Adrien estava morto.
Essa era a única verdade que restava, fria e inescapável. Mas como isso era possível?
Por que isso aconteceu agora, quando tudo estava indo tão bem? Adrien tinha a vida com que muitos sonhavam. Depois de anos se esforçando para entrar na faculdade, ele finalmente havia conseguido. E mesmo que suas notas não fossem as melhores, ele era o tipo de cara que fazia tudo parecer fácil.
Ele era popular, o mais popular. Todos gostavam dele. Não importava se era um colega de classe, um professor ou alguém que ele encontrava casualmente pelo campus, Adrien sempre deixava sua marca. Ele era o tipo de pessoa que você queria por perto, o tipo que todos queriam ser.
Além disso, ele tinha amigos que o admiravam, dominava os treinos como se fosse natural, e, como a cereja no bolo, estava namorando Laura, uma garota incrível que ele considerava o amor da sua vida. Para Adrien, ela era mais do que uma namorada; ela era o futuro. Ele até sonhava em se casar com ela um dia, embora ainda não tivesse decidido quando.
É verdade que ele ainda não sabia exatamente o que queria fazer da vida. Estava cursando economia, mas a ideia de passar a vida inteira atrás de uma mesa não o atraía. Ele sabia, no entanto, que isso não importava. Adrien sempre teve a confiança — ou talvez a arrogância — de acreditar que, qualquer que fosse o caminho escolhido, ele seria bem-sucedido. Ele era esse tipo de pessoa.
E agora… tudo simplesmente acabou.
Não houve despedida, nem aviso. Em um instante, ele era Adrien, vivo, brilhante, cheio de planos. No instante seguinte, ele era apenas uma memória. Um eco. Um vazio que ele mesmo não conseguia compreender.
Como algo assim podia acontecer tão de repente?
Enquanto seu último pensamento se dissipava, Adrien percebeu algo ainda mais perturbador: não havia escuridão, tampouco silêncio. Algo estava além desse fim — algo que ele jamais poderia imaginar.
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*‘Que merda tá acontecendo aqui?’*
Adrien não era mais ele. Ele não podia sentir o próprio corpo — na verdade, ele não podia sentir absolutamente nada. Mas, de alguma forma, ele também não estava morto. Não exatamente. Não que ele já tivesse morrido antes pra comparar, claro. Ainda assim, ele estava consciente. Ele sabia, de algum modo, que sua existência persistia. Ele estava ali. Onde quer que “ali” fosse.
*“Será que isso é o Céu? É… bem diferente do que eu esperava.”*
Adrien nunca foi particularmente religioso. Ele nunca soube no que acreditar e, para ser honesto, nunca se importou muito com essas coisas. Sua filosofia sempre foi simples: viver o agora e deixar o amanhã para depois. Afinal, não era como se ele fosse morrer amanhã, certo?
Certo. Afinal ele morreu hoje.
O “ali” onde ele se encontrava era um lugar que desafiava toda lógica. Ao redor, nebulosas dançavam em um vazio infinito. As cores que via eram surreais — algumas reconhecíveis, outras que pareciam desafiadoras à própria noção do que é visível. Pareciam gases flutuantes, sem forma fixa, movendo-se como se obedecessem a uma melodia invisível.
Mas o estranho é que não se moviam ao acaso. Não, elas giravam em torno dele.
Foi então que Adrien ouviu. Ouviu, mesmo sem ter ouvidos. O som era impossível de descrever — como uma sinfonia feita de notas que nunca existiram, mas que soavam perfeitamente conectadas. Cada som era único, caótico e, ao mesmo tempo, ordenado, como uma harmonia impossível. Era como se a melodia massageasse algo profundo dentro dele — sua alma, talvez. Isso, é claro, se ele ainda tivesse uma alma.
Mas então, algo ainda mais impressionante se revelou.
Uma luz ofuscante surgiu. Não era uma luz comum, mas algo que irradiava uma força que contrastava com as cores ao seu redor sem apagá-las. E no centro dessa luz estavam as “cordas”. Cordas brancas, entrelaçadas em uma complexidade infinita, como se estivessem conectadas desde o início dos tempos. Eram incontáveis, ligando tudo no lugar: as nebulosas, o vazio, talvez até mesmo ele.
Era bonito, mas de uma forma perturbadora.
Quanto mais Adrien olhava, mais o encanto se transformava em agonia. Ele não tinha uma cabeça, mas a dor que sentia era como uma pressão esmagadora que reverberava por todo o seu ser. Era como se seu próprio ser estivesse sendo dilacerado, corroído por algo maior do que ele poderia suportar.
A verdade se tornou clara. Ele não deveria estar vendo aquilo. Nenhum homem deveria. Aquilo não era algo que uma mente humana fosse capaz de compreender sem ser destruída.
Mas, por algum motivo, ele estava vendo. E se continuasse por muito mais tempo, isso certamente o aniquilaria.
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Com todo o seu ser, Adrien sentia como se estivesse sendo despedaçado. A dor era indescritível, um tormento que não parecia atingir algo físico, mas sim o que restava de sua essência, de sua alma. Era uma agonia que não permitia gritos ou súplicas, apenas um desespero silencioso que o consumia por completo. Ele não sabia mais quem era, onde estava ou por que aquilo estava acontecendo. Tudo o que existia era dor.
E então, algo mudou.
As luzes ao seu redor, aquelas nebulosas dançantes, começaram a se mover em direção a ele. Elas se envolveram lentamente ao redor de seu ser fragmentado, como se estivessem tentando acolhê-lo, protegê-lo do sofrimento que o corroía. Adrien não sabia se aquilo era um gesto de compaixão ou um ritual cósmico indiferente à sua existência, mas a dor, embora ainda presente, começou a se transformar.
As luzes penetraram em cada parte do que ele era, tecendo sua essência com uma delicadeza que ele não podia compreender. Era como se sua alma estivesse sendo reconstruída, fio por fio, por mãos invisíveis. Ao mesmo tempo, ele sentia algo mudar em seu entorno. As cores e formas que antes pareciam infinitas começaram a se curvar em torno de um único ponto — uma das cordas brilhantes que pareciam sustentar todo aquele lugar.
Adrien não teve tempo de reagir. Em um instante, ele foi puxado.
Seu ser foi arremessado para dentro da corda, como se fosse engolido por ela. Ele não tinha corpo, mas a sensação era de estar sendo comprimido, esticado e despedaçado ao mesmo tempo. A corda parecia infinita, um túnel de luzes pulsantes que se torciam e giravam em padrões impossíveis. Era uma viagem que não seguia as leis do tempo ou espaço, onde cada segundo parecia uma eternidade e cada eternidade durava apenas um piscar de olhos.
A dor voltou com uma intensidade ainda maior. Era como se cada fragmento de sua existência estivesse sendo rasgado, diluído e depois forjado novamente. Adrien queria gritar, mas não havia boca, não havia voz, apenas a sensação de ser remodelado por algo muito além de sua compreensão.
Mas então, a dor começou a se dissipar.
O que substituiu aquele tormento foi um vazio completo. Adrien não sentia mais nada — nem dor, nem medo, nem angústia. Havia apenas um silêncio profundo e absoluto. E nesse vazio, ele encontrou algo que nunca havia experimentado em sua vida: paz. Uma paz tão completa que parecia transcender qualquer emoção ou pensamento.
E, de repente, ele sentiu.
Algo tocou sua pele. Ele tinha pele. A ausência deu lugar a um calor suave, reconfortante, e a escuridão cedeu à luz. Adrien abriu os olhos lentamente.
Ele estava em uma sala rústica, iluminada por uma luz quente que atravessava uma janela pequena de vidro embaçado. O ambiente era simples, com paredes de madeira desgastada e móveis toscamente esculpidos. Mas o que chamou sua atenção foi a sensação em seus braços, em seu rosto, em todo o seu corpo. Ele era pequeno, vulnerável… como um bebê.
Ele estava no colo de alguém. Uma mulher.
Ela o segurava com cuidado, um sorriso suave em seus lábios. Seu rosto era jovem, mas marcado pelo cansaço e pela ternura. Seus olhos, de um tom castanho profundo, observavam Adrien como se ele fosse a coisa mais preciosa do mundo.
Adrien tentou falar, mas tudo o que saiu foi um som fraco e desconexo. Ele não entendia o que ela dizia, mas sua voz era gentil, quase melódica. Era um idioma desconhecido, mas carregava um conforto estranho, como se dissesse: *“Você está seguro agora.”*
E foi ali, naquele instante, que Adrien percebeu. Ele havia renascido.
Mas onde?