Capítulo 14 — Um Guerreiro Não Tem Medo
O Gobe voltou ao mundo com uma poção na boca e uma reclamação na ponta da língua, que é como eu sei que os gnomos não morrem de coisa nenhuma: morrem só por dentro, pra depois ressuscitar resmungando.
Foi a Freala que o trouxe de volta. Ela tinha vasculhado a mochila de couro que a gente carregava desde o templo dourado — a gente passou o que importava pra dentro do que dava pra levar nas costas — e separado os frascos em dois tipos. Um de cura, espesso e vermelho. O outro mais claro, fino, com um brilho azul dentro que se mexia sozinho quando a gente inclinava o vidro. O segundo era o que devolvia mana. Ela encostou o gargalo nos lábios do gnomo apagado, despejou devagar, e a cor dele voltou de um gole só.
Não foi o despertar suave dos doentes. Foi como acender uma lamparina — a chama prendeu, o rosto perdeu o tom de defunto, os olhos abriram de supetão, e a primeira coisa que o Gobe fez no seu retorno triunfal à vida foi tossir e dizer:
— Tem gosto de moeda velha.
— Você lambe moeda velha o suficiente pra saber?
— Eu sou gnomo. Eu lambo tudo o que é metal pelo menos uma vez. Ele se endireitou, ainda meio trêmulo, e apalpou o próprio peito como quem confere se trouxe a carteira. Mana de volta. Olha só. Eu ainda prefiro recuperar do jeito antigo, dormindo três dias numa estalagem com cerveja por perto, mas a gente faz com o que tem.
Eu olhei o frasco quase vazio na mão da Freala. Restauradores de mana não são lenda — qualquer aventureiro com prata no bolso já viu um, já comprou um, já xingou o preço de um. O problema é que prata no bolso e um balcão pra gastá-la ficaram lá em cima, no mundo que tem lojas. Aqui embaixo não há reposição: o que a gente tirou do templo é o que a gente tem, e cada frasco vale um dia que a Freala ou o Gobe não vão passar deitados se recompondo antes do combate seguinte. Não era milagre. Era estoque. E estoque, eu começava a entender, era o que decidia quem chegava de pé lá no fundo.
— Vai com calma nesses, eu disse. Quando acabarem, a gente volta a contar o tempo pelo sono de vocês.
— Eu sei contar meu próprio estoque, osso. Mas ela guardou o frasco usado com cuidado, e não rebateu mais. A Freala não desperdiça — nem mana, nem palavra.
*
Foi naquela parada que a coisa entre os dois começou.
Eu digo "a coisa" porque ninguém ali teve a coragem ou a falta de jeito de dar um nome. O Gobe estava recuperado e entediado, que é o estado natural dele e o mais perigoso, e a Freala estava com o ombro enfaixado do combate da véspera e a cabeça naquele bicho que a gente tinha derrubado — em tudo o que ela tinha jogado nele sem acertar.
— Me ensina, ela disse, do nada.
O Gobe, que equilibrava a moeda de prata no dorso dos dedos só pra ter o que fazer com as mãos, parou.
— Te ensinar o quê. A trapacear nos dados? Isso eu cobro.
— Aquilo. Ela fez um gesto com a mão sã, a mão se abrindo e o ar parecendo se fechar à frente dela. O que você fez no bicho. Eu joguei tudo o que tenho. Lufada, Lâmina. E nada do que eu sei fazer pega uma coisa que voa daquele jeito, porque tudo o que eu sei estoura num ponto, e o ponto é onde o bicho estava, não onde ele está. Você não escolheu um ponto. Você tomou o ar inteiro.
O Gobe largou a moeda. Quando ele larga a moeda, eu já aprendi, é porque a conversa virou séria.
— Quarto grau, ele disse, e a voz perdeu a graça de feira. Não é só mais forte. É outra natureza. A Bola é uma pedra que você arremessa e larga. O Rugido não. O Rugido você segura. A runa não fecha num nó só, ela fecha numa volta sobre si mesma, camada dentro de camada, e você sustenta a volta o tempo todo que o vento estiver soprando, senão ela desmancha na sua cara. Ele ergueu a mão e desenhou no ar — devagar, sem mana por trás, só o risco — metade da runa que tinha torcido na hora de derrubar o Alado. Assim. Sente como ela quer abrir? Você não deixa.
A Freala ergueu a própria mão e tentou copiar. A runa dela acendeu certa até a metade e abriu, soltou, esfarelou no ar como fumaça que o próprio fôlego desmancha.
— De novo, falou o Gobe, sem zombaria nenhuma agora. Eu tenho a forma e um dedal de mana pra enchê-la. Você tem mana de sobra e nunca precisou tecer a forma, porque sempre teve quem fizesse o trabalho graúdo no grupo. Agora não tem. Então aprende.
Ela tentou de novo. Abriu de novo.
Eu fiquei de lado, no breu, sem dizer nada, porque algumas coisas a gente estraga se comenta. O que o Gobe tinha era a técnica que faltava à Freala; o que a Freala tinha era a mana que faltava ao Gobe. Um cobria o buraco do outro, e nenhum dos dois ia admitir em voz alta que precisava do buraco coberto. Era um arranjo prático entre duas pessoas orgulhosas. Eu reconhecia a vantagem dele, porque tinha levado vinte níveis e uma garra a um palmo do peito pra aceitar a minha.
A Freala não acertou aquela noite. Nem na seguinte. Mas parou de soltar a runa antes da metade e começou a soltá-la depois da metade, e quem entende de aprender sabe que isso é quase tudo. O resto é só repetir até a mão lembrar.
*
A gente desceu.
E aqui eu preciso desfazer uma confusão, porque na noite da véspera a gente tinha feito justamente o contrário: pegado um desvio fundo pra contornar a estrada larga, pra fugir do Cavaleiro Alado que montava guarda nela. Então a pergunta é justa: por que, agora, a gente descia de volta na direção exata da coisa de que tinha fugido?
Porque o desvio não fugia da estrada. Só adiava o encontro com ela.
A Freala foi a primeira a dizer em voz alta o que o Quagô já lia pelas plantas dos pés: todo ramal que afundava acabava desaguando na mesma veia larga, mais cedo ou mais tarde, porque era a única que ia até o fundo. O desvio nos pouparia o trecho onde o Cavaleiro vigiava de pé firme — mas nos devolveria à estrada num ponto mais baixo, sem volta, com a colônia inteira fechando atrás. A gente podia escolher o caminho mais longo. Não podia escolher outro destino. Tudo o que desce passa por onde eles passam: era a frase do Quagô, e ela não tinha brecha.
O que mudou, na descida, não foi o caminho. Foram os Alados.
Porque agora eles vinham — e agora a gente dava conta deles.
O primeiro nos pegou num alargamento de túnel, o zumbido grave subindo pela pedra antes do corpo, o mesmo zumbido que dois encontros atrás tinha me gelado até a medula que eu não tenho. Desta vez eu não gelei. Eu tinha um método. O Quagô abriu, lançou o chicote e mordeu uma asa pra atrapalhar o voo; a Freala bateu uma Lufada por baixo da asa presa e desequilibrou a curva; o Gobe cortou a rota de subida com a Lâmina de Vento; e eu empilhei Flecha Negra no bicho cada vez que ele perdia velocidade, até afundar no próprio peso e a espada de adamante fazer o resto. Não foi fácil. Foi possível, que é uma palavra inteiramente nova num combate contra um Alado.
O segundo morreu mais depressa, porque a gente já sabia a dança. O terceiro eu peguei de emboscada, no meu jeito, colado numa parede sob o Manto enquanto ele varria o corredor procurando o cheiro que eu não tenho. Cada um deles, antes, teria sido a coisa mais perigosa do meu mundo. Agora eram degraus. Degraus que mordiam, que custavam PV e sustos, mas degraus — coisas que a gente subia em vez de coisas das quais a gente corria.
E em algum ponto daquela ladeira de combates curtos, no acúmulo paciente de muito Alado abatido sem alarme, a conta fechou.
[Você subiu de nível!]
Eu senti antes de ler — aquele formigamento que não tenho nervo pra sentir e sinto mesmo assim, o corpo se reorganizando por dentro como quem arruma os móveis de um cômodo no escuro. E logo atrás dele veio a coisa que eu vinha cheirando como um cão cheira uma porta fechada desde o dia em que pus os olhos na estrada larga e soube que ela tinha dono.
[Patamar de classe atingido.]
[Uma segunda Classe está disponível para seleção.]
Eu pedi um respiro ao grupo. A gente se enfiou numa reentrância de pedra, o Quagô de guarda na boca dela, e eu finalmente abri a tela que não via desde que era um esqueleto recém-saído da própria morte num esgoto.
*
A última vez que essa tela apareceu, eu escolhi entre três classes com a sofisticação de um menino diante de uma vitrine, e escolhi Mago porque uma parte burra e esperançosa de mim, a parte que tinha lido coisa demais antes de morrer, sonhava em apontar a mão, gritar uma palavra e ver o inimigo voar pela sala. Não saiu bem assim. Saiu Labareda que não rasga casca e flecha de fogo que faz cosquinha em inseto. A magia com que a gente sonha sempre chega menor do lado de cá.
Agora a vitrine reabriu.
[Listando classes compatíveis com o cenário atual]
✧ Escolha uma segunda Classe disponível ✧
✧ Guerreiro: combatentes versáteis, exímios no corpo a corpo, com proficiência em quase todos os tipos de armas e armaduras. Alta resistência, capazes de absorver muito dano. Infligem grandes quantidades de dano — inclusive dano mágico através de armas empunhadas. Podem especializar-se em armas de duas mãos para maximizar o dano. ✧
✧ Assassino: especialistas em furtividade e ataque de surpresa, mestres do golpe crítico contra pontos vitais. ✧
✧ Bárbaro [bloqueado] ✧
✧ Paladino [bloqueado] ✧
✧ Clérigo [bloqueado] ✧
✧ Ranger [bloqueado] ✧
As mesmas portas trancadas, e o sistema, fiel ao próprio mau humor, não me dava o motivo. Só o cadeado. Eu desconfiava do porquê — em algum canto de cada classe bloqueada morava uma palavra que eu não tenho, o tino, o faro, o sexto fio que liga um corpo vivo ao perigo antes de ele virar a esquina. Mas isso era suposição minha. O sistema não confirmava nada; ele nunca confirma nada que eu não pague pra descobrir.
Eu não estava olhando pras portas trancadas, de todo jeito. Eu estava olhando pra linha do Guerreiro, e rindo por dentro de um jeito que ossos não deveriam conseguir, porque a piada era boa demais.
Dano mágico através de armas empunhadas.
Guerreiro. O mago de capa que passou cinco níveis fugindo do corpo a corpo ia virar, pela porta dos fundos, exatamente a coisa que tinha recusado no esgoto. E não por ter mudado de sonho — por preguiça, porque eu empilhei Força em cada subida de nível com a indiferença de quem distribui pontos sem ler a planilha, e agora carregava uma Força que mago nenhum teria, gorda, ociosa, esperando há tempo demais por uma classe que soubesse o que fazer com ela.
O Assassino era a outra porta aberta, e por um instante a parte de mim que vive no breu se interessou. Mas Assassino afia o que eu já sou; Guerreiro me dá o que me falta. E o que me faltava, em toda noite que a espada quase me matou de tão mal segurada, era saber empunhar a coisa.
Guerreiro, eu pensei, e o sistema entendeu como sempre entende.
[Multiclasse confirmada: Mago / Guerreiro.]
✧ Parabéns, Aventureiro. Você é agora um multiclasse: Mago e Guerreiro. Proficiência plena em armas e armaduras concedida. Você está apto a canalizar dano mágico através das armas que empunha. ✧
Eu li a frase do meio duas vezes. Canalizar dano mágico através das armas que empunha. E soube, antes de tocar em qualquer aço, o que aquilo destravava.
Mas o sistema ainda tinha um presente — o de sempre, o único que ele nunca esquece. Vinte é múltiplo de cinco.
[Ponto de Magia recebido.]
Um ponto. E a velha pergunta de onde gastá-lo voltou já respondida, porque a véspera tinha me ensinado e a Freala errando a runa do Gobe a noite inteira tinha sublinhado: não adianta colecionar caminhos pela metade. Eu tinha Trevas em dois. A Flecha Negra, o Manto, tudo o que eu sou de verdade morava ali — não no fogo que eu fingi querer, não na água que eu só uso pra finalizar. Trevas era o breu que era a minha casa desde o sétimo dia.
Aprofundar, pensei. E gastei o ponto.
[Caminho da Magia: Trevas — Focus 2 → 3.]
*
A primeira coisa que eu fiz com a classe nova foi a coisa que tinha me humilhado no templo.
A lança comum viajava comigo desde o templo dourado como peso morto com pretensões. Eu a carregava porque tinha visto, gravada num relevo de ouro, uma técnica: uma arma e, correndo por ela, fios de sombra entregues na carne a cada golpe. Eu tentei executá-la na hora, com a arrogância de quem acha que entender é o mesmo que poder, e o sistema cuspiu na minha cara uma falha.
Agora eu firmei a lança. Chamei a Flecha Negra — o meu breu de sempre, o que rouba vigor — e em vez de soltá-la no ar, empurrei pra dentro da arma. Pedi que corresse pela madeira e ficasse na ponta, esperando, em vez de voar.
A sombra obedeceu. Escorreu pela haste como tinta encontrando o sulco pra onde sempre quis ir e se juntou na lâmina numa franja escura que não iluminava nada e parecia, ainda assim, mais funda que o breu em volta.
[Técnica adquirida: 《Imbuir》.]
E aí, por curiosidade — porque o sistema dizia armas, no plural, não lança — eu fiz o mesmo com a espada de adamante. Passei a Flecha Negra pra dentro do aço, e a lâmina negro-esverdeada bebeu a sombra como tinha bebido tudo o que eu já pedi a ela. Não era uma técnica de lança. Era uma técnica de braço. Qualquer coisa que eu empunhasse virava agulha pro meu veneno preferido.
Aquilo mudava a única regra que me limitava. A Flecha Negra precisa de tempo e de um alvo que aceite ficar parado pra empilhar; foi por isso que ela errou o ar contra um Alado veloz. Mas o 《Imbuir》 não atira. Ele crava o debuff na carne, de perto, a cada toque, de dentro do combate. Eu não precisava mais que o inimigo ficasse parado pra mim. Eu ia até ele e enterrava o vigor roubado na ponta da arma, golpe após golpe, e como eu repito sem cansar e sem esvaziar, podia enterrar a noite inteira.
— Você está sorrindo, observou o Gobe, desconfiado. Você não tem com o que sorrir. Você não tem lábio.
— Estou sorrindo por dentro. É pior. Não para nunca.
*
Os esquadrões vieram quando a gente já estava perto da estrada, e vieram em número, porque a Colônia finalmente entendeu que tinha um problema descendo pelas próprias veias e mandou gente o bastante pra resolver de uma vez.
Não foi um Alado. Foram quatro, com um par de Guardiões fechando o corredor atrás, e pela primeira vez em muito tempo eu senti o velho frio da conta que não fecha: braços demais, asas demais, garras demais pra um saco de ossos com a espada de um lado e a lança do outro. O Manto não esconde de quatro pares de antenas convergindo. O grupo se fechou nas minhas costas, e eu tive uma fração de instante pra decidir entre recuar e morrer cansado ou tentar a coisa que eu acabara de comprar e nunca tinha tecido.
Trevas três. A porta nova, com uma forma do outro lado dela que eu sentia sem saber desenhar — não uma flecha, não um manto, mas sombra que queria ser muitos. Eu não tinha tempo de aprender direito. Então fiz como sempre fiz as minhas magias: imaginei o efeito com toda a clareza do desespero, empurrei a mana atrás da imagem, e deixei o sistema decidir se eu tinha grau pra aquilo.
A sombra subiu do chão atrás de mim em braços.
Membros longos e feitos de breu sólido que brotaram do meu próprio Manto como galhos de uma árvore de noite, cada um com a vontade da minha mão, cada um carregando o mesmo veneno frio da Flecha Negra na ponta. Onde encostavam, roubavam vigor. Não feriam; pesavam. Um Alado mergulhou e três braços o agarraram pelas asas no ar e o seguraram lento, pesado, enquanto eu cravava a lança imbuída no peito dele e empilhava o debuff de dentro. Outro tentou subir e dois braços fecharam na pata e o trouxeram de volta. Os Guardiões avançaram e os braços os encontraram primeiro, prendendo, afundando, deixando-os moles o suficiente pra Freala travar uma junta com Gelo e o Gobe rachar a placa congelada.
[Magia adquirida: 《Garras da Sombra》.]
[Você derrotou: Alado Isopteriano.] ×4
[Você derrotou: Guardião Isopteriano.] ×2
Eu fiquei no meio do corredor, cercado de coisa morta, os braços de noite saindo das minhas costas e nenhum deles cansado, porque sombra não cansa e eu menos ainda. Pela primeira vez desde que cheguei a este mundo, o problema de enfrentar muitos de uma vez tinha deixado de ser "como eu sobrevivo a isto" e virado "quantos de cada vez". Era uma sensação nova. Eu não ia mentir e dizer que não gostei dela.
— Não sei o que você fez, disse a Freala, baixo, olhando os braços recolherem pro breu de onde vieram, mas a colônia inteira sentiu. A gente não tem mais o luxo de ir devagar.
Ela tinha razão. E a estrada larga estava logo à frente.
*
A estrada se anunciou pelo teto — uma galeria tão alta que a Visão Noturna se perdia antes de achá-lo, paredes lisas riscadas por sulcos horizontais a uma altura que nenhum bicho do meu tamanho deixaria, chão largo o bastante pra marchar um exército. E no meio dela, parado, o dono.
Eu já tinha visto o Cavaleiro Alado uma vez, de longe, no dia em que a gente recuou sem lutar. De perto, parado na própria estrada, ele era um Alado do jeito que uma catedral é uma casa. A mesma quitina dourada de filigrana, mas grossa, em camadas, ornamentada — a carapaça se erguia sobre os ombros em placas como ombreiras forjadas, fechava em torno da cabeça num elmo natural de onde subiam chifres longos e curvos, encaixados como uma coroa que ninguém pôs ali. Ele se sustentava nas patas traseiras, ereto, e a metade de cima do corpo se levantava sobre a de baixo com a postura de um homem de armadura. Eu entendi, ali, por que o Quagô jurava ter ouvido falar de um cavaleiro montado num bicho: de longe, no escuro, quem não soubesse veria dois — a fera embaixo e o senhor em cima. Era um só. Uma cauda segmentada repousava atrás dele como a de um escorpião em paz, e as asas recolhidas iam do teto invisível até quase o chão.
Ele não arrancou pra cima da gente como os Alados, com fome. Virou a cabeça coroada na nossa direção com a lentidão de quem tem todo o tempo do mundo, e quando falou — porque ele falou, e isso por si só me disse que casta nova era essa — não foi o coro de "nós, o corpo" dos Soldados. Foi mais perto de um eu.
— O corpo conhece tudo o que desce, disse a vibração, e o Babel a verteu na minha cabeça com um peso de tédio antigo. Menos você. O corpo não te cheira. O corpo não lembra de ter te comido, e o corpo come tudo, uma vez. A cabeça inclinou. Desça, então, coisa que não morre direito. Ela está acordada. E Ela tem curiosidade pelo que a morte cospe de volta.
Eu não respondi. Eu não falo, e mesmo que falasse não daria a ele a satisfação de saber que a palavra Ela tinha descido pela minha espinha como água gelada.
Em vez disso, ele abriu a couraça do abdômen — uma fresta entre as placas baixas — e o ar mudou.
Não foi ataque que eu pudesse ver. Foi alguma coisa que se derramou da fresta e encheu a estrada inteira, uma baforada que eu registrei sem nariz, do mesmo jeito esquisito com que registro tudo. E nos vivos, fez o que veio fazer. A Freala parou de respirar direito. O Quagô — o sapo que pusera o corpo na frente de um leque de espinhos sem piscar — recuou dois passos com os olhos arregalados, as plantas dos pés raspando a pedra pra trás como se a vontade dele e as pernas dele tivessem deixado de se conhecer. E o Gobe vergou, as mãos subindo pra cobrir a cabeça, um lamento fino saindo dele numa língua que nem o Babel quis traduzir, porque não era palavra, era medo virado som.
[Toxina aérea de pânico detectada.]
[Imune: sistema nervoso ausente.]
Eu li a segunda linha e quase ri, e o quase-rir foi o que me salvou, porque me lembrou exatamente o que eu sou.
Eu não tenho a química do medo. Não tenho a glândula que aperta, o sangue que gela, o nervo que dispara. O Cavaleiro Alado tinha aberto contra nós a arma que quebra grupos antes do combate — o terror destilado, a coisa que faz presa virar carne paralisada antes da primeira garra — e soprou sobre quatro alvos, e três viraram estátuas de pavor. O quarto era feito de osso e rancor, e o pavor não tinha onde grudar.
*
Foi a primeira vez, nesta vida absurda, que o medo dos outros me deixou de pé sozinho — e não pra fugir, pra ficar.
ESCUTEM A MINHA VOZ. Joguei a transmissão na cabeça dos três com tudo o que tinha, dura, alta. Não é de verdade. Está vindo do bicho. É um cheiro, é uma arma, ele está mentindo pra dentro de vocês. Vocês não estão com medo. Vocês estão sendo envenenados de medo. Não é a mesma coisa.
A Freala foi a primeira a achar o próprio rosto de novo — não porque seja melhor que os outros, mas porque maga passa a vida separando a própria vontade da magia que entra sem licença, e a minha voz deu a ela a alça pra se puxar pra fora. Travou os dentes, agarrou o cajado, respirou feio. — Estou aqui, disse, mais pra si do que pra mim.
O Quagô voltou pela vergonha, que às vezes é mais forte que a coragem. — O Coaxante não recua duas vezes na mesma semana, coaxou, fino, plantando os pés. Mesmo querendo muito.
O Gobe foi o último, e voltou do meu jeito, pela piada. — Se eu morrer de medo, eu te assombro, osso. Vou ser o fantasma de um fantasma. Vai confundir todo mundo.
— Levanta, gnomo. Você ainda me deve o assombro de pé.
E o Cavaleiro Alado, que soprara o pânico esperando ver quatro presas se desmancharem, viu três se reerguerem em torno de um quarto que nunca tremeu. A cabeça coroada inclinou, e a avaliação dele perdeu o tédio. Não ganhou medo — coisa daquele andar não teme coisa do meu. Ganhou atenção. A atenção que um predador velho dá ao detalhe errado na paisagem.
Aí ele veio.
*
Não foi o mergulho-relâmpago dos Alados; ele era grande demais pra aquela velocidade, e não precisava dela. Veio num bater de asas pesado que levantou vento quente e empurrou a poeira da estrada contra a gente, atravessou meia galeria num arranque e desceu a garra — longa, articulada, do tamanho do meu antebraço inteiro — num golpe que teria me partido se eu fosse a coisa frágil que ele achou que eu era.
Eu não esquivei como mago. Esquivei como a coisa nova, e a coisa nova já tinha a espada na mão, porque eu não largo mais a arma na descida — Guerreiro não anda desarmado entre dois combates. A garra raspou meu antebraço erguido, e a resistência da classe nova fez a única coisa pequena e decisiva que sabe fazer: o golpe que teria estourado o osso só o fez doer, aquela dor que não tenho carne pra sentir e sinto assim mesmo, e eu continuei de pé.
[Dano recebido. PV: 180 → 167.]
Treze, pelo mesmo tipo de pancada que um Alado me cobrou em trinta e um, dois encontros atrás. Eu quase agradeci ao burocrata invisível.
E então fiz o que vinha aprendendo a fazer: não tentei vencer sozinho, mas também não fui só quem arma a jogada pros outros. Entrei na jogada.
Prendam o que der, transmiti, já me movendo. Eu fico de perto. Eu aguento de perto agora. — frase que soava estranha até na minha própria cabeça, vinda de quem construiu uma classe inteira em torno de não deixar nada tocá-lo.
As Garras da Sombra subiram do meu Manto e foram ao encontro das asas, prendendo, pesando — e a couraça do Cavaleiro era grossa demais pra eles afundarem o bicho sozinhos, mas seguraram um batimento, e um batimento bastou pro Quagô morder uma asa com o gancho do chicote e pra Freala bater uma Lufada por baixo dela. O Cavaleiro pendeu. Não caiu; pendeu — o suficiente pra trazer a metade coroada do corpo pra baixo da minha altura por um segundo.
Um segundo era tudo. A lança imbuída cravou na fresta entre uma ombreira e o pescoço — não porque eu achei a fresta com perícia, mas porque a Força bruta enfiou a ponta onde eu mandei — e a sombra escorreu da lâmina pra dentro dele, uma Flecha Negra inteira à queima-roupa. O bicho recuou com um estalo de placas, e eu senti o vigor dele descer um degrau. As asas ficaram um tiquinho mais lentas. A garra seguinte veio um tiquinho mais pesada. Cravei de novo. E de novo. Cada toque da arma empilhava sobre o anterior, e o breu que rouba vigor não liga se chega pelo ar ou pelo aço — só precisa chegar.
O Cavaleiro Alado entendeu, do jeito que essas coisas pensantes entendem, que estava ficando mais lento e que a lentidão vinha de mim. E fez o que qualquer guerreiro acuado faz: parou de me tratar como presa e passou a me tratar como o problema. Virou todo o peso coroado pra cima de mim, as duas garras à frente, num abraço de lâminas que ia me fechar no meio da estrada e me reduzir ao que sou por baixo do rancor — ossos soltos.
E aí cometeu o erro que eu esperava sem saber que esperava. Aproximou-se demais de um mago que não foge.
Eu já estava por baixo das garras, dentro do alcance, na zona morta que a véspera inteira me ensinou a achar, a espada de adamante curta na mão — não largo, não aberto, não como nos filmes de uma vida que não existe mais, mas fechado, econômico, os pés onde o Guerreiro planta os pés e o Mago nunca soube plantar. Passei o que sobrava de breu pra dentro do aço e subi a lâmina.
Ela não procurou fresta. Não precisa. O Cavaleiro Alado tinha a couraça mais grossa que eu já encarei, camadas de quitina dourada sobrepostas como o casco de um navio de guerra — e a lâmina negro-esverdeada entrou nela como entra em tudo, como se a couraça fosse uma opinião e a espada um fato. Subiu pela junção do peito com a garganta, atravessou a coroa de placas por dentro, e o vigor que o 《Imbuir》 já tinha afundado não deixou o bicho fazer a única coisa que ainda podia salvá-lo: ser rápido.
A cabeça coroada de chifres tombou pra trás, devagar, como uma coroa pesada demais pro pescoço que a carregava.
[Você derrotou: Cavaleiro Alado Isopteriano.]
[Você subiu de nível!]
O corpo enorme desabou de lado na própria estrada, e o estrondo rolou pela galeria de teto invisível e voltou em eco, e por um instante longo a única coisa que se ouviu no Fosso inteiro foi aquele eco perguntando, parede a parede, se era mesmo verdade.
Era.
*
A gente ficou parado em volta da coisa morta como quem não confia que ela parou de se mexer. O Quagô recolhia o chicote, conferindo o gancho com a praticidade de quem calcula o conserto antes de comemorar. O Gobe sentou no chão, encostou as costas no flanco frio do bicho com uma intimidade desrespeitosa e tirou a garrafa de vinho do Império Rubro de dentro da roupa.
— A um cheiro de medo que não pegou, brindou, bebeu, fez careta, bebeu de novo. Você sabe que aquilo me fez chorar? Eu, Gobe, chorei. Por um inseto. Nunca vou me perdoar.
— Eu vi. Vou guardar pra sempre.
— Eu sei que vai. É por isso que eu te odeio. Mas não tinha ódio nenhum ali. Tinha o alívio molhado de quem ainda está vivo e descobriu que isso é, no fim, a única coisa que sempre quis.
A Freala ajoelhou ao lado do bicho e olhou a fresta no abdômen de onde o terror tinha saído, fixando na memória pra entender depois.
— Saiu do corpo dele, como cheiro sai de flor, disse, baixo. Cada degrau que a gente desce, eles têm um truque que não é magia nem músculo. O outro cuspia espinhos. Este envenena o ar com medo. Ela me olhou. O que será que o próximo tem?
Eu não tinha resposta. Guardei a pergunta, porque era a certa. E porque havia uma palavra que aquele bicho tinha cuspido antes de morrer — Ela está acordada — e a Freala, que não ouviu vibração nenhuma, tinha chegado à beira da mesma sombra só de olhar pra estrada que descia.
*
Eu só abri a tela quando os outros pararam de me olhar.
★★★
Nome: Thasjo Gênero: Masculino
Estado: Normal Rank: H
Tipo: Esqueleto / Morto-vivo
Classe: Mago / Guerreiro
Nível: 21 Título: «Predador Paciente»
──────────────────────────────
PV: 180/180 Força: 52
MP: 1.000/1.000 Agilidade: 41
Dano: 9,3 Vitalidade: 36
Defesa: 4,2 Sentidos: 1 [bloqueado]
Inteligência: 1 [x200]
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Pontos de Status: 0 Pontos de Magia: 0
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✧ Habilidades Especiais ✧
[Ressurreição Lv 1] [Visão Noturna Lv 1]
['O Conhecimento de Babel'] [Telepatia]
[Compreensão de Runas] ['Jera - A Runa de Odin' 1/1]
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✧ Habilidades Mágicas ✧
Magias: 《Labareda》《Agulha de Água》《Véu de Sombras》
《Manto de Sombras》《Flecha de Fogo》《Flecha Negra》
《Garras da Sombra》
Técnica: 《Imbuir》
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Caminhos da Magia
Terra: 0/10 Luz: 0/10
Água: 1/10 Trevas: 3/10
Fogo: 1/10 Vácuo: 0/?
Ar: 0/10 Éter: 0/?
★★★
Mago / Guerreiro. Eu li a linha da classe três vezes, e nas três ela continuou ali, do jeito que as coisas verdadeiras teimam em continuar quando a gente confere. O mago de capa que esquivava de tudo agora tinha aço na mão e sabia segurá-lo, e a Força que eu empilhei por preguiça ao longo de vinte e um níveis finalmente tinha uma razão de existir.
Vinte e um. Mais seis pontos na velha divisão preguiçosa — um tanto pra bater, um tanto pra correr, um tanto pra não morrer. Eu olhei a distribuição eternamente igual e, pela primeira vez, não me peguei querendo mudá-la. Não porque a build fosse perfeita. Porque eu tinha finalmente entendido onde o meu poder de verdade estava, e não era num número de atributo. Estava na sombra que eu aprofundei até ela virar muitos braços. Estava na arma que eu aprendi a imbuir. Estava nas três pessoas cansadas ao meu lado, que o medo daquele bicho não conseguiu arrancar de mim.
Eu passei a primeira metade desta vida convencido de que precisava ficar forte o bastante pra nunca mais depender de ninguém. E aqui estava eu, num corredor de teto invisível, ao lado de um sapo, uma maga e um gnomo bêbado, sabendo que tinha sido o oposto disso que me manteve inteiro. Forte o bastante eu nunca vou ser. Mas talvez nunca tenha sido essa a conta certa. Talvez a conta certa fosse só não estar sozinho na hora em que a força não bastasse.
Eu fechei a tela.
*
A estrada larga continuava à frente, mas agora estava vazia. O dono dela jazia de lado, com a coroa torta, e entre a gente e o fundo do Fosso não havia mais ninguém da minha medida.
E foi essa a parte que demorou a assentar. Porque "ninguém da minha medida" não é o mesmo que "ninguém". O Quagô tinha falado, lá em cima, de sulcos no chão que tremem quando as coisas maiores se mexem — de bichos do tamanho de uma câmara que atravessam pedra e fazem o teto chover. A estrada do Cavaleiro Alado não era o último degrau. Era só o último degrau que ainda tinha cara de inimigo do meu tamanho. Embaixo dela, a escada continuava, e o próximo degrau não ia ter coroa de chifres nem cheiro de medo. Ia ter o peso do chão se mexendo. E, em algum lugar mais fundo que tudo isso, uma palavra que um moribundo de quitina dourada tinha cuspido na minha cabeça antes de tombar. Ela.
Mas isso era embaixo. Por agora, a estrada estava livre, e os quatro de nós estávamos vivos sobre ela, machucados e cansados e ridículos — um sapo remendando um chicote feito de inimigos mortos, uma maga aprendendo a torcer o vento com um gnomo bêbado de vinho roubado, e um esqueleto que finalmente tinha uma classe que sabia usar a própria Força e nem por isso era menos canhão de vidro.
Eu amarrei a lança nas costas, guardei a espada onde a mão a alcançasse depressa, e desci o primeiro passo do degrau seguinte. Na frente, desta vez. Porque um Guerreiro vai na frente — mesmo um Guerreiro feito de osso, mesmo um que ainda tem medo de tudo o que o espera lá embaixo. A diferença é que medo, agora, era a única coisa que aquele bicho não conseguiu me dar. Os vivos tremeram e seguiram assim mesmo. Eu não tremi, e segui pelo mesmo motivo que eles: porque atrás de mim havia gente que valia a pena não deixar pra trás.
Atrás de mim, o Fosso continuava descendo. E pela primeira vez eu desci com ele sem a sensação de estar caindo.