O ar cheirava a metal quente, óleo lubrificante e a satisfação contida de um trabalho bem-feito. Para Agnes, aquele era o melhor perfume do mundo. Era o cheiro do progresso, da lógica tomando forma, de linhas desenhadas em uma tela de CAD se erguendo em toneladas de aço polido e pneumática sibilante. Aos vinte e quatro anos, recém-formada em Engenharia de Produção, ela já era a projetista-chefe da nova linha de montagem de uma companhia de montagem automotivo. Era seu bebê, uma sinfonia de esteiras, braços robóticos e prensas hidráulicas que ela havia regido pixel por pixel.
O barulho era uma muralha. Um rugido constante e ensurdecedor de motores, o chiado de soldas e o baque rítmico das máquinas de teste que tornava qualquer conversa em algo abaixo de um grito uma tarefa inútil. Agnes não se importava. Ela se comunicava melhor com a prancheta digital em suas mãos, os dedos deslizando pela tela, verificando os diagnósticos e comparando os ciclos por minuto com suas projeções. Tudo estava dentro da margem de 0.5% de eficiência. Perfeito.
Ela caminhava pela passarela de metal gradeado, suas botas de segurança batendo em um contraponto metálico ao caos abaixo. Seus olhos, protegidos por óculos de segurança, examinavam cada junta, cada cabo, cada movimento. O orgulho inflava seu peito. Era real. Aquela estrutura colossal, que transformaria chapas de metal em componentes automotivos em menos de doze minutos, havia nascido em sua mente.
Seu foco parou em uma máquina em particular, no final da linha. A Unidade de Recuperação de Material S-17. Um nome corporativo estéril para algo brutalmente simples: um triturador industrial. Era uma caixa imensa de aço reforçado, com uma boca de alimentação de três metros de largura que se afunilava para um conjunto de rotores de titânio. Agnes havia projetado o sistema de alimentação e os sensores de segurança, mas a máquina em si era um monstro padrão de mercado. Capaz de transformar um carro inteiro em confete metálico em menos de um minuto.
Agora, eles estavam no meio de um teste de estresse, alimentando-a com refugo de metal para testar o torque e a durabilidade das lâminas. O rugido que vinha dela era mais baixo, um rosnado gutural que vibrava através da sola de suas botas.
"Tudo certo aí, chefa?" A voz de um dos operadores, Jonas, gritou em seu ouvido, o som mal passando pelo barulho.
Agnes acenou com a cabeça, um sorriso profissional no rosto. "Dentro dos parâmetros, Jonas. Mantenham o fluxo constante por mais quinze minutos e podemos encerrar o teste."
Ela se inclinou sobre a grade de segurança, observando o metal retorcido ser mastigado sem esforço. Fascinante, de uma forma terrível. Uma demonstração de força bruta e engenharia implacável.
Foi quando a briga começou.
Foi por um motivo tão estúpido, tão trivial, que Agnes mal registrou o início. Dois dos trabalhadores da equipe de montagem, homens corpulentos cujos nomes ela mal se lembrava, começaram a discutir. As palavras eram ininteligíveis no meio do barulho, mas os gestos eram universais. Um dedo apontado, um peito estufado.
Pelo que ela pôde captar, tinha algo a ver com um time de futebol, ou talvez uma aposta perdida. Uma futilidade que não deveria ter lugar ali, no meio de máquinas que poderiam arrancar um braço sem sequer diminuir a velocidade.
Ela se virou, pronta para intervir, para gritar alguma ordem e lembrá-los de onde estavam. Profissionalismo acima de tudo. Abriu a boca para falar, mas as palavras nunca vieram.
Um dos homens empurrou o outro. Não com força, não com malícia real, mas com a frustração de uma discussão acalorada. O outro, pego de surpresa, tropeçou para trás, os braços se agitando para encontrar o equilíbrio. A mão dele bateu no ombro de Agnes.
Não foi um empurrão. Foi um toque, um desequilíbrio. Mas na beira da passarela, com o mundo vibrando ao seu redor, foi o suficiente.
Por um instante surreal, o tempo se esticou. A sensação de seu centro de gravidade se deslocando para além da grade de segurança. A prancheta digital escapando de seus dedos, caindo em um silêncio que não existia. O rosto surpreso dos dois trabalhadores, a raiva em seus olhos sendo subitamente substituída por um horror pálido. O rugido ensurdecedor da fábrica pareceu recuar, tornando-se um zumbido distante.
Ela estava caindo…
Seus olhos se fixaram na boca aberta da S-17 abaixo dela. Os rotores giravam, não como lâminas, mas como um borrão hipnótico de prata e sombra.
…Não havia grito…
...Não havia pânico…
Apenas uma aceitação fria e chocante.
Toda a sua lógica, todo o seu planejamento, toda a sua carreira promissora, seus dias de estudos, as festas que ela não foi, os namoros que ela evitou, tudo terminando por causa de um time de futebol. A ironia era tão esmagadora que poderia ter sido um tipo de piada cósmica.
O ar frio subiu ao seu encontro. Ela não sentiu o impacto. Em um último ato de autodefesa, sua mente simplesmente... se desligou. Ela fechou os olhos.
E então, nada. Um silêncio aveludado, frio e confortável.
Acabou.
Mas não acabou!
A consciência retornou não como uma luz suave, mas como uma dor lacerante como se tivesse acabado de ser… bem ela tecnicamente foi triturada então tal sensação faz todo o sentido.
A dor foi a primeira coisa a ir embora, mas foi a última a ser lembrada. O que veio agora foi um batismo de sensações que não eram suas. Primeiro, o cheiro. Enxofre e ozono, mas por baixo, um odor mais profundo, mais antigo... o cheiro de pó e decadência milenar. Como de um túmulo do tamanho do mundo.
Depois, o chão. Não era o metal frio e vibrante de uma fábrica. Era... nada. Uma textura fina e farinhenta sob um corpo que parecia estranhamente leve, estranhamente... errado e até doloroso.
Agnes — ou a entidade que agora possuía suas memórias — abriu os olhos.
O teto de metal e as luzes fluorescentes haviam sumido. Acima, um céu de nuvens escuras e turbulentas rolava em câmera lenta, iluminado por dentro com o brilho carmesim de uma fornalha moribunda. Relâmpagos silenciosos corriam entre as nuvens como veias, revelando por um instante a vastidão opressora daquele lugar. E o chão... o chão era um deserto infinito de cinzas pálidas.
Ela tentou se sentar. O movimento foi desajeitado, seus membros se recusando a obedecer da maneira que deveriam. Pareciam longos demais, finos demais, com articulações que estalavam de forma audível no silêncio pesado.
Com esforço, ela olhou para as próprias mãos. Eram esqueléticas, com dedos compridos e unhas que mais pareciam garras rachadas e amareladas. A pele era de um cinza doentio, esticada sobre ossos que pareciam frágeis como gravetos. Um diabrete. Pequeno, fraco, insignificante.
O grito finalmente chegou, mas não saiu de sua garganta. Foi um grito interno, um uivo de pura dissonância cognitiva que ricocheteou dentro de seu crânio. ‘Isso não é real. Isso não é meu corpo. Isso... Não, EU!’
Mas naquele momento, não importava a realidade. E não havia tempo para negação.
Um som cortou o silêncio. Um arrastar pesado, acompanhado por um clique rítmico, vindo de algum lugar à sua esquerda, escondido pela névoa baixa de cinzas. Instinto. Uma palavra que Agnes, a engenheira, usava em termos abstratos, mas que agora gritava em cada fibra de seu novo corpo. Esconda-se. Fuja. Agora.
Ela não questionou.
A lógica e o planejamento morreram com seu corpo humano. O que restou foi a necessidade primitiva de não deixar de existir novamente.
Rolou desajeitadamente para o lado, a poeira cinzenta subindo em uma nuvem sufocante, e se arrastou na direção da única estrutura visível naquele mar de nada: uma curva colossal de osso branco, meio enterrada na cinza, a costela de algo tão grande que a mente dela se recusava a compreender.
Agachada na sombra do osso, tremendo incontrolavelmente, ela olhou para a vastidão vazia. O choque, o terror, a perda... tudo teria que esperar. Aquele som estava se aproximando.
Era a primeira lição da sua nova, e talvez muito curta, existência.
Sobreviva primeiro. Pense depois.
(Fim do capítulo)