Enfim, a confusão passou. O imenso polvo laranja flamejante agora era novamente um garoto loiro e assustado, deixando como herança uma sala totalmente aos pedaços. O pequeno Arthurn parecia esgotado. Suava frio e sentia fraqueza pelo corpo todo, mas o medo do constrangimento e a falta de confiança o faziam ficar alerta, principalmente na presença de Baruk.
Elara sentou-se no chão, aliviada, respirou fundo e fechou os olhos, saboreando, pela primeira vez em muito tempo, a sensação calma do ar entrando nos pulmões.
Ness, por sua vez, observava fascinada o novo colega: um humano loiro, de cabeça grande — essa era, sem dúvida, a melhor definição de Arthurn.
Baruk levantou-se num solavanco. Havia despencado de alguns metros de altura graças ao agarrão do polvo, mas, fora alguns roxos e a boca sangrando por causa do soco do gordo ruivo, saíra praticamente ileso — apenas sentindo o corpo todo “amassado”.
— Seu pirralho cabeçudo! — urrou Baruk, avançando na direção de Arthurn. — Eu vou arrancar essa sua cabeça!
— Aaaaah! Bicho feio! — gritou Arthurn, voltando a entrar em desespero, escondendo-se por detrás de Ness.
— Calma, Baruk, vamos conversar primeiro! — interveio Elara com firmeza. A garota mal tivera tempo de descansar, mas ergueu-se num pulo, posicionando-se entre Arthurn e Baruk.
Um pouco encabulada, Ness olhou apreensiva para Baruk, que ainda mantinha a expressão de raiva no rosto, mas decidiu segurar as pequenas mãos do garoto, que agarravam suas vestes em busca de conforto. Agachou-se para encarar seus grandes olhos verdes claros; era certamente dois palmos mais baixo, e seus cabelos lisos balançavam, ricocheteando entre o vento e a testa.
— Seu nome é Arthrun, certo? — perguntou Ness, com a voz doce.
Arthurn hesitou, desconfiado, mantendo o olhar fixo nas orelhas pontudas e nos cabelos roxos de Ness. Os outros assistiam, ansiosos pela resposta do garoto. Depois de algum tempo, acalmando a respiração, respondeu:
Confirmou com a cabeça sem emitir qualquer som de tanta vergonha.
— Está tudo bem, Arthurn, somos todos amigos — disse Ness, com um grande sorriso no rosto. — O meu nome é Nessaldom, mas pode me chamar de Ness — terminou, apontando para o próprio peito.
— Sim, somos mesmo, Arthurn. Meu nome é Elara — completou Elara, sorrindo.
Elara então lançou um olhar cortante para Baruk, que continuava de cara fechada, e resmungou:
— Tá, tá… Sim, somos amigos…
— Você não tem um pingo de tato, seu brutamontes. O nome daquele ali é Baruk — disse Elara, criticando o orc.
Então, um leve sorriso surgiu no rosto de Arthurn, revelando um dente faltando. O menino finalmente relaxou, largou as vestes de Ness e fitou seus olhos, estudando as duas garotas.
— Por que vocês têm essas orelhas grandes e pontudas? — perguntou o garoto, apontando com a mão que segurava a fronha, enquanto apalpava a própria orelha com a outra.
— Nós somos elfas, Arthurn — respondeu Ness, com um brilho nos olhos.
— E aquele ali é um orc — completou Elara, apontando para Baruk. — Mas somos todos amigos, assim como você é nosso amigo agora.
— Ele não vai me comer, né? — perguntou Arthurn, vacilando momentaneamente, tentando escapar do olhar selvagem de Baruk, que não se esforçava nem um pouco para parecer menos assustador.
— Não, pequeno, ele é igual a gente… criança — disse Elara, confortando-o.
— Mas ele tem aquelas coisas na boca… — retrucou Arthurn, apontando para as presas de Baruk.
— É porque eu como criancinhas cabeçudas que não se comportam — provocou Baruk, fazendo uma careta tão grande que o garoto arregalou ainda mais os olhos de medo.
— Para, seu prego! — ralhou Elara, socando o ombro de Baruk. Ele nem pareceu sentir fisicamente, mas entendeu o golpe como um “tapa moral”.
Emburrado, Baruk cruzou os braços.
— Tá bom… foi mal, tampinha. Eu não vou fazer nada — disse, finalmente relaxando um pouco, mostrando-se mais descontraído.
Houve uma pequena pausa.
— Você se lembra de alguma coisa, Arthurn? — Elara quebrou o silêncio.
— Lembrar? — questionou-se Arthurn, como se seus pensamentos não estivessem ali.
— Estamos sem memória, Art — complementou Ness, empolgada pela tentativa do novo apelido.
— Estamos tentando descobrir onde estamos e por que estamos aqui! — continuou Elara, aproveitando para narrar os fatos, não só para Arthurn, mas também para o grupo. — Tudo o que sabemos é que estamos presos nessa mansão, que pertence ou pertencia a uma tal família Darkmore.
Todos ficaram em silêncio, atentos às palavras da elfa.
— Sabemos também que eles sequestraram a gente, colocando-nos num tipo de sono hipnótico com alguma poção mágica.
— Poção? — Arthurn estava tão confuso que decidiu ignorar a fala da garota.
— Aquela velha desgraçada! — rosnou Baruk, nervoso, referindo-se à madame Darkmore.
— E sabemos que tem alguma coisa nessa casa…algum monstro ou ser mágico poderoso ou algo assim.
— Um… — o garoto fez uma pausa, pois foram as únicas palavras que realmente chamaram sua atenção. — Um monstro?! — exclamou Arthurn, quase soluçando.
— Mas a gente vai te proteger, porque agora somos amigos! — disse Ness, tentando não alarmar ainda mais o pequeno Art.
— E vamos precisar de toda a ajuda possível — continuou Elara. — Aquela mulher, a tal da Evelyn, estava trazendo alguma coisa… um tipo de cápsula.
— Será que era a outra criança de quem eles falavam tanto? — perguntou Baruk.
Elara confirmou com a cabeça.
— Bem, o que estamos esperando? — Baruk se adiantou. — Vamos atrás da velha e da outra criança! — gritou, impaciente.
— Calma, Baruk! Precisamos pensar melhor antes de agir… — ponderou Elara.
— Já esperamos demais! O que vai acontecer com essa criança se não fizermos nada? Ninguém vai salvar a gente se a gente não fizer alguma coisa! — rugiu Baruk, furioso.
— A mulher disse algo sobre “hora da lua”… — lembrou Ness, puxando o foco da conversa. — Ela falou isso pro cara da bola estranha na testa.
— Falando nisso… onde estão aqueles dois? — perguntou Elara, entrando mais uma vez em estado de alerta.
— Eu dei cabo de um. Deve estar desmaiado por aí — exclamou Baruk.
— Bem, o outro, aquele com a bola vermelha na testa… o nosso amigo Arthurn acertou um golpe direto nele, bem na cabeça — disse Ness, sorrindo, e apontou para a própria testa.
— Ô, moleque, como tu fez isso?! — perguntou Baruk, encarando Arthurn, que voltou a se encolher de medo.
— Baruk! — protestou Elara.
— O quê, mulher? Eu não fiz nada! — retrucou, ficando emburrado. — Eu vou procurar alguma coisa. Vocês aí pensam em algum plano.
Baruk deixou os três no centro do salão e começou a vasculhar os escombros da sala de jantar, em busca de algum sinal de Ghinorf e Tidi. Não demorou muito para ver uma tábua de madeira, provavelmente de alguma das mesas, empilhada sobre algo. Debaixo dela, reconheceu uma barriga protuberante e uma barba ruiva.
— Arthurn, você se lembra do que aconteceu agora há pouco? — perguntou Elara, confiante de que o garoto pudesse explicar alguma coisa.
— Eu tentei fugir do bicho feio… mas depois vi que Elara e Nessaldom eram minhas amigas e fiquei mais calmo — respondeu, com certa tranquilidade.
Ficava claro que Arthurn não tinha controle algum sobre seu poder — talvez nem sequer consciência dele. E, embora as duas elfas também não conhecessem muito bem suas próprias habilidades, o pequeno humano sequer parecia saber que possuía alguma.
— Bem… não temos muito o que fazer. Baruk, achou alguma coisa? — disse Elara, vendo o garoto surgir perto de uma das portas.
— Sim, já vou aí! — gritou.
— Quantos anos você tem, Art? — Ness tentou puxar assunto com o garoto.
Ele ficou um pouco pensativo. Apoiando sua fronha sobre um dos ombros, esticou as mãos e começou a contar nos dedos, como se fosse algo robotizado.
— Tenho isso aqui! — o garoto não falou o número, mas mostrou sete dedos esticados.
— Sete! — disse Ness, sorrindo, enquanto Elara observava o quanto o garoto era novo demais para tudo aquilo.
Baruk se aproximou do grupo, carregando uma bolsa de couro com uma fivela toda enferrujada.
— Peguei isso do gordão lá. Ele não vai acordar hoje nem fodendo — exclamou o garoto.
Elara aproximou-se de Baruk e, juntos, começaram a vasculhar o conteúdo da bolsa. O interior do couro estava imundo, o que fez Elara torcer o rosto de nojo. Mas, sem se incomodar, Baruk puxou de lá um pedaço do que parecia ser um sanduíche de carne seca.
— Humm, delícia! — exclamou Baruk, sem perder tempo, enfiando o lanche direto na boca.
Com ainda mais nojo, Elara continuou remexendo a bolsa.
A cena ocorria enquanto Art puxava levemente os cabelos roxos de Ness, em uma atitude de curiosidade desajeitada.
— Isso aqui é interessante… — surpresa, Elara retirou um objeto redondo de dentro da bolsa. Era feito de uma liga metálica bem trabalhada, repleta de relevos entalhados e com vários ponteiros presos a eixos, apontando para símbolos. — É um relógio — afirmou. — Ness, consegue me ajudar?
A elfa de cabelos roxos se aproximou, trazendo Arthurn junto, ainda segurando firme sua fronha.
— Eu não entendo bem esses símbolos… — disse Elara, apontando para as marcações do relógio, onde os ponteiros giravam em um compasso sincronizado.
— Olha que legal, parece uma joaninha! — exclamou Ness, empolgada, apontando para o símbolo mais à direita do relógio. — Bem, não sei o que significa, mas as joaninhas são mais ativas na primeira hora da manhã. Você sabia que elas são vermelhas para os predadores acharem que são venenosas, mas, na verdade, elas não são…
Ness arregalou os olhos de um jeito quase assustador, como se estivesse enxergando a alma de Elara, como se aquela informação fosse a coisa mais importante do mundo.
— Mas… como é que eu sei disso? — completou, confusa.
— O que é uma joaninha? — perguntou Arthurn, curioso.
Aproveitando o momento em que Ness se distraía conversando com o garoto, Elara voltou sua atenção para o relógio e seus quatro símbolos e seis ponteiros. Mas uma pergunta martelava incessantemente em sua cabeça: por que se lembravam de algumas coisas, mas de outras não?
Ela se lembrava de saber ler, de entender magia até certo ponto. Lembrava-se de alguns nomes de cidades, da sensação de folhear livros, do cheiro da tinta… Mas, além disso, nada. Em sua consciência, suas memórias eram fragmentos obscuros; surgiam apenas pensamentos naturais e conhecimentos simples, sem qualquer explicação do porquê.
Parou de forçar quando uma forte dor de cabeça começou a latejar em suas têmporas.
Baruk deixou os três e saiu novamente pelo salão destruído. Chegando próximo ao corpo desacordado de Ghinorf, juntou do chão o pé da mesa destruída com o qual usou para nocautear o homem gordo. O pé da mesa tinha um formato perfeito para, como Baruk costumava dizer, “meter a porrada em alguém”. Agarrou-o com firmeza e simulou alguns golpes. Sorriu.
Voltando a vasculhar os escombros, enxergou um pouco mais longe. Entre os destroços, notou o outro homem — aquele com a bola estranha na testa. Revistou-o, mas não encontrou nada. Então teve uma ideia: segurou firme as pernas do homem e sumiu de vista, arrastando-o em direção à sala do piano.
— Acho que consegui! — exclamou Elara, empolgada. — Esses símbolos marcam os principais horários do dia, então…
Iniciou uma longa e complexa explicação sobre como a engenhoca funcionava, passando por simbologias até a velocidade com que o ponteiro dava uma volta completa.
Nesse meio tempo, Baruk entrou novamente na sala, mas sozinho. Foi até Ghinorf e começou a arrastá-lo também.
— Então, se eu estiver certa, estamos a cinco horas de o relógio marcar um novo ciclo — concluiu Elara, muito empolgada.
— Tahhh… — Ness olhou no fundo dos olhos da amiga. — E o que isso significa? — perguntou, sorrindo.
— Que temos aproximadamente esse tempo até a hora da lua, o horário em que pretendem iniciar o ritual.
— E o que estamos esperando? — Baruk surgiu do nada. — Temos que salvar aquele outro lá, preso na cápsula, não?
— E se ele já estiver… — Ness começou a frase, mas, ao pensar em Arthurn, decidiu não concluir.
— A gente tem que tentar pelo menos, não é? — falou Baruk, firme.
— Mas a gente nem sabe como sair daqui — ponderou Elara. — Não seria nossa prioridade descobrir isso primeiro?
— A gente pode esperar ajuda? — disse Ness, relutante.
— Eu não sei há quanto tempo estamos aqui. Eu não contaria com isso, Ness — ponderou Elara.
— Tah, mas a gente precisa ajudar aquele que está com a megera — disse Baruk, confiante.
— Certo. E tem que ser até onde marca esse relógio — falou Elara, indicando um dos ponteiros.
— Ou antes que aquele monstro encontre a gente — completou Baruk, despreocupado.
— Monstro? — Arthurn falou, choroso.
— Sim, cabeçudo, e ele vai te devorar se você não me obedecer! — respondeu de maneira provocativa.
— Ahhh, socorro, Ness! — Arthurn voltou a agarrar as vestes da elfa, que, embora fosse atenciosa com o garoto, também estava assustada e soltou um gritinho leve.
— Ninguém vai ser devorado, mas precisamos ter cuidado! — falou Elara, tentando apaziguar os ânimos e encarando Baruk com um olhar severo. Baruk achou tudo aquilo muito engraçado.
— E as outras? — perguntou Ness, referindo-se às demais crianças que estavam no quarto.
— Acho que a gente acabou com o jantar delas, não é mesmo? — disse Baruk, referindo-se à destruição na sala de jantar.
— Bem… — Elara tomou a frente. — Não custa a gente dar uma olhada!
As crianças, agora quatro delas, seguiram pelo salão destruído até o corredor escuro. Pequenas lamparinas iluminavam quadros que, pelo olhar de Ness, tinham mau gosto. O corredor não se prolongava muito e era dividido em quatro portas estreitas.
— ALÔ! — Baruk não se conteve. Abriu de supetão a primeira porta e gritou para dentro.
— Baruk! — Ness e Elara gritaram juntas, enquanto Arthurn voltou a se encolher.
— Tá tudo bem! Calma. — O garoto abriu a porta, dando passagem para os outros três. — Eles ainda estão daquele jeito.
E era verdade. Assim como em todas as outras portas, crianças estavam sentadas em suas respectivas camas, olhando para o vazio.
— Elas ainda estão sob efeito do líquido! — falou Ness. — Será que a gente tenta acordá-las?
— Acho melhor não — constatou Elara. — A gente tem que manter o foco e tentar descobrir como sair primeiro. Quanto mais gente, maior a chance de virar uma confusão.
— Por que eles não vêm junto? — perguntou Arthurn.
— Eles estão… — Ness pensou por um tempo. — Sonhando acordado! — falou risonha, tentando deixar o garoto distraído.
Os quatro deixaram o grande grupo de crianças em seus quartos, na esperança de que nada de mal acontecesse por ali.
— Vamos atrás da mulher então? — perguntou Ness.
— Vamos caçar a velha coroca! — falou Baruk, empolgado, agarrando o pé da mesa e apontando-o para uma porta. — Para a cozinha!!!