Ao entardecer, Lucien acorda. Ainda sonolento, levanta-se da cama. Pela claridade da janela, julga ser por volta de quatro e meia. Caminha até a cozinha, procurando pela blusa que havia largado no sofá ao voltar da reunião.
Estranhamente, a reunião lhe parece um sonho distante. Nada ali fizera sentido. Por que, entre todas as obras, o representante escolhera justo aquela? Lucien sempre a considerou seu maior fracasso.
Enquanto procura o cartão do representante no bolso da blusa, seus dedos encontram o relógio mais uma vez. Ele o segura por um instante, franzindo o cenho. No outro bolso, encontra enfim o cartão.
Agora, ali estava ele, com um relógio misterioso em uma mão e o número pessoal de uma figura importante para o seu futuro na outra.
Lucien, analisava as duas coisas.
Estava genuinamente feliz. Seu futuro parecia garantido. As obras escolhidas certamente venderiam bem. Só aquela específica poderia arruinar tudo.
“Ela não vai vender, mas se eu conseguir convencê-lo a trocar…”
“Não deve ser tão difícil.”
Deixando o cartão e o relógio sobre a mesa da cozinha, Lucien começa a preparar um café fresco, precisava esquecer o sabor horrível que experimentou na parte da manhã. O cheiro suave se espalha pelo apartamento, trazendo uma sensação de aconchego.
Enquanto observa o líquido escuro preenchendo a cafeteira, Lucien pensa em tudo que havia conquistado, fama, reconhecimento, dinheiro. Mesmo que aquela obra não vendesse, as outras garantiriam o sucesso. E, se não conseguisse manter a parceria com aquela galeria renomada, seria certamente convidado por outras. Uma porta aberta sempre leva a mais portas.
Mas Lucien tinha um certo apego a essa galeria e apreciava o fato de ser ela a expor suas obras e por isso queria que tudo corresse bem, mas uma pergunta o rodeava a sua mente:
“Como vou convencê-lo?”
Então se lembrou, o representante mencionara querer saber o verdadeiro significado da obra.
— A curiosidade deve ter sido o que o levou a escolhê-la — murmurou. — Quando mostrar que não tem nada de mais, ele vai aceitar trocá-la.
Com essa convicção, Lucien despeja o café em uma caneca e pega o relógio, pensando se ainda havia algumas ferramentas lá e segue até o ateliê.
Ao abrir a porta, o sol poente invade o espaço com uma luz morna. Nem clara, nem escura. O ateliê tinha uma parede inteira de vidro, de frente a porta, por onde a luz entrava e se espalhava como pinceladas douradas sobre o chão e as telas. As outras paredes, fechadas, mergulhavam em sombras.

Lucien sem querer derruba o relógio no chão e ao tentar pegá-lo acaba o chutando-o para o fundo, se abaixa para pegá-lo. E então a vê.
A tal obra. Rapidamente agarra o relógio.
Lucien caminha tão rápido em direção à obra que quase, quase chega a correr. Ela estava ali, emoldurada, coberta de poeira. Protegida por um vidro. Em um canto do ateliê que mal é visto
Com a caneca de café na mão, ele a observa. O líquido que antes era doce agora tem um gosto estranhamente amargo.
Lucien encara o quadro como se fosse a primeira vez. E o que vê é isto.
Em meio ao céu rasgado de nuvens azuis, cinzentas e negras, pinceladas de silêncio e tormenta, pairam rosas. Muitas rosas.
Rosas brancas, suspensas no vazio, flutuando como pensamentos não ditos. Seus centros são levemente amarelados, como o suspiro amargo do tempo passado. As folhas, de um verde gasto, curvam-se em cansaço; e alguns brotos permanecem fechados, como se temessem desabrochar no mundo.
Todas são intocadas. Imaculadas. Até que uma gota cai.
Apenas uma.
Vermelha como grito, viva como o instante que antecede a queda. Ela desce do alto e encontra uma rosa. Apenas uma. E ali se desfaz em impacto silencioso. Mancha as pétalas alvas, escorre entre as curvas delicadas, é como se a flor a desejasse, absorvendo lentamente a gota de sangue.
As outras permanecem puras, intocadas. Mas aquela… aquela agora carrega algo que as demais não têm.
Do caule dela, o vermelho carmesim escorre para baixo. Virando um vermelho-escuro, quase marrom, pinga como uma lembrança amarga. Contrasta com o vermelho vívido da gota original, que ainda brilha, mesmo em meio à dor.
A rosa manchada não cai. Nenhuma delas cai. Todas flutuam, mas agora aquela pesa mais.
E, por isso, talvez seja a mais bela.

Lucien sente o corpo vacilar, mas não entende por quê. Por que aquele quadro o abalava tanto desde que o reviu? Por que mexia com algo tão profundo, tão escondido, que ele nem sabia nomear?
Ficou ali, parado, observando cada detalhe da pintura. Cada pincelada. Sua assinatura ao canto. E sentimentos, que foram postos, mas que se perderam aos ventos.
Era como se o tempo tivesse parado.
Mas agora, o laranja do pôr do sol cobre o ateliê inteiro. E é então que, ao reparar melhor na moldura empoeirada, Lucien vê. O nome da obra, ilegível, mas gravado ali, o mesmo que ele havia esquecido há tantos anos.
Rapidamente, coloca a caneca e o relógio sobre a mesa mais próxima, quase derramando o resto do café e se volta para a pintura. Com um pincel, tira a poeira daquela parte específica da moldura.
E então lê.
— O Vermelho Não é Cor… — diz, num sussurro quase solene, como se estivesse prestes a lembrar de algo importante. Mas a lembrança… escapa por um fio.
“O que isso quer dizer?”
“Se vermelho não é uma cor, deve ser um….”
Tic.
O som do relógio ecoa pelo ateliê, cortando o silêncio justo quando Lucien está mais perto de entender a obra. O som o desconcentra, bagunça o fio de pensamento. Poderia tentar ignorar e voltar ao raciocínio, mas já era tarde. A conexão se desfez. Talvez fosse melhor dar atenção ao relógio.
Tac.
Lucien o pega. Os ponteiros agora estão parados em uma nova hora, uma hora em ponto, não estão mais na meia-noite. Ele o vira, observando o interior através da parte de vidro, e tenta abri-lo, em vão. Está travado.
"Parece mais pesado, talvez?"
Suspira, sentindo-se dividido. Devia focar no relógio... ou na obra?
“Devo estar ficando louco.”
Com um gesto decidido, deixa o relógio sobre a mesa e se volta para a pintura. Aproxima-se devagar, como se tivesse receio de estragar o momento. Pega um pincel com cerdas macias e, com todo o cuidado do mundo, começa a tirar a poeira da moldura. Cada movimento é delicado, quase reverente, como se estivesse tocando um fragmento perdido de si mesmo. Como se aquela pintura fosse uma preciosidade esquecida, e ele tivesse acabado de reencontrá-la.
Aos poucos, as cores emergem. As formas ganham vida.
E quando termina, a obra brilha, como se tivesse acabado de ser pintada.