A passagem Secreta
Os quatro avançaram cautelosamente pela sala de jantar, desviando dos destroços causados por Arthurn transformado em polvo gigante. Chegando à extremidade oposta, os quatro encararam uma pequena portinhola que, pelo cheiro de comida queimada, deveria ser a cozinha.
Abrindo a portinhola, Baruk e Elara entraram na frente, um pouco agachados. Mas não havia mais ninguém ali.
— Aquela mulher veio por aqui mesmo? — perguntou Ness, olhando atentamente para uma bancada onde havia uma tábua e algumas cenouras cortadas.
— Eu a vi entrando por essa porta, mas aqui dentro não parece ter nada! — confirmou Baruk.
De fato, o ambiente parecia apenas uma cozinha normal. Havia mesas e uma grande bancada claramente utilizada pelo homem da bola vermelha na testa. Um fogão a lenha, todo detalhado em algo que parecia aço, ocupava boa parte do espaço, com uma chaminé que sumia de vista após o telhado, espalhando um calor confortável pelo local.
— Bem, vamos vasculhar! — disse Elara.
Baruk aproximou-se do fogão e começou a fuçar nas panelas que lá estavam. Abriu a primeira e viu um líquido vermelho já um pouco passado, provavelmente cozinhando há tempo demais. Espichou-se sobre o fogão, meteu o dedão no molho e depois colocou-o na boca, fazendo uma expressão pensativa.
— Hum… passou do ponto, mas até que está gostoso! — exclamou. Alguma lembrança vaga passou-lhe pela mente, como se já estivesse acostumado a comer comida muito saborosa.
— Aqui, Art — chamou Ness. Ela e o garoto humano vasculhavam uma prateleira onde várias panelas de ferro estavam penduradas. — Agora você vai ficar protegido.
A elfa pegou uma panela e tentou enfiá-la na cabeça de Arthurn, mas logo percebeu que era pequena demais para dar conta de tanta cabeça.
— Acho que… — fez uma pausa, tentando entender como ele conseguia ficar em pé com aquela cabeça enorme. — Esta aqui vai servir!
Pegou, então, uma panela maior, mais fina que a outra, que se encaixou perfeitamente em Arthurn.
— Eba! — disse ele, orgulhoso, agarrando as alças da panela junto à cabeça. — Vamos nessa, pessoal!
A frase pegou todo mundo de surpresa.
— Vamos fazer o quê mesmo, Nessaldom? — perguntou, um pouco encabulado, voltando a segurar a fronha contra o corpo, arrancando uma risada leve da amiga elfa.
Enquanto isso, Elara estava concentrada, vasculhando cada canto da cozinha. Segurava firme o novo relógio nas mãos, os olhos indo e vindo dos ponteiros para o ambiente ao redor, ansiosa. "Temos pouco mais de três horas agora...", refletia, preocupada com o início do ritual. Pensava sem parar em salvar as outras crianças e não conseguia relaxar, imaginando mil e uma alternativas para escaparem dali.
Foi então que a elfa reparou em algo: numa parede onde alguns barris de madeira estavam espalhados de forma desordenada, provavelmente um depósito de água ou vinho. Aproximou-se e percebeu que os barris estavam vazios, pois conseguia movê-los com facilidade.
Seu olhar, então, se fixou na parede por trás deles. Diferente do padrão da casa, toda em madeira no estilo gótico, aquela era feita de tijolos assentados rusticamente.
— Pessoal, olhem aqui! — chamou Elara.
Os quatro se agruparam.
— Tá. É uma parede bonita, Elara — Baruk comentou em tom de deboche.
— Não é a parede, sua besta. — Elara apontou para uma pequena fresta, quase invisível a menos que se olhasse com muita atenção. — Tem alguma coisa escondida atrás dela.
— Eu sinto uma brisa diferente também — complementou Ness.
— Tem coisa ruim aí! — disse Arthurn, mais uma vez surpreendendo a todos.
Era pouco perceptível, mas Elara conseguia notar uma sutil distorção de aura negativa que permeava o casarão.
— Você consegue ver também, Arthurn? — perguntou ela.
— Ver o quê, Lara?
— Nada não — decidiu Elara, preferindo não insistir. O garoto ainda era novo demais, talvez não conseguisse distinguir o que era físico daquilo que era manifestação de aura mágica. Também resolveu relevar o fato de ele ter errado seu nome.
— Tá, e o que a gente está esperando? — Baruk recolheu a perna e, num movimento elaborado, projetou-a para frente, chutando com força a parede. — Ai, porra! — exclamou quando nada aconteceu.
— Está tudo bem, Baruk? — Ness perguntou, preocupada.
O garoto desceu a perna, evitando apoiar peso nela.
— Estou bem, estou bem — respondeu resmungando. — Negócio duro…
— Claro, cabeça, é uma parede — alfinetou Elara. — Deve ter algum mecanismo ou algo mágico, talvez.
A elfa fechou os olhos e colocou ambas as mãos sobre a parede de tijolos, tentando localizar algum meio mágico de abri-la. Vinte minutos se passaram.
— Vai demorar muito mais aí, LARA? — Baruk provocou, debochado tanto da demora quanto do nome errado.
— Fica quieto! Estou tentando me concentrar aqui! — retrucou Elara, irritada.
— Ah, que tédio… — Baruk se apoiava no bastão improvisado, entediado.
— Olhem, gente, uma libélula! — Ness exclamou, completamente distraída. Olhava para cima, para o que parecia ser uma abertura para passagem de luz, e lá pensou ter visto algo como um raio de luz.
— O que é libélula? — Arthurn perguntou, curioso.
— Ness, a gente precisa focar! — Elara advertiu.
Ness se sentiu um pouco triste.
— Para de ser chata, Elara — Baruk se meteu. — Estamos aqui, já olhamos tudo e nada!
— Ah, vocês têm razão… — Elara olhou para a amiga elfa. — Desculpa, Ness. É que eu estou preocupada.
Nessaldom deu um sorriso, demonstrando que estava tudo bem.
— Ah, eu queria ver essa “libélula”… — protestou Arthurn, chateado, encostando-se na parede atrás dele.
Foi nesse momento que, sem intenção, sua cabeça — protegida pela panela — encostou em um dos tijolos. O tijolo afundou sob a pressão; no mesmo instante, os tijolos começaram a se moldar, como se alguém os estivesse desmontando um por um, para finalmente mostrar uma passagem escura à frente.
— Eita, cabeçudo! Boa! — exclamou Baruk, dando um leve cascudo na panela sobre a cabeça de Arthurn. — Ele ganhou de ti nessa, “Lara”! — continuou, tirando sarro da elfa.
— Boa, pequeno Art! — disse Ness, colocando a mão no ombro do amigo, deixando-o encabulado e sem palavras.
— Era algo mecânico, não mágico… eu deveria ter imaginado — falou Elara, pensativa.
— Eu não quis atrapalhar, “Lara”… — disse Arthurn, sem jeito.
— Não se preocupe, garoto. O importante é que conseguimos! — Elara olhou atentamente para a fresta que se formara entre os tijolos, revelando claramente uma passagem. A elfa consultou o relógio e, com firmeza, falou: — Temos pouco menos de três horas. Resgatamos a outra criança e damos um jeito de sair daqui.
Todos ali concordaram.
— Bem… — Baruk segurou o bastão com as duas mãos e empurrou a parede. — Eu vou na frente!
Ninguém protestou.
A passagem era escura e úmida; o cheiro de mofo veio com força para cima das narinas dos quatro, e o pouco que conseguiam enxergar limitava-se às paredes de pedra cobertas de limo. O corredor era estreito, mas tinha o pé-direito relativamente alto até mesmo para o padrão do casarão; os quatro seguiram pela passagem de estômago amarrado e aflitos.
Finalmente, os quatro chegaram a uma passagem de onde vinha uma brisa forte.
— Argh, que cheiro! — reclamou Ness, tapando o nariz.
— Que merda é essa? — protestou Baruk.
Arthurn ficou verde, colocou a mão na barriga e fez cara de enjoo. Elara se colocou à frente e tomou a liderança.
Pequenas velas de chamas amareladas iluminavam o que parecia ser uma cozinha improvisada. Uma grande mesa no centro, ainda com alguns resquícios de ervas lilases picotadas, um pilão de madeira muito mofado e um pequeno conjunto de garrafinhas de vidro ocupavam boa parte do espaço. Ao pé da mesa, havia um enorme caldeirão de cobre, suspenso por hastes metálicas sobre tocos de madeira chamuscados — provavelmente o lugar onde se cozinhava algo que as crianças sabiam muito bem o que era.
— Aquele líquido estranho… — disse Baruk. — É aqui que eles “cozinham”.
— Mas por que aqui e não na cozinha? — perguntou Ness, enquanto Arthurn voltava a se agarrar às suas vestes.
— Talvez para disfarçar o que estivessem fazendo… — supôs Elara, embora ninguém tivesse uma resposta exata.
As duas elfas se aproximaram do caldeirão, ficando na ponta dos pés para tentar ver o conteúdo. Lá dentro, restava um líquido lilás cintilante, mas que parecia queimado, grudado nas laterais da panela; estava tão gosmento que parecia ter vida própria.
— Ai, que vontade de vomitar… — disse Nessaldom, fazendo careta.
Elara focou o olhar na mesa de corte e encontrou um pequeno pedaço de papel amassado, com uma letra muito feia, bem diferente da caligrafia elegante de Madame Evelyn.
— Acho que isso aqui era para ser a receita da tal… — murmurou Elara, lendo as palavras no alto do papel rasurado. — “Poção da Meia-Noite”.
— A gente está perdendo tempo aqui! — contestou Baruk, impaciente. — O que importa isso?
— Calma, Baruk, é importante a gente entender com o que vamos lidar — tentou argumentar Elara.
— Calma nada, a outra criança já pode ter sido comida. — No momento em que ele falou “comida”, Arthurn e Ness deram um leve salto. — E a gente aqui, lendo receita de bolo.
— Mas… — Elara tentou pensar em um contra-argumento, mas percebeu que ele realmente estava certo. O relógio estava contra eles.
— Certo, você tem razão — falou, a contragosto.
— A gente vai onde está o monstro? — perguntou Arthurn, com receio na voz.
— E se ele aparecer, eu vou deitar ele na porrada, cabeçudo! — falou Baruk, confiante, mas com um tom que deixava perceber que o desconhecido também o deixava apreensivo.
— A gente só vai atrás da outra criança, Art. Quando a gente encontrar, a gente foge daqui — tentou acalmá-lo Elara.
Baruk nem esperou a resposta; deu o primeiro passo em direção ao breu do corredor amplo. Ness engoliu em seco e o seguiu, agarrando a barra das vestes.
— Tá, né… — falou Ness, olhando para a vasta escuridão da passagem.
Os quatro seguiram pelo corredor, afastando-se da sala onde preparavam a poção. Arthurn agarrava firme as vestes de Nessaldom, enquanto Baruk ia à frente. Elara mantinha-se atenta na retaguarda.
— Eu não estou vendo nada! — exclamou Arthurn, no instante em que tropeçou num degrau.
— Ué, como assim? — perguntou Baruk. — Eu sei que está escuro, mas…
— Ai… — gritou Ness, ao sentir um pisão no pé.
— Ah, desculpa! — disse Arthurn, envergonhado.
— Ele não consegue ver literalmente nada! — explicou Elara. Ela se virou para o pequeno garoto loiro, mas Arthurn não retribuiu o olhar, completamente perdido no breu.
A elfa refletiu um pouco até chegar à conclusão de que Arthurn era um humano e, por isso, deveria ter uma dificuldade a mais em enxergar onde não houvesse qualquer fonte de luz, ao contrário dos demais.
— O que a gente faz? — perguntou Ness, olhando para os amigos.
— Eu posso tentar… — Elara fechou os olhos e deixou sua aura mágica fluir pelo corpo, concentrando-se no calor, tentando controlar a chama. Da ponta de seus dedos, uma pequena luz surgiu, iluminando o entorno com um brilho suave.
— Oh, que legal! — Arthurn e Ness falaram ao mesmo tempo, deixando Elara um pouco encabulada, mas também confiante.
Infelizmente, a chama não durou muito. Com um estampido, ela se descontrolou e, como uma flecha, voou da mão da elfa, acertando uma das paredes da passagem. Arthurn deu um salto com o susto do impacto das chamas.
— Hahahaha! Não é só o cabeçudo que não controla bem a magia! — Baruk tirou sarro, deixando Elara com cara de paisagem.
Foi então que todos perceberam algo curioso: mesmo após a chama se apagar, o corredor permaneceu iluminado por mais alguns instantes. A fonte de luz agora parecia vir da cabeça loira do pequeno Arthurn, que, como um vagalume em chamas, tornou-se um abajur mágico, graças a panela na cabeça.
— O que foi?! — perguntou o garoto, vendo os olhares dos amigos voltados para ele. Mas, como se fosse mágica, a luz sumiu de repente, mergulhando-os novamente no escuro.
— Como fez isso, Art? — perguntou Nessaldom, empolgada. — Queria que minha cabeça brilhasse também!
— O quê? — O garoto ficou confuso, tateando o ar ao seu redor, voltando a não enxergar nada.
— Aqui, garoto. — Elara segurou sua mão com delicadeza. — Você consegue usar magia, só não sabe como ainda.
— Deixa eu tentar uma coisa — disse Baruk.
— Baruk, espera aí… — tentou alertar Elara, já prevendo uma idiotice.
Mas era tarde demais. O orc passou correndo para o lado de Arthurn e gritou:
— O MONSTRO VAI TE PEGAR!
Arthurn gritou em pânico, Ness se agachou colocando as mãos sobre a cabeça, e Elara lançou um olhar fulminante para Baruk, que se contorcia de tanto rir.
— Seu idiota… — Elara começou a falar, mas parou ao ver o garoto loiro brilhar novamente, sua cabeça iluminando o corredor como antes.
— Viu como deu certo? — exclamou Baruk, vitorioso.
— Você só deu sorte! — rebateu Elara, bufando.
— Ah… cadê o monstro? — perguntou Arthurn, ainda ofegante.
— Não tem monstro, Art — tranquilizou Ness, se levantando e olhando encantada para a cabeça brilhante do garoto. — Como você faz isso? Me ensina!
— Eu não sei — respondeu ele, girando o pescoço de um lado para o outro, surpreso ao perceber que a luz vinha mesmo de si. A luminosidade começou a piscar, como um vagalume.
— Ei, foco, garoto! Se concentra! Se essa luz apagar, o monstro pode mesmo vir atrás da gente, entendeu? — Baruk falou sério, quase como um comandante militar.
— Tá… tá bom — hesitou Arthurn, mas fechou os olhos e tentou se concentrar, até estabilizar a luz.
— Se algo de ruim acontecer, eu vou te matar, Baruk — resmungou Elara.
Ness não se conteve e cutucou a cabeça de Art com o dedo indicador.
— Hahaha. Que legal! — disse Ness empolgada, enquanto sentia a aura vermelha se deformar conforme a tocava.
— Problema resolvido, não? — disse Baruk, voltando-se para o caminho à frente. — Vamos em frente.
Os quatro seguiram pela passagem estreita, usando a cabeça de Arthurn em chamas para guiarem-se com mais precisão pelo caminho. Felizmente, não precisaram de muito, pois a passagem só tinha uma direção. Após alguns minutos, finalmente chegaram a uma imensa porta de metal cravada na pedra.
— O quanto a gente andou? — perguntou Ness, olhando ao redor, sentindo os joelhos doerem. — Já estamos bem fora do casarão, certo?
— Finalmente chegamos a algum lugar — resmungou Baruk, aliviado, apoiando o bastão improvisado no chão.
— Pessoal, olhem isso aqui — chamou Elara, apontando para uma placa de pedra escura presa no batente da porta. Estava coberta por uma leve camada de poeira.
— Bem… eu não sei ler! — disse Baruk com um sorriso forçado, encarando as elfas.
Ness se colocou na ponta dos pés e estreitou os olhos para decifrar as palavras entalhadas.
— Se eu entendi bem... — murmurou, traçando as letras com o dedo. — “Aqui jaz o legado da família Darkmore”...
No mesmo instante, a porta emitiu um estalo seco, seguido por um rangido profundo. Lentamente, começou a se abrir sozinha, revelando a escuridão além.
Os quatro se entreolharam em silêncio, o coração acelerado, a tensão subindo.