— Certo, chega de pensar. Vamos logo esconder esse bastardo antes que eu perca o controle e acabe com a existência dele de vez — resmungou Penny, a voz carregada de desdém.
Ela olhou ao redor, percebendo a movimentação de outros sobreviventes entre as cabanas rústicas da superfície.
— Tem muita gente por aqui... Vou deixar o corpo dele invisível para ninguém notar nada.
No milésimo de segundo seguinte, as pupilas de Penny incendiaram-se em seu habitual amarelo cortante. O corpo inerte do Soldado Lucios desfez-se diante de seus olhos, tornando-se completamente invisível. Mas a divindade não parou por aí: ela o tornou intangível, aplicando uma dobra espacial tão avançada que a estrutura física do homem sequer ocupava mais lugar no espaço-tempo. Era como se ele habitasse uma dimensão paralela e vazia.
Ao dar meia-volta, o cadáver oculto começou a flutuar no ar, seguindo os passos compassados da garota como uma marionete sem cordas.
Penny começou a caminhar pela estrada de terra batida. O cenário ao redor exibia a miséria do refúgio: à frente, uma senhora de feições castigadas jogava o conteúdo de um balde velho em um rego de água suja. De repente, três crianças sobreviventes passaram correndo, rindo alto no meio de uma brincadeira barulhenta. Em meio ao caos da corrida, uma delas esbarrou brutalmente contra o ombro de Penny.
— Arrombado... Por acaso não tem olhos para ver por onde anda? — sibilou Penny, a expressão tornando-se instantaneamente fria. Ao focar o olhar, percebeu que era o mesmo garotinho de antes. — Então é você de novo? Eu deveria arrancar os seus braços por esse atrevimento.
Apesar do comentário aterrorizante e da aura sinistra que emanava da menina, o garoto não recuou. Em vez disso, ele abriu um sorriso caloroso. Em sua mente inocente, ecoou o conselho que sua falecida mãe costumava repetir: "Quando uma pessoa grita ou ameaça os outros sem motivo nenhum, meu filho, é porque ela é extremamente solitária e sente dor."
— Você não quer brincar com a gente? — perguntou o menino, estendendo a mão pequena e suja de terra na direção dela.
Penny sequer dignou-se a responder. Ela ignorou o gesto e continuou marchar, deixando o garoto estático para trás. Logo em seguida, os amigos do menino voltaram correndo, cutucando-o e perguntando por que ele havia parado. Um deles, em tom de zombaria, quis saber se a garota loira era a namorada dele, fazendo as bochechas do garotinho ganharem um tom vermelho-vivo de pura vergonha.
Idiotice... Enquanto se afastava da algazarra infantil, a mente de Penny fervilhava: "Que saco... Eu genuinamente odeio crianças. Por que sempre tem que surgir algum estorvo para torrar a minha preciosa paciência em absolutamente todo lugar que eu vou?"
Mais adiante, os olhos de Penny fixaram-se na figura do Comandante Gideon. O general de farda escura estava de pé próximo a um blindado, cochichando ordens suspeitas diretamente no ouvido de um de seus soldados de confiança.
"E vejam só... Está exatamente aí a prova do que acabei de pensar", ironizou a garota mentalmente, travando os passos. "Esse arrombado é o tipo exato de pessoa que eu sentiria um prazer imenso em desmembrar, pedaço por pedaço."
Sentindo o peso do olhar penetrante da criança, Gideon interrompeu o cochicho abruptamente. Ele virou o pescoço e caminhou a passos arrogantes na direção de Penny, exibindo seu habitual semblante de superioridade desdenhosa.
— Tsc... É por isso que eu avisei explicitamente para aqueles três não trazerem esses mortos de fome para o interior do bunker — resmungou Gideon, encarando a menina com profundo nojo. — Veja só o tipo de criatura que agora fica vagando livremente por aqui... Tsc.
As veias de pura irritação saltaram na testa de porcelana de Penny. Sob o capuz de sua falsa inocência, sua mente rugia em fúria divina: "O que foi que esse verme imundo acabou de dizer? Um inseto insignificante como este chega do nada e se atreve a me insultar? Eu vou matá-lo da forma mais brutal e dolorosa que este universo já testemunhou, isso eu prometo."
Antes que ela pudesse erguer os dedos para estraçalhar o general, passos firmes ecoaram no asfalto. A Comandante Lara aproximou-se, intervindo com sua voz imponente. Ela cravou o olho descoberto na figura de Gideon.
— O que você pensa que está fazendo aqui, Gideon? — questionou Lara, o tom gélido cortando o ar. — Eu acreditei que você estivesse com assuntos urgentes para resolver fora do perímetro do bunker. O que faz aqui perdendo tempo e, ainda por cima, intimidando uma criança? Não tem vergonha?
— Comandante Lara! — Gideon forçou um sorriso amarelo, tentando disfarçar o nervosismo por não saber o quanto da conversa a mulher havia escutado. — Eu não estava fazendo nada de mais... Só estava tendo uma conversa amigável com esta adorável garotinha.
— Pouco me importa o que você estava conversando — cortou Lara, implacável. — Suma logo da minha frente e pare de incomodar os civis.
Assistindo à discussão dos militares, a irritação de Penny apenas mudou de alvo: "Quem foi que pediu a sua ajuda, ô do tapa-olho? Não se meta onde não é chamada. Eu não preciso que uma humana tente me proteger, pois esse arrombado vai morrer pelas minhas próprias mãos... Nem que eu tenha que trazê-lo de volta à vida apenas para matá-lo novamente."
Gideon bufou insatisfeito, deu meia-volta e embarcou em um jipe militar utilitário junto com seu esquadrão. O motor rugiu alto e o veículo cruzou os imensos portões de pedra do abrigo, partindo em velocidade.
Lara observou o jipe sumir no horizonte, suspirou e olhou para baixo, encarando o rosto sério de Penny. Com um gesto surpreendentemente gentil, a comandante tirou um pequeno doce açucarado do bolso da farda e o estendeu para a menina, antes de seguir seu rumo em direção à sala tática.
— Quem é que come uma porcaria dessas? — desdenhou Penny.
Com total indiferença, ela amassou o doce na palma da mão e o jogou no chão de terra. Retomando a marcha, a garota caminhou até alcançar os fundos da base, parando diante de um velho galpão abandonado e tomado pela poeira. Com um comando mental, ela arremessou o corpo intangível de Lucios para o interior da estrutura vazia e bateu a porta de ferro com um estrondo.
— Certo... — um sorriso imenso, sádico e cortante desenhou-se em seus lábios infantis enquanto as pupilas amarelas brilhavam na penumbra. — O que eu tenho que fazer agora é ir atrás daquele maldito arrombado e torturá-lo um pouco. Vou adorar testar várias formas de agonia naquele infeliz.
Enquanto isso, a quilômetros dali, o grupo da expedição militar avançava em passos rápidos, cruzando uma imensa ponte de concreto que se estendia sobre um rio extremamente largo e lamacento.
— Esperem, pessoal! — ordenou a Comandante Katerina, travando os passos abruptamente no meio da pista.
— Comandante Katerina, o que foi? — perguntou Maria, sentindo o coração acelerar diante do tom tenso da líder.
— Consigo sentir a assinatura biológica de um grupo de vinte pessoas logo à frente — revelou Katerina, estreitando os olhos sob a aba de seu quepe. — Não tenho certeza absoluta, mas há uma probabilidade altíssima de ser uma emboscada daquela facção de bandidos, já que este perímetro é o território deles.
— Bandidos?! — exclamou Carlos, franzindo o cenho em pura incompreensão. — Por que raios eles estariam posicionados estrategicamente logo aqui?
— Eu não sei — respondeu Katerina, puxando o rifle pesado de suas costas com um estalo metálico preciso. — Mas de uma coisa eu tenho certeza: eles só estão aqui porque o traidor do nosso próprio abrigo deve ter vazado a nossa rota oficial para eles. Se não fosse por isso, que outro motivo eles teriam para estar parados justamente na parte mais mortal desta cidade em ruínas?
— Então... realmente existe um traidor entre nós, na nossa própria base? — perguntou Enrique, empalidecendo com a confirmação de seus piores temores.
— Sim — confirmou Katerina, o tom de voz gélido. — Eu já havia suspeitado disso no milésimo de segundo em que li a mente daquele informante que nos entregou coordenadas falsas na primeira expedição. Agora, com esse cerco tático bloqueando o nosso retorno, o mistério foi desfeito. Como eles saberiam o trajeto exato se não fosse por um vazamento interno? E tem mais... Aquela horda massiva de zumbis na avenida, que não deveria estar ali, provavelmente foi atraída e controlada pelas habilidades de algum membro poderoso desse grupo de bandidos.
Sem perder tempo, Katerina flexionou os joelhos e disparou em um salto sobre-humano, pousando com leveza no topo de um dos pilares mais altos da estrutura da ponte. Ela ajeitou o rifle místico, apoiando a coronha firmemente contra o ombro enquanto ajustava a mira tática.
— Mas e se tudo isso for apenas uma terrível coincidência?! — gritou Carlos da pista abaixo, elevando a voz para que ela pudesse escutar em meio ao vento.
— Isso seria estatisticamente impossível! — rebateu Katerina lá do alto.
Concentrando uma grande fração de sua energia mística na câmara do rifle, ela fechou os olhos por um breve instante, puxando o ar para focar sua percepção. Ao abrir as pálpebras, puxou o gatilho de uma vez.
*BOOM-CRAAAAASH!*
O barulho do disparo foi completamente ensurdecedor, fazendo os vidros dos carros abandonados ao redor estilhaçarem. O projétil luminoso viajou quase instantaneamente através do ar, atingindo o coração da emboscada inimiga. A explosão resultante foi brutal, gerando uma onda de choque que pulverizou uma área de dezenas de metros. O fogo místico consumiu o pátio, queimando os corpos dos criminosos instantaneamente em uma chuva de fuligem.
No entanto, quando a fumaça começou a baixar, a percepção de Katerina captou algo que fez seu sangue congelar. No centro do fogo, uma silhueta permanecia ereta, completamente ilesa.
— Droga... Um deles conseguiu defender o golpe direto — esbravejou Katerina, frustrada.
Em seus pensamentos, o pavor começou a rastejar: "Esse maldito com certeza é perigoso... Ele sequer moveu um único músculo após ser atingido por quase cem por cento da potência máxima do meu rifle. Que tipo de monstro é ele?"
Retomando a postura, ela gritou para o grupo abaixo:
— Pessoal, recuar imediatamente! Um deles sobreviveu e parece ser extremamente per—
A frase de Katerina foi brutalmente interrompida por um estrondo catastrófico que fez a ponte inteira tremer e estalar. Ao girar o pescoço para trás, ela deparou-se com o verdadeiro pesadelo: o Titã colossal que haviam avistado no dia anterior emergia por entre os prédios residenciais. O monstro gigante caminhava a passos pesados em direção a eles.
Ao olhar novamente para a frente, Katerina notou que o bandido misterioso havia aproveitado o caos para fugir, desaparecendo entre as ruínas.
— Droga! Tudo está dando errado ao mesmo tempo! — esbravejou ela, a irritação misturando-se à adrenalina.
— Comandante Katerina, desça rápido daí! Tem um monstro vindo na nossa direção! — berrou Enrique, em puro pânico.
— Certo! Vamos correr! — ordenou ela.
Katerina saltou do pilar, caindo em pé na pista e iniciando uma corrida frenética para alcançar os quatro sobreviventes que já tomavam a dianteira. No milésimo de segundo em que cruzaram o limite final da ponte e olharam para trás, o pavor foi absoluto: a abominação colossal estava entrando no leito do rio, caminhando por dentro da água profunda para atravessar para o lado deles. O design do monstro era grotesco: não possuía olhos; no lugar das órbitas, exibia duas bocas menores repletas de dentes afiados que se contorciam, além de sua mandíbula principal colossal cheia de dentes apodrecidos.
— Comandante Katerina, o que nós vamos fazer?! Se continuarmos nesse ritmo, aquela coisa vai nos alcançar em minutos! — desesperou-se Enrique, ouvindo a terra estremecer a cada passo da fera na água.
— Certo, pessoal. Vocês quatro continuem correndo com força total. Eu vou ficar para trás para tentar ganhar tempo e logo em seguida alcanço vocês! — determinou Katerina, reduzindo o ritmo dos passos.
— Você vai ficar bem sozinha?! Não é melhor lutarmos todos juntos? — perguntou Maria, o rosto pálido de preocupação.
— Não seja estúpida, Maria! Se alguém não distrair aquela abominação agora, ela vai esmagar todos nós de uma vez só! — interveio Carlos, puxando a irmã pelo braço.
— Certo, pessoal! Parem de conversar e apenas corram! — ordenou Katerina. — Não precisam se preocupar comigo. Minhas habilidades físicas serão mais do que suficientes para eu escapar sozinha após atrasar o avanço dele.
Mordendo os lábios, os quatro sobreviventes retomaram a fuga, cruzando uma esquina e mergulhando em uma rua esburacada, repleta de carros velhos e enferrujados que bloqueavam o caminho.
— Será que ela vai realmente ficar bem...? — sussurrou Maria, entre ofegos de cansaço.
— Eu não sei — respondeu Enrique, saltando sobre o capô de um veículo retorcido. — Eu só sei que morrer fácil ela não vai, então não precisam se preocupar com ela.
Carlos olhou de soslaio para o recruta, surpreso com a firmeza na voz dele:
— Que bizarro... De onde está vindo tanta coragem de alguém que estava quase chorando de medo horas atrás?
Ao ouvir o comentário, a mente de Enrique foi arrastada em um loop doloroso de volta ao passado. Em suas memórias, ele viu a si mesmo ainda criança, trêmulo e apavorado, escondido atrás de uma pilastra enquanto assistia sua própria mãe ser severamente devorada viva pelas mandíbulas escancaradas de um mutante humanoide. Ele lembrava perfeitamente de ter corrido sozinho pelo asfalto quente para salvar a própria pele enquanto os gritos dela cessavam.
— Eu realmente tenho um pavor mortal dos mutantes — desabafou Enrique, os dentes cerrados enquanto corria. — Mas esse medo se deve ao fato de eu saber exatamente do que eles são capazes. Eu não sou louco, sou realista.
Enquanto o grupo se afastava pelo labirinto de asfalto, a Comandante Katerina movia-se em uma velocidade absurda, correndo e saltando entre as fachadas dos prédios ao redor do rio. Ela apontava o rifle e disparava rajadas contínuas de energia contra o crânio do Titã. Contudo, para o seu profundo desespero, as explosões místicas sequer arranhavam a pele blindada do monstro, gerando apenas fumaça enquanto a criatura continuava sua marcha implacável em direção à margem.
Fim do Capítulo 12