Na Seita Dao Infinito, todos olhavam silenciosamente para o céu, completamente tomado por nuvens negras.
Mas não era isso que de fato chamava a atenção. Havia uma mão gigantesca, completamente dourada, rompendo as densas nuvens enquanto segurava algo que fazia um arrepio percorrer suas espinhas.
De repente, uma figura voou da montanha que estava no centro da Seita. Era Xiu Ying. Seus belos cabelos brancos balançavam diante do intenso vento que percorria as rachaduras na matriz de proteção, enquanto seus olhos de cor violeta encaravam aquela situação com grande temor e admiração.
Logo atrás dela, mais seis figuras se posicionaram. Tanto ela quanto os demais olhavam, absortos e aterrorizados, para aquela visão.
— Mestra da Seita... um ser divino desceu ao nosso mundo... e seu alvo parece ser este lugar... isso é bom ou ruim? — questionou a segunda anciã, Zen Yue, com a voz quase falhando.
Não houve resposta de Xiu Ying. Ela apenas encarou os céus com um olhar pensativo. O medo que antes estava em seu olhar havia desaparecido, pois sentiu uma ligação com o dono daquela mão.
Ela se ajoelhou em pleno ar. Os anciões não entenderam, mas seguiram sua ação, prostrando-se silenciosamente.
A incansável luta entre os demônios que haviam invadido a seita e os discípulos cessou naquele momento. Ninguém se atrevia a se mover.
Todavia, um discípulo após outro começou a se ajoelhar, seguindo o exemplo de sua Mestra da Seita e dos grandes anciões.
Logo, a voz de Xiu Ying rompeu o silêncio que havia tomado o ambiente.
— Poderosa divindade, que ouviu o grito desta minha pequena alma, eu, Xiu Ying, e minha Seita Dao Infinito te saudamos!
Uma lágrima cristalina desceu lentamente pelo rosto dela ao proferir aquelas palavras, mas sua voz era firme.
Vozes se sobrepunham quando as dezenas de milhares de discípulos que haviam sobrevivido à opressão do Continente Demoníaco por séculos reverberavam, fazendo o Ki Verdadeiro vibrar.
Xiu Ying sorriu em alívio.
Foi exatamente como em seu sonho. Aquela mão, aquele objeto estranho e aterrorizante e todos prostrados diante dele. Diante de sua grandeza incomparável. Ela tinha certeza, mesmo sem saber como, de que, apesar de ainda ser tão fraca, de alguma forma conseguira tatear o Dao do Destino, atraindo a atenção daquele ser incompreensível para mortais como ela.
“Mas... o que somos nós aos seus olhos para que se importe conosco?”, refletiu Xiu Ying, sem entender o motivo. “O que temos nós a oferecer para que tu estendas a mão a nosso favor...? Será que somos pelo menos um pouco dignos para que seu rosto se vire para nós?”
Ela refletia profundamente, mas não havia respostas para suas perguntas. Contudo, uma coisa era certa: daquele momento em diante, nenhum deles teria mais direito sobre o próprio caminho, pois agora suas vidas pertenciam ao deus que lhes estendera a mão.
Fora da caixa, Kael assistiu a todo aquele desenrolar com agradável surpresa.
“Veja isso... ainda nem fiz nada e já são tão comportados e humildes...”
Mais uma vez, perguntou-se por que os autores de romances descreviam os cultivadores como arrogantes e orgulhosos. Aos olhos de Kael, isso era uma grande mentira.
Seu mascote, Feng Li, mesmo sendo um dragão que deveria ser orgulhoso por natureza, era, na verdade, um poço transbordante de obediência, e ele nem mesmo precisou adestrá-lo.
Kael até chegou a pensar que era por seu mascote, na verdade, ser um dragão falsificado, já que antes era uma serpente, mas isso era só um detalhe.
A Divina Imortal Bai Suxian, por exemplo, era, na verdade, muito modesta, ingênua e parecia ter um bom coração, apesar do possível status que possuíra antes. Apesar de Kael desconfiar que ela estivesse atuando para enganá-lo, isso não importava muito para ele. A primeira impressão era o que valia.
Agora, sem nem perceber, aquela grande seita já havia se entregado para ser sua subordinada.
Tudo era bem diferente do que seu grande conhecimento dos romances lhe dizia. Só uma coisa permanecera igual: o protagonista ainda era o mesmo clichê, cheio de perigos ocultos e provavelmente impossível de matar.
Os demônios que cercavam a Seita Dao Infinito pareciam ter recebido uma ordem, pois todos começaram a se agrupar.
Observando aquilo, Kael deixou seus pensamentos de lado. Era algo bom, pois, sempre que percebia, os demônios já estavam facilitando sua grande performance diante de seus servos.
Sem pressa, ele moveu o dedo levemente, apertando o botão da raquete elétrica.
Zizzzz!
Um barulho estranho percorreu todo o lugar, fazendo todos sugarem o ar. Em seguida, um intenso brilho azul e crepitante ascendeu aos céus, originando-se daquele grande objeto estranho. Raios gigantes começaram a percorrer as nuvens como serpentes mortais, aterrorizando a todos.
O aglomerado de nuvens negras passou a girar em espiral, com aquela coisa no centro. Então, um relâmpago cortante surgiu da raquete elétrica e subiu para os céus.
Em seguida, um estrondo. Então, raios começaram a cair descontroladamente das nuvens, mas, no momento seguinte, eram absorvidos pelo enorme objeto.
Kael não se surpreendeu tanto com o que via. Depois da experiência com a sardinha e o Merthiolate, entendeu que tudo que vinha de seu mundo se tornava extraordinário naquele pequeno mundo por algum motivo.
Enquanto tudo era aterrador para os que assistiam, para Kael, aquelas descargas elétricas que subiam da raquete até sua mão eram como um leve arrepio sobre sua pele.
Sem dizer uma única palavra, ele moveu a mão. O alvo eram os milhares de demônios do Clã Zi Chi, que estavam reunidos a dezenas de quilômetros abaixo.
Eles nem tiveram tempo de reagir. A aproximação daquele objeto havia deixado seus movimentos lentos.
Pa!
Um estalo surgiu quando o primeiro demônio foi atingido. Não sobrou nada, apenas fumaça.
Pa...! Pa...!
Pa...!
Um estalo seguido de outros, como pipocas em uma pipoqueira, ecoava por todo o lugar.
“Gahaha! Essa raquete é boa mesmo!”
Kael sorriu de orelha a orelha, feliz por estar funcionando.
Mas, em contraste, Xiu Ying e os anciões assistiram de boca aberta. Houve discípulos que até se mijaram, aterrorizados com a facilidade com que seus poderosos inimigos eram dizimados.
Sem mais demora, a mão de Kael se moveu sem descanso pelo céu. Centenas, milhares e logo dezenas de milhares de estalos tomavam os céus, sem sinal de que iriam parar. Eram como fogos incessantes.
— Morram, mosquitos demoníacos! Como ousam tocar nos subordinados deste Incomensurável...?
Uma voz como um trovão surgiu dos céus, aterrorizando ainda mais os demônios que tentavam fugir desesperadamente.
— Pelo visto, meu prestígio neste mundo mortal já chegou ao fundo do poço…
Fez uma breve pausa dramática.
— Mas hoje este Soberano deixará marcado em suas almas imundas o quão terrível é tocar no que é meu!
A cem quilômetros dali, um general demoníaco observava tudo com uma grande carranca. Era Murong Di, um Imortal Dourado do Clã Demoníaco Zi Chi.
A fúria tomava conta de seu rosto enquanto todos os seus subordinados eram exterminados.
“Não tem como eu, o grande Murong Di, acreditar que de fato se trata de um ser do mundo divino...”
Ele refletiu sobre a história da Seita Dao Infinito e, de fato, fazia sentido que tivessem alguma carta escondida.
— Maldita Xiu Ying! — murmurou secamente. — Isso deve ser alguma matriz de matança deixada por seu antigo mestre, que era um Verdadeiro Imortal.
Suspirou lentamente.
— Mas, diante de um Imortal Dourado a um passo do topo deste mundo, isso não é nada!
Como um flash roxo, ele cortou toda a distância até a raquete elétrica em menos de dois segundos.
Kael estreitou os olhos ao ver um daqueles mosquitos demoníacos voando tão rápido.
“Hehe, tentando fugir de mim, hein? Você não sabe, mas eu já fui campeão de tênis de mesa no fundamental!”
Curvando-se levemente sobre a caixa, moveu o braço em sua velocidade máxima. O espaço não suportou a força, quebrando-se em seguida e deixando um vazio exposto.
Relâmpagos tomavam a raquete elétrica, deixando os sons crepitantes ainda mais intensos. O pequeno brilho roxo que corria em sua direção não conseguiu reagir.
Pa!
Um alto pipoco surgiu.
Mas, diferente dos outros, que simplesmente se tornaram fumaça, aquela pequena massa roxa foi rebatida, voando em alta velocidade e deixando um rastro de fogo e relâmpagos no ar antes de perfurar o solo por milhares de metros abaixo, só parando na crosta de lava ao chocar-se contra um grande diamante nas profundezas de alta pressão.
— Se você tivesse mais um milhão de anos, pequeno mosquito, talvez tivesse uma chance de escapar da investida deste Soberano!
A voz de Kael reverberou, fazendo muitos dos que a ouviram engolirem em seco.
Sem se importar se o demônio que ele acertara estava vivo ou morto, ele apenas continuou balançando a raquete elétrica, ou melhor, a Arma Divina do Trovão Celestial, como Kael decidiu apresentá-la.
Seus movimentos eram rápidos e precisos, e os estalos incessantes, junto ao cheiro de carne queimada, tomavam todo o ambiente. Mas, então, de repente, o brilho da raquete desapareceu, fazendo-o esboçar um sorriso amargo.
— Acho que descarregou — murmurou, decepcionado.
Encarando o silêncio abaixo e o restante dos demônios fugindo, deixou escapar um suspiro.
“Ainda bem que meu prestígio foi mantido em alta. Não posso deixá-los saber a verdade sobre a raquete.”
Ele mal havia feito alguma coisa, mas, assistindo àquela fuga desesperada, sentiu que aquilo era estranhamente satisfatório.
— Espero que vocês, pequenos demônios, não se esqueçam do que acontece com quem toca nos servos deste Soberano! — sua voz surgiu alta e estrondante.
Os demônios do Clã Zi Chi nem mesmo olhavam para trás enquanto fugiam.
Enquanto Kael mantinha seu personagem para não perder o prestígio, uma mão completamente carbonizada se estendeu de uma profunda cratera. Logo, uma cabeça ficou visível, seguida de um corpo moribundo e completamente tostado que se arrastou para fora da cratera.
Era o general Murong Di, que, por ser um Imortal Dourado e possuir grande vitalidade, conseguiu sobreviver. Dois soldados do Exército Zi Chi que o notaram o pegaram e fugiram rapidamente daquele lugar.
Kael percebeu aquele movimento e ampliou a imagem, vendo dois feiosos roxos carregando um feioso que passou do ponto.
“Esse cara era aquele ligeirinho de antes, certo? Ele sobreviveu à minha raquetada... parece que ele não é simples.”
Ele ficou bastante surpreso com a descoberta. Até então, pensava que sua raquete elétrica era invencível naquele mundo, mas não parecia ser o caso.
“Se for alguém mais forte que aquele feioso, pode ser que nem surta efeito...”, refletiu ele com seriedade.
De todo jeito, Kael estava satisfeito com o resultado, mesmo que tivesse custado o restante da bateria de sua raquete.
“Ainda bem que mantive o perfil discreto... se eu tivesse apenas esmagado todos com minha grande mão, chamaria muita atenção... quem sabe não exista nenhum velho monstro escondido à espreita, como nos romances?”
Kael respirou fundo, recobrando seu raciocínio modesto e humilde. Logo em seguida, retirou a mão com a raquete elétrica sem dizer mais nenhuma palavra.
Fora da caixa, pegou o carregador e colocou a raquete para recarregar, caso fosse precisar. Afinal, a noite em sua casa tinha muitos mosquitos, então sua guerra contra essa raça de sanguessugas ainda estava longe de acabar.
Em contrapartida, Feng Li escrevia freneticamente, com um brilho nos olhos, relatando linha por linha de tudo o que vira.
《Crônicas do Supremo Deus dos Nove Céus》
Notas explicativas: Hoje, meu Soberano trouxe uma arma divina capaz de controlar as Tribulações Celestiais e, com um leve balançar de sua mão, aquela arma exterminou mais de um milhão de demônios.
Isso foi assombroso. Cheguei a suar frio ao assistir. Entre os mortos, havia muitos com cultivos semelhantes ao meu ou mais fortes, e simplesmente foram transformados em fumaça. Nem suas almas imortais permaneceram. Também havia Imortais de Bronze e de Prata... Além disso, com um golpe, meu mestre esmagou um Imortal Dourado.
Eu conheço aquele que foi esmagado. É um general do Clã Demoníaco Zi Chi, muito estimado entre eles. Quando eu, Feng Li, ainda era uma pequena serpente que nem sequer raciocinava direito, esse cara já era um Imortal de Bronze.
Notas de autorreflexão: Realmente, gastei a sorte de todas as serpentes que vieram antes de mim ao me tornar servo... ou melhor, mascote do meu grande mestre. Agora, devo me preparar para guerrear contra o Continente Demoníaco, que logo estará na palma da mão de meu Soberano.
Sem prestar atenção em Feng Li, que esboçava um sorriso cheio de loucura enquanto escrevia, Bai Suxian piscava várias vezes, tentando entender o que tinha acontecido. O Grande Dao era a lei suprema que regia todas as coisas, até mesmo os nove grandes mundos divinos.
Cada mundo, seja divino ou mortal, era controlado pelo Dao Celestial, criado pelo Grande Dao para manter a ordem. Ela não conseguia compreender que tipo de objeto anormal era aquele, capaz de controlar os relâmpagos das tribulações como se fosse o rei entre eles.
— O que aconteceu depois desses dez mil anos...? — murmurou, abismada. — Como Kamiel se tornou tão poderoso a ponto de ignorar o controle do Grande Dao?
Bai Suxian observou aquela mão e aquela arma Dao desaparecerem além das nuvens. A capacidade de gigantificação dele já era algo digno de admiração para ela, mas havia muito mais coisas que batiam de frente com tudo o que ela sabia.
“Eu deveria ter te ouvido naquela época, Kamiel. Talvez, neste momento, também pudesse estar olhando para os inúmeros mundos aí de cima como você... Talvez um dia eu ainda possa...”
Ela balançou levemente a cabeça, deixando esses pensamentos de lado. Mesmo tendo seguido a compreensão e manifestação do Dao do Destino, ainda fez suas escolhas erradas. Afinal, o destino está muito ligado às escolhas.
Seja sobre Yechen, quem imaginou ser alguém leal e filial, ou até mesmo sobre seu tempo no reino divino, Bai Suxian seguiu cegamente essas linhas que pavimentavam o futuro. Durante inúmeros anos, sempre deu certo; ela nunca estava errada. Mas agora, no fim, não foi como esperava.
Aquele que o destino apontava como medíocre, sem grandes realizações, estava lá em cima, governando, enquanto ela, que havia sido tratada como um gênio incomparável no Reino Divino, caiu a esse ponto tão baixo.
Bai Suxian soltou o aperto em seus punhos, esboçando um sorriso amargo. Não adiantava lamentar; apenas precisava aprender com seus erros.
“Eu devo aprender a enxergar com meus próprios olhos... assim como Kamiel sempre viu com seus olhos: um destino moldável e não fixo”, refletiu ela, em compreensão.
Na Seita Dao Infinito, sons de choro e altas gargalhadas estavam por todos os lados.
— Finalmente... acabou... isso é real?
Uma jovem discípula caiu de joelhos ao chão, enquanto lágrimas escorriam incessantemente de seu rosto. Era uma discípula externa chamada Mia Lin.
— Pai e mãe... descansem em paz. Sua pequena Mia sobreviveu. O ser divino vingou vocês! — A voz dela surgiu falha em meio ao choro.
Logo, um grupo de discípulos da seita interna surgiu, reunindo aqueles que não estavam muito feridos para começar a ajudar seus muitos companheiros feridos nessa guerra, além de juntar os corpos daqueles que infelizmente pereceram, para poder dar a eles um enterro digno.
A líder entre aqueles que seguiam era Jin Mei, a primeira e única discípula da Mestra da Seita.
Bem no momento em que todos estavam correndo de um lado para o outro para ajudar seus companheiros, sete sombras desceram dos céus. Eram Xiu Ying e os seis anciões internos.
— Hoje, eu, Xiu Ying, declaro o fim da opressão que os demônios exerceram sobre nós! — A voz dela surgiu suave, porém firme, fazendo todos ouvirem com lágrimas nos olhos. — Contudo, vocês viram quem estendeu a mão ao nosso clamor!
Parando brevemente, olhou para todos aqueles rostos tomados pelo desespero, mas que agora carregavam um novo brilho de esperança.
— Não se esqueçam de sua bondade para conosco, meros mortais. Nossas vidas agora serão dele, daquele que governa lá em cima!
De repente, seu olhar se tornou frio, fazendo alguns dos discípulos tremerem.
— Quem não estiver disposto a se submeter àquele ser supremo não terá mais vínculo algum com a Seita Dao Infinito. Ainda que seja minha única discípula, minhas palavras não mudarão!
Após aquelas palavras, seu corpo se elevou aos céus, desaparecendo em direção à montanha imponente no centro da Seita. Apenas os anciões permaneceram para colocar tudo em ordem.