Muitas letras para o meu gosto
A mão de Baruk queimava. Algo magicamente tornara a maçaneta de metal em algo absurdamente frio e, além disso, um vento descomunal impedira qualquer aproximação para o lado de fora. O garoto olhava para a palma da mão, boquiaberto; além do novo machucado, reparou em pequenos calos e cicatrizes por toda a extensão da pele.
— Está tudo bem contigo? — perguntou Ness, um pouco tímida, observando Baruk esfregar o dorso da mão machucada.
— Não vai ser tão fácil a gente conseguir sair! — comentou Elara, estudando a porta. — Tem algo muito errado nesse lugar… parece uma prisão.
— Pessoal — Nessaldom chamou a atenção dos dois. — Olhem ali!
— Quem são esses putos?! — exclamou Baruk, sem um pingo de pudor. Os três olhavam para o grande quadro no canto oposto da sala — o retrato da família Darkmore.
— São os donos desse lugar, né, ô inteligência! — retrucou Elara de imediato.
— Tá bom, ô sabe-tudo! — resmungou o garoto, fazendo uma careta diante da petulância da nova colega.
As duas meninas continuaram a observar o quadro, apontando detalhes e características das figuras retratadas. Baruk, por sua vez, sem muito interesse, seguiu explorando o hall de entrada. Vasculhava os objetos expostos — artefatos estranhos e peças decorativas — até que seus olhos foram atraídos por uma abertura discreta em um dos cantos: uma pequena passagem, possivelmente levando a um corredor.
— Baruk, espera aí! — disse Ness, arregalando os grandes olhos azuis ao ver o garoto se adiantar.
— É, garoto, não vai entrando nos lugares assim — advertiu Elara. — E é melhor a gente tomar cuidado. Vai que aparece de novo aquele homem de bigode.
— Tá bom, tá bom! Mas, se aquele cara aparecer de novo, eu vou dar o que ele merece — respondeu Baruk, firme.
As duas garotas se juntaram a ele, e passaram a observar o ambiente com mais calma. Perto da porta por onde o homem havia vindo — a sala das mesas onde, segundo Elara, as crianças faziam suas refeições — havia uma passagem estreita que levava a um corredor escuro. Algumas lamparinas estavam fixadas nas paredes, mas todas apagadas. O corredor não recebia luz natural alguma, mergulhando-o numa penumbra densa.
Os três pararam diante da entrada e perceberam que o corredor terminava em formato de T, com três portas: duas em lados opostos, frente a frente, e uma terceira ao fundo, alinhada com o corredor principal.
— Xiu… calma, Baruk — sussurrou Elara, ao ver o garoto dar o primeiro passo.
— Pra que tanta calma assim? — questionou Baruk, quase gritando, impaciente.
— Fala mais baixo! — reclamou Elara.
Ness gemia baixinho ao lado dos colegas. Pensava em mil coisas, mas parecia ter dificuldade — ou vergonha — de se expressar.
— Tá bom, sua chata — resmungou Baruk, baixando o tom.
— Que lugar é esse? — perguntou Ness, nervosa, olhando em volta enquanto seus cabelos roxos refletiam a pouca luz.
— Sei lá… tem algumas portas lá no final — respondeu Baruk, num tom mais sério.
— Não tem chance daquele homem estar em alguma delas? — questionou Elara, cautelosa.
— Acho que não. Tenho certeza de que ele voltou por onde veio. Por aquela porta maior ali — disse Baruk, apontando para a sala de jantar. — Deixa que eu vou na frente.
Tomando a liderança, o garoto entrou no corredor escuro, seguido de perto pelas duas garotas.
Ao chegarem ao final do corredor, diante das três portas, Baruk se empolgou:
— Cada um abre uma porta… um, dois…
— Para, apressado! — Elara segurou o garoto pelo braço, contrariada com sua impulsividade.
— Acho que devíamos ir uma por vez — sugeriu Ness, com a voz carregada de cautela.
— Tá bom, tá bom… mas eu escolho qual primeiro — bufou Baruk, preparando-se para abrir a porta da frente.
A tensão pairava no ar. Ness soltou um suspiro, tentando ignorar o frio na barriga. Elara mantinha o semblante sério, ainda indignada com a teimosia do colega; ela conhecia bem aquele sorriso maroto no rosto de Baruk. Sabia que ele só existia porque o orc torcia para encontrar algo — ou alguém — para bater..
Por fim, Baruk empurrou a primeira porta. Para surpresa dos três, encontraram apenas uma sala vazia. Bem… quase vazia. O ambiente estava tomado pela sujeira, com caixotes velhos espalhados pelos cantos. O ar era úmido, carregado de mofo misturado a algo pior, como se algum animal tivesse morrido ali há muito tempo.
— Olha no chão — Elara apontou para marcas no assoalho de madeira. Manchas escuras riscavam o piso como cicatrizes do tempo. — Aqui devia ser um quarto. Ali parecem marcas dos pés de uma cama.
Ela indicou quatro marcas bem definidas.
— Não tem porra nenhuma aqui! — reclamou Baruk.
— Vamos pra outra sala, então — concordou Elara.
Os três deixaram o quarto vazio e seguiram para a porta em frente. Sem hesitar, Baruk a empurrou com força.
— Um banheiro, haha! — exclamou, soltando uma risada debochada.
Voltaram-se então para a última porta, alinhada com o corredor.
— Só falta mais uma — comentou Ness. — O que você acha que vai ter, Elara?
— Contanto que tenha algum tipo de ação… — Baruk se adiantou, respondendo por ela.
Elara permaneceu em silêncio, mas deu um passo à frente e, decidida, segurou a maçaneta da última porta.
A tranca se abriu com facilidade.
A sala que se revelou diante deles era uma nobre e requintada sala de estar. Dois grandes sofás circundavam uma mesa central elegante, voltados para uma lareira acesa em uma das paredes, espalhando um calor confortável pelo ambiente. Uma escrivaninha igualmente refinada ocupava um dos cantos, com algumas anotações organizadas, além de uma pena e um tinteiro.
— Ahh, que inferno! — urrou Baruk, irritado.
— Fala baixo! — retrucou Elara.
Ness e Elara entraram com cautela, analisando o ambiente em busca de qualquer pista. Baruk permaneceu na soleira da porta, emburrado.
— Vocês olhem aí o que tiver que olhar. Eu vou no banheiro… tô precisando me aliviar — disse ele, saindo da sala em direção ao banheiro ao lado.
Elara se aproximou da lareira e estendeu as mãos para se aquecer. Só então percebeu o quanto estava com frio, talvez anestesiada pela adrenalina até aquele momento.
— Esse fogo é mágico… — murmurou, ao sentir a energia misturada às chamas amarelas, que exalavam um aroma quente de cravo e canela.
Enquanto isso, Ness preferiu vasculhar a escrivaninha.
— Elara, encontrei isso aqui — disse, segurando uma folha escrita à mão, com letras rebuscadas.
— Traga aqui. Venha se esquentar — chamou Elara, tentando confortar a amiga.
As duas, aconchegadas pelo calor da lareira, analisaram o documento.
— Você sabe ler também, Elara? — perguntou Ness, curiosa.
— Sei sim — respondeu. — Pelo menos essas palavras são fáceis. Deixa eu ver.
Elara começou a ler em voz alta. A carta era endereçada a Lady Evelyn Darkmore, enviada por alguém influente do Condado de Neve Forte. O texto notificava a madame sobre suspeitas de envolvimento em contrabando de seivas de acácia. Um homem chamado Jareth Thorn havia denunciado às autoridades que ela estaria diretamente envolvida.
Quando terminou a leitura, Baruk reapareceu na porta.
— Então essa é a desgraçada que nos raptou e apagou nossa memória — disse sério.
— Eu acho que sim — confirmou Elara.
— Eu tô com medo… — murmurou Ness. — O homem ruivo falou que a gente vai virar… comida…
— Vai ficar tudo bem — Elara acariciou os cabelos da amiga e olhou para Baruk.
— É isso aí, orelhuda. Eu vou meter a porrada em quem tentar fazer mal pra gente — respondeu ele, sorrindo.
— Precisamos pensar em como sair daqui e resgatar as outras crianças — disse Elara, analítica. — Condado de Neve Forte significa algo pra vocês?
Ninguém respondeu.
O silêncio se instalou por alguns instantes, enquanto aproveitavam o calor da lareira.
— O que sabemos até agora… — Elara começou, organizando os pensamentos. — Ninguém lembra de nada além do próprio nome.
— Eu acho que tenho dez anos… — disse Ness.
— Eu tenho onze, mas já não tenho certeza — comentou Elara.
— Eu não faço ideia da minha idade — Baruk deu de ombros.
Eles se estudaram por um momento.
— Sabemos que tem mais de quarenta crianças aqui — continuou Elara. — Mas por quê?
— O homem falou em comida… — lembrou Ness.
— Comida pra quê? Um monstro? — questionou Baruk.
— A única coisa que eu sei é que vejo energia mágica por todo lugar — afirmou Elara.
— E essa tal de madame Evelyn… será que ela é um monstro? — perguntou Ness.
— Acho que não. Ela saiu hoje cedo dizendo que ia buscar outra carga — respondeu Elara.
— E como é essa desgraçada? — Baruk cerrou o punho, mas vacilou ao sentir dor.
— Coloca no fogo — disse Ness, percebendo a queimadura.
Ness segurou as mãos de Baruk e as aproximou da lareira. Uma luz azulada brilhou entre seus dedos, formando uma pequena nuvem luminosa que liberou uma leve chuva reconfortante. A dor diminuiu.
O encanto, porém, logo se dissipou. Ness começou a suar frio.
— Desculpa… não consegui terminar — disse, frustrada.
— Nem esquenta — respondeu Baruk. — Guarda forças.
Elara voltou à escrivaninha e encontrou outra nota, escrita com caligrafia elegante, mas inacabada.
— Pessoal, olhem isso.
Ela leu em voz alta:
“Querida prima Cecília. Enfim encontraram a que ele quer. Vou buscá-la em alguns dias. Espero que ele aceite desta vez.
Tudo está prestes a se concluir. Assim que a levarmos, tudo se encerrará, e nossa vida retornará ao que era antes. Mantenha-se forte. Em breve, poderemos caminhar ao redor do grande lago.”
Os três se entreolharam, nervosos.
— A carta termina sem assinatura — concluiu Elara.
— A casa é assombrada? — perguntou Ness, trêmula.
— Pouco importa agora — Baruk tomou a frente. — Temos que dar cabo do outro homem e acordar o máximo de crianças possível.
— Antes que essa coisa apareça… — completou Ness.
— Vamos com calma — disse Elara. — Só nos resta ir para a sala de jantar. Mas em silêncio.
— E tentar não virar comida — completou Ness, com um sorriso nervoso.
Os três deixaram a sala de estar e retornaram à sala do piano. Diante da porta que levava à sala de jantar, Elara respirou fundo.
— Tentem não fazer barulho. Encontramos os outros primeiro, depois procuramos uma saída.
Ness assentiu, admirada. Baruk apenas fez uma careta, descontente com a falta de briga.
Juntos, empurraram a porta.
A nova sala tinha o mesmo tamanho da sala do piano, mas uma atmosfera completamente diferente. Três grandes mesas de madeira ocupavam o espaço: duas ricamente detalhadas e uma terceira, mais simples, improvisada.
Havia ainda uma quarta mesa menor, disposta perpendicularmente às outras, cuidadosamente preparada com um jantar refinado. Pratos fumegantes, talheres reluzentes e taças brilhantes aguardavam convidados especiais.
— Comida… — murmurou Baruk, arregalando os olhos, salivando, já pronto para avançar.