Oito mil e um braços
— Você está aí, seu fedelho! — gritou Ghinorf com a voz fanha, reconhecendo Baruk, sentindo uma dormência no nariz quebrado. Ghinorf soltou o garoto loiro do agarrão e se virou para Baruk com raiva, com os punhos erguidos.
Para surpresa de Ghinorf, o garoto loiro agarrou suas calças como um carrapato.
— Solta ele, seu balofo! — gritou Baruk, partindo para o ataque com seu taco de madeira, trazendo um grito do pequeno Arthurn e forçando a posição defensiva de Ghinorf. Em movimentos certeiros, em forma de pêndulo, acertou três golpes rápidos. Ghinorf conseguiu bloquear todos com os antebraços, em meio a urros de dor. Antes do quarto golpe, o homem gordo agarrou uma cadeira e a ergueu como escudo improvisado, barrando o ataque e ricocheteando o bastão para trás.
— Que porra é essa…? — Tidi olhava espantado, um pouco mais afastado, sem acreditar no caos que via. Realmente havia crianças acordadas, e aquela estava furiosa.
— Tu é burro? Vem me ajudar, caralho! — berrou Ghinorf para Tidi, bloqueando os golpes de Baruk com a cadeira. — E tu, me larga, porra! — rugiu para Arthurn, que se agarrava às calças dele como se fosse sua última salvação.
— Bicho feio! O bicho feio quer me comer! — Arthurn gritava sem parar, a cada olhada que dava para Baruk enraivecido.
Elara e Ness analisavam em segurança atrás do armário, ofegantes, tentando passar despercebidas. A confusão tomava conta de toda a sala de jantar: Baruk não fazia questão de preservar qualquer mobília, mesas viradas, pratos e talheres espalhados, Ghinorf tentando se defender enquanto chacoalhava o pequeno Arthurn agarrado à sua perna.
— Vamos, Ness! Precisamos fazer alguma coisa! — exclamou Elara, sentindo um fio de adrenalina.
Tidi finalmente decidiu ajudar. Agarrou a toalha de uma das mesas, enrolando-a em si mesma como uma corda.
— Ah… vou tentar prender ele — disse Tidi, um pouco estabanado, agora segurando as duas pontas da toalha dobrada como um laço.
Quando estava quase alcançando Baruk e Ghinorf, um clarão branco cruzou seu campo de visão. Um prato voou do outro lado da sala, quase acertando seu grande bigode. Tidi arregalou os olhos e virou-se para o fundo do salão, procurando quem tivesse feito aquilo.
Uma xícara atingiu exatamente sua bola vermelha na testa.
— Aii! — protestou o homem.
No canto da sala, as duas elfas pequenas, Ness e Elara, arremessavam pratos e talheres com toda a força contra Tidi.
— Deixa nosso amigo em paz! — gritou Ness, a voz falhando num misto de medo e coragem.
Uma taça acertou o ombro de Tidi, mas não chegou a fazer qualquer estrago, além de irritá-lo.
— Suas pestinhas! — resmungou Tidi. — Tem mais crianças aqui! — berrou para o colega.
— Eu sei! — bufou o homem gordo, ainda bloqueando os golpes selvagens de Baruk. — Pega as outras! Eu seguro esse daqui!
Num movimento brusco e desajeitado, Ghinorf lançou a cadeira-escudo para o lado, acertando o braço de Baruk, que empunhava o taco de madeira. O impacto foi forte o suficiente para a arma improvisada voar longe. Mas, em vez de recuar, Baruk sorriu, tomado pela fúria, e, sem hesitar, avançou de punhos cerrados para cima de Ghinorf, desferindo um soco, mirando mais uma vez o nariz.
Num reflexo rápido, Ghinorf puxou a cadeira à sua frente para se proteger — mas o golpe despedaçou o móvel e acertou em cheio o queixo de Ghinorf, que cambaleou para trás.
— Aaargh… — gemeu, zonzo.
— Socorro… — choramingava Arthurn, ao ser lançado junto com o homem gordo para trás.
— Sinta a fúria de Baruk!! — bradou o garoto, cheio de energia.
Enquanto isso, Tidi, ainda sob uma chuva de pratos e taças, se aproximou das meninas, mas o estrondo da cadeira se quebrando no rosto de Ghinorf tirou sua atenção.
— Seu merdinha! — gritou Tidi, atirando a toalha como um laço, envolvendo o garoto e dando posição para prendê-lo.
Baruk sentiu a toalha se fechar em torno dos braços, que, aos poucos, foi apertando cada vez mais, impedindo seus movimentos.
— Eu segurei ele! Eu segurei ele! — falou Tidi, sério, tentando convocar seu colega caído.
— Ele me acertou, esse merda! — Ghinorf se recuperou do soco. Graças à cadeira, o estrago não tinha sido tão grande, mas o nariz voltou a sangrar bastante.
— Rápido! — Tidi fazia força para conter Baruk, e, pela vermelhidão do rosto, não iria aguentar por muito tempo.
— Me ajudaaaa! Por favor, me ajuda! — gritava Arthurn, desesperado, enquanto observava, ao chão, os dois tentando conter Baruk.
— Sai de mim, moleque! — rosnou Ghinorf, empurrando finalmente Arthurn, que caiu sentado com um baque.
Do outro canto da sala, as duas garotas não sabiam o que fazer. Ness gritava, ou pelo menos tentava gritar, para o garoto loiro, falhando miseravelmente na tarefa. Elara tentou se concentrar nas pontas dos dedos e, mesmo enxergando um pouco de aura mágica fluir pelo corpo, o máximo que conseguia fazer era um pouco de fumaça branca sair da ponta dos dedos.
— Arrr! Não está funcionando! — Elara falou para a colega, que colocou as mãos na cabeça, em confusão e desespero.
Ghinorf bufava de raiva. Agora Baruk estava muito bem contido, mas ainda conseguia usar os pés para chutar. Desviando do garoto, Ghinorf agarrou onde o pano prendia Baruk e, junto de Tidi, lançaram-no a alguns bons metros no ar, arremessando-o sobre a mesa.
A mesa se partiu violentamente com a pancada. Baruk agora sangrava pela boca, e pôde-se ouvir um rugido de dor. O garoto loiro gritou, apavorado, vendo o garoto de presas aterrissar daquela maneira, aos gritos.
Ghinorf tomou a frente e se jogou sobre o corpo de Baruk, apertando-o pelo pescoço.
Baruk cerrou os dentes em fúria. Tinha os braços livres, mas precisou segurar as mãos gorduchas para não sufocar.
— Seu bosta, eu vou te arrancar um pedaço! — rosnou Baruk, com dificuldade para respirar.
A ameaça deixou Arthurn ainda mais apavorado, fazendo-o fechar os olhos e agarrar com força o pano velho que usava como um amuleto de proteção.
— Ei, garoto! Vem até aqui! — gritou Elara, tentando chamar Arthurn, mas ele parecia congelado de medo e incapaz de ouvi-la.
— Ele não escuta… — disse Nessaldom, ofegante, voltando a arremessar os pratos na direção dos dois homens.
Largando o colega com Baruk, Tidi voltou-se, com um sorriso maléfico estampado no rosto, para as duas garotas, que arregalaram os olhos em resposta.
— Suas fedelhas… venham cá! — falou, nervoso, Tidi. Sua bola na testa parecia mais vermelha do que nunca. Com as pernas curtas, partiu correndo em direção a Elara e Ness.
— Precisamos de mais força, Ness! — gritou Elara, num surto de coragem, mas sua amiga hesitou, tentando procurar um abrigo.
— Vamos, Elara… pensa… — a elfa de cabelos brancos murmurava para si mesma, concentrando-se nos poucos segundos antes de Tidi chegar.
Então, aquela mesma sensação estranha que sentira no pátio voltou a pulsar em seu peito. Elara não sabia exatamente como fizera da outra vez, mas buscou reproduzir a energia mágica dentro de si. Sentiu o calor sair de seu coração e ir em direção ao braço; chamas vermelhas e alaranjadas dançaram até a palma da mão, chegando à ponta de seus dedos.
Uma labareda explodiu de suas mãos e, com um estampido, a chama foi lançada em direção a Tidi como um raio.
— Eiiiii! — gritou Tidi, apavorado, mas, infelizmente, teve reflexo de se agachar, desviando da chama lançada por Elara. As chamas passaram de raspão e atingiram o fundo da sala, quebrando algum armário.
— Que porra é essa?! — rugiu, cambaleando para o lado, surpreso e enfurecido.
Enquanto isso, atrás deles, Baruk lutava para se libertar. Ghinorf mantinha as mãos grossas em seu pescoço, pressionando-o contra a mesa despedaçada no chão. O homem gordo ergueu o cotovelo, preparando um soco, mirando a cabeça de Baruk.
Mas, no instante em que iniciou o movimento, uma rajada de chamas atingiu suas costas em cheio. Elara, por sorte, errou um segundo disparo de fagulhas que, ainda assim, acertou as costas do gordo pronto para acertar Baruk, abrindo um buraco em sua roupa e deixando a pele queimada.
— Aaaargh! — rugiu Ghinorf, afrouxando o aperto no pescoço de Baruk.
Aproveitando a brecha, Baruk, ainda deitado sobre as tábuas quebradas, lançou o joelho para cima, atingindo a grande pança do homem, empurrando-o para trás e livrando-se de vez.
— Elara, cuidado! — gritou Ness.
Aproveitando o momento, Tidi se lançou contra Elara, agarrando-a pelo braço com força.
— Venha aqui, sua pirralha! — Tidi teve muita facilidade em segurá-la. Por mais que tentasse se soltar, ele a envolveu num abraço de urso.
— Me larga, seu nojento! — exclamou Elara, contorcendo-se, sentindo a dor nos braços pela força que o homem fazia.
Num impulso corajoso, Ness saltou por trás do baixinho Tidi e agarrou, com todas as forças, a grande bigodeira do homem, puxando-o para trás.
— Solta ela! — gritou, a voz vibrando de determinação.
— Aaah! — gritou de dor, sentindo o bigode ser tracionado. — Desgraçadas! Fiquem quietas, suas demônias!
— É isso aí, porra! — vibrou Baruk, já de pé, erguendo os braços em comemoração ao ver as duas garotas lutando contra o homem.
— Aaaah! Bicho feio, sai de mim! — gritou Arthurn, apavorado ao perceber Baruk novamente em pé, começando a se arrastar para longe, segurando firme o pano contra o peito.
Baruk encarou o garoto loiro em resposta. Seus olhos haviam voltado à cor âmbar natural e, com um sorriso, falou:
— Calma, cabeçudo… a gente tá aqui pra aj—
Baruk tentava falar, mas não teve tempo de terminar. Um soco bem direcionado o acertou em cheio, vindo de um Ghinorf possesso e enraivecido.
Baruk sentiu gosto de ferro na boca e, com um sorriso maléfico, limpou o pouco de sangue que escorria. Ambos estavam sobre a mesa destruída. Ghinorf estava ofegante e em posição de combate, até que Baruk tomou uma atitude inesperada.
Num movimento rápido, Baruk agachou-se e agarrou um dos pés da mesa destruída que estava jogado no chão. Com as duas mãos firmes na nova arma e um sorriso malicioso nos lábios, girou o tronco, preparando o golpe e encarando a expressão apavorada de Ghinorf.
— Boa noite pra você! — rosnou Baruk, no exato instante em que o pedaço de madeira acertou o homem em cheio no rosto.
O impacto foi tão brutal que fez o pé da mesa quebrar. O golpe acertou a lateral do rosto e teve respaldo direto no nariz já quebrado, fazendo com que um chafariz de sangue escorresse para todos os lados, até que finalmente Ghinorf caiu desmaiado.
O que não poderia ser pior, pois o sangue escorreu livremente…
…caindo direto no rosto de Arthurn, que ficou paralisado, com o olhar congelado.
Elara, ainda tentando se soltar do agarrão de Tidi, teve apenas um instante para perceber algo estranho: uma enorme concentração de energia se formando ao redor do menino loiro.
Uma luz branca intensa borbulhava ao redor de Arthurn, a princípio, em pequenas bolas de aura que pipocavam em leves estouros. Aos poucos, porém, a energia ganhou vida, completamente fora de controle, como se a própria magia gritasse para escapar de uma panela de pressão.
— Cuida… — começou Elara, mas não teve tempo de concluir.
De repente, uma densa nuvem de vapor explodiu do corpo do garoto, expandindo-se por toda a sala de jantar com violência, nublando completamente o ambiente. Baruk, Ness e Elara ficaram desorientados.
Um silêncio carregado de tensão se instalou.
Pruffff!
Soou um estampido abafado, seguido de uma explosão. Algo surgiu no espaço, arremessando tudo e todos para os cantos da sala. Era uma confusão em que madeira, talheres e quadros eram arremessados para todos os lados, acompanhados de um barulho animalesco estranho.
Ness, não conseguindo ver nada, foi atingida por algo grande e corpulento. Foi arremessada para longe, aterrissando próxima à porta que levava à sala do piano. Bateu com força as costas no soalho de madeira, sentindo uma dor intensa percorrer o corpo.
Gemendo, conseguiu ficar em pé, dolorida, mas ainda consciente.
— Elara… Baruk! — gritou, procurando os amigos.
A névoa tornava tudo indistinto. Não se via mais do que um braço à frente. Ofegante, Ness abaixou o olhar e percebeu as pernas machucadas, os joelhos esfolados, sangrando levemente. Apesar da dor, não parecia haver nada grave.
Começou a andar devagar, para não tropeçar nos escombros. Percebeu que havia perdido um dos chinelos e sentiu um gosto salgado no ar.
— Pessoal?! — gritou, aflita.
— Aqui! — respondeu uma voz abafada, mas Ness não conseguiu distinguir a posição.
Elara se ergueu devagar, tensa, examinando os arredores. Nada via além dos destroços da antiga sala de jantar. Era um milagre não ter sofrido nada mais grave além de arranhões. Os braços estavam doloridos por causa do aperto de Tidi.
Aproveitou o breve momento de calmaria para tentar se acalmar, concentrando-se, e decidiu tentar enxergar não apenas o mundo físico, mas também ampliar sua visão para a magia.
A visão parecia falhar, mas conseguiu perceber, no canto oposto da sala, um brilho verde e um gosto de folha na boca, que reconheceu imediatamente como sendo a aura de Nessaldom.
— Aqui, Ness! — gritou Elara. — Consegue me ver?!
— Nããão! — respondeu Ness, com a voz trêmula.
— Tá, fique parada! Eu vou até você. — disse Elara e começou a avançar, desviando cuidadosamente dos destroços.
A sala estava completamente destruída. Passou ao lado de uma mesa apoiada apenas em dois pés, quadros caídos pelo chão, mas havia algo errado. Alguma coisa a observava.
Uma sombra escura passou ao seu lado.
Elara tentou ignorar, controlar os medos, mas um arrepio gelado subiu-lhe pela espinha.
— Baruk, onde você está?! — gritou, sem obter resposta. Diferente de Ness, Baruk não possuía uma aura mágica clara que pudesse ajudá-la a localizá-lo.
Foi então que Elara ouviu um som estranho, algo totalmente diferente de tudo que já escutara. Entre a névoa, distinguiu uma aura laranja — intensa, poderosa e, ao mesmo tempo, selvagem. A energia se movia lentamente, mas crescia em força a cada segundo.
— Aqui, Elara! — Ness apareceu, finalmente.
As duas se encontraram num abraço rápido e instintivo. Ness olhou com preocupação para os pequenos cortes que Elara tinha.
— Está doendo? — perguntou Ness, referindo-se a um ferimento mais intenso em um dos braços.
Elara negou com a cabeça, mentindo.
— E você? Está machucada? — perguntou, preocupada, observando os joelhos ensanguentados da amiga.
— Não se preocupe. Temos que achar o Baruk. — respondeu Ness, ainda que visivelmente dolorida.
— Consegue ver aquilo? — perguntou Elara, olhando para o centro do salão e apontando para a grande aura laranja brilhante.
— Eu não vejo… mas alguém está chorando! — respondeu Ness, deixando Elara confusa.
— Chorando?! Eu só escuto um barulho estranho! — falou Elara, confusa.
— Sim, ele precisa da nossa ajuda, Elara! — insistiu Ness, quase sem fôlego, a voz firme apesar do nervosismo.
— Ele quem? O Baruk? — questionou Elara, ainda sem entender.
— Não… a outra criança! — exclamou Ness.
Enquanto isso, Tidi gemia de dor, estirado entre destroços. Não sabia o que o atingira, mas estava tonto, com os braços latejando. Juntou forças, ergueu-se, mas notou que um de seus pulsos estava torto, com a mão em uma posição que certamente não era natural.
— Gordão, você tá bem?! — gritou, tentando encontrar Ghinorf. — Porra… — resmungou, erguendo-se com dificuldade, apoiado apenas em uma das mãos.
A névoa começou a se dissipar lentamente, revelando pouco a pouco o cenário devastado — mas algo estava muito claramente ocupando um espaço que não deveria. Uma presença estranha pairava no ar, fazendo o coração de Tidi disparar. Segurando o pulso ferido, avançou pela sala em busca do parceiro, cauteloso.
Foi então que ouviu um som úmido, grotesco, como um grunhido profundo, semelhante ao eco de algo se movendo nas profundezas de um oceano. Arrepiou-se inteiro. Ergueu os olhos — e viu uma sombra gigantesca ondulando acima da névoa.
— AHHH… aHH… QUE CARALHO É ISSO?! — gritou, apavorado.
Não uma, mas duas sombras se delinearam, ficando mais nítidas a cada segundo. Pairavam a mais de quatro metros de altura, cada uma várias vezes maior que um homem. Logo surgiu uma terceira, uma quarta… todas semelhantes, enormes, dançando no ar como troncos vivos. Quando enfim distinguiu melhor, o sangue de Tidi gelou: não eram troncos, mas tentáculos gigantes alaranjados, com ventosas enormes ondulando furiosamente.
— AAAAAH! — berrou, disparando para o fundo da sala, tentando fugir.
Mas não teve chance. Um tentáculo desceu veloz, acertando-o em cheio na cabeça, esmurrando-o contra o chão.
Depois do estrondo, silêncio.
Ness e Elara pararam, boquiabertas. Tiveram a primeira visão da criatura colossal que surgia diante delas. As duas assistiram, horrorizadas, ao momento em que o tentáculo atingiu Tidi, derrubando-o feito boneco de pano.
— AAAAAH! — gritaram em sincronia, em terror.
Por trás dos oito tentáculos imensos, surgiu então um gigantesco polvo de cor laranja flamejante, com mais de seis metros de altura, quase ocupando todo o espaço do salão de jantar, alcançando o teto. Seus enormes tentáculos grossos serpenteavam pelo salão, derrubando tudo ao redor.
— Ness, olha lá! — apontou Elara, trêmula.
Elara viu que, em um dos oito tentáculos, a criatura mantinha algo preso.
— Ele pegou o Baruk! — exclamou Ness.
— Precisamos ajudá-lo! — gritou Elara, erguendo uma das mãos. Canalizou a energia mágica que fluiu pelo braço até as pontas dos dedos.
— Cindora! — bradou a jovem, a palavra surgindo clara em sua mente.
Uma rajada flamejante saiu disparada de seus dedos, atingindo um dos tentáculos. A criatura urrou, agitando ainda mais seus membros.
— Ele está chorando. Você não escuta?! — perguntou Ness, mesmo enquanto a criatura rugia.
— O que você tá falando?! — berrou Elara, confusa. Mas não teve tempo para a resposta. Um dos tentáculos desceu num golpe em direção a elas.
As duas saltaram para longe, desviando por um triz. O tentáculo esmagou o chão, espalhando estilhaços de uma tigela pelo salão.
— Ele está desesperado! Precisamos acalmá-lo! — gritou Ness, ofegante, depois de recuperar o equilíbrio.
— O quê?! — retrucou Elara, incrédula. Mas não insistiu. Precisava focar em não virar patê de elfa.
Mais dois tentáculos vieram sobre elas, cada um mirando uma. Elara se atirou sob os restos de uma mesa, enquanto o tentáculo despedaçava uma cadeira ao seu lado. Ness, em vez de fugir, avançou na direção da criatura, aproximando-se perigosamente.
— Elara, é o menino! — gritou Ness, do outro lado do polvo gigante. — É o menino loiro!
— O quê?! Essa coisa é o garoto loiro?! — gritou Elara, em choque, desviando dos golpes do polvo. — Tem certeza, Ness?!
— Tenho certeza! — berrou Ness, a voz ecoando pela sala.
— Tá… o que a gente faz?! — questionou-se Elara.
Mas antes que pudessem bolar um plano, outra voz estrondou no salão:
— ME SOLTA, PORRA! — gritou Baruk, despertando de repente. Lutava para abrir os braços, espremidos pelo tentáculo, o rosto ficando vermelho sob a pele cinza. — ME LARGA, SENÃO EU TE JANTO HOJE À NOITE!
— Baruk, não se mexa! — gritou Ness, tentando acalmá-lo.
— EU, NÃO ME MEXER?! — esbravejou Baruk, contorcendo-se. — COMO SE EU FOSSE FICAR AQUI E VIRAR COMIDA DE atum!
— Tenta ficar calmo! — gritou Elara do outro lado, escondida entre destroços. — A Ness tem um plano!
— VÃO RÁPIDO, ORELHUDAS, OU JÁ ERA PRA MIM! — puxou o último ar, antes do polvo apertar ainda mais, impedindo-o de respirar direito.
Ness correu entre os tentáculos furiosos, esquivando-se dos ataques até alcançar algo inesperado: um pedaço de pano sujo — uma fronha — que reconheceu como o objeto que Arthurn carregava o tempo todo.
Pegou o pano em suas mãos, erguendo-o bem alto, gritando:
— ACHEI, ELARA! — gritou Ness, vitoriosa.
— Achou o quê?! — berrou Elara.
— A coisa que o menino carregava! — respondeu Ness.
— Tá, mas o que a gente faz com isso?! — falou, confusa, tentando se proteger debaixo de uma tábua de madeira.
Ness, sem hesitar, ergueu a fronha acima da cabeça e gritou para o grande polvo laranja:
— EI, GAROTO, AQUI! — Ness, que sempre teve a voz contida, gritou como nunca.
Nada aconteceu. Baruk parecia ficar cada vez mais vermelho, como uma espinha teimosa pronta para estourar. Os tentáculos pareciam ficar mais agitados.
— A gente não vai te fazer mal! — gritou Elara também, erguendo as mãos, saindo de seu esconderijo.
Aos poucos, a agitação dos oito braços foi diminuindo. Antes, tinham como alvo certo todos ali na sala; agora, pareciam se movimentar de maneira confusa.
— Oi, amiguinho… está tudo bem. Ninguém aqui quer te machucar! — completou Ness, agora com a voz mais suave.
Dois grandes olhos protuberantes se viraram para Ness. O polvo pareceu focar na fronha suja que a garota segurava. Então, de forma surpreendente, parou completamente seus movimentos, repousando-os, mantendo somente o tentáculo que prendia Baruk suspenso.
Aos poucos, o gigantesco corpo laranja flamejante começou a encolher. Os tentáculos recolheram-se. O molusco laranja se dissolveu, dando lugar a cabelos loiros e roupas largas.
Baruk despencou no chão com um baque, puxando o ar desesperado.
Onde antes havia um polvo colossal, restou apenas o pequeno menino loiro, de cabeça desproporcionalmente grande. Ele limpou as lágrimas e agarrou o pano sujo que Ness lhe entregou, sorriu timidamente e disse, com voz doce:
— Oi! Meu nome é Arthurn… você quer ser minha amiga? — falou, encabulado.