A quarta criança
— Como tu consegue comer a uma hora dessas? — protestou Elara pela displicência de Baruk. A garota estava em alerta máximo, olhava para todos os cantos, enquanto Ness ficava encolhida junto à amiga, arregalando seus grandes olhos diante da variedade de comidas dispostas na mesa.
Junto à mesa estava o garoto orc, devorando um prato de carne picada com alguns legumes, dando pouca importância aos talheres, pois devorava a comida com as próprias mãos, enquanto mantinha pendurada no pescoço uma tripa de linguiça suína.
— Aw vvohe devveah cooem — respondeu Baruk, falando com a boca cheia.
— Não fala de boca cheia, seu porco! — retrucou Elara, nervosa.
Ela então olhou para Ness, que discretamente puxava um pedaço de bolo com calda de chocolate, tentando parecer despercebida.
— Pode comer, Ness. Eu é que não tô com fome — falou Elara, num tom mais calmo, dando um susto na garota, que falhou em sair despercebida.
A jovem elfa de cabelos roxos cintilantes sorriu, feliz, e deu uma mordida no bolo, sentindo-se realizada.
Elara olhou ao redor, não estava nem um pouco com fome. Agora, com mais calma e fora do transe, percebeu que a sala mantinha o mesmo padrão da sala do piano, mas com várias mesas robustas e poucos quadros fixados às paredes; talvez um dia tivesse algum tipo de grandeza e recebido grandes jantares. Hoje, estava completamente largado.
— Aquela é a mulher? — Ness terminou a fatia de bolo e voltou a ficar lado a lado à nova amiga. Apontou para um quadro que exibia o busto de uma mulher de meia-idade, cabelos escuros presos num coque, usava óculos finos e possuía uma pinta escura na bochecha esquerda, assim como as outras pessoas do outro quadro na sala do piano.
— É uma teoria! — Elara respondeu com uma mistura de ódio e nojo. — E acho que é por ali que ficam os quartos — falou, apontando com o dedo para uma passagem pequena no canto oposto.
— Ihhh… Estou com medo — falou, chorosa. — Quero ir embora logo!
— Eu sei… Tem uma energia intensa pela casa toda, mas precisamos tentar ajudar os outros também. Eles podem estar dormindo, mas isso não quer dizer que estão seguros.
— Precisamos de ajuda — Ness exclamou, então se agachou, abraçando os joelhos de forma triste, em busca de algum conforto.
Elara agachou-se ao lado:
— Vamos dar um jeito — tentou confortá-la. — Já terminou de comer, esfomeado? — Elara se dirigiu a Baruk, que ainda permanecia à mesa, comendo loucamente.
Baruk se deliciava com a variedade de pratos à sua disposição. Imaginava que tinha passado muito tempo sem comer praticamente nada, e essa sensação de comer à vontade lhe trouxe um ar de nostalgia. Depois que a voracidade passou, começou a degustar os pratos com um pouco mais de calma, percebendo que alguns tinham algo muito errado, o que o fez devolver alguns pedaços aos pratos. Havia pedaços de carne com molhos doces e salgados ao mesmo tempo, biscoitos de milho com o que pareciam ser pedras de sal por cima e uma torta que parecia misturar tudo o que havia na cozinha. Certamente, o cozinheiro tinha muita coragem — ou não tinha noção nenhuma do que era comida de qualidade.
— Espero que não tenha comido tudo… — a voz do homem baixo ecoou pelo salão vazio. A voz veio de por trás de uma portinhola, o homem gritou alto, assustando Elara e Ness, que pularam de susto. Baruk, por outro lado, abriu um largo sorriso. Quando o garoto, ainda de boca cheia e segurando duas coxas de galinha em ambas as mãos, ameaçou falar algo, foi rapidamente puxado para longe da mesa pelas garotas.
— Ei! — reclamou o garoto!
— Xiu! Vamos nos esconder — falou Elara em voz baixa.
— Eu vou meter a porrada nele agora — Baruk fez força para se soltar das mãos das garotas.
— Vamos bolar um plano primeiro — Elara tentou puxar a voz da razão no garoto.
— Ahh, que inferno… — Baruk fechou totalmente a cara, mas aceitou.
— Ali! — Ness cochichou, apontando para um armário de talheres e louça, que poderia servir muito bem como cobertura.
Os três se agacharam rapidamente para trás do móvel, dando pouco tempo para a portinhola ao fundo ranger.
O homem baixo, moreno, de grande bigodeira, entrou cantarolando, enquanto carregava consigo dois pratos que ainda soltavam fumaça.
— Ghinorf, seu desgraçado! Tu comeu toda a comida que eu preparei para a madame?! — O homem usava o mesmo avental sujo de lilás e tinha os dedos engordurados.
Pela primeira vez, os três conseguiram ter uma visão melhor do homem baixinho: ele tinha uma grande bigodeira e cabelos ensebados, era possivelmente mais baixo que Baruk, mas muito mais robusto e forte. O mais engraçado era uma enorme bola vermelha em sua testa, o que fez Ness pensar que talvez fosse até algum ser vivo preso ao rosto dele.
— Eles o chamam de Tidi — concluiu Elara, que parecia fazer muita força para lembrar algo tão simples. — Lembro de terem falado esse nome, acho que é o ajudante que há mais tempo trabalha para os Darkmore.
Ness olhou com admiração para a colega. Era a única que conseguiu gravar alguma coisa durante sabe-se lá quanto tempo estariam naquele lugar.
— Ei, cadê você?! — gritou Tidi para o nada, procurando com o olhar rapidamente ao redor. Tidi deixou os dois pratos sobre a mesa e foi rapidamente, com suas pernas curtas, olhar pela porta que dava para o hall de entrada.
— Ghinorf? — O tom de voz, que antes era cômico e natural, passou para algo nervoso. — ONDE TU TÁ?!
Voltou a continuar as buscas pela sala de jantar, passando por entre as mesas, fazendo os três se encolherem para não serem vistos e lutarem para impedir que Baruk se jogasse pra cima do homem.
O homem chegou em frente ao armário onde estavam escondidos. Os três conseguiram ver seus pés a poucos centímetros dali. Quando o homem começou a se agachar, Baruk já armava um golpe com seu taco de madeira.
— Qual é o motivo desse furdúncio, Tidi? — uma voz ríspida e dura ecoou pela sala de jantar. A tensão era tão grande que ninguém percebeu que outra pessoa havia entrado.
— Onde está Ghinorf? — a voz feminina falou com certa classe. Madame Evelyn Darkmore finalmente retornou.
— Madame Evelyn… perdão… — Tidi se apressou em direção à mulher. — Fez bom retorno, eu espero. — O homem ajudou a mulher a tirar o pesado casaco de cima dos ombros magros.
Os três tiveram um respiro, pois Tidi interrompeu a procura de seu parceiro, dando tempo e espaço para estudarem melhor a mulher.
Magra e alta, Evelyn usava um típico coque em seus cabelos escuros, mas, diferente do quadro, não escondia alguns fios prateados. Orelhas arredondadas, pele levemente amarelada, olhos escuros que brilhavam por trás de óculos meia-lua, presos a um nariz estranhamente pontudo.
— A pinta! — Ness apontou para Elara, indicando a grande pinta escura que a mulher tinha na bochecha esquerda, marca da família Darkmore, como visto no quadro.
Baruk estava em silêncio, mas tremia quase o corpo todo. Encarava a mulher com raiva — e, talvez pela primeira vez, com ódio verdadeiro. Queria, literalmente, arrancar a cabeça daquela megera.
— Onde está Ghinorf, perguntei — repetiu a mulher, com grosseria.
— Está… ah… de olho nas crianças, madame — mentiu Tidi.
A mulher então lançou um olhar à comida já devorada sobre a mesa.
— Imagino que a festa tenha sido boa enquanto eu estava fora… — disse ela, com um tom de desprezo. Tidi baixou a cabeça, constrangido.
— Perdão, madame… Juro que foi coisa do Ghinorf, aquele esfomeado. — Tidi olhou para o que Evelyn trazia consigo. Uma grande cápsula flutuava a alguns palmos do chão.
— É essa a nova criança, madame? — perguntou Tidi.
— É sim. E me custou muito consegui-la. Por isso precisei ir pessoalmente — fez uma pausa, mas manteve a cara de nojo enquanto falava com seu ajudante. — Não poderia deixar uma tarefa tão importante nas mãos de pessoas tão incompetentes quanto vocês dois — xingou ela, sem pudor.
Tidi ficou calado, de cabeça baixa. Os três, ainda escondidos, não conseguiam ver direito, mas algo realmente estava atrás da mulher: uma espécie de cápsula em formato de gota, com pouco mais de dois metros de altura, flutuava como se não tivesse peso algum.
Foi então que algo assustador aconteceu. A Mansão Darkmore balançou. Pratos caíram ao chão, luminárias e quadros despencaram. Um terremoto? Não. Algo muito forte estava ali. Com sua visão apurada, Elara conseguiu ver uma energia escura se espalhando com voracidade por todo o ambiente, chamas escuras devorando todo o casarão.
Fez-se silêncio por alguns instantes, todos apreensivos.
Em meio aos barulhos e rangidos, uma voz horripilante surgiu, como se toda a casa gritasse com eles:
— Turr ra mihh sunaaaaaa!
O barulho era horripilante e trazia a mesma agonia que arranhar um quadro negro com as unhas. Ninguém entendeu se eram palavras ou simples gritos sem sentido, deixando todos confusos — exceto para Madame Evelyn, que começou a chorar. Chorar de alegria.
— Sim, sim… — disse ela, olhando para cima, em prantos, com empolgação.
Tidi se recuperou do susto e falou, amedrontado:
— Madame… o que foi isso? O que aconteceu?!
— Finalmente, meu caro Tidi… finalmente encontramos a última criança. O último infeliz que vai nos ajudar a acabar com isso de uma vez por todas. — A mulher agarrou os ombros do ajudante e o chacoalhou com força, numa explosão de emoções.
Baruk, Ness e Elara se olharam, aterrorizados. Pela primeira vez, sentiram o poder do lugar, tiveram certeza de que ali existia algo, sentiam o corpo pesado, ânsia de vômito — o monstro que habitava o casarão deu as caras. Realmente tinha algo muito terrível naquele lugar.
Elara e Ness respiravam fundo, como se estivessem exaustas. Baruk também sentiu, mas não com a mesma intensidade, as meninas pareciam ser mais sensíveis à magia.
A mulher, agora, dançava. Passava as mãos ao redor da cápsula, em movimentos ritmados. Olhava para os lados, balançava os braços, como se estivesse numa apresentação de dança “Tulli”.
— Ahhh, que maravilha! — falava, encantada.
— Madame… — Tidi estava desconcertado com a situação. Nunca havia visto Madame Evelyn tão feliz.
— Tenho que me aprontar — disse Madame Evelyn, finalmente se acalmando. — Temos algumas horas até o entardecer.
A mulher então olhou para Tidi, retomando o tom severo:
— Vou começar os preparativos. Encontre Ghinorf. E, na hora da lua, leve as demais crianças lá para baixo.
— E quanto a esse aí? — Tidi se referia à criança presa na cápsula.
— Vou levá-la comigo. Tenho que prepará-la pessoalmente. — Evelyn então agarrou a cápsula num abraço. — Esse será o último sacrifício, que marcará a história da família Darkmore, finalmente nos levando de volta ao topo.
Baruk estava enraivecido. Elara e Ness notaram que o garoto estava à beira de explodir.
— Espere, Baruk… — cochichou Ness.
— Por quê? Eles estão com outra criança! Temos que ajudá-lo! — exclamou o orc.
Mesmo relutantes, as meninas concordaram. Precisavam resgatar a criança da cápsula, de um jeito ou de outro.
— No três, eu vou sair e acertar a cabeça do homem, e vocês pegam aquela velha doida.
As duas olharam surpresas para o garoto, impressionadas com sua coragem e determinação. Elara sabia que era o certo a se fazer, mas não tinha confiança nenhuma no plano. Ness estava mais amedrontada do que nunca, mas sabia que precisava apoiar os novos colegas — a segurança dos outros dependia deles.
— Um… dois…
Foi então que passos pesados surgiram da passagem do corredor.
— Que merda de barulho foi esse?! — Ghinorf apareceu cambaleando, com o rosto sujo de sangue vindo do corredor das acomodações das crianças. — Ahhh, minha senhora! — exclamou, assustado, ao ver Tidi e Madame Evelyn. Sua voz ainda estava muito fanha, graças ao nariz quebrado.
Os três, escondidos atrás do armário, seguraram o ataque. Agora, com mais uma pessoa, ficaria difícil. Até mesmo Baruk pensou que talvez não estivessem mais em vantagem, mesmo com o ataque surpresa.
— Onde você estava, seu gordo?! — Tidi urrou, mas com certo cuidado, pois estava diante de sua senhora.
— Eu estava… ahh… — Ghinorf ficou sem o que responder. Com a madame ali presente, preferiu ficar calado.
— Como eu estava dizendo, quero as crianças preparadas na hora da lua, lá embaixo — Madame Evelyn manteve o tom grosseiro. — E não se atrasem.
— Sim, madame — os dois responderam em coro.
A mulher de coque saiu da sala de jantar, entrando pela mesma portinhola de onde Tidi tinha saído há pouco.
— Seu paspalho, por que não foi me procurar? — Ghinorf falou quando Evelyn sumiu de vista, aproveitando que estavam sozinhos.
— Eu te procurei, seu infeliz! Onde tu tava?! — respondeu Tidi, irritado.
— Onde estão aqueles fedelhos miseráveis? — a fala de Ghinorf não fez sentido para Tidi, mas trouxe urgência para os três escondidos. Agora, com Ghinorf acordado, eles seriam descobertos.
— Como assim?! — perguntou, confuso.
— Tu é cego, é?! Três pestinhas acordaram e me fizeram beber a poção. Fiquei desacordado.
— O quê?! — Tidi olhou, severo, para Ghinorf.
— Eu preciso escrever?! Tem três crianças acordadas porque tu não soube preparar a poção, seu animal!
— O que faremos? — perguntou Ness, aflita.
— Eu não sei… — respondeu Elara, indecisa.
— Vamos esperar o melhor momento e atacar juntos — Baruk falou sério e, pela primeira vez, tentando bolar um plano. — Talvez eu consiga nocautear um primeiro, mas vocês duas precisam segurar o mais baixinho.
Passado um instante, os três estavam prontos. Prontos para finalmente lutarem pela sua liberdade. Sabiam que teriam que enfrentar não só um, mas dois homens agora — sem contar Madame Evelyn, e sabe-se lá qual criatura habitava aquela casa.
— O que está acontecendo? Que barulho foi esse? — uma nova voz surgiu, fina e desengonçada, claramente de uma criança. — Onde estou?
A voz chorosa veio da passagem do corredor que dava para os quartos. Os três, ainda escondidos, viram um par de pernas curtas, roupas e chinelos brancos largos demais para seu tamanho, caminhar lentamente para o centro do salão de jantar. A criança segurava, com uma das mãos, um pedaço de pano e tinha a maior cabeça loira que já tinham visto na vida.
Os dois homens viraram-se em alerta.
— O que tu tá fazendo acordado, criança?! — perguntou Tidi, surpreso.
— Cadê os merdas dos seus amiguinhos?! — Ghinorf investiu raivoso em cima da criança. — Venha cá, pirralho, e me diga onde estão seus amiguinhos! — rugiu, impaciente.
— Amiguinhos? Que amiguinhos? Onde estou??! — respondeu a criança, confusa, aumentando ainda mais a voz chorosa.
Ghinorf agarrou o pequeno garoto pela gola, erguendo-o alguns centímetros no ar.
— Eu não fiz nada… me larga! — lágrimas começaram a escorrer pelo rosto do menino.
— Pare de chorar, seu imundo! — gritou Ghinorf, irritado.
O homem preparou um golpe de punho fechado.
— Ghinorf, calma! — Tidi tentou protestar para o colega raivoso.
— Tu vai me fa… — mas não teve tempo de concluir, pois uma mesa de jantar foi arremessada para cima, num solavanco.
— Solta ele, seu gordo! — Baruk surgiu explodindo em raiva, os olhos novamente se tornaram totalmente brancos, tomados por uma fúria interior, saltando sobre a mesa à frente dos dois, segurando seu bastão improvisado, pronto para o combate.
Mil pensamentos passaram pela cabeça de Arthurn naquele momento. Ele havia acordado misteriosamente em um quarto com outras crianças, em um lugar que sabia ser seu há algum tempo, mas sem ideia de como havia parado ali. Tudo parecia estranho, mas, ao mesmo tempo, familiar.
Em um ato desesperado, Arthurn começou a chorar. Estava suspenso pela gola, erguido por um homem gordo de barba ruiva, e tentava agarrar o braço dele para se soltar.
Foi então que uma criatura surgiu, saltando próximo a eles: tinha pele cinzenta, cabelos ruivos em moicano, grandes presas inferiores e olhos completamente brancos, segurando um taco de madeira. A criatura começou a gritar furiosamente e avançou contra eles.
Talvez por ter acabado de acordar, estar num lugar que não reconhecia, perdido, a primeira figura que viu o agarrou pela gola. Arthurn só lembrava do próprio nome, e nada mais. E, quando viu aquele ser cinza com presas pulando em sua direção, sentiu como se estivesse dentro de um pesadelo, prestes a ser devorado.
— Ahhh, bicho feio! — gritou Arthurn, em pânico. Num ato desesperado, agarrou ainda mais forte o braço de Ghinorf, buscando proteção. — Ele vai me comer!