Capítulo 15 — O Que Pesa
A estrada larga descia como uma garganta que tivesse parado de engolir só pra ver quem entrava por vontade própria.
Eu ia na frente. Já tinha dito que ia, no fim do dia anterior, e dizer foi a parte fácil; a parte difícil era continuar dizendo a cada curva, com o corpo, contra todo o instinto de mago que passou cinco níveis convencido de que a primeira fila era onde os outros morriam pra ele não morrer. Mas Guerreiro vai na frente, e eu era metade disso agora, então eu descia com a espada de adamante solta na mão e a lança amarrada nas costas, e deixava que a galeria me visse primeiro.
Ela era enorme do jeito que coisas feitas por muitos são enormes — não construída, escavada, alargada por séculos de corpos passando até a pedra ceder e virar caminho. Os sulcos horizontais nas paredes subiam mais alto do que a minha Visão Noturna alcançava, e eu já sabia, desde o dia em que recuei dela, que aquilo não eram marcas de erosão. Eram trilhas de passagem. Coisas grandes o bastante pra deixar risco na rocha andavam ali, e andavam lado a lado.
— Para de olhar pra cima, disse o Gobe, atrás de mim, com a voz baixa que ele usa quando está com medo e não admite. Você não tem pescoço de sobra pra desperdiçar torcendo ele.
— Estou medindo o teto.
— Por quê? Você planeja cair pra cima?
— Estou medindo o tamanho do que cabe aqui dentro.
Ele não respondeu, e o silêncio dele foi a resposta. A gente vinha descendo havia o que a Freala media em dois sonos e eu media em nada, e a cada degrau de profundidade a estrada ficava mais larga, o ar mais parado, mais carregado de uma doçura podre que não era de morte. Era de vida. Vida demais, junta demais, respirando o mesmo ar fechado havia tempo demais.
A gente estava chegando em algum lugar. Eu não sabia o nome dele. Sabia só que era pra baixo, e que tudo, no Fosso, que é pra baixo é pior.
*
A Colônia descobriu que tinha um problema, e a Colônia respondeu como um corpo responde a um espinho: mandou tudo o que tinha pro lugar onde doía. E o que ela tinha, naquela altura da estrada, voava.
Os Alados vieram em bando, não mais um voador solitário e veloz como o que quase me matou lá atrás, mas seis, oito de uma vez, enchendo a galeria de zumbido grave e quitina dourada, descendo de cima e dos lados na vantagem que o céu fechado de pedra ainda deixava pra quem tinha asa.
As Garras da Sombra resolveram a metade do problema. Subiram do meu Manto em seis, sete braços de breu, e onde a Flecha Negra precisava de um alvo parado pra empilhar, as Garras não pediam licença: agarravam a asa no ar, prendiam a pata, seguravam o voador num lugar do céu que ele não tinha escolhido. Mas prender não é matar, e a quitina dourada do corpo era casca dura — a espada resolvia um de cada vez, e um de cada vez era devagar demais pra um bando.
Foi com a Labareda que eu achei a brecha.
A Labareda sempre foi o meu fogo. A primeira magia que esse mundo me deu, a que eu sustentei no escuro de um estômago até cozinhar um basilisco de dentro pra fora — um jato contínuo, teimoso, que não rasga casca nenhuma mas não desiste, que fica no mesmo ponto até a coisa sob a casca ceder. Eu a soltei num Alado que as Garras me prendiam, mirando o corpo por hábito, e o fogo escorreu da couraça dourada como sempre escorre. Mas a língua de chama passou de raspão pela asa — e a asa encolheu.
Eu parei o jato e olhei. A quitina do corpo é casca, placa, casco de navio; o fogo não a morde. Mas a asa não é casca. A asa é membrana — fina, esticada, viva, a única parte daquele tanque que precisa ser leve pra servir. E o que é leve, queima. Eu virei a Labareda direto pra a membrana esticada e a chama a comeu como brasa atravessa pano, e o Alado — couraça intacta, corpo inteiro — despencou do céu sem nada pra remá-lo.
— A asa, eu transmiti pro grupo. Esquece a casca. Queima a asa.
A Freala entendeu antes de eu terminar, e fez o que eu não podia. A Labareda é um jato curto; eu tenho que estar em cima do bicho, segurando-o, pra alcançar. Ela tinha fogo de longe. Ergueu a mão e cuspiu chama concentrada na asa de um Alado a meia galeria de distância — um dardo de fogo fechado, perfurante, nada parecido com a brasa espalhada que eu conhecia — e a membrana rasgou de borda a borda, e o voador caiu girando. Ela mirava onde eu tinha mandado mirar, mas chegava onde eu não chegava.
Eu quis fazer o mesmo. Tenho fogo de longe também — a Flecha de Fogo, a que a Freala me ensinou eras atrás. Soltei uma na asa do Alado seguinte, com a certeza de quem finalmente entendeu a piada.
A asa chamuscou. Fumegou na borda, encolheu um triz — e o bicho continuou voando.
Porque a minha Flecha de Fogo é o que sempre foi: rasa, aberta, fagulha que se espalha em leque e morre antes de morder. Contra a casca não fazia nada; contra a membrana fazia quase nada. O fogo não era o problema. O problema era a forma do meu fogo — solta, sem ponta. A Freala derrubava voador atrás de voador com uma lança de chama enquanto eu chamuscava asa com um punhado de fagulhas e xingava por dentro.
[Você subiu de nível!]
A cada bando abatido, um degrau. Eu sentia subir e não parava pra ler — parar pra ler no meio de um esquadrão é como parar pra contar moeda no meio de um assalto —, mas sentia, e sabia, com a clareza nova que a Freala tinha acendido sem dizer uma palavra, exatamente o que eu ia fazer com o próximo presente que esse mundo me devesse.
Ele chegou no fim de um bando grande, quando a conta enfim fechou o degrau inteiro.
[Você subiu de nível!]
[Ponto de Magia recebido.]
Vinte e cinco. E eu não precisei de um instante pra decidir, porque a tarde inteira de Alados despencando tinha decidido por mim. Não Trevas — Trevas já estava onde eu precisava. Fogo.
Fogo, pensei, e empurrei o ponto pra dentro do caminho que eu vinha desprezando desde o primeiro dia.
[Caminho da Magia: Fogo — Focus 1 → 2.]
A porta abriu na hora, e eu senti a forma do outro lado dela — não a flecha que se abre em leque, mas algo fechado, apertado, com ponta. A forma que perfura. Peguei o Alado seguinte e, em vez de espalhar o fogo, juntei tudo num só ponto, denso até doer de olhar, e o cravei na asa esticada do bicho.
[Magia adquirida: 《Lança de Fogo》.]
A asa não chamuscou. Deixou de existir no rasgo onde a lança entrou, um furo limpo e fumegante de borda a borda, e o Alado caiu girando. A mesma chama, a mesma mão — só que concentrada onde antes se espalhava. Flecha vira lança. Aberto vira ponta. O que arranhava passa a furar.
E foi olhando aquele furo que a outra metade da ideia me acertou, tão óbvia que eu quase ri da minha própria burrice.
A Flecha Negra. A minha estrela, o breu que rouba vigor, a coisa que eu repito sem cansar até o inimigo afundar no próprio peso. Eu a usava desde sempre na forma de flecha — grau um, a primeira, a que se espalha na superfície e precisa empilhar dez vezes pra valer uma. Eu nunca tinha pensado em fazer com ela o que o fogo acabara de me ensinar a fazer, porque a Flecha empilhável era boa demais pra eu querer outra coisa. Mas eu estava em Trevas três. A forma de lança morava dois degraus abaixo do que eu já tinha, esperando havia tempo, e eu nunca tinha esticado a mão pra pegá-la.
Estiquei agora. Imaginei a Flecha Negra deixando de se abrir em leque na casca e virando ponta — concentrada, fechada, perfurante, o breu inteiro num só fio que atravessa a quitina em vez de lamber a superfície dela.
[Magia adquirida: 《Lança Negra》.]
Ela saiu da minha mão como um prego de noite e entrou na couraça dourada de um Alado onde a Flecha Negra teria escorregado, atravessou a casca e despejou o roubo de vigor lá dentro, na carne, de uma vez — não dez arranhões somados devagar, mas um talho fundo que tirou de uma estocada o que a flecha levava uma dúzia pra tirar. O bicho pesou no ar, lento de repente, e caiu.
Eu fiquei com as duas lanças na cabeça, a de fogo e a de breu, uma em cada lado da mesma lição, e por um instante esqueci que estava no meio de uma matança. A Freala tinha me dado de presente, sem saber, a forma que faltava aos meus dois caminhos. Eu só tinha levado a tarde inteira pra entender que estava numa aula.
— Demorou, ela disse, ofegante, derrubando outro Alado com uma lança de chama na asa.
— Eu estava olhando. Só levei um tempo pra perceber que estava aprendendo.
*
Foi entre um esquadrão e o seguinte, numa reentrância que a gente usou pra deixar os vivos respirarem, que a Freala chegou perto da outra coisa — a que ela ainda não tinha.
Ela vinha treinando desde a noite em que pediu pro Gobe ensinar, e treinar, pra ela, era um trabalho calado e teimoso que ela fazia nos vãos. Erguia a mão no escuro e tentava torcer a runa do Rugido — aquela que não fecha num nó só, que se enrola sobre si mesma, camada dentro de camada, e desmancha na cara de quem não a sustenta. Eu já tinha visto ela soltá-la antes da metade, depois soltá-la depois da metade, e agora, naquela reentrância, eu a vi fazer uma coisa diferente.
Ela não estava torcendo a runa. Estava só com a mão aberta, parada, sentindo o ar.
— Que que você está fazendo, perguntou o Gobe, desconfiado. Isso não é treino. Isso é gente parada com a mão pra fora feito quem espera chuva.
— Estou escutando, ela disse.
— Escutando o quê. Aqui embaixo não tem o que escutar.
— O vento. Ela fechou a mão devagar, e o ar parado da reentrância se mexeu junto com os dedos dela — pouco, um sopro, mas se mexeu. Antes eu pegava o ar e mandava. Lufada, Lâmina. Eu pegava e mandava, e ele ia porque eu tinha mana pra obrigar. Agora ele vem antes de eu mandar. Como se tivesse começado a me escutar de volta.
O Gobe parou de equilibrar a moeda. Quando ele para de equilibrar a moeda, a conversa virou séria, eu já aprendi.
— Isso é afinidade, ele disse, e a voz dele perdeu a feira. Não é técnica, não é mana. É o caminho te reconhecendo.
— Quanto tempo leva?
— Não tem "quanto tempo". Esse é o erro que todo aprendiz comete. Ele cruzou os braços. Cada um tem o seu próprio relógio nessa parte. Tem mago que leva quarenta anos e morre no Ar de berço sem nunca ouvir o vento responder. Tem outro que apanha numa estação. Não dá pra comparar, porque não é uma corrida contra os outros — é o caminho decidindo, no tempo dele com você, que você parou de ser estranho. Ele apontou o queixo na minha direção, no breu. Olha o osso. Faz pouco ele empurrava as Trevas como quem empurra um móvel pesado, e de repente as sombras viraram braços que sabem a vontade da mão dele sem ele desenhar. Ninguém marcou a data. Aconteceu quando tinha que acontecer pra ele. Vai acontecer quando tiver que acontecer pra você.
Eu fiquei de lado, no breu, e não disse nada, porque algumas coisas a gente estraga se comenta. Mas por dentro eu tropecei numa ideia, daquele jeito que a gente tropeça nas óbvias tarde demais: era a mesma coisa que os pontos. Eu subia o Focus de um caminho e a forma nova se abria, mecânica, marcada, um degrau por ponto gasto. O que o Gobe descrevia era o mesmo movimento sem o sistema do meio — a afinidade era o Focus dos vivos, o jeito que eles tinham de aprofundar um caminho sem uma tela contando pra eles. Só que o deles não vinha numerado. Vinha quando vinha.
— Vai dar certo, eu transmiti, só pra ela.
— Você não sabe disso.
— Não sei. Mas eu vi você sair de soltar a runa antes da metade pra soltar depois. Quem aprende assim não para no meio.
Ela não respondeu. Mas a mão dela continuou aberta mais um instante, escutando, e quando fechou de novo, o sopro veio mais cheio.
*
Ele estava esperando numa parte da estrada onde o chão se abria num largo, como se a galeria tivesse respirado fundo antes de continuar descendo. E estava parado no meio dele do jeito que o outro tinha estado parado na estrada dele — não emboscando, não com fome, mas de guarda, com a postura de quem não corre atrás de presa porque presa, mais cedo ou mais tarde, vem.
Outro Cavaleiro Alado. A mesma silhueta de catedral que eu tinha aprendido a temer e depois aprendido a matar: a metade de cima do corpo erguida sobre a de baixo como um homem de armadura, a quitina dourada em placas grossas, ombreiras que não eram ombreiras, o elmo natural de onde subiam os chifres curvos como uma coroa que ninguém pôs. Mas este era diferente do primeiro num detalhe que eu levei um instante pra nomear: ele não tinha o tédio do outro. O primeiro nos olhou como quem olha um problema antigo. Este nos olhou como quem olha sujeira — uma coisa que não devia estar no chão dele, que ofendia só por existir ali.
A cabeça coroada virou na nossa direção, e ele falou. Não uma vibração que só eu decifrava: falou alto, na língua dos homens, a mesma que o Quagô aprendeu na soleira do templo. Estas coisas fundas arrancaram as palavras dos visitantes que descem do céu pra interrogá-las — a língua entrou na memória da Colônia junto com tudo o mais que ela já comeu e ouviu, e a casta pensante a cospe de volta quando quer. Saía dura, metálica, com um estalo seco entre as sílabas, o clique do cupim vazando por baixo do idioma roubado. E saía pra todo mundo. A Freala ouviu. O Gobe ouviu. O Quagô recuou um passo só de ouvir.
— Quatro coisas que já deviam estar dentro do corpo — disse ele, e a cabeça pendeu, avaliando um por um. — Uma maga magra. Um anão que cheira a fermento. Uma presa de lodo longe demais do charco que a pariu. — A cabeça parou em mim. — E isto. Que anda, e não devia. Que o corpo não cheira, e não lembra de ter comido.
A Freala endureceu o maxilar ao meu lado. Ela tinha ouvido "presa de lodo" e olhado de relance pro Quagô, que fingiu não ter ouvido nada e apertou o cabo do chicote.
— Eu sei o que tu és — continuou o Cavaleiro, e agora havia um prazer nojento na voz, o prazer de quem achou um inferior e vai aproveitar. — O corpo lembra de ti. Não da tua carne, que não tens. Lembra do dia. O dia em que o predador de olhar morreu lá em cima — a coisa que fitava os nossos e os endurecia em pedra, que nos comia havia eras, o único terror que o corpo conhecia antes de aprender a temer o céu. Morreu. E da carcaça dele saiu arrastando uma lasca de osso que não tinha gosto de nada. — Os chifres pegaram o pouco brilho que havia. — Eras tu. Mataste o que nos caçava.
Eu não respondi. Ainda não.
— E achas que isso te faz alguma coisa. — A voz baixou, e ficou pior baixa. — Não faz. Um acidente não tem mérito, e tu não mataste o predador por nós: caíste na boca dele e tiveste sorte de não ter carne pra ele digerir. O corpo não te deve nada. Nunca te devemos nada. Tu não nos serviste, não nos pertences, e desces agora pra um lugar que não te quer, arrastando essas três refeições contigo. Eu peso tudo o que se arrasta neste corpo. E te peso, e te acho leve.
E foi a palavra leve — dita com a certeza serena de quem julga e não erra, de quem mediu o valor alheio a vida toda e nunca duvidou da própria balança — que fez subir em mim uma coisa que eu não esperava. Não foi raiva, exatamente. Foi a velha teimosia do que sempre torceu pela coisa que o mundo decidiu que não valia nada. Era a mim que ele estava pesando. E eu, que atravessei esta vida sem voz, sem poder responder a ninguém, abri a boca que eu não tenho — e descobri, num susto que quase me parou no meio do gesto, que tinha uma.
— Pesa de novo — joguei dentro da cabeça dele, do mesmo jeito exato que jogo na cabeça do Gobe. — Você errou a conta.
O Cavaleiro Alado parou.
Não recuou, não tremeu — parou, do jeito que uma coisa muito velha e muito segura para quando algo impossível acontece bem na frente dela. A cabeça coroada se inclinou um grau, e eu entendi, no silêncio dele, uma coisa enorme.
Eu falei com ele. E ele ouviu.
A telepatia que o sistema me deu pra suprir o fato de eu não ter voz — a que eu usava com o grupo, e sempre achei que fosse coisa de grupo, um cordão entre aliados — não era cordão nenhum. Era voz. Uma voz que vai direto de mente pra mente, e mente não tem dono. Qualquer coisa que pense, ouve. O sistema não me deu um jeito de falar com os meus amigos. Me deu um jeito de falar, ponto — e eu passei esta vida inteira me achando mudo só porque nunca tinha falado com nada que não respirasse do jeito certo.
E a descoberta me deu, na mesma batida, uma ideia — porque é assim que a minha cabeça funciona quando devia estar com medo.
Eu não vencia aquilo à distância. Ele era grande, blindado, e tinha o céu; eu era osso e uma espada que só vale de perto. Se ele me tratasse com a frieza calculada do primeiro Cavaleiro — me deixasse vir e me triturasse no tempo dele — eu morria. A minha única chance era fazê-lo lutar do meu jeito: descer pro chão, pro aperto, pra zona morta onde o tamanho dele virava sepultura. E eu tinha agora a ferramenta exata pra isso, vazando de cada palavra que ele dizia: a vaidade.
Mas ele se moveu antes de mim. Não com raiva — com desdém, como quem cala um inseto que zumbiu perto demais.
Abriu o tórax. Não a fresta baixa do abdômen do primeiro, a baforada de pânico. Foi mais alto, no peito, uma fenda entre as placas — e o que saiu dela não foi cheiro. Foi som. Uma nota grave e rachada que eu vi antes de registrar, porque a poeira saltou do chão em anéis e a pedra choveu pó das paredes, e então a onda chegou.
E me pegou.
Eu tinha achado, por um instante, que passaria livre — que o saco de ossos fosse imune como tinha sido imune ao medo no degrau de cima. Não passei. Aquele terror tinha sido química, e eu não tenho química; isto era física, e física pega osso igual pega carne. A onda atravessou o que sou e bateu na estrutura, e a estrutura é tudo o que eu tenho: as juntas perderam o sentido de onde ficavam, o crânio virou um sino sob a badalada, o mundo girou. Eu caí. De joelhos primeiro, depois com a mão no chão, ao lado dos três que tombaram comigo — a Freala com sangue na orelha, o Gobe encolhido, o Quagô espalhado, as quatro patas sem acordo sobre onde era embaixo.
[Pulso de vibração detectado.]
[Dano estrutural: PV 220 → 209.]
Quatro presas no chão. Era o que ele queria, e era o que ele tinha. O Cavaleiro avançou um passo pesado pra escolher por onde começar, sem pressa, e a escolha óbvia era o lixo que ousara falar.
E foi de joelhos, com o crânio zunindo e o chão ainda bambo, que eu fiz a única coisa que aquela onda não podia tirar de mim. A voz é mental. Funciona caída.
— Foi isso, então — joguei direto na mente dele, e tirei do tom toda a dor que eu sentia, porque uma faca só corta se a mão não treme. — O grande senhor de couraça precisou gritar com o peito pra me pôr de joelhos. Não pelas garras. Pelo grito.
A cabeça coroada virou. — O grito basta pra carniça.
— O outro não precisou dele. — Eu me sentei sobre os calcanhares, devagar, deixando ele ver que eu falava sem me levantar, sem pressa nenhuma. — O Cavaleiro que guardava a estrada lá em cima. Aquele soprou o veneno dele em cima do meu grupo inteiro e depois desceu, e lutou. Com as garras. Corpo a corpo, como uma coisa que se respeita. Não me derrubou com um truque pra ficar olhando eu apodrecer no chão. Ele veio. Por isso foi difícil de matar. — Deixei a última parte cair sozinha. — Você não vai ser.
O Cavaleiro ficou imóvel, e a frieza dele não rachou. Não havia raiva ali, e eu não a queria — fúria é burra e descuidada, teria sido boa, mas não era o que eu precisava. Eu queria a vaidade, que é fria, que se acha esperta, que escolhe. E a vaidade de uma coisa que passa a existência pesando o valor dos outros não suporta — não pode suportar — ser pesada e achada menor que um igual.
— O corpo não compara seus servos — disse ele, devagar.
— Mas você compara. Você acabou de me pesar e me achar leve. — Finquei a espada no chão e me ergui por ela, torto, sem desviar do que ele tinha por olhos. — Então pesa a si mesmo, juiz. Um Cavaleiro que mata pelo grito, sem encostar, porque não confia nas próprias garras contra um saco de ossos. Quanto vale um peso desses? Quanto pesa o medo de descer?
E ele desceu.
Fechou o tórax — calou o próprio grito — e veio, no chão, nas garras, pra me provar que valia mais que o outro, pra mostrar que não precisava de truque pra desfazer o lixo que ousara medi-lo. Veio inteiro, com a dignidade ofendida que se acha controlada e por isso é a pior de todas. Veio pra dentro do aperto.
Pra dentro da minha zona. E os três atrás de mim seguiam no chão, sem prumo, sem condições de me dar uma mão — o que era quase justo, porque desta vez a mão tinha que ser minha.
— Agora — eu disse, e dessa vez não foi pra ninguém. Foi a deixa que eu dou a mim mesmo.
As Garras da Sombra subiram do meu Manto e foram às garras dele, não pra afundar o bicho — couraça grossa demais pra isso — mas pra segurar um batimento, e seguraram, prenderam o abraço de lâminas no alto pela fração em que ele não pôde fechar. Nessa fração a lança imbuída na minha mão encontrou o flanco e cravou, a Lança Negra escorrendo da madeira pra dentro da carne à queima-roupa, e de novo, e o vigor dele desceu um degrau a cada toque. Ele entendeu, do jeito que essas coisas entendem, que estava ficando lento e que a lentidão vinha de mim, e fez o que um guerreiro acuado faz: fechou a garra sobre a haste pra estalá-la no meio.
Uma lança comum teria virado lasca naquela garra. A minha não — porque corria breu por dentro dela, e o breu a fez dura como ela não tinha direito de ser. A madeira gemeu, vergou, e segurou. Eu puxei de volta com ela inteira e cravei mais uma vez.
O Cavaleiro abriu o tórax de novo. Ia repetir o grito — derrubar tudo, recomeçar, esmagar o que sobrasse.
Mas eu já estava por baixo, na zona morta, e a espada de adamante já estava na outra mão, e eu a enfiei na fenda aberta do peito antes que a nota se formasse. A lâmina entrou na couraça como entra em tudo, e atravessou exatamente o lugar de onde o som nascia.
A onda saiu mesmo assim — mas saiu rota. Não a parede grave e cheia de antes; um arranco picado, engasgado, que estremeceu meus ossos sem me derrubar e levantou só um pouco da poeira. O órgão do grito tinha um talho de adamante no meio, e um fole furado não canta.
Ele estalou alguma coisa que a língua dos homens não tinha palavra pra carregar e veio com tudo, garras e peso, sem truque agora, exatamente como eu o tinha convencido a vir. E aí foi o que eu sabia fazer: o breu da Lança Negra cravado e recravado afundando o vigor dele, as Garras roubando o resto por toque, a espada entrando e saindo nas frestas que o adamante abre em qualquer lugar. Ele ficou lento. Mais lento. As garras vinham pesadas, atrasadas, como as de uma coisa que sonha que está lutando. E quando a guarda enfim caiu de vez, eu entrei por baixo do queixo coroado e subi a lâmina pela junção do peito com a garganta, atravessei a coroa de placas por dentro, e o vigor que eu tinha afundado golpe após golpe não o deixou fazer a última coisa que ainda podia salvá-lo: ser rápido.
— Eu te disse — falei dentro da cabeça dele, na última vez. — Você errou a conta.
A cabeça coroada de chifres tombou pra trás, devagar, como uma coroa pesada demais pro pescoço que a carregava.
[Você derrotou: Cavaleiro Alado Isopteriano.]
O corpo enorme desabou de lado no largo, e o estrondo rolou pela galeria e voltou em eco, parede a parede, e por um instante longo o Fosso inteiro pareceu ter parado pra conferir se era verdade.
Era. Outra vez, era.
*
Eu me virei pra ver dos três, e os três já estavam se levantando — devagar, as mãos no chão pra confirmar onde o chão estava, mas levantando. Eu mesmo ainda chacoalhava por dentro, as juntas reclamando do lugar, e não fingi de inteiro na frente deles. A gente tinha caído junto, dessa vez. Eu só tinha levantado falando.
A Freala foi a primeira de pé. Limpou o sangue da orelha com as costas da mão, olhou o Cavaleiro morto, depois olhou pra mim, e havia uma pergunta no rosto dela.
— Ele desceu — ela disse. — Tinha o ar, tinha tudo, e desceu pro chão lutar com você, que é onde você ganha. Eu vi. E vi você de joelhos falando com ele sem mexer a boca que você não tem. Ela estreitou os olhos. O que foi aquilo.
E porque ela tinha merecido, eu contei.
— A minha voz, a que eu uso com vocês. Descobri agora que ela não é só com vocês. Alcança qualquer coisa que pensa. Eu falei com ele. E em vez de implorar ou ameaçar, convenci ele de que descer pra me matar de perto valia mais que me esmagar de longe. Cutuquei o orgulho dele até preferir provar um ponto a vencer direito.
O Gobe, que recolhia a moeda do chão, parou.
— Espera. Ele me olhou com uma cara nova, e não era boa. Você consegue falar com eles. Com qualquer bicho que pense.
— Pelo visto.
— Então qualquer coisa lá embaixo que pense — disse ele, devagar, a moeda parada na palma — também pode te ouvir. E lembrar do que ouviu. Ele olhou pra estrada que descia. Osso. Você acabou de enfiar a sua voz dentro da cabeça de uma coisa cuja Colônia inteira lembra de tudo. Sabe o que isso quer dizer?
Eu não tinha pensado nisso. E quando pensei, a coisa fria que me serve de inquietação assentou no lugar onde os vivos sentem o estômago, porque o Gobe tinha razão, do jeito desconfortável em que ele costuma ter. A Colônia Lembra. Era a regra dela — o que adaptava as juntas contra a minha Agulha, o que fechava as rotas contra os meus truques. E eu acabara de despejar a minha voz, a minha existência, dentro de uma das mentes dela.
— Quer dizer que lá embaixo já podem saber que eu venho. E como.
— Quer dizer isso. O Gobe guardou a moeda. Da próxima vez que abrir essa boca que você não tem com um desses, lembra que tem sempre alguém escutando atrás dele.
Eu guardei o aviso. Mas — e isso eu não disse ao Gobe, que estava com medo e medo não é hora de bravata — uma parte de mim não odiou a ideia. Se lá embaixo havia uma mente grande o bastante pra ouvir a Colônia inteira, então havia, lá embaixo, uma mente com quem eu podia falar. E eu vinha tendo, fazia tempo, algumas coisas a dizer.
*
Eu abri a tela quando os três pararam de me olhar, encostado no flanco frio do bicho morto.
★★★
Nome: Thasjo Gênero: Masculino
Estado: Normal Rank: H
Tipo: Esqueleto / Morto-vivo
Classe: Mago / Guerreiro
Nível: 25 Título: «Predador Paciente»
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PV: 220/198 Força: 60
MP: 1.000/1.000 Agilidade: 49
Dano: 10,9 Vitalidade: 44
Defesa: 5,0 Sentidos: 1 [bloqueado]
Inteligência: 1 [x200]
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Pontos de Status: 0 Pontos de Magia: 0
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✧ Habilidades Especiais ✧
[Ressurreição Lv 1] [Visão Noturna Lv 1]
['O Conhecimento de Babel'] [Telepatia]
[Compreensão de Runas] ['Jera - A Runa de Odin' 1/1]
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✧ Habilidades Mágicas ✧
Magias: 《Labareda》《Agulha de Água》《Véu de Sombras》
《Manto de Sombras》《Flecha de Fogo》《Lança de Fogo》
《Flecha Negra》《Lança Negra》《Garras da Sombra》
Técnica: 《Imbuir》
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Caminhos da Magia
Terra: 0/10 Luz: 0/10
Água: 1/10 Trevas: 3/10
Fogo: 2/10 Vácuo: 0/?
Ar: 0/10 Éter: 0/?
★★★
Vinte e cinco. Quatro degraus num punhado de bandos, e os mesmos seis pontos por degrau na velha divisão preguiçosa que eu nunca mudo. Mas as linhas que eu fiquei olhando não foram as dos atributos. Foram as duas formas novas, uma de fogo e uma de breu, irmãs nascidas no mesmo dia da mesma lição: a flecha que se abre arranha; a lança que se fecha fura. Eu vinha lutando metade do tempo com fagulhas espalhadas quando podia ter pontas, e levei vinte e cinco níveis e uma tarde de Alados pra entender uma coisa que estava na minha mão o tempo todo.
A Lança de Fogo ainda não era a bola dos meus sonhos de esgoto — a que come a horda inteira de uma vez. Essa morava um degrau acima, em Fogo três, e era a dívida que eu pretendia cobrar de mim mesmo no próximo ponto. Mas pela primeira vez o fogo na minha mão tinha feito algo que não era me lembrar do que me faltava. E eu fechei a tela sem me sentir um mago fingindo de guerreiro, nem um guerreiro fingindo de mago — me senti as duas coisas, malfeitas e juntas, que é exatamente o que eu sou.
*
A gente não teve o respiro de costume.
Eu tinha acabado de me desencostar do bicho morto, e a Freala de recolher a mochila, e o Quagô estava na boca do largo conferindo a descida com as plantas dos pés — quando ele se enrijeceu, as quatro patas plantadas, e disse, sem se virar, na voz fina que usa quando o chão conta uma coisa que ele não queria ouvir:
— Dois.
— Dois o quê — disse o Gobe.
— Dois grandes. O Quagô recuou da boca do largo, devagar, sem tirar os olhos do escuro lá embaixo. Vêm subindo. Pela estrada, lado a lado — cabe dois ali, lado a lado, eu não tinha pensado nisso. O chão treme em dois pesos, fora de compasso um com o outro. São dois, e são da medida deste aqui. Ele apontou o queixo pro Cavaleiro morto. Ou maior.
E aí a gente os sentiu — o ar mudou do jeito que muda antes das coisas grandes, o empurrão de pressão que vem na frente de asas pesadas — e do escuro da estrada, onde a galeria descia pra fora do alcance da Visão Noturna, surgiram dois brilhos baixos de quitina dourada, lado a lado, subindo com a calma terrível de quem não precisa de pressa porque é em maior número.
Dois Cavaleiros Alados. De uma vez.
A gente tinha gastado quase tudo no que pesa. Eu estava com PV a menos e a lança vergada na mão. A Freala tinha sangrado pela orelha e gastado o que tinha pra ficar de pé na onda. O Gobe não recuperava mana havia horas. O Quagô tinha derrapado o próprio prumo. A gente estava no fundo de um largo com a saída pra cima cortada pela coisa morta e a saída pra baixo enchendo de dois vivos, e a aritmética que sempre foi a minha inimiga voltou a não fechar, do pior jeito.
E foi então que a Freala deu um passo à frente. Na minha frente.
— Sai — ela disse, e não foi pra mim, foi pra si mesma, do jeito que ela fala quando vai fazer uma coisa que tem medo de não conseguir. Sai da frente, osso. Esse é meu.
Ela ergueu a mão. E eu vi, na palma dela, a runa começar a acender — não a Lufada nem a Lâmina que estouram num ponto, nem a lança de fogo que ela cuspiu a tarde inteira. Era a outra. A que se enrola sobre si mesma, camada dentro de camada, a forma de grau quatro que o Gobe faz dormindo e que ela vinha soltando antes da metade, depois da metade, escutando o vento aprender a escutá-la de volta. O Rugido da Tempestade.
O ar do largo inteiro se moveu pra mão dela. Toda a pressão que vinha na frente dos dois Cavaleiros, todo o fôlego parado daquela garganta de pedra, começou a se torcer no ponto onde os dedos dela se fechavam, e a runa subiu, e subiu, e passou da metade, e passou de onde ela nunca tinha passado — e os dois Cavaleiros apressaram o voo, porque até eles sentiram o ar sair de baixo das próprias asas, indo pra onde a maga o chamava.
— Freala — eu comecei.
— Eu disse que ele me escuta agora — ela falou, com os dentes travados e o vento gritando entre os dedos, a runa fechando, fechando, quase inteira, num nó que ela nunca tinha amarrado e estava amarrando agora, com dois inimigos a segundos dela e o grupo inteiro às suas costas. Vamos descobrir se eu estava certa.
E ela soltou.