Kael observou o interior da caixa por mais algum tempo. Seu sorriso apenas se intensificava com o que via.
Ele viu pessoas tão pequenas quanto formigas, mas notou que conseguia ampliar as imagens do pequeno mundo.
“Isso...”
Sua respiração ficou ofegante.
Assistiu a dois homens vestidos de forma estranha lutarem. Um usava espada, enquanto o outro, uma lança.
Mas o surpreendente era que os dois voavam, e seus movimentos abriam grandes crateras e até deixavam perfurações em enormes rochas.
— Esse é um mundo de cultivo... tipo aqueles romances chineses? Cultivar a imortalidade, hehe.
Kael ficou fascinado.
Ainda se beliscava várias vezes para ter certeza de que aquilo era real. A sua confiança sobre aquilo só aumentava. Um brilho surgiu em seu rosto cansado.
Era esperança.
Não perdeu mais tempo; ainda precisava entender melhor tudo aquilo. Com sua mente, fez a região com um grande oceano ser mostrada na caixa novamente.
Não parecia ser o mesmo oceano onde havia atirado o pedaço de montanha.
Se perguntava quão grande era aquele mundo miniatura. Mas uma coisa era certa. Parecia mais extenso e vasto que seu próprio mundo.
Sem pensar duas vezes, estendeu a mão. Dentro da caixa, uma mão seguida de um braço gigantesco desceu.
Aquela região era chamada Mar da Perdição.
Era conhecido pelos cultivadores que naquele imenso oceano habitavam bestas colossais.
Algumas haviam até alcançado as Sete Transformações. Este era um nível que poucas pessoas daquele mundo haviam alcançado.
Mas Kael não sabia disso, nem imaginava tal coisa. Do contrário, não cogitaria colocar a mão ali.
Seu braço afundou no oceano e uma grande onda surgiu.
Nas profundezas daquele lugar havia uma gigantesca serpente marinha que cultivava para transcender a um dragão, após mais mil anos de reclusão.
Percebendo aquela turbulência que interrompia seu progresso, abriu seus grandes olhos e, como um flash negro, desapareceu dali.
Em poucos momentos, estava com os olhos arregalados. Uma imensa mão se estendeu até ela de forma tão rápida que a serpente não teve tempo de reagir.
Na verdade, apenas a imensa supressão que sentia fez com que ela nem cogitasse agir, aceitando o destino de ser agarrada e puxada das profundezas do Mar da Perdição.
Kael puxou a mão e sentiu que havia pegado alguma coisa. Pela sensação, parecia uma minúscula minhoca.
Ele parou a mão próximo às nuvens do mundo da caixa e ampliou a imagem para ver a minúscula criatura.
Quando viu a aparência da outra parte, quase a soltou de susto. Parecia uma cobra completamente escura, mas que tinha duas presas afiadas projetadas para fora da boca.
— Hum... Parece forte, mas na minha mão é tão dócil... — comentou admirado.
O que ele não sabia é que suas palavras eram completamente compreensíveis para a antiga Serpente da Perdição.
Um sibilar de cobra ecoou nos ouvidos de Kael.
Ele encarou aquela pequena coisa.
— Senhor Supremo, que governa o Mundo Superior... tenha misericórdia deste júnior.
A boca de Kael se abriu a ponto de cair.
“Essa cobra fala português?”
Seus olhos piscaram algumas vezes.
“Desde quando uma cobra fala? Isso realmente deve ser como aqueles mundos de novel.”
Kael refletia, animado.
Tudo era muito fascinante para ele. Notou que, aos olhos daquela criatura, ele era algum tipo de divindade.
“Hehe, isso é muito foda! Mas tenho que ter cuidado ao falar. Não sabia que podiam me escutar.”
Naquele momento, uma informação surgiu em sua mente: os seres daquele mundo só poderiam ouvi-lo quando essa fosse sua intenção.
Logo lembrou que havia pensado em tentar conversar com alguma forma de vida inteligente dali.
“É assim que funciona... Hum, é muito prático.”
Enquanto Kael se perdia em pensamentos, a Serpente da Perdição tornava-se cada vez mais aflita.
Sua situação parecia miserável.
Era como se quanto mais tempo permanecesse naquela imensa mão, mais vulnerável se tornava.
Mas, naquele momento, uma voz imponente desceu de além dos céus.
— Me chame de Soberano!
A cobra tremeu, mas assentiu.
— Que o Soberano... perdoe qualquer ofensa deste pequeno Feng Li.
A voz da cobra falhou levemente. Era inegável seu pavor crescente.
Kael sorria de orelha a orelha vendo tanta obediência e humildade da outra parte.
“Humpf! Quem foi o idiota que disse que os cultivadores são arrogantes? Veja essa pequena cobrinha, tão comportada.”
Sua voz cortou as nuvens mais uma vez.
— Pequeno Feng Li, este Soberano vai passar a agir neste mundo. Fique ciente e esteja pronto para me ser obediente!
A grande serpente tremeu, aterrorizada.
“A Era Perdida vai se repetir novamente no Mundo Imortal...”
“Quem pode lutar contra um ser tão terrível quanto este? É melhor ficar do lado vencedor.”
— Feng Li está disposto a servir ao grande Soberano — respondeu rapidamente.
Kael não era ingênuo quando se tratava de atuar.
— Cuidado com o que você pensa. Caso me ofenda, transformarei você em isca de peixe.
Sem demorar, a serpente pediu perdão inúmeras vezes, pressionando sua grande cabeça contra as linhas da palma da mão de Kael.
Uma risada foi ouvida por Feng Li. Kael não conseguiu se segurar diante da cena.
Mas isso só deixava a pobre serpente ainda mais aterrorizada.
— Gostei de você. Vai ser o mascote deste Soberano.
Kael desceu a palma da mão até o Mar da Perdição, soltando Feng Li. Por um curto momento, a serpente pensou em fugir, mas balançou rapidamente a cabeça.
“Tenho que ter cuidado. Meus pensamentos podem ser ouvidos por esse Soberano.”
A voz de Kael surgiu após ele recolher a mão da caixa.
— Me espere. Vou lhe dar um petisco!
Feng Li assentiu e esperou.
Seu corpo era imenso naquele oceano, chegando a mais de trezentos metros de comprimento, da cabeça à cauda. Mas, na mão de Kael, não era diferente de uma minúscula minhoca.
Fora da caixa, Kael abriu a geladeira. Não sabia bem o que dar para a serpente.
— Bem, ela vive no mar, então uma sardinha em lata deve ser boa — murmurou.
Não parecia realmente preocupado com a opinião da outra parte. Sabia que a serpente não teria coragem de reclamar.
“Hahaha! Ser poderoso é incrível...”
Estava se divertindo, mas logo sua expressão tornou-se amarga.
“Se ele soubesse que este Soberano que se apresentou só tem dois meses de vida... ainda teria medo?”
Balançou levemente a cabeça, deixando o pensamento de lado.
Logo chegou diante da caixa com uma das sardinhas da lata espetada em um garfo.
Dentro da caixa, Feng Li viu um imenso pedaço de peixe sendo atravessado pelo que parecia ser um gigantesco tridente prateado.
Não resistiu e engoliu em seco diante da cena.
Aquela besta terrível, cravada naquele tridente, era ainda maior do que ele próprio e estava completamente cozida.
Se ele não demonstrasse a reverência necessária, quem garantiria que não seria o próximo a ser empalado e cozido?
A simples visão daquela criatura perfurada descendo em sua direção fez seu corpo estremecer mais e mais.
O Ki Verdadeiro circundava aquela carne, formando um imenso vórtice.
Seu aroma era tão sedutor que as grandes feras marinhas, que antes haviam fugido, voltaram seus olhares com um desejo ardente.
“Isso é uma criatura que rompeu a imortalidade?”
Mesmo com aquele enorme pedaço diante de si e tomado pela vontade de devorá-lo, Feng Li se conteve.
Era algo precioso demais. Haveria um verdadeiro banho de sangue no Mundo Imortal apenas para conseguir um pequeno pedaço.
— S-Soberano... isso realmente é para este júnior?
A saliva escorria junto com o veneno mortal de suas presas, fazendo a água ao seu redor ferver em um tom escuro como petróleo.
Kael divertiu-se ao ver o desejo estampado no rosto da serpente negra.
— Você é meu mascote. É comum que um dono trate bem seu mascote, certo?
Ao ouvir isso, Feng Li não se sentiu ofendido, mas extremamente afortunado.
Se qualquer outro dissesse algo assim, ele o mataria e escravizaria sua alma. Todavia, quando aquelas palavras vinham de um ser absoluto, soavam como uma canção dos céus.
— Este pequeno Feng Li será seu eterno mascote mais leal!
Com isso, rapidamente começou a devorar a sardinha.
De repente, nuvens negras começaram a se reunir.
O Ki Verdadeiro envolveu seu corpo, e suas escamas negras passaram a brilhar intensamente.
Mas Kael não queria que a refeição de sua pequena serpente fosse interrompida.
Respirando fundo, soprou em seguida, causando um vendaval aterrorizante que dispersou completamente as nuvens.
Feng Li assistiu àquilo completamente admirado.
Era a primeira vez que via alguém expulsar as Tribulações Celestiais, que eram provações absolutas dos céus destinadas àqueles que rompiam a mortalidade.
Em apenas quinze minutos, Feng Li devorou tudo. Fez até mesmo as pequenas gotas de óleo que pingaram no oceano flutuarem até sua boca.
Ele estava pronto para romper as Sete Transformações, tornando-se um Dragão Imortal.
Kael sorriu ao ver a metamorfose da pequena serpente.
— Bem, vou deixar você terminar seu ciclo. Depois voltarei a contatá-lo.
O corpo de Feng Li brilhou, e sua estatura diminuiu. Ele transformou-se em um jovem vestido com uma túnica negra.
Entretanto, dois chifres negros e uma cauda permaneciam, deixando claro que ele não era humano.
Curvando-se profundamente, declarou: — Este pequeno servo estará à espera do grande Soberano!
Sua intenção era que todos os que estavam escondidos ouvissem aquelas palavras.
Logo passaria por sua metamorfose e se tornaria um Dragão Imortal, uma situação que exigia sua concentração máxima. Se houvesse qualquer grande interferência, ele poderia morrer, e sua alma se perderia no Mundo Caído.
Era necessário enfrentar as Tribulações Celestiais para fortalecer seu corpo e sua alma, mas, com o Soberano por perto, nem mesmo as nuvens das tribulações ousaram aparecer uma segunda vez.
Para ele, era um alívio que esse ser onipotente estivesse indo embora. Ao mesmo tempo, isso também lhe causava certa aflição.
Todavia, Feng Li não tinha coragem de pedir ajuda à outra parte. Vai que ela mudasse de ideia e o matasse também?
Sem imaginar o que passava na cabeça de seu mascote, Kael fechou a caixa.
Mas passou algum tempo refletindo sobre o que havia presenciado.
Ele viu aquela serpente se transformar em um jovem bonito.
Apesar de tentar manter a compostura, aquilo ainda o surpreendia, ainda mais do que ouvir a serpente falar.
“Quando puxei aquele pedaço de montanha, senti que, em pouco tempo, ele cresceria até se igualar à sua verdadeira imponência...”
“Será que, se eu trouxesse Feng Li, ele se tornaria uma imensa serpente imparável?”
Todo o corpo de Kael tremeu só de imaginar.
Ele era poderoso quando interagia com o mundo na caixa, mas não sabia o que ocorreria se alguns daqueles monstros cultivadores saíssem para o seu mundo.
Não seria uma boa situação para o pequeno planeta Terra.
Ainda assim, gastou algum tempo anotando suas descobertas. Principalmente sobre a reação que uma simples sardinha causou naquele mundo.
“Será que tudo o que vai do meu mundo para o mundo na caixa se torna extraordinário?”
Seus olhos brilharam.
“Se for assim, se eu pegar pílulas de cultivo ou técnicas místicas de lá... eu também poderei cultivar a imortalidade, certo?”
Kael deixou seus pensamentos de lado por enquanto. Já era tarde, e precisava comer e dormir.
Seu corpo estava muito fraco e precisava acordar cedo para começar sua busca pela cura do câncer.
Estava tão cansado que não notou que, na cabeceira de sua cama, havia a foto de um casal com uma criança de dez anos.
A mesma foto que usou para trocar com o velho por aquela caixa misteriosa.
Seu olhar voltou-se uma última vez para a caixa antes de seguir para a cozinha.
Era inegável sua ansiedade para continuar explorando.
— Se eu realmente puder cultivar a imortalidade e curar o câncer através desse mundo... não deixarei escapar tal oportunidade!
Naquela mesma noite, em algum lugar do Mundo Imortal...
Soou um sino que não tocava havia dez mil anos.
Foi Chu Ming quem o fez ressoar.
De costas para o sino, ele aguardava em silêncio.
Um a um, os Dez Grandes daquele mundo chegaram.
