A corrida desesperada havia cobrado seu preço. Cada músculo do corpo magro de Agnes protestava com uma dor ardente, e a adrenalina que a impulsionara havia se dissipado, deixando para trás apenas uma exaustão profunda e trêmula. Ela tentava arranjar fôlego em meio a vastidão cinzenta, a beleza surreal do céu laranja e azul agora completamente ignorada, sua atenção voltada apenas para o esforço de tentar colocar um pé-garra na frente do outro. Mas havia uma agonia que superava o cansaço. Uma dor que não vinha dos músculos, mas de dentro.
Fome.
Não era a fome que ela conhecia de sua vida humana, aquela sensação incômoda de um estômago vazio após pular uma refeição. Aquilo era um abismo. Um vácuo corrosivo em seu torso que parecia estar devorando-a de dentro para fora, dissolvendo seus órgãos em uma necessidade ácida por sustento.
E fazia barulho, muito barulho.
Seu estômago soltou um grunhido, e Agnes tropeçou, assustada com o som. Não foi um ronco; foi um rugido gutural e ressonante, tão alto e vibrante que ela o sentiu em sua caixa torácica. Parecia o som de uma motosserra tentando dar a partida. Instintivamente, ela se encolheu, olhando ao redor, esperando que o som atraísse todos os horrores do deserto. Ela ainda não entendia, mas seu novo corpo, frágil como parecia, possuía um sistema sonoro potente e preciso, uma capacidade que, no futuro, poderia ser uma arma. Naquele momento, no entanto, era apenas um farol perigoso anunciando sua fraqueza.
Foi em meio a essa agonia que ela sentiu o puxão. Não era uma força física, mas uma atração sutil, um desejo que não era seu, emanando do crânio gigante com a árvore. Algo lá dentro a chamava, prometendo... saciedade… Abrigo. A parte animal dela queria correr para lá, se aninhar na escuridão de suas órbitas. Mas a engenheira, a mulher que morreu por causa da imprudência de outros, resistiu.
Armadilhas. O mundo era feito de armadilhas perversas, não só esse mundo, praticamente todos os que ela já conheceu em livros de fantasia e ficção, qualquer coisa que ecoa no fundo da mente era maligno de alguma forma.
Seus pensamentos foram interrompidos por um movimento no céu. A mancha escura. O "salvador brutal". A criatura parecida com um morcego vinha em sua direção, o voo não mais em velocidade sônica, mas em um planeio lento e pesado.
Em suas garras, arrastava os restos mutilados da Ave cinzenta que tentou caçala. Parecia estar se dirigindo para o crânio. Para o ninho.
O terror e a fome travaram uma guerra dentro de Agnes. A criatura era a morte encarnada, mas carregava comida. O crânio era uma armadilha em potencial, mas a atraía com uma promessa irresistível. A racionalidade, no auge de sua luta, encontrou uma solução desesperada, uma aposta de alto risco.
Ela não se aproximaria do crânio. Ela não fugiria. Ela se tornaria parte do chão.
Com uma urgência febril, ela começou a cavar na duna de cinzas onde havia se escondido. A poeira era fina e solta, e logo ela havia criado uma cova rasa. Deitou-se nela, o corpo encolhido, e puxou as cinzas sobre si mesma, deixando apenas uma pequena fresta para respirar e observar enquanto ignorava as partículas de cinzas entrando em sua boca e ouvidos. Sua esperança era um fio tênue: que no processo de levar sua caça para o covil, o predador deixasse cair um pedaço. Uma migalha. Seria o suficiente.
Do seu esconderijo claustrofóbico, ela ouviu a criatura passar por cima, o som de suas asas coriáceas um farfalhar baixo e ameaçador. E então, silêncio. Um momento de espera tensa.
O silêncio foi quebrado por um rugido.
Não veio do morcego. Era diferente, vindo da direção do crânio. Um rugido furioso, canino, mas estranhamente familiar, como uma risada furiosa, que foi respondido por vários outros. Uma matilha. O coração de Agnes gelou. Havia outros.
O que se seguiu foi uma sinfonia do inferno. Os rugidos furiosos se intensificaram, misturados com o estalo agudo e sônico do ataque do morcego. Agnes ouviu sons de carne sendo rasgada, ossos estalando e então, o tom mudou. Os rugidos de fúria se transformaram em ganidos, choros de dor e pânico. Gritos agudos eram cortados abruptamente. O som de estilhaçamento, como se corpos estivessem sendo arremessados contra a superfície dura do crânio, ecoava pelas cinzas de forma sinistra, como se todo o deserto pudesse sentir o massacre. Durou por um tempo indeterminado – minutos ou horas, ela não saberia dizer. E então... silêncio. Um silêncio pesado, absoluto, que parecia ainda mais ameaçador do que o pandemônio anterior.
Agnes não se moveu. Permaneceu enterrada, o medo e a fome a mantendo paralisada. Apenas quando a luz do céu laranja começou a diminuir, anunciando a chegada de uma escuridão ainda mais profunda, ela ousou sair.
Empurrando as cinzas para o lado, ela se levantou, os olhos arregalados com a cena à sua frente. Era um cemitério. Dezenas de cadáveres estavam espalhados pela área em frente ao crânio. As criaturas pareciam um pesadelo genético, com o corpo musculoso de um javali, a cabeça e a mandíbula de uma hiena, e pernas longas e finas como as de um cavalo. Mas seu estado atual era o que chocava.
Alguns estavam simplesmente estraçalhados, poças de carne e pelos moídos e misturado a cinzas. Outros, porém, eram mais estranhos como uma sopa macabra. Faltavam-lhes órgãos essenciais, como se tivessem sido removidos cirurgicamente, com cortes limpos e precisos. E o resto estava... seco. Completamente secos, a pele coriácea esticada sobre músculos que pareciam flácidos e moles, como se toda a umidade e substância tivessem sido sugadas para fora deles.
A fome de Agnes não permitiu mais deliberação. O cheiro de carne, mesmo que seca e estranha, dominou todos os seus sentidos. O instinto venceu. A engenheira se foi.
Ela correu até a carcaça mais próxima, uma das secas, e se lançou sobre ela. Suas unhas-garra rasgaram o couro com facilidade. Seus dentes, mais afiados do que ela imaginava, cortaram pedaços de carne escura e fibrosa. Tinha um gosto forte, metálico e parecido com carne de porco salgada que, misturando tudo dava uma ânsia de vômito, mas era comida é a fome de Agnes estava no controle sem nem mesmo dar tempo para o corpo reagir. Era energia e só isso importava.
Arrancou um dos órgãos, algo que parecia um fígado enrugado, e o devorou com um prazer selvagem que a teria aterrorizado em qualquer outro momento.
Foi no meio de seu banquete frenético que ela sentiu. A sensação inconfundível de estar sendo observada.
Ela levantou a cabeça abruptamente, a carne seca ainda em sua boca, os olhos cheios de medo procurando a forma do morcego assassino. Mas o que ela viu foi algo completamente diferente.
Um bando de pequenas criaturas a observava das sombras de outra carcaça. Eram ratos, inequivocamente, mas tinham cerca de 30 centímetros de altura, com pêlos cinzentos e ásperos e olhos vermelhos e brilhantes. Exceto pelas centopeias de ossos que infestavam a primeira carcaça, eram as menores criaturas que ela já havia encontrado.
Um deles, aparentemente o mais corajoso, se adiantou e olhou para Agnes, como se tentasse demonstrar superioridade de alguma forma, e logo depois seu olhar se tornou ganancioso na medida que sua face tentava demonstrar tais emoções, a carcaça do tamanho de um cavalo que Agnes estava comendo parecia uma preciosidade para o grande roedor.
Com um guincho desafiador, o rato correu e agarrou uma das pernas da criatura morta, tentando arrastá-la. O pobre coitado era forte, mas não o suficiente. Ele puxou e se esforçou, as perninhas derrapando na cinza, sem conseguir mover o peso morto mais do que alguns centímetros.
Agnes observou a cena, o frenesi da fome começando a diminuir, substituído por uma confusão inicial e depois para um cálculo frio. O bando de ratos não era uma ameaça. Eram carniceiros, como ela. E havia comida mais do que suficiente para todos. Enquanto houvesse carcaças, eles provavelmente a deixariam em paz.
Ela se recostou sobre seus calcanhares, a barriga finalmente cheia contratando com seu corpo magro. A paz que se instalou era passageira, ela sabia. Mas era paz. Uma oportunidade para estudar o "loot" recém-adquirido, para entender as criaturas que haviam morrido, e para tentar, mais uma vez, dar algum sentido àquele lugar infernal.
(Fim do capítulo)