A tempestade passou tão sútil quanto o fim de um banho quente. O último pilar de luz líquida se desfez em névoa ao longe, e o céu retornou ao seu brilho carmesim constante e opressivo. O silêncio que se instalou era diferente do anterior; era um silêncio expectante como se a incerteza do fim estivesse aos poucos sendo substituída por uma sensação de retorno a normalidades, uma brutal e sanguinária normalidade, pesado com a promessa de atividade.
A chuva de energia havia regado o deserto, e agora os habitantes da seca viriam beber… é assim que a natureza funciona e Agnes já viu muitos documentários para saber o que acontece nesses momentos.
Agnes permaneceu em seu abrigo sob a curva do osso, o corpo ainda tremendo com a adrenalina que retornava aos músculos relaxados pelo calor do vapor dentro da carcaça. A água continuava a pingar das vinhas acima, um som rítmico e tranquilizador que era a única coisa boa naquele momento. Sua atenção, no entanto, estava nos insetos de carapaça óssea.
Eles haviam emergido novamente de suas tocas, mas seu comportamento era diferente. A agressão havia desaparecido, substituída por uma fome focada e tentativas desesperadas de chegar até a vegetação antes de seus semelhantes.
As folhas das videiras, antes enroladas em gavinhas compactas idênticas aos cipós prateados, agora se encontravam abertas e estendidas após absorver a energia dos raios como se estivesse ofegantes depois do árduo trabalho.
Os insetos se aglomeravam em torno delas, as mandíbulas serrilhadas trabalhando metodicamente para rasgar tecido vegetal escuro prateado e chegar até às nervuras das folhas e sugar a seiva brilhante e nutritiva.
Talvez seu interesse pelas plantas se deve à serem herbívoros ou talvez por sua presa recém capturada parecer um macaco desnutrido e sem pelos e que provavelmente tentaria fugir da armadilha. Por enquanto, Agnes, a presa, havia se tornado parte do cenário, ignorada em favor de uma colheita mais fácil, talvez até mais nutritiva.
Aquela era a sua chance.
O medo ainda estava lá, um nó frio em seu estômago, mas algo mais estava começando a tomar forma: um cálculo frio, a mente da engenheira se sobrepondo ao pânico do animal. Ela estava nua, fraca e exposta. E claramente não possíveis uma vantagem natural além de talvez, suas garras longas e afiadas, mas como uma pessoa prática ela sabia do que precisava.
Ferramentas, proteção e a análise do presente.
O ambiente, por mais mortal que fosse, era também uma caixa de recursos.
Seus olhos se fixaram nas vinhas prateadas. Eram grossas como o pulso de um homem e pareciam incrivelmente resistentes e fibrosos, útil para criar infinitas ferramentas desde os tempos antigos, considerando a energia que haviam acabado de canalizar. Suas unhas, antes curtas e bem cuidadas, agora eram garras longas e surpreendentemente duras. Um teste rápido em um pedaço solto de osso provou que elas podiam arranhar a superfície. Eram ferramentas naturais.
Com um cuidado infinito, movendo-se lentamente para não assustar os insetos absortos na sua devoração, ela se aproximou de uma seção da videira que pendia perto do chão. Agarrou-a com as duas mãos e puxou. A planta resistiu, fibrosa e teimosa.
Agnes grunhiu, colocando o peso de seu corpo magro no esforço. Com um som de rasgo, um longo pedaço de uns dois metros se soltou.
A vinha mais parecia um cabo grosso de metal com um cheiro estranho de raiz cozida e um interior verde brilhante ela trabalhou por quase uma hora, o cérebro focado na tarefa, as mãos doendo com o esforço. Usou as unhas e uma lasca afiada de osso para desfiar as fibras da vinha, torcendo-as e trançando-as. A memória muscular de um antigo hobby de acampamento, algo que ela não pensava há anos, veio à tona. O resultado foi uma corda rudimentar, mas forte. Sua primeira criação. Seu primeiro ato de domínio sobre aquele mundo.
Em seguida, as folhas. Eram largas e com textura de couro grosso porém elástico. Colhendo várias com cuidado para não perturbar os insetos, ela usou tiras mais finas da vinha para amarrá-las, criando uma espécie de túnica improvisada que cobria seu pequeno torso. Não era por pudor — essa era uma preocupação de um mundo morto —, mas por praticidade. Uma segunda pele, uma barreira contra o toque abrasivo das cinzas e, talvez, uma pequena proteção contra o que quer que fosse que a esperasse lá fora.
Enquanto amarrava o último nó, um som a fez congelar. Um gemido baixo e gutural, vindo de longe, carregado pelo ar parado. Outro respondeu, este mais próximo.
Eles estavam chegando.
Agnes se esgueirou até um dos espaços entre as vértebras de seu abrigo de ossos e olhou para a planície. Figuras se moviam na distância. Eram grandes. Uma delas caminhava sobre quatro pernas nodosas, com um corpo que parecia uma rocha coberta de musgo cinzento. Outra se arrastava, longa e serpentina, a cabeça se erguendo para provar o ar. Estavam todos convergindo para um único ponto: a carcaça. A fonte de água.
O ninho em que ela se refugiará estava prestes a se tornar um oásis, um ponto de encontro para os monstros do deserto. Ficar ali era suicídio. A trégua havia acabado.
O pânico ameaçou tomá-la novamente, mas a tarefa recém-concluída a ancorou. Ela tinha uma corda. Tinha uma cobertura. Eram ferramentas insignificantes contra as criaturas que se aproximavam, mas eram suas. Ela não era mais apenas uma vítima nua e trêmula.
Ela precisava fugir. Mas para onde? A planície aberta era uma sentença de morte.
Seu olhar varreu a área, a mente analítica buscando padrões, rotas de fuga. A besta-rocha se aproximava do lado leste. A serpente, do norte. Elas não se moviam em harmonia; seus movimentos eram cautelosos, cheios de desconfiança mútua. Elas não eram uma matilha; eram competidoras.
É isso... isso era uma oportunidade.
O caos. A bestialidade natural usá-lo como distração seria não só óbvio como parte da natureza.
Seu plano se formou, simples e desesperado. Ela não podia lutar, então teria que passar despercebida. Encheu uma das folhas maiores com água, dobrando-a em uma bolsa improvisada feita de forma artesanal como um origami e torcendo para reter algum líquido. Amarrou sua nova corda na cintura. E esperou, o coração golpeando contra sua túnica de folhas.
A besta-rocha foi a primeira a chegar, de perto parecia uma baleia pequena com pernas. Até seus dentes pareciam escovas gigantes. Percebeu a presença de Agnes, mas pareceu ignorar sua existência, olhando para ela como se não fosse diferente dos insetos entre folhas, focado totalmente na poça de água que se formava na base do osso ela bebia lentamente, como se aproveitasse a água doce como um prêmio, mesmo assim, a água sumia rapidamente em sua boca, o som alto e sorvente ecoando pela caixa torácica.
Dois minutos depois a da poça mal completava um terço, Agnes se preocupava com sua tentativa de fuga, mas logo ela se acalmou, a serpente havia chegado, com seu corpo longo gigantesco, Agnes não duvidava que a serpente poderia engolir a besta-rocha inteira. Ela parou, a cabeça chata e sem olhos balançando no ar, sibilando no ar ela sentiu a presença da outra criatura. Um silvo baixo, como o de vapor escapando de uma caldeira, saiu de sua boca. A besta-rocha levantou a cabeça, a água escorrendo de suas cerdas longas, e respondeu com um rosnado que vibrou nos ossos de Agnes.
O confronto era inevitável.
Foi a distração que ela precisava. No instante em que a serpente se lançou para a frente e a besta-rocha se preparou para o impacto, Agnes se moveu.
Ela não correu para a planície aberta diretamente, mas sim ao longo da parede exterior da caixa torácica, usando a curvatura do osso colossal para seu atual tamanho para mascarar sua fuga.
Manteve-se agachada, o corpo pequeno e magro pressionado contra o cálcio frio, movendo-se o mais silenciosamente que podia. Os sons da batalha atrás dela — um guincho agudo, o som de pedra raspando em escamas — cobriram o barulho de seus pés nas cinzas.
Ela não parou de correr até que a caixa torácica fosse apenas uma silhueta contra o céu vermelho e os sons da luta se tornassem um eco distante. Estava sozinha de novo, no meio do deserto infinito. Mas desta vez, era diferente. Em sua cintura, uma corda trançada. Em seu corpo, uma túnica de folhas. Em suas mãos, uma bolsa de água.
Não era muito. Mas no inferno, era um reino inteiro.
A crise imediata havia passado. A vida de Agnes não havia terminado. Mas ao olhar para o horizonte sem fim, uma única pergunta dominava seus pensamentos ‘para onde, no meio de todo esse nada, onde eu vou agora?’
(Fim do capitulo)