No exato instante em que Penny materializou-se naquela nova cidade costeira, seus pés tocaram o asfalto úmido e ela deparou-se com o caos absoluto. Um grupo de sobreviventes corria desesperadamente em direção ao cais da cidade, empurrando-se mutuamente na direção dos monstros para ganhar segundos de vida. Um deles tropeçou nos próprios pés em uma tentativa frenética de alcançar uma lancha cabinada ancorada no porto.
— Socorro! Alguém, por favor, nos ajude! — gritou um dos homens do grupo. Sua voz estava completamente embargada pelo pavor absoluto enquanto olhava para trás com os olhos arregalados, caindo sobre um pedaço de concreto.
Penny estreitou os olhos amarelos, sentindo o tédio dar lugar à curiosidade. Com uma dobra espacial silenciosa, desfez sua presença física e reapareceu instantaneamente no ponto exato de onde os gritos ecoavam, cruzando os braços sobre o vestido.
— AAAAAAHHHH... GURKK!
O clamor de terror foi brutalmente interrompido. Um mutante humanoide de dois metros de altura saltou do quarto anda de um prédio, cravando suas garras longas e afiadas diretamente no peito do sobrevivente. Com um movimento mecânico e impiedoso de sua cauda pesada, a criatura partiu o corpo do homem ao meio, fazendo com que suas entranhas e sangue jorrassem violentamente pelo chão arenoso.
O monstro não possuía olhos no rosto pálido, exibindo apenas uma boca gigantesca com todos os dentes apodrecidos à mostra, além de um imenso olho cinzento que pulsava bem no centro de seu tórax.
— Fala sério... Que chatice. Eu mal chego e já sou obrigada a ouvir a gritaria desse povo — resmungou Penny, soltando um suspiro pesado de desdém enquanto limpava uma fuligem imaginária de seu vestido, observando as outras pessoas serem dilaceradas sem mover um único dedo.
A poucos metros dali, um dos fugitivos travou os passos ao avistar a garotinha loira parada no meio do banquete de sangue. Ele encarou Penny em puro choque, enquanto seus pensamentos sombrios fervilhavam em um ritmo frenético: *“Uma criança num lugar maldito como esse? Como isso é possível? Bem, não importa... O que importa é que, se eu chutar essa pirralha na direção desse monstro, a fera vai se distrair comendo ela e eu terei uma chance real de sobreviver.”*
Antes que o homem pudesse formular o final de sua estratégia covarde, o mutante girou o corpo na direção dele e avançou como um raio, quebrando o asfalto com as patas. O sobrevivente fechou os olhos com força, encolhendo os ombros e cravando os dentes ao aceitar a própria morte iminente.
Contudo, após longos segundos de silêncio, o impacto não veio. Ao abrir as pálpebras lentamente, deparou-se com uma cena bizarra: a abominação estava paralisada no ar, com as garras a milímetros de seu rosto, congelada no tempo como uma estátua de cera.
— O que... O que está acontecendo aqui? — balbuciou o homem, com a mandíbula caída de pura incompreensão enquanto recuava a passos trôpegos, batendo as costas contra uma pilastra de ferro.
No mesmo milésimo de segundo, o espaço distorceu-se com um estalo seco. Penny desapareceu de sua posição original e materializou-se diretamente na frente do sujeito, encarando-o de baixo para cima com as pupilas amarelas brilhando intensamente.
— Como... Como você chegou aqui tão rápido?! — perguntou o homem, com o rosto pálido e o suor gélido brotando na testa enquanto apontava um dedo trêmulo para a menina. — Você estava a dezenas de metros de distância agorinha mesmo!
— Olá. Eu escutei os seus pensamentos dizendo que iria me jogar para esse monstro apenas para salvar a sua própria pele — revelou Penny, abrindo um sorriso radiante e excessivamente dócil que fez os pelos do braço do homem se arrepiarem de horror.
— Não! Eu jamais faria uma monstruosidade dessas com uma criança indefesa! — mentiu ele em voz alta, engolindo em seco enquanto sua mente entrava em pânico absoluto: *“Como essa maldita garota sabe exatamente o que eu havia pensado? Ela lê mentes por acaso?!”*
— Como eu ouvi o que você pensou não importa nem um pouco — cortou Penny. O sorriso expandiu-se enquanto ela inclinava a cabeça de forma psicopata, com os olhos amarelos cortando a alma do mortal. — O importante aqui é que eu realmente gostei da sua personalidade. Você tem um excelente senso de sobrevivência ao decidir sacrificar os outros para se salvar. Afinal, em um mundo pós-apocalíptico, a empatia pelo próximo é a maior causa de morte dos fracos de mente. E é unicamente por você ter uma índole tão podre que eu decidi que não vou arrancar a sua alma pelo que disse antes.
O sobrevivente estava completamente quebrado psicologicamente, incapaz de processar aquelas palavras cósmicas. Seus pensamentos continuavam a disparar em um loop desesperado: *“Quem é essa garota? Por que ela não está chorando de pavor do monstro atrás dela? Por que essa abominação continua travada no ar?”*
— Tudo bem, já chega. Você está gritando tanta coisa boba na sua mente que está começando a me dar dores de cabeça. Então, vamos fazer um jogo — determinou Penny, desfazendo o sorriso dócil e assumindo uma feição fria de pura autoridade.
— Um... Um jogo? — gaguejou o homem, abraçando os próprios braços em uma tentativa falha de conter o tremor violento do corpo.
— Sim, um jogo bem simples — explicou a divindade, juntando as mãos pequenas sobre o vestido. — Um jogo onde você tem exatos cinco minutos para correr e se esconder. Assim que esse tempo acabar, eu vou dar a ordem para que todos os monstros desta cidade cacem você.
O homem arregalou os olhos e, no mesmo instante, uma faísca de esperança corrupta brilhou em suas memórias: *“Então foi mesmo essa pirralha que parou o monstro! Não sei que tipo de poder místico ela tem, mas cinco minutos é tempo mais do que suficiente para eu alcançar a lancha, ligá-la e fugir dessa maldita cidade em direção ao abrigo militar que fica naquela ilha no leste!”*
— Tudo bem... Eu aceito o seu jogo! — respondeu o homem, forçando uma postura confiante enquanto dava o primeiro passo para trás.
— Ótimo — consentiu Penny.
A garota fechou as mãos e abriu um sorriso terrivelmente sádico, com as pupilas brilhando em um dourado divino e cortante antes de disparar a palavra final com uma calmaria assustadora:
— Corre.
O homem sentiu o coração bater feito um tambor ensandecido. Tomado por um pavor monumental — não apenas das criaturas, mas do olhar demoníaco que a garotinha fizera para ele —, deu meia-volta e disparou em uma corrida frenética pelas tábuas de madeira do porto.
Ele saltou para dentro da lancha e, após alguns segundos de puro desespero puxando a corda do motor de popa, o maquinário rugiu de forma funcional. A embarcação cortou as ondas, avançando em alta velocidade em direção ao mar aberto e distanciando-se rapidamente da costa cinzenta.
Dentro da cabine fechada, sentindo o tremor do veículo enquanto olhava para a escuridão do oceano, o sobrevivente soltou uma risada histérica de alívio puro. Ele encarou o céu através do para-brisa de vidro assim que os cinco minutos se esgotavam:
— Ha... HaHa! Eu consegui! Finalmente estou salvo! Obrigado, meu De...
Antes que ele pudesse pronunciar a última sílaba da palavra, o teto de vidro da cabine explodiu em um estrondo catastrófico. Um mutante alado colossal mergulhou das nuvens escuras. Com um movimento chicoteante de suas mandíbulas escancaradas, a fera cravou os dentes no pescoço do homem, arrancando sua cabeça por inteiro com uma única e brutal mordida.
O sangue jorrou em jatos violentos, salpicando o painel e caindo como uma chuva escarlate pesada sobre o casco da lancha, enquanto o corpo acéfalo desabava inerte sobre o timão.
De pé na borda do terraço da cidade, Penny assistia ao fim do espetáculo.
— Hahahahahah! Eu disse que faria um monstro ir atrás dele, mas em momento algum especifiquei qual tipo de monstro seria — ironizou Penny, balançando os ombros com total indiferença enquanto o sangue do homem manchava o oceano à distância. — Que pena... Acho que a vontade de sobreviver dele não era tão grande quanto eu havia imaginado. Se ele fosse realmente esperto, teria pulado na água profunda para tentar se salvar do bando voador... Se bem que eu também já havia colocado um mutantes aquáticos dentro do mar, só por precaução. Ha... HaHa! Isso sim foi muito divertido! Mil vezes melhor do que ficar trancada naquele bunker de merda assistindo aos humanos chorarem.
Em sua mente, Penny ponderava: *“Agora vamos procurar um novo bebê para enviar até o bunker. Eu quero muito ver quais são as habilidades daquela comandante do tapa-olho. Mas, primeiro, vou dar uma passadinha para ver como as coisas estão indo com o pessoal da expedição.”*
Longe dali, cortando a neblina que subia do rio, o Soldado Enrique arrastou o corpo inerte da Comandante Katerina para fora da correnteza lamacenta, deitando-a com cuidado sobre o concreto arenoso da margem.
— Comandante Katerina... — murmurou Enrique, com a voz inteiramente trêmula.
Com as mãos tremendo pela adrenalina, o recruta pressionou os dedos contra o pescoço gélido da líder. Não havia pulso. O peito dela estava estático, sem qualquer sinal de respiração. Naquele milésimo de segundo de silêncio absoluto, a mente de Enrique foi puxada para trás em um turbilhão de flashbacks: reviu a jornada inteira deles, as discussões ásperas no jipe, as ameaças rígidas e a forma como ela o forçava a ser um soldado de verdade.
— Eu disse que queria que você morresse... Mas eu não estava falando sério! Me desculpe... Se eu fosse mais corajoso igual a você, eu teria ficado e ajudado — desabafou Enrique, as lágrimas quentes finalmente escapando de seus olhos e misturando-se à água do rio em seu rosto. Pela primeira vez, o recruta chorava abertamente por alguém que, apesar da farda e da rigidez, ele considerava sua única e verdadeira amiga naquele inferno.
De repente, Penny surgiu flutuando acima dos prédios vizinhos, observando silenciosamente a destruição que ficara após a batalha.
— Nossa... Parece que algo realmente divertido aconteceu aqui. Que pena que eu cheguei tarde — comentou Penny, entediada.
Ao longe, ela estreitou os olhos amarelos e avistou a silhueta do Titã gigante afastando-se lentamente entre as ruínas.
— Vejam só que criatura belíssima! Acho que seria uma ótima ideia fazer ele, junto com mais uns cinco, marcharem em direção ao bunker militar.
Penny olhou para baixo e viu Katerina deitada no chão, já sem vida, com Enrique chorando desesperado perto de seu corpo.
— Hahahahahah! Eu acho que superestimei demais essa mulher. Ela morreu de uma forma tão lamentavelmente ridícula que estou até envergonhada de ter dito que ela era forte antes — desdenhou Penny. — Mas de jeito nenhum ela vai morrer aqui, logo quando estou preparando algo divertido. Bem, eu odeio fazer isso... Mas se eu não fizer, o espetáculo que estou planejando vai ficar chato só com dois comandantes vivos.
Os olhos de Penny brilharam em um dourado divino e cortante. No mesmo milésimo de segundo, uma energia cósmica invisível tocou o cadáver. Katerina voltou à vida instantaneamente, expandindo os pulmões em um suspiro abrupto, enquanto Penny desaparecia do céu sem deixar vestígios.
— Comandante Katerina! Você... Você está viva! — exclamou Enrique, enxugando as lágrimas às pressas na tentativa de escondê-las. — Você estava sem pulso! Eu tive certeza de que você tinha morrido!
Katerina ergueu o tronco lentamente, o cenho franzido sob o quepe enquanto sua mente fervilhava em pura confusão: *“Como eu ainda estou viva? Tenho certeza absoluta de que fiquei sem energia mística para me recuperar. Eu deveria ter morrido... E que sensação é essa? É aquela mesma presença sinistra, fria e alienígena de antes! Por que estou sentindo isso de novo justamente aqui?”*
— Soldado Enrique... Por que você está chorando? — perguntou Katerina, interrompendo seus pensamentos ao notar o estado emocional do recruta.
— Não é nada não — respondeu Enrique, desviando o rosto rapidamente.
Encarando o jovem, Katerina concluiu em seus pensamentos: *“Vendo a reação dele, eu realmente devo ter morrido. Mas se estou viva, isso com certeza tem algo a ver com essa presença sinistra que sempre aparece em momentos perturbadores como esse. Eu tenho que investigar isso a fundo.”*
Fim do Capítulo 14