O Casarão Darkmore
— Alguém me explica como vocês conseguiram fazer essas coisas? — Baruk puxou assunto no instante em que decidiu sentar sobre a grande barriga de Ghinorf.
— Que coisa? — perguntou Elara.
— Fogo pelas mãos e essa poça de lama — Baruk completou, de boca aberta, colocando o dedo sobre a fenda do dente perdido. — Sem falar na floreira.
As duas garotas se olharam. Ness voltou a ficar envergonhada; parecia não gostar tanto de ser o centro das atenções.
— Não tenho ideia — exclamou Elara. — Mas me pareceu natural, como se a vida toda eu soubesse fazer isso.
Ness concordou com a cabeça.
Os três formavam um trio engraçado. Baruk, sem dúvida, era muito alto para a idade, apesar de não se lembrar de quantos anos tinha. Pele cinzenta, presas bem formadas, um par de olhos âmbar e força de sobra. Elara era o oposto: parecia delicada, de pele muito branca, cabelos igualmente brancos e olhos violetas. Um pouco mais baixa, Nessaldom — ou Ness — também era elfa, mas sua pele tinha um tom rosado e vivo; possuía algumas sardas, belíssimos olhos azuis e cabelos roxos ondulados.
— Certo — Elara quebrou o silêncio. — O que vocês lembram além do nome?
Baruk franziu o cenho, forçando a mente em busca de alguma coisa, mas foi em vão.
— Nadinha — falou sem hesitar. — Só meu nome.
Ness se encabulou. Parecia querer falar algo, mas estava envergonhada.
— Pode falar, Ness — disse Elara, percebendo, com um sorriso.
— Ah… — começou ela. — Sei que tenho dez anos… e lembro vagamente de um som de rio. Ou floresta.
Nada de muito importante, presumiu Elara.
Sem perder tempo, Baruk se levantou, não sem antes dar um pequeno chutinho na barriga de Ghinorf, e foi até um grupo de três crianças que não esboçaram reação alguma.
— Por que eles ainda não acordaram? — perguntou, acenando diante do rosto de uma das crianças.
— Ainda não descobri — respondeu Elara. — Por algum motivo, a gente acordou antes. Algum erro… como Ghinorf falou.
— Ghinorf? — Baruk perguntou ao mesmo tempo em que Ness deu um gritinho.
— Sim. É o nome desse homem — explicou Elara, apontando para Ghinorf estirado no chão. — Até onde consegui lembrar, esse é o nome dele, e ele é um ajudante. Mas com certeza não trabalha sozinho.
— Tem mais alguém? — Ness perguntou, preocupada.
— Qualquer coisa, deixa comigo — Baruk respondeu, estufando o peito e contraindo o bíceps.
Ness desviou o olhar, visivelmente encabulada.
— Bem… pelo visto, não temos como sair daqui escalando a cerca — comentou Elara, lembrando da tentativa frustrada de Ness. — Vamos ter que procurar uma saída de—
Ela foi interrompida. Por algum motivo inexplicável, as crianças antes apáticas começaram a andar em sincronia em direção à porta do casarão, como um relógio biológico.
— Ei! Onde vocês vão? — Baruk protestou, tentando segurar o braço de uma delas. Elara se colocou à frente como uma barreira, e Ness tentou falar baixinho, mas todas as tentativas foram inúteis.
— Parem, por favor! — exclamou Elara.
As crianças se organizaram em fila e entraram sozinhas pela porta de vidro. Os três observaram, uma a uma, até desaparecerem na escuridão do interior da mansão.
— Devemos seguir eles? — perguntou Ness.
— Acho que primeiro precisamos descobrir como sair daqui… ou melhor, que lugar é esse e por que estamos aqui — ponderou Elara.
Os dois assentiram.
Baruk seguiu a última criança, mas parou na soleira da porta, observando o interior da mansão.
— Tem um piano aqui — comentou. — Mas elas estão indo para outra sala, lá do outro lado.
— Deve ser a sala de jantar… acho — respondeu Elara, deixando Ness confusa. Baruk não pareceu se importar.
— Você sabe o que tem lá dentro? — perguntou Ness.
— Lembro muito vagamente… como imagens soltas — respondeu Elara. — E você?
Ness balançou a cabeça negativamente. Baruk já não prestava atenção.
— Lembro de acordar em um quarto, passar por um corredor e chegar numa sala com várias mesas — continuou Elara. — Depois, fiquei um bom tempo numa sala com um piano.
— Deve ser essa — disse Baruk, apontando.
— Depois voltamos para a sala para comer… e foi lá que comecei a acordar de verdade. Consegui não tomar aquilo — contou, apontando para o recipiente com o líquido lilás ao lado do homem gordo.
— Aghhh! — Nessaldon gritou de repente.
Os dois se viraram alarmados. O homem gordo de barba ruiva, antes caído na lama, estava de pé novamente.
Baruk se colocou à frente da enorme pança; Elara ergueu os braços em posição defensiva, enquanto Ness se escondia atrás dela.
— Quer tomar outra porrada, gordão? — rugiu Baruk, exibindo as presas.
Mas o homem não reagiu. O olhar estava vazio, fixo, sem qualquer traço de consciência.
Sem emitir som, virou-se e caminhou lentamente para dentro do casarão, deixando os três imóveis.
— Acho que o líquido afetou ele também… — comentou Elara. — Já que forçamos ele a beber.
— O que a gente faz agora? — perguntou Ness.
Baruk caminhou até o canto do pátio e pegou do chão um pedaço do cavalete quebrado durante a confusão com Ruffos. O pedaço de madeira era pouco maior que seu antebraço e serviria perfeitamente como arma improvisada. Ele deu alguns gingados antes de se aproximar das elfas.
— Resumindo: ninguém lembra de nada além do próprio nome — começou, usando o pedaço de madeira como se fosse um cetro. — Tem uns desgraçados tentando manter a gente preso aqui.
— Apagaram nossa memória magicamente, obviamente — completou Elara.
— E o barbudo disse que a gente é comida… — murmurou Ness, arrepiada.
— Então a gente mete a porrada neles — disse Baruk, simples e convicto.
— Mas tem algo estranho… — Elara franziu o cenho. — Eu sinto como se todo esse lugar tivesse algum tipo de poder mágico. Você sente também?
Ness fechou os olhos por um instante. Elara percebeu uma aura verde vibrando ao redor da garota e sentiu um leve gosto de grama na boca.
— Sim… — confirmou Ness.
— Eu não sinto nada! — rebateu Baruk. — Só sei que precisamos seguir em frente.
Elara, porém, percebia algo mais: uma aura vermelha envolvendo toda a residência, como um incêndio mágico invisível. Essa energia se intensificava nas extremidades, formando uma espécie de domo que ultrapassava as cercas. Ela ergueu o olhar para o céu.
— Vocês conseguem ver o sol?
Ness observou em silêncio. Baruk sequer respondeu.
— Chega desse papo — resmungou Baruk. — Vamos entrar logo e achar uma saída.
Sem esperar, entrou no casarão.
As duas elfas se entreolharam. Elara levou a mão ao rosto, contrariada, enquanto Ness parecia aceitar a impulsividade do novo colega.
Ness foi até o canto do pátio onde Ruffos ainda estava amarrado, mas já dava sinais de recuperação.
— Se eu te soltar, você não vai tentar morder a gente, né? — perguntou, como se o cachorro pudesse entender.
Cuidadosamente, libertou-o. Elara ficou boquiaberta, esperando o pior. Mas Ruffos apenas deu uma grande lambida no rosto de Ness e caminhou calmamente até sua casinha, balançando a gravata azul-anil.
— Ele disse que hoje só tem dois funcionários: o barbudo e outro homem… com uma bola vermelha no rosto — contou Ness, com naturalidade.
Elara a encarou, incrédula.
— Você… falou com o cachorro?
— Ué, sim. Você não consegue?
O silêncio foi a resposta.
— Ele também disse que mandaram ele fazer barulho se alguma criança agisse diferente… e que queria algo da cozinha.
Elara não encontrou palavras.
As duas, inconscientemente, sabiam da existência da magia. Não entendiam como nem por quê, mas algo fluía dentro delas com a mesma naturalidade que respirar.
— Onde está o Baruk? — Ness percebeu de repente.
Foi então que ouviram o estrondo — como um trovão explodindo dentro da sala do piano. As duas se encolheram, mas correram em direção ao som.
A cena que encontraram foi trágica e, ao mesmo tempo, cômica.
Uma estante bem polida exibia um peitoral de aço ricamente adornado. Sobre ele, repousava um elmo luxuoso, em formato de gota, com três aberturas finas. Ou deveria estar.
A armadura estava no chão, e o elmo agora se encontrava entalado na cabeça de Baruk.
— Não fui eu! — gritou ele, a voz abafada pelo metal.
— E quem foi, então? — rebateu Elara, séria.
Ness caiu na risada.
Então ouviram passos pesados se aproximando.
— Baruk, se esconde! — sussurrou Elara.
Mesmo relutante, ele foi arrastado para trás de uma estante.
A porta se abriu lentamente.
— Ghinorf, seu babaca, ainda tá aí fora? — gritou uma voz masculina.
Um homem baixo, forte, vestindo um avental manchado de lilás entrou. O cheiro enjoativo do líquido tomou o ambiente.
Ele notou a porta do pátio aberta.
— Ruffos, tá tudo em ordem aí?
Não obtendo resposta, bufou, abriu uma grande porta decorada com aço negro, e um vento gelado invadiu a sala.
— Ghinorf, seu incompetente! A madame logo volta com a encomenda!
Fechou a porta xingando o frio e saiu.
Após o silêncio, os três saíram do esconderijo.
— Eu dava conta dele — resmungou Baruk.
— Nem tudo se resolve na briga — respondeu Elara.
Agora, com a saída do homem baixinho, os três puderam analisar melhor o novo ambiente. O local era basicamente um hall de entrada, com diversos quadros e objetos expostos. Um pequeno sofá vermelho, com detalhes dourados, ficava encostado ao lado de uma grande porta de madeira e aço negro, tornando o ambiente um pouco menos aterrorizante. O piano no centro deixava clara a fineza e a antiguidade do lugar, mas tudo parecia jogado e mal cuidado, como se a última limpeza tivesse ocorrido há muitos anos.
Ness se aproximou da grande porta.
— Vocês entenderam que ele falou sobre uma tal de madame? — comentou Elara, mais para si mesma.
— Deve ser uma velha coroca. O que importa? — Baruk caçoou, retirando por fim o elmo da cabeça.
— Acho que essa é a saída — disse Ness, fazendo os dois se virarem em sua direção.
Os três se alinharam diante da porta.
— E os outros? — perguntou Ness.
— A gente pode sair e pedir ajuda — sugeriu Elara.
— Ah, que se foda — decidiu Baruk.
Ele abriu a porta. Um vento cortante explodiu contra eles. A maçaneta congelou a mão de Baruk, impedindo-o de soltar.
— Fecha isso! — gritou Elara.
— Não consigo, porra! — Baruk urrou.
Ness e Elara correram para puxar o colega, que permanecia grudado à porta. Com esforço conjunto, Baruk finalmente conseguiu se soltar da maçaneta, e Elara — que estava à frente — foi arremessada para trás junto dele, abrindo espaço para que Ness corresse e fechasse a porta com força.
— Por que você é tão cabeça dura? — reclamou Elara.
— Porque eu quero sair daqui! — respondeu ele, ofegante.
Enquanto discutiam, Ness, sentada no chão e de costas para a porta, deixou o olhar vagar pela sala. Seus olhos se fixaram na parede oposta, onde um grande quadro pendurado chamou sua atenção.
O quadro retratava uma família elegante, bem refinada, vestida com roupas luxuosas. O detalhe inquietante era que todos possuíam uma pinta escura na bochecha esquerda. Ao fundo da pintura, erguia-se um casarão antigo e imponente.
Na base da moldura, lia-se:
Família Darkmore.