Fora do mundo em miniatura, Kael segurava as pequenas coisas que Feng Li havia lhe entregado.
Entre elas, só conseguia ver a pele. As dez pedras pareciam pequenos cristais de areia; se não fosse pelo brilho intenso que emanavam, ele sequer conseguiria enxergá-las.
De forma repentina, uma sensação tomou conta da mente de Kael.
Era uma certeza inexplicável de que, em poucos segundos, aquilo cresceria para se adequar à sua realidade.
— Será que vai acontecer alguma transformação extraordinária... como aconteceu com a sardinha que dei a Feng Li?
Apesar de estar um pouco ansioso, também era inegável que estava assustado.
Mesmo quando ainda era uma serpente no mundo miniatura, Feng Li já era enorme para as proporções daquele mundo.
De repente, um calor surgiu em sua mão, e Kael rapidamente sacudiu o braço, soltando o que segurava.
Um imenso couro coberto por escamas negras começou a crescer assim que saiu de sua mão, expandindo-se como uma lona gigantesca sendo inflada.
Em poucos segundos, a pele ocupou todo o quarto de Kael.
O ambiente escureceu completamente, como se uma noite negra tivesse descido sobre ele.
Kael caiu no chão quando a pele o envolveu, mas, para sua surpresa, não sentiu o peso esmagador que esperava.
A enorme extensão do couro havia se espalhado pelo quarto, distribuindo sua massa pelo chão, pela cama e pelos móveis ao redor.
Ainda assim, uma parte pressionava seu corpo, tornando difícil se mover.
Pelo menos foi essa a conclusão a que chegou.
Kael não percebeu que a caixa brilhara intensamente no instante em que o couro se expandiu, disparando uma rajada de luz que o atingiu e o envolveu por um breve momento antes de se dispersar.
Deitado sob aquela gigantesca pele, ele ouviu o piso inteiro gemer sob o peso. Estalos ecoaram pela casa, enquanto pequenas rachaduras surgiam próximas à porta e no teto.
Por alguns minutos, Kael permaneceu ali em silêncio.
Mas não conseguiu evitar arregalar os olhos e tremer levemente.
— Que droga... Se isso tivesse caído concentrado sobre mim, eu teria virado uma panqueca...
Suspirou aliviado por estar vivo.
— Feng Li só é fofo quando está em miniatura... De perto, ele é terrivelmente assustador.
Murmurou enquanto se levantava, empurrando com dificuldade o couro que estava sobre ele.
Era pesado, mas não tanto quanto achava que seria.
Procurando a ponta da cauda entre o couro negro, encontrou-a após alguns segundos.
Soltou o ar, aliviado por não estar emaranhado.
Rapidamente abriu a porta e puxou a pele esticando-a.
Por onde o couro passava, o piso de madeira afundava levemente, arrancando rangidos da estrutura da casa.
Kael puxou a pele até as escadas. Em seguida, desceu os degraus, arrastando-a consigo.
Passou pela cozinha, deu uma volta pelo cômodo para esticar melhor o couro e, por fim, continuou arrastando-o até a sala.
Só então soltou o ar, cansado.
Todavia, sua expressão ainda estava sombria, cheia de perplexidade.
A pele era enorme e larga. Kael tremeu ao imaginar aquela serpente diante dele em seu tamanho real.
— Tenho que tomar cuidado para não ser descoberto... Será que Feng Li não me devoraria se soubesse a verdade?
Engoliu em seco.
— Aquele pequeno mundo é mais terrível do que eu imaginava.
Kael respirou fundo, recuperando a compostura.
Foi até a geladeira e bebeu uma Coca-Cola bem gelada.
Após arrotar, sentou-se no sofá, que estava parcialmente coberto pelo couro negro.
Precisava descansar um pouco depois de todo aquele esforço.
Mas, enquanto observava o couro, levantou-se e pegou uma faca afiada.
Sem hesitar, desceu a faca com toda a força contra uma das partes do couro sobre o sofá.
Estalo!
A faca dobrou e quebrou, como se tivesse atingido uma rocha sólida.
O pedaço quebrado passou de raspão pela bochecha de Kael, deixando um pequeno corte.
Ele não reagiu. Apenas encarou o local onde havia golpeado.
Não havia sequer o menor arranhão.
Então, deixou escapar uma gargalhada.
Riu alto por alguns segundos.
Antes, estava assustado, mas agora olhava para aquele couro como se fosse um tesouro inestimável.
“Acho que nem preciso testar se isso resiste a balas... Mas, ainda assim, futuramente, devo descobrir até onde vai sua resistência.”
“Se nossas armas existissem no mundo miniatura, acho que nem uma bomba atômica derrubaria o atual Feng Li...”
Kael se lembrou dos filmes do Godzilla.
Na sua opinião, seu mascote parecia ainda mais poderoso e imponente do que o Godzilla dos filmes.
“Essa pele de serpente pode ser praticamente indestrutível.”
Refletiu, animado.
“Hehe... Pequeno Feng Li, você acabou de me ajudar grandemente.”
Suspirou.
“Depois de me curar do câncer, se eu usar isso para fazer minhas roupas... isso vai garantir que eu preserve minha vida.”
Houve uma breve pausa.
— Agora o problema é descobrir como processar esse couro... — comentou, sem fazer ideia de como conseguiria fazer isso.
Kael se levantou do sofá após descansar e retornou ao quarto.
Procurou a parte da pele onde ficava a cabeça.
Encarou-a brevemente após encontrá-la.
“Pergunto-me se aquelas anacondas dos filmes poderiam ser tão assustadoras quanto isso...”
Seu plano era enrolar a pele de uma ponta à outra, como um rolo de tecido. Não demorou e pôs o plano em prática.
Após enrolar uma parte, surgiu outro problema: o piso estava sedendo e rolo tinha o dobro da largura da porta.
Depois de virá-lo de lado, gastou certa força para empurrá-lo. Só então conseguiu fazê-lo passar.
Agora, Kael estava diante da escada.
Sem pensar muito, empurrou o enorme rolo que havia acabado de enrolar.
Crack!
O primeiro degrau cedeu quase instantaneamente.
O couro desceu pela escada como uma massa gigantesca, tornando-se cada vez maior à medida que continuava a se enrolar.
O corrimão se partiu como gravetos, seguido por vários degraus que desabaram sob a pressão crescente.
Mas o couro não parou por aí. Ao atingir uma mesa, reduziu-a a pedaços antes de esmagar sua televisão.
Kael ficou imóvel. Sentiu uma dor no coração ao ver a escada naquele estado miserável.
Sua escada, construída por seu pai anos atrás, agora estava parcialmente destruída.
— Pequeno Feng Li... Que prejuízo você me deu...
Mordeu os lábios em desamparo.
— Até minha televisão...
Soltou um longo suspiro.
“E eu aqui pensando se deveria lhe dar outro petisco... Você não está merecendo.”
Balançando a cabeça em desânimo, desceu pelos escombros da escada e terminou de enrolar o restante da pele com dificuldade.
Ao finalizar, Kael simplesmente se jogou no chão, ofegante.
Passou alguns minutos deitado, recuperando as forças.
Olhando de relance para o enorme rolo de couro de serpente, perguntou-se como deveria lidar com aquilo.
Naquele mesmo momento, em uma suíte em algum lugar do Rio de Janeiro, Ashley Hoshino contemplava o mar pela varanda.
Embora parecesse jovem, seus olhos revelavam um cansaço que nem mesmo o tempo fora capaz de apagar.
Sentada com as pernas cruzadas, girava lentamente a taça de vinho antes de tomar um pequeno gole.
A brisa do oceano fazia seus longos cabelos negros ondularem suavemente.
— ... Acho que meu querido Kael já deve ter lido a carta.
Sua voz soou enquanto um leve sorriso surgia em seus lábios.
— Fiz o que prometi aos dois, Mikhael... Katia... Mas sinto muito. Parece que o destino não tem sido bondoso com ele.
Ashley permaneceu alguns instantes em silêncio.
Seus dedos acariciaram distraidamente a borda da taça.
Havia muito tempo que não pronunciava aqueles nomes em voz alta.
Ela suspirou.
Sobre uma mesa mais ao centro da suíte havia diversos documentos.
Entre eles, alguns tratavam de Kael e de seu câncer terminal.
Ashley girou lentamente o vinho na taça antes de beber o último gole.
— Ainda assim, não deixarei que seus últimos dias sejam em um hospital... Ele deve conhecer o quão grandes foram seus pais...
Houve uma breve pausa.
— E entender um pouco de tudo.
Alguns minutos depois.
Kael ainda estava deitado, recuperando as forças.
Todavia, uma vibração em seu bolso chamou sua atenção.
Era seu celular.
Ao retirá-lo do bolso, olhou quem estava ligando.
Ignorou, desligando a ligação.
Mas, em seguida, o celular vibrou novamente.
Kael franziu a testa.
Quase ninguém possuía seu número.
Achou que fosse alguém do hospital, mas era um número desconhecido.
Curioso pela insistência, atendeu.
Uma voz feminina, que lhe era familiar, surgiu do outro lado da linha.
Kael não pareceu surpreso, mas sua expressão demonstrava certa irritação.
— De fato... Você ainda está viva, tia Ashley... Por que só agora?
Ele se sentou, mantendo o olhar sério.
— Porque, durante esses três anos... Até fotos do seu corpo morto eu vi.
Do outro lado da linha houve silêncio.
Ashley fechou lentamente os olhos. Então, Kael ouviu uma risada baixa e forçada, como se ela tentasse quebrar o gelo.
— Kael... Perdoe-me. Eu tive motivos para escolher esse caminho. — A voz de Ashley surgiu carregada de pesar.
— É melhor que tenhamos essa conversa pessoalmente. — sugeriu ela. — Amanhã posso visitá-lo?
Por um momento, Kael manteve silêncio.
Olhou para o grande rolo de couro do seu mascote, depois para a destruição na casa.
Também pensou na caixa com o mundo miniatura.
Ela vir à sua casa naquele momento não seria possível.
Era inegável que estava irritado com Ashley Hoshino, mas Kael não era nenhuma criança.
Há segredos que nunca devem ser revelados, nem para os mais próximos.
Quanto mais para alguém que não tinha um vínculo real.
Mas ele sabia que precisava usar bem essa sua relação com Ashley para facilitar sua vida.
O fato de ele estar morrendo era inquestionável. Precisava começar a cultivar antes de ir para a academia, para saber se o cultivo poderia curá-lo.
Fora isso...
Kael encarou o grande rolo de couro.
“Se for por meio dela, posso conseguir processar isso... e até ganhar algum dinheiro.”
Breve pausa.
“Também devo criar uma fachada... Fico feliz por aquilo existir.”
Lembrou-se de algo que leu entre os inúmeros arquivos da deep web.
— Podemos nos encontrar, mas não na minha casa.
Sua voz cortou o silêncio, fazendo um sorriso de alívio surgir no rosto de Ashley.
— Obrigada, Kael... Fico feliz.
Ashley queria dizer algumas palavras de consolo, mas se segurou.
O que se poderia dizer a alguém com os dias contados, ainda por cima tão jovem?
Suspirou.
— Tem uma churrascaria a alguns quilômetros da sua casa. Pode ser lá?
Kael refletiu um pouco. Percebeu que era melhor ser direto.
— Sim. Mas traga um contrato de mana. Não conseguirei acreditar tão facilmente em alguém que me enganou.
Um breve silêncio surgiu entre os dois.
Ele plantou a armadilha. Agora era esperar fisgar.
— Ahh... Você sabe disso? — questionou Ashley, sem muita surpresa.
Kael riu, demonstrando confiança.
— Eu sei de muita coisa, tia Ashley. Coisas que você nem imagina...
Do outro lado da linha, uma risada baixa foi ouvida.
“Esse garoto pensa que pode brincar comigo? Tudo isso já não é mais um grande segredo. Basta procurar para encontrar.”
Kael não esperou a resposta dela. Apenas disse para ela ligar com antecedência, informando o horário em que deveriam se encontrar na churrascaria, e desligou a ligação.
Diante disso, Ashley sorriu em desamparo.
Era normal que Kael a tratasse assim, mas era inegável que isso doía um pouco.
“Pelo menos... Acho que você escolheu não me odiar... Esta sua tia já fica feliz por isso.”