Barro, plantas e olhos esbugalhados
Não sabia como, nem por quê. Estava totalmente desperta, supostamente presa em um jardim, rodeada de crianças com as mesmas roupas brancas. A jovem arregalou os olhos, amedrontada, agarrou uma mecha de cabelo roxo e ondulado, que escorria até pouco abaixo dos ombros, e a colocou na boca, como se fosse um gesto antigo e automático. Além de não saber onde estava, alguns vislumbres percorriam sua mente de maneira quebrada e fragmentada: um alojamento, uma mesa de jantar, uma sala de piano e uma taça suja cheia de um líquido estranho. Nada além disso.
Mal teve tempo de navegar em seus pensamentos. Perto dali, no centro do pátio, um cão muito gordo, com uma engraçada gravata borboleta azul-anil, saiu de sua casinha e latiu na direção de um garoto de moicano ruivo e pele acinzentada, que, assustadoramente, começou a se debater para os lados e golpear a própria cabeça, em meio aos latidos frenéticos do cachorro.
De maneira descuidada, o garoto esbarrou em uma menina que estava congelada como as demais, arremessando-a em direção a uma floreira de cerâmica.
— Ihh… — exclamou a menina de cabelos roxos, assustada.
De maneira quase natural, a garota esticou um dos braços, apontando para a criança que estava a poucos centímetros de colidir com a floreira. Uma luz dourada surgiu ao mesmo tempo, e uma sensação estranha percorreu todo o seu corpo, irradiando das palmas de suas mãos. As folhas e flores cresceram muito além do normal, quase instantaneamente, envolvendo toda a floreira, formando um abraço floral, protegendo-a do impacto.
Nesse instante, a garota admirou as próprias mãos, assustada, enquanto a luz dourada desaparecia e o tom branco-rosado de sua pele voltava ao normal. Uma dor lancinante tomou-lhe a cabeça, forçando-a a se agachar e massagear as têmporas, tentando aliviar o incômodo. Sons da natureza surgiram do além — folhas, rios, uma grande floresta —, mas, como o apagar de um quadro-negro, as memórias mais profundas se perderam. Era como se lembranças quisessem romper uma barreira invisível, numa luta interminável. Mas apenas duas coisas brotaram em sua mente: seu nome e sua idade.
— Eu sou Nessaldon… e tenho dez anos — murmurou para si mesma.
Mais uma vez a dor de cabeça voltou. Abaixou a cabeça a ponto de ficar entre os joelhos, aguentando ao máximo não gritar ou chorar. Por algum tempo nada parecia fazer sentido, ouvia gritos e latidos mas nada parecia fazer sentido naquele momento.
Quando a dor passou, ela se ergueu, mas deu um passo em falso por causa da tontura e acabou esbarrando acidentalmente em um balanço de madeira. O balanço rangeu alto, devido a falta de lubrificação. Assustada, correu para trás de um banco, torcendo para não terem notado.
Enquanto permanecia agachada, de costas para o centro do pátio, tentou conter a tremedeira e os calafrios. Aproveitou um breve silêncio para se virar e observar novamente a confusão: lá viu um garoto de pele cinza e moicano ruivo e uma menina parecida com ela, de orelhas pontudas e cabelos muito brancos.
Seu coração disparou. Queria fazer o tempo parar, queria sumir dali — ou melhor, queria entender onde estava. Rapidamente concluiu que o garoto de pele cinzenta era assustador. A outra garota, ao contrário, não parecia ameaçadora: era um pouco mais alta que ela, de pele muito pálida e cabelos brancos, que faziam seus olhos púrpura se destacarem intensamente. O que deixou Nessaldon ainda mais envergonhada foi perceber que, do centro do pátio, tanto o garoto quanto a garota olhavam diretamente em sua direção, observando-a atrás do banco.
Foi então que um clack ecoou da porta que dava acesso ao casarão, e um homem grande e gordo, de barba ruiva espessa, casacão pesado e botas reforçadas, entrou no pátio como um cão sarnento, coçando a própria barriga.
— Que merda você fez com o pobre Ruffos?! — esbravejou o homem dando passos cautelosos para trás ao ver o cachorro amarrado como um porco em um dos cantos do pátio.
— É a sua vez, seu gordo do caralho… você vai conhecer a fúria de Baruk! — o garoto se esticou por completo, encarando Ghinorf nos olhos.
Ruffos no canto do pátio, observou seu tratador com o canto dos olhos, mas não esboçou reação alguma; parecia ter vivido a maior aventura de sua vida tentando fugir do garoto chamado Baruk, agora largado no chão, amarrado, com a língua para fora e o peito arfando de cansaço.
Nessaldon arregalou os olhos. Não entendia o que estava acontecendo, muito menos quem eram aquelas pessoas. Percebendo que todos estavam distraídos, decidiu se afastar ainda mais, passando por entre crianças que, como ela, vestiam roupas brancas e pantufas. O mais estranho era que nenhuma delas parecia notar a confusão. Nessaldon ergueu o olhar para a cerca viva, procurando uma brecha para fugir.
Os dois — o homem ruivo e o garoto — se estudaram por alguns instantes. Baruk ergueu os braços, pronto para reagir. Ghinorf parecia lutar para entender a situação com seus poucos neurônios, mas sabia que precisava conter o garoto desperto.
— Fique parado, fedelho! — a voz de Ghinorf vacilava em uma tentativa falha de parecer intimidador — Você deveria estar dormindo!
— Vem aqui testar se eu estou dormindo. — Baruk retrucou finalizando com uma gargalhada forçada.
Aproveitando a distração, Nessaldon começou a escalar a cerca viva. Para sua surpresa, parecia ter facilidade naquela escalada, mesmo com os espinhos. Olhou para trás e viu a garota de cabelos brancos encarando-a com os olhos arregalados, fazendo caretas discretas. Nessaldon ignorou o aviso silencioso e continuou subindo.
— Aquele bunda mole deve ter preparado a poção errada. — Murmurou Ghinorf para si mesmo e então, abriu o robusto casacão, revelando uma bolsa de couro presa à cintura. De dentro, retirou uma taça semelhante à da sala de jantar e um frasco de vidro arredondado, envolto por barbantes.
— Não é bom pivetes como você ficarem por aí acordados — disse, agora com sarcasmo. — Este aqui deve dar conta…
O líquido lilás cintilou.
Nessaldon arregalou os olhos ao ver o frasco. Não sabia explicar por quê, mas sentiu que aquilo era representava perigo. Apressou a escalada; faltava pouco para alcançar o topo. Elara fez o mesmo, mas preferiu continuar escondida.
O caos tomou conta.
No momento em que Ghinorf tentou avançar com a taça contra Baruk, agarrando o ombro do garoto com a mão livre, o tempo pareceu parar. Nessaldon viu a floresta além da cerca — verde, vasta, livre. Sorriu. Mas, num piscar de olhos, tudo se distorceu. As cores se apagaram como uma pintura velha.
Um estrondo.
Uma cúpula invisível envolveu o pátio. Descargas de energia escura correram por sua superfície, como relâmpagos silenciosos, até se acumularem violentamente em um único ponto. Nessaldon foi atingida em cheio e arremessada para trás, colidindo contra uma mesa de madeira com um grande estrondo.
— O que foi isso?! — Ghinorf gritou, assustado.
Foi então que Baruk reagiu.
Agarrando o braço de Ghinorf que o prendia, com força, olhou fundo nos olhos do homem.
— Aqui não é a cozinha, balofo! — caçoou o garoto.
Então, com a mão livre, jogou o cotovelo para trás e acertou com toda a força um belo soco nas partes baixas do ruivo, fazendo-o cair para trás e derrubar a taça e seu conteúdo.
— Arrgh! — Ghinorf gritou de dor. O golpe havia pegado em cheio.
— Yahoo! — Baruk berrou em vitória.
Aproveitando a distração, Elara deixou seu esconderijo e correu rapidamente pelo centro do pátio até chegar à mesa de madeira onde Nessaldon havia aterrissado.
— Tá tudo bem? — perguntou Elara.
— Ihh… — Nessaldon respondeu, assustada ao ver Elara tão próxima.
— Calma, calma, eu sou igual você! — Elara falou em tom tranquilo, apontando para as roupas brancas. — Você lembra do seu nome?
Nessaldon não respondeu. Ainda estava apreensiva, com medo.
A confusão no centro do pátio não havia terminado. Ghinorf se recuperou do golpe nas partes baixas e, assim que conseguiu se levantar, urrando de raiva, avançou sobre Baruk com seu corpanzil, jogando-se por cima do garoto.
— Sai de cima, porra! — Baruk não mediu palavras enquanto brigava para se soltar do homem.
— Já está na hora de voltar a sonhar, seu pirralho! — Ghinorf conseguiu passar um dos braços pelo pescoço de Baruk, prendendo-o junto ao ombro, embora continuasse recebendo socos no processo.
Aproveitando uma mínima brecha, Ghinorf agarrou novamente a bolsa de couro e puxou o frasco de vidro por inteiro. Sacou a rolha com o polegar e levou o frasco em direção à boca de Baruk, que esperneava.
Aquela visão disparou um alarme dentro de Elara. Antes mesmo de pensar duas vezes, sua voz ecoou pelo pátio:
— Não!
O grito rasgou o ar como uma lâmina, e o homem hesitou por um instante, dando a Baruk uma abertura.
— Eu não vou tomar porra nenhuma! — gritou Baruk com tanta raiva e fúria que algo nele parecia diferente. Seus músculos se tensionaram, as veias se dilataram, e suas pupilas tornaram-se completamente brancas.
Com agilidade, Baruk puxou a perna para trás e, num movimento rápido, conseguiu se soltar do agarrão. Em seguida, acertou mais dois golpes na barriga de Ghinorf, fazendo-o recuar.
O ataque, no entanto, não foi forte o suficiente para derrubá-lo de vez. Talvez por causa da enorme barriga — sua maior proteção — o homem permaneceu de pé, ainda segurando o frasco de vidro.
— Se não fosse por “ele”, você estaria morto agora mesmo, seu fedelho! — Ghinorf resmungou, ofegante.
Ao ouvir o homem mencionar “ele”, as duas meninas ao fundo sentiram um calafrio. Nenhuma delas sabia explicar o motivo, mas seus corpos reagiram instintivamente, tomados por medo e alerta. Baruk, no entanto, parecia pouco se importar.
Quando percebeu que Ghinorf começava a se recompor, avançou novamente. Num movimento rápido, fechou o punho e acertou o nariz do homem, fazendo-o sangrar.
Dessa vez, o frasco de vidro finalmente caiu no chão.
— Estou pouco me fodendo se você é comida ou não! — esbravejou Ghinorf, com a visão turva e o gosto metálico do sangue escorrendo pelo nariz. — Eu mesmo vou te calar, seu puto! — urrou, agora fanho por causa do nariz quebrado, avançando mais uma vez sobre Baruk.
Com surpreendente agilidade e força, o homem investiu com as duas mãos, conseguiu defender alguns socos e, por fim, acertou um tapa violento no pescoço de Baruk.
Os dois se embolaram no centro do pátio, trocando socos e agarrões. As garotas observavam apavoradas, sem saber ao certo o que fazer. Elara estendeu a mão para Nessaldon, que, relutante, aceitou ajuda para descer da mesa.
— Foi uma queda e tanto — comentou Elara.
Nessaldon baixou o olhar, envergonhada.
— Temos que fazer alguma coisa — Elara voltou os olhos para o centro do pátio, onde os dois lutavam e estavam prestes a tropeçar em um grupo de crianças catatônicas.
Antes que pudesse agir, amedrontada e sem saber direito o que fazer, Nessaldon estendeu a mão mais uma vez. Um brilho esverdeado surgiu em suas palmas, e ela as pressionou contra a grama.
Magicamente, uma poça de lama surgiu aos pés dos dois combatentes, fazendo-os patinar no mesmo lugar.
— Ahh! — gritaram os dois em uníssono.
Splash!
Ambos caíram pesadamente no chão, espalhando lama por todos os lados — mas, por centímetros, sem atingir as crianças imóveis. Com o escorregão, Baruk conseguiu se soltar dos braços do homem e, mesmo com pouco apoio, montou sobre o pescoço de Ghinorf, tentando encaixar um mata-leão. Baruk não sabia ao certo como, mas sentia possuir uma aptidão natural para combates físicos.
Apesar de desequilibrado, Ghinorf ainda era forte. Conseguiu apoiar um dos joelhos no chão e levou as mãos ao moicano de Baruk, puxando com desespero. Com a outra mão, tentou forçar o braço do garoto que o sufocava — sem sucesso. Por fim, fechou o punho e desferiu socos cegos para trás: errou o primeiro, errou o segundo… mas o terceiro acertou em cheio a boca de Baruk.
O golpe apenas aumentou a fúria do garoto.
— Apaga, seu leitão, apaga!
Foi então que duas coisas aconteceram ao mesmo tempo.
Ainda tomados pela luta, os dois não perceberam o que vinha de fora. Elara e Nessaldon decidiram agir juntas.
Uma fagulha de fogo cortou o ar e atingiu a barba do ruivo, chamuscando seus bigodes e queimando-lhe as bochechas. Ele gritou de dor e mal teve tempo de identificar a nova ameaça: Elara, com as mãos estendidas, uma luz vermelha brilhando intensamente em seus dedos, dos quais saía fumaça.
No mesmo instante, algo agarrou seu pé.
Nessaldon, num surto de coragem, correu gritando e segurou os calcanhares de Ghinorf. Antes que pudesse se recuperar, o homem perdeu completamente o equilíbrio e caiu de vez na lama.
Ghinorf estava finalmente perdendo as forças. Parou de puxar os cabelos de Baruk e passou a lutar apenas para afastar os braços que o prendiam pelo pescoço. O sangue já não circulava direito, deixando seu rosto vermelho como um pimentão.
— Por quê… por que vocês acor… — arfou, sem fôlego.
Elara agiu rápido. Apanhou do chão o frasco com o líquido lilás e avançou.
— Abra a boca dele! — gritou.
Baruk, exausto, usou uma das mãos para apertar as bochechas do homem, forçando-o a abrir levemente a boca — o suficiente para que Elara despejasse um pouco do líquido pela garganta de Ghinorf.
— Vocês… são comida… comi… — tentou falar.
Então, parou.
Seu rosto perdeu qualquer expressão. Ghinorf não reagia mais. Seus movimentos cessaram, e ele ficou imóvel, igual às crianças do pátio. Os olhos permaneceram abertos, vazios, como uma casca mergulhada em um sonho sem fim.
Baruk soltou o pescoço do homem e se arrastou para fora da lama. Nessaldon fez o mesmo, largando a perna que segurava.
— Hahaha! Ninguém pode comigo! — declarou Baruk em tom vitorioso, embora estivesse com sangue entre as presas e já exibisse um futuro olho roxo.
Após alguns segundos, Nessaldon voltou a se encolher ao perceber que os dois a observavam.
— E você… obrigado pela ajuda — disse Baruk, olhando para a menina tímida.
— Ah… — Nessaldon tentou responder, mas não conseguiu se expressar direito.
Elara observou o pátio ao redor. Nenhuma outra criança parecia reagir, mesmo após toda a confusão.
— Vocês estão bem? — perguntou.
— Eu tô ótimo! — respondeu Baruk, sorrindo, apesar de agora ostentar um buraco onde antes havia um dente incisivo inferior.
Elara voltou o olhar para Nessaldon, que apenas assentiu com a cabeça.
— Vocês lembram de alguma coisa? Por que estamos aqui? — insistiu Elara.
— Nadinha, nadinha — Baruk deu de ombros, despreocupado.
Os dois olharam para Nessaldon, que soltou um pequeno gritinho.
— Nããão…
— Bem… a única coisa que me lembro é do meu nome. Eu me chamo Elara.
— Eu me chamo Baruk — disse o garoto, apontando o polegar para o próprio peito. — Vocês lutam bem. Gostei do que vi!
Nessaldon, ainda tímida, deu um passo à frente.
— Baruk, não é? — perguntou. — O que… — pensou por um instante. — O que você é?
Baruk olhou para o próprio corpo, confuso.
— Ué, eu sou um menino. Vocês são meninas, certo?
— Não, seu tolo! — interveio Elara. — Ela quis saber o que você é. Nós somos elfas — explicou, apontando para as orelhas pontudas.
— Ah, entendi. Bem, eu sou um orc. Olhem minhas presas! — respondeu Baruk com orgulho.
Ele exibiu duas grandes presas inferiores, contrastando com sua pele acinzentada.
— Que incrível! Acho que é a primeira vez que vejo alguém como você — disse Ness, empolgada. — Eu me chamo Nessaldon… mas podem me chamar de Ness. Acho que era assim que me chamavam — completou, ganhando confiança.
Os três respiraram aliviados. Não estavam mais sozinhos.
Um vento leve passou pelo pátio, trazendo consigo o cheiro antigo da casa à frente. Madeira velha, poeira e algo mais — algo que não souberam nomear. A mansão aguardava, silenciosa, como se tivesse acabado de acordar com eles.