quero saber mais sobre esse possível casal e que fim eles levaram.
— Na verdade, eu só quero devolver o livro a eles... — diz a garota, como se estivesse com vergonha do que disse anteriormente. — Você deve achar que sou uma enxerida, né? — ela pergunta, rindo de nervoso.
— Nada disso! — respondo imediatamente. — Eu me sinto da mesma forma! Também quero saber mais sobre os dois! Na verdade, é o que mais quero, já que sou um leitor de memórias!
A garota fica surpresa, mas percebo que ela parece aliviada.
— Ah, acho que nem falei o meu nome… — Me dou conta da minha falta de modos e levanto minha mão. — Eu me chamo Isaque, eu trabalho aqui neste sebo, na verdade.
— Eu me chamo Clara, costumo vir aqui ler às vezes. — Com tais palavras, Clara aperta minha mão.
Após explicar brevemente meu passatempo excêntrico a ela, falo que não conheço os lugares descritos na dedicatória.
— Bem, eu me lembro de ter encontrado um mapa antigo da cidade aqui antes, então acho que sei onde fica a padaria citada.
— Você decorou o mapa? — pergunto, surpreso.
— Bem, sim… — ela ri.
Parece que, diferente de mim, que só se importa com a história por trás dos livros, Clara de fato os lê e absorve os conhecimentos. Se essa história fosse de outro gênero, aposto que seríamos rivais.
— Você está bem? — pergunta Clara, talvez percebendo que estou pensando demais.
— Ah, claro! — respondo de prontidão.
— Então vamos? — ela diz sorrindo.
Vamos? Nós vamos ir juntos?!