Adrien estava deitado em seu pequeno berço, as mãos gordinhas apoiadas na borda enquanto observava as sombras se projetarem no teto de madeira.
Apesar do silêncio que dominava a casa naquela noite, sua mente estava tudo menos tranquila.
Já fazia alguns dias desde que renasceu naquele mundo estranho, e, apesar de todas as evidências, ele ainda não conseguia aceitar completamente a realidade em que estava preso.
‘Isso não pode ser real. Não pode.’
Ele tentou se convencer, como se repetir aquilo várias vezes fosse suficiente para anular o que estava diante de seus olhos. As três luas brilhando no céu, a língua que ele não entendia, as figuras exóticas que o cercavam… tudo era um lembrete constante de que não estava mais na Terra.
‘Ok, Adrien, vamos pensar logicamente. Talvez eu esteja sonhando. Tipo, num sonho muito longo e muito estranho.’
Mas ele sabia que não era verdade. Era tudo real. As texturas, os sons, até mesmo o cheiro do ambiente eram vívidos demais para serem imaginados. Ele fechou os olhos, tentando afastar o pensamento.
‘Talvez… talvez seja algum tipo de realidade alternativa? Tipo uma simulação? Ou… não. Não faz sentido. Nada disso faz sentido.’
Ele queria acreditar que, de alguma forma, havia uma explicação lógica para tudo aquilo. Mas não havia.
‘Que diabos são aquelas luas, afinal? Por que tem três? E onde, pelo amor de Deus, eu estou?’ Adrien suspirou internamente.
Era frustrante. Ele sempre foi uma pessoa pragmática, alguém que gostava de respostas concretas. Mas agora, tudo o que tinha eram perguntas e nenhuma pista de como respondê-las.
Enquanto os dias passavam, Adrien continuava tentando entender sua nova realidade. Ele observava a casa, as pessoas ao seu redor, tentando encontrar alguma coisa — qualquer coisa — que pudesse lhe dar uma pista de onde estava.
Até agora, tudo o que havia conseguido era um monte de especulações e nenhuma certeza.
Mas naquele dia, algo diferente aconteceu. Algo que mudaria completamente sua percepção daquele mundo.
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Naquela manhã, sua mãe o pegou no colo pela primeira vez em dias e, para sua surpresa, abriu a porta da frente. Adrien ficou paralisado por um momento, seus olhos arregalados enquanto a luz do sol invadia o ambiente e iluminava tudo ao seu redor.
Ele nunca havia saído de casa antes. Aquela era sua primeira vez vendo o mundo exterior, e ele não conseguia esconder a excitação que o dominava.
‘Finalmente! Eu achei que ia apodrecer naquele berço!’
A visão que o esperava do lado de fora era deslumbrante. Campos verdes se estendiam por todos os lados, pontilhados por árvores altas e robustas. O som do vento soprando entre as folhas criava uma melodia suave, misturada com os trinados de pássaros que voavam pelo céu.
‘Isso… isso é incrível!’ Adrien quase não conseguia acreditar no que estava vendo.
No colo da mãe, ele foi levado até o que parecia ser uma pequena cidade. A vila era simples, com casas feitas de madeira e pedra, e estradas de terra que cortavam o centro. Mas o que realmente chamou sua atenção foi a feira no meio da cidade.
Barracas de todos os tipos estavam espalhadas, com pessoas conversando, negociando e rindo. Crianças corriam entre as barracas, carregando frutas ou pequenos brinquedos de madeira. O cheiro de especiarias e comida fresca preenchia o ar, fazendo Adrien perceber o quanto estava com fome.
‘Ok, isso aqui é bem mais interessante do que a minha casa.’
Enquanto sua mãe o carregava de um lado para o outro, ele não conseguia parar de observar tudo ao seu redor. Havia frutas que ele nunca tinha visto antes, com cores tão vibrantes que pareciam brilhar. Uma em especial chamou sua atenção — uma fruta azul com espinhos dourados, que parecia pulsar levemente, como se estivesse viva.
‘Isso é uma fruta ou algum tipo de alienígena?’
Ele também notou objetos curiosos espalhados pelas barracas. Ferramentas que pareciam ter saído de um filme de ficção científica, joias que mudavam de cor dependendo da luz, e até mesmo pequenos frascos com líquidos brilhantes que as pessoas seguravam com cuidado, como se fossem preciosos.
Enquanto exploravam a feira, Adrien começou a se perguntar mais uma vez onde exatamente ele estava. Nada daquilo era familiar. Nem as pessoas, nem os objetos, nem mesmo o ambiente. Tudo era diferente.
Foi então que algo chamou sua atenção. No meio da multidão, havia uma jovem cercada por um pequeno grupo de pessoas. Adrien estreitou os olhos, tentando entender o que estava acontecendo.
No início, ele achou que era apenas uma artista de rua, talvez fazendo malabarismos ou algum truque com cartas. Mas, quando sua mãe se aproximou, ele percebeu que era algo muito mais impressionante.
A jovem estava segurando uma chama em suas mãos. Não uma chama comum, mas algo que parecia estar vivo. Ela a manipulava com facilidade, criando formas no ar. Primeiro, um círculo perfeito, depois a silhueta de um pássaro, e então uma espécie de flor flamejante que parecia desabrochar diante dos olhos do público.
Adrien ficou boquiaberto.
‘O que… isso é magia? Não, espera. Deve ser algum truque. Tipo, pirotecnia ou algo assim…’
Mas, enquanto ele observava, ficou claro que não havia truques. A jovem estava controlando o fogo de uma forma que desafiava todas as leis da física que ele conhecia.
‘Isso é real. Isso é magia de verdade.’
Uma onda de entusiasmo percorreu seu corpo. Até então, ele achava que estava preso em um mundo primitivo e sem graça. Mas agora, tudo mudou. A possibilidade de magia abria um leque infinito de possibilidades.
*‘Ok, Adrien. Você está oficialmente em um mundo fantástico. E, sinceramente, isso é incrível!!!’*
Enquanto sua mãe se afastava da apresentação, Adrien continuava olhando para trás, tentando gravar cada detalhe. Ele sabia que aquela era apenas a ponta do iceberg. Se magia era real, quem sabia o que mais esse mundo guardava?
E pela primeira vez desde que renasceu, Adrien sentiu que estava ansioso pelo que o futuro reservava.