CAPITULO 2
ASERPENTE QUE TOCOU O SOL
Os javalis gigantes mantiveram um galope incansável por quase meia hora, rasgando a vegetação até que o ar perdesse completamente o gosto de ferro e a fumaça arroxeada do Necrovapor ficasse para trás.
Gradualmente, as árvores ao redor tornaram-se mais densas, vibrando com uma energia sutil e limpa. O Bosque da Lua Nova ainda estava seguro.
Bituca soltou um assobio baixo e os três animais desaceleraram, parando em uma clareira escondida por cortinas de trepadeiras bioluminosas.
Com um bufo flamejante, os javalis começaram a se desmanchar em brasas espirituais e cinzas que sumiram no musgo.

— Chão firme! Graças a Tykka¹ — Aluara deslizou do animal antes que ele sumisse por completo, aterrissando com leveza. Ela deu tapinhas nas botas e ajeitou a saia, antes de olhar para Pyros, que desabou de joelhos no chão, respirando pesadamente.
A armadura dourada do paladino estava opaca, manchada de fuligem negra onde o golpe do Perseguidor da Ferrugem havia atingido. De uma das frestas do metal na altura da costela, um filete de sangue escorria.
— Ei, enlatado, não vai morrer na nossa horta depois de todo o trabalho que deu para te tirar de lá — Aluara se aproximou com passos rápidos, ajoelhando-se ao lado dele. Suas mãos, ainda protegidas pelas luvas, moveram-se com precisão de ladina.
Com dedos ágeis, ela começou a afrouxar uma das fivelas laterais da couraça dourada.
— Deixa eu ver isso... e, caramba, esse ouro é legítimo? Que liga de metal incrível... será que essa ombreira sai fácil?
— Aluara! — Bituca esbravejou, aproximando-se com passos pesados. Ele bateu a coronha da espingarda no chão e cruzou os braços, ranzinza. — O sujeito tá sangrando e você já tá tentando desmantelar o cara pra vender as peças?
— Eu estou ajudando! E avaliando as mercadorias ao mesmo tempo, otimização de tempo, Bituca — ela rebateu com um sorriso, embora seus olhos âmbar mostrassem genuína preocupação enquanto limpava o sangue da armadura com um pano limpo que tirou da algibeira.
— Deixem... as peças... no lugar — a voz de Pyros saiu abafada de dentro do elmo em forma de cabeça de serpente. Com um esforço visível, ele levou as mãos até a base do capacete e o removeu com um som metálico pesado.

O rosto revelado era imponente, com traços marcantes e a pele num tom bronzeado aquecido, mas empalidecido pela dor. Seus olhos tinham um brilho quente, quase como fogueiras distantes. Ele respirou o ar puro do bosque, expelindo uma última lufada gasosa de Necrovapor que havia inalado.
— Agradeço o resgate, protetores — disse Pyros, a seriedade em sua voz intocada, mesmo estando ferido. Ele olhou para a ferida na costela, que começava a chiar levemente sob um brilho dourado e curativo, fruto de sua energia de paladino. — Mas o Perseguidor da Ferrugem não vai parar. Ele é o batedor do Grande Arquivista. O fato de ele ter cruzado a fronteira significa que a fábrica está expandindo seus limites. E eles vieram atrás disto.
Pyros levou a mão a uma bolsa reforçada presa ao seu cinto, intocada pela batalha. Ele a abriu com cuidado, revelando um brilho metálico diferente...
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Enquanto o calor curativo e o ar puro do Bosque da Lua Nova acolhiam os protetores, a realidade a poucos quilômetros dali era feita de ferrugem, engrenagens estalando e o cheiro sufocante de óleo queimado.
Desta vez, a nossa lente se afasta de Aluara e Bituca para espiar as entranhas da fortaleza industrial do inimigo.
O som dos passos pesados e mecânicos do Perseguidor da Ferrugem ecoava pelas passarelas de ferro fundido da Grande Forja. Ao redor dele, centenas de escravos zumbis operavam maquinários colossais, movendo pistões que cospem fuligem cinzenta contra o teto abobadado. O ambiente era perenemente iluminado pelo brilho doentio das tubulações de Necrovapor roxo que cruzavam as paredes como veias em um monstro de metal.
O Perseguidor avançou até a câmara central, onde a fumaça era tão densa que quase ocultava a silhueta maciça que o esperava.
Diante dele, de costas, observando um gigantesco mapa tático de Arton holográfico movido a engrenagens, estava o General do Grande Arquivista.

O General era uma presença aterrorizante: um autômato de guerra de quase três metros de altura, cuja armadura de placas pretas e rebites de bronze parecia absorver a pouca luz do lugar. Uma capa de couro rasgada e pesada de graxa caía de seus ombros falsos.
O Perseguidor da Ferrugem ajoelhou-se, o metal de suas juntas rangendo. Os tubos em suas costas liberaram uma lufada ruidosa de Necrovapor em sinal de submissão.
— O... ALVO... ESCAPOU, GENERAL — a voz distorcida do Perseguidor ecoou pelo salão. — INTERVENÇÃO... DOS NATIVOS. UMA CAIPORA... E UM KURAPI. MAGIA DA FLORESTA E ELETRICIDADE.
O General não se virou imediatamente. Ele ergueu uma de suas mãos — uma garra hidráulica de quatro dedos denteados — e girou uma válvula em seu próprio peito, fazendo um chiado agudo de pressão estabilizar seu núcleo de energia. Quando ele finalmente se virou, os três sensores ópticos em seu rosto de ferro brilharam em um vermelho escarlate gélido.
— Interferência biológica... — a voz do General era uma vibração profunda, metálica e perfeitamente calculada, desprovida de qualquer emoção humana. — O Bosque da Lua Nova é uma anomalia que atrasa o progresso da Fábrica. A matéria orgânica daquela floresta deve ser processada e convertida em combustível.
Ele deu um passo à frente, os pistões de suas pernas emitindo um estalo seco.
— Pyros carrega o Núcleo de Ignição Cósmica. O Grande Arquivista necessita daquela peça para estabilizar a caldeira principal e expandir a Ferrugem da Alma por todo o reinado. Se o paladino dourado se aliou aos selvagens do bosque, eles apenas adiaram o inevitável.
O General estendeu a garra de ferro em direção ao Perseguidor, liberando uma pequena centelha de Necrovapor escuro que reativou as placas de matéria vermelha na armadura do cavaleiro negro, curando os danos causados pelo trabuco de Bituca.
— Leve os Rompe-Matas. Mobilize a infantaria pesada de necrovapor. Se a floresta resistir... queime a alma dela até que reste apenas cinza e ferrugem. Quero o paladino e quero o Núcleo. Rachem aquele bosque ao meio.
— SERÁ... FEITO... GENERAL — o Perseguidor da Ferrugem ergueu-se, os olhos de energia escura brilhando com renovada sede de destruição.
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De volta à segurança efêmera da clareira oculta, a luz bioluminosa das trepadeiras refletiu-se no objeto que Pyros retirou com extremo cuidado de sua algibeira reforçada.
Não era ouro, nem bronze vulgar.

O Núcleo de Ignição Cósmica era uma esfera do tamanho de um punho, feita de um metal prateado desconhecido que parecia conter poeira estelar aprisionada. Engrenagens minuciosas e anéis orbitais giravam ao redor do núcleo sem que nenhuma corda ou mola os movesse, flutuando em um magnetismo perfeito. No centro da esfera, uma chama pura, de um azul celestial e constante, pulsava como o coração de uma estrela nascente.
Aluara deu um passo à frente, os goggles esquecidos na testa enquanto seus olhos âmbar se arregalavam de puro fascínio técnico e mágico. As bobinas em suas luvas de couro emitiram um estalo suave, quase como se estivessem sussurrando em resposta à energia pura do artefato.
— Pelos deuses... — murmurou a Caipora, estendendo os dedos enluvados, mas parando a centímetros do brilho prateado. — Eu nunca vi uma mecânica tão refinada. Isso não foi feito em nenhuma forja dos Anões ou do REINO. A energia disso é... limpa. É o oposto daquela fuligem.
— É a última esperança de conter a expansão daquela monstruosidade industrial — explicou Pyros, fechando a bolsa lentamente, fazendo a clareira voltar à sua penumbra mística original. — O Grande Arquivista precisa deste Núcleo para alimentar a Caldeira Principal de sua megafábrica. Se ele conseguir este fogo cósmico, a Ferrugem da alma não será mais uma infecção lenta; ela se espalhará pelos céus de ---- como uma tempestade de Necrovapor, sufocando reinos inteiros em questão de dias.
Bituca soltou um suspiro pesado, cruzando os braços musculosos sobre o peito. Ele olhou de esguelha para a floresta ao redor, os pés remexendo o musgo com nervosismo.
— Então aquela abominação de lata preta que quase nos partiu ao meio veio atrás disso — disse o Kurapi, a voz mais baixa e séria, sem a rabugice de antes. — Quem diabos era aquele monstro, paladino? Ele falou seu nome. Ele conhecia você.
Pyros baixou os olhos, o peso de uma culpa antiga moldando as linhas de seu rosto bronzeado. Ele acariciou o elmo em forma de cabeça de serpente que repousava ao seu lado, encarando as fendas vazias do metal.
— O verdadeiro nome dele é Kirion — revelou Pyros, e o nome pareceu amargar em sua boca. — Antes de se tornar o Perseguidor da Ferrugem, ele foi um paladino honrado da nossa ordem. Um irmão de armas. Nós juramos proteger as fronteiras do mundo contra a corrupção e a heresia. Kirion tinha o coração mais puro e a lâmina mais implacável que já vi.
— O que aconteceu com ele? — Aluara perguntou suavemente, sentando-se em uma raiz próxima, abraçando os próprios joelhos cobertos pelas meias listradas. — Como alguém assim vira aquilo?
— A arrogância e o desespero — Pyros suspirou. — Anos atrás, nossa unidade foi cercada pelas primeiras hordas de zumbis de Necrovapor nas fronteiras industriais. Estávamos perdendo. Kirion, em sua busca cega por salvar nossos homens e provar que sua fé era inabalável, tentou purificar uma fonte concentrada de Necrovapor usando apenas sua força de vontade. Ele achou que sua alma era forte demais para enferrujar.
O paladino Boitatá fez uma pausa, o brilho de fogo em seus olhos vacilando por um instante.
— Ele estava errado. A infecção começou sutil, como um gosto de metal na boca, exatamente como as lendas dizem. Em vez de buscar cura ou se isolar, Kirion escondeu os sintomas. Ele acreditava que era uma provação divina. Quando a ferrugem alcançou seu coração, o Grande Arquivista sussurrou em sua mente. Prometeu a ele uma "ordem perfeita", um mundo sem a fraqueza da carne e sem a dor da dúvida. Kirion cedeu voluntariamente. Permitiu que perfurassem sua espinha com tubos de bronze para bombear Necrovapor diretamente em sua alma, trocando sua fé pela magia das trevas.
— Ele trocou o próprio sangue por graxa e Necrovapor... — Bituca cuspiu no chão, misturando nojo com uma pitada de piedade. — Um guerreiro que se entrega para a fábrica é pior do que um zumbi comum. Ele sabe exatamente o que está fazendo.
— Sim — Pyros assentiu, erguendo-se com dificuldade, a ferida em sua costela finalmente fechada pelo calor sagrado, embora a couraça dourada continuasse danificada. — Kirion morreu. O que resta ali é o Perseguidor da Ferrugem, uma extensão da vontade cruel do Arquivista. E agora que ele sabe que o Núcleo está aqui, ele trará o exército da Fábrica para dentro do Bosque da Lua Nova.
Aluara levantou-se em um salto ágil, as fivelas de suas botas tinindo. Ela ajustou os goggles na testa e olhou para Bituca, depois para Pyros, um sorriso ladino e desafiador retornando aos seus lábios.
— Bem... se o General de Lata e o seu amigo enferrujado querem uma guerra na nossa horta, acho bom a gente começar a ditar as regras do jogo.
Aluara estalou os dedos das luvas, fazendo uma pequena faísca azul saltar entre as bobinas e iluminar seu sorriso confiante.
— Antes de transformarmos o bosque em um lixão de engrenagens, nós temos que fazer uma parada estratégica — disse a Caipora, ajustando a alça de seu corselete com uma piscadela para Pyros. — Conheço o sujeito ideal para nos dar a vantagem que precisamos. O nome dele é Elias.
— Elias? Aquele humano esquisito que mora na carcaça de ferro? — Bituca resmungou de imediato, limpando o cano da espingarda rúnica com um estalo irritado. — Aquele homem cheira a graxa e óleo de rícino, guria. O que ele tem de útil além de tralha acumulada?
— Ele é um inventor, Bituca! Construtor, para falar a verdade — Aluara corrigiu, defendendo o amigo com entusiasmo. Ela começou a caminhar em direção a uma trilha oculta por folhas largas, fazendo a cauda de sua saia ondular atrás de si. — Elias pode criar praticamente qualquer coisa do zero com um punhado de sucata. E o melhor de tudo: não existe uma única explosão, folha caída ou engrenagem girando neste bosque, ou em um raio de quilômetros ao redor, que ele não saiba exatamente o que está acontecendo. Se o exército do Arquivista estiver marchando, o Elias já colocou os sensores dele para rastrear.
Pyros recolheu seu elmo de serpente, segurando-o sob o braço enquanto sua armadura dourada ainda emitia um calor suave, embora desgastada pelo Necrovapor.
— Um inventor que conhece o terreno e monitora os movimentos do inimigo é um recurso valioso — o paladino Boitatá ponderou, a voz grave e séria aceitando a sugestão da ladina. — Se a Fábrica está se mobilizando, precisamos de olhos no horizonte. Leve-nos até esse Elias, Aluara.
— É por aqui! Tentem não pisar nas armadilhas de mola dele no caminho — Aluara riu, saltando levemente sobre um tronco caído com suas botas de fivela, guiando os dois guerreiros mais profundamente para o interior do Bosque da Lua Nova, em direção ao misterioso refúgio do construtor.
¹Tykka - Deusa da sorte e das trapaças