O crepúsculo no sétimo círculo não era um desvanecer, mas uma retirada. O céu magnífico de azul e laranja não escurecia; ele se comprimia, as cores se acumulando no horizonte mais distante enquanto as nuvens de fogo e fuligem, que haviam recuado, começavam seu avanço lento e inexorável, retornando para retomar seus domínios. O frio agudo do "dia" começou a se dissipar, e um calor ardente parecia ganhar vida à "noite" se infiltrando no ar e em cada ser vivo que existia.
Agnes trabalhou com uma eficiência focada, o banquete primal agora substituído por um planejamento metódico. A fome havia sido saciada, mas a necessidade de recursos era constante. Com uma presa afiada que encontrou entre as poças do que um dia foi uma besta, ela cortou e removeu o couro seco de uma das "hienas corredoras", o trabalho sendo ao mesmo tempo grotesco e estranhamente familiar para uma mente que entendia de processos e materiais.
Colheu mais alguns dentes longos e afiados, perfeitos para perfurar ou cortar. Em sua colheita percebeu as marcas de dentes ainda sujos de sangue, Agnes tem uma leve dificuldade em imaginar a cena daquele pequeno morcego absorvendo o sangue da grande hiena em apenas alguns instantes. Ignorando isso ela empilhou ossos mais finos, imaginando-os como agulhas ou pontas de lança e ao mesmo tempo desfiando sua corda de fibra prateada e improvisando um saco de couro simples para guardar carne e a pouca gordura ressecada dos corpos predados.
Enquanto trabalhava, ela notou uma mudança no comportamento dos ratos carniceiros. Eles, que antes se empanturravam sem preocupação, agora agiam com uma urgência nervosa. Um deles soltou um guincho agudo, e o bando inteiro parou de comer. Eles olharam para o céu que se fechava e, como um só, começaram a se mover, abandonando a abundância de comida. A noite que se aproximava era mais perigosa do que a fome.
A curiosidade de Agnes superou sua cautela. Eles sabiam de algo que ela não sabia. Eles provavelmente tinham um abrigo. Com sua pequena pilha de recursos amarrada em um feixe de couro e guardadas em sua nova mochila, ela os seguiu, mantendo uma distância segura. Os ratos não lhe deram atenção, a mente deles focada em um único objetivo: chegar em casa antes que a verdadeira escuridão caísse.
A jornada a levou para mais perto do crânio do canídeo e, para sua surpresa, para além dele.
O crânio era apenas a cabeça de um esqueleto quase completo, um leviatã de osso que se estendia por centenas de metros, as costelas formando arcos góticos sobre a paisagem de cinzas sustentando uma grande espinha dorsal emaranhado de verde e azul e amarelo vibrante como um jardim suspenso.
A carcaça era um marco, uma montanha nascida da morte para sustentar vidas. Os ratos correram direto para a base dela, em direção a uma das patas de osso colossais, desaparecendo em uma fenda escura sob o osso maciço enquanto outros de seu tipo também corriam de diferentes lugares e até mesmo trazendo pequenos espólios com sigo como restos de pequenas criaturas ou bolas gigantes de carne e cinzas roladas até a entrada do ninho, como se fossem besouros rola bosta.
O covil deles. Seguro. Grande o suficiente para ela, mas duvidava que pudessem habitar junto de uma família tão grande de roedores.
Agnes observou a estrutura colossal. Era o único refúgio viável em quilômetros, mas seus instintos, agora mais aguçados devido a saciedade, gritavam perigo. Ela se aproximou com cautela de uma das grandes aberturas na caixa torácica, um portal escuro para as entranhas do esqueleto. O ar que emanava de dentro era denso, carregado com o cheiro de sangue velho e fúria fresca. E havia sons. Uma sinfonia de batalhas indiscriminadas, guinchos, rugidos e o som de carne sendo rasgada. Era um caos furioso, mas estranhamente ordenado. A regra para estar lá dentro parecia clara: só os fortes sobrevivem, um clichê clássico da realidade.
Ela recuou. Entrar ali seria suicídio, talvez conseguisse sobreviver por alguns minutos, mas seriam os últimos de sua curta nova vida. O interior era uma arena; o exterior, um território de caça dos pequenos e unidos bandos. Talvez, apenas talvez, ela pudesse criar seu próprio espaço, já que sem dúvida dificilmente encontraria algum ser, dispostos a trabalhar com ela.
Seu olhar percorreu a estrutura externa, a mente de engenheira procurando por falhas, por pontos de apoio, por anomalias. Ela encontrou uma no esterno da criatura. Uma placa óssea larga e achatada, coberta por uma teia densa das mesmas vinhas prateadas que produziam água. Com um esforço imenso, usando sua força recém-adquirida, ela conseguiu puxar e esticar algumas das vinhas mais grossas, criando uma pequena abertura entre a teia de plantas e a superfície do osso. Era apertado, quase um túnel. Ela o alargou o suficiente para seu corpo esguio e depois usou pedaços soltos de vinhas para disfarçar a entrada. De fora, parecia apenas mais uma parte da vegetação emaranhada.
Lá dentro, era escuro, apertado e cheirava a, estranhamente, a batata cozida, até mesmo Agnes se prestou a tentar uma mordida, mas era tão duro quanto o tom metálico de sua cor indicava – mas o gosto era realmente de batata.
Esse era seu novo lar, temporário, mas lar. “Seguro, aconchegante e é até maior que o meu primeiro apartamento… ou talvez essa seja a impressão por causa do meu tamanho…” pensa Agnes. Com um certo orgulho que só o trabalho manual podia trazer.
Pela primeira vez desde sua morte, Agnes tinha um pouco de tempo para pensar, não por conforto ou segurança, mas porque o chamado da natureza era uma força poderosa e tudo que entra também tinha que sair.
O tempo que se seguiu foi de uma produtividade febril. Ela usou um osso longo e reto da hiena e uma das vinhas mais duras da árvore do crânio para criar uma lança primitiva, afiando a ponta até que ficasse perigosamente pontiaguda. Reforçou sua túnica de folhas com placas de couro costuradas com tendões secos e decorou-a com pequenos ossos e dentes, uma armadura rudimentar que era tanto funcional quanto um aviso.
Ela estava tão absorta em seu trabalho, sentada na entrada de seu ninho, que não notou a aproximação até que a sombra caiu sobre ela.
Era um macaco. Diferente dela, que apenas "parecia" um, esta criatura era inequivocamente um primata. Coberto de pelos negros e emaranhados, com um rabo longo e braços musculosos, ele a encarava com olhos inteligentes e famintos. Ele havia visto seu ninho, um lugar seguro e seco, e o queria.
Ele guinchou, um som desafiador, e avançou como um impulso dos nós dos dedos como se fosse um gorila. Agnes recuou para dentro de seu túnel de vinhas. O macaco tentou segui-la, mas a abertura era estreita demais para seus ombros largos. Ele rosnou de frustração e tentou alargar a estrutura enquanto com o braço esquerdo e com o direito tentou alcançá-la com o braço longo e peludo.
Um erro rude.
Agnes segurou sua lança recém-fabricada com as duas mãos e a fincou com toda a sua força no braço do macaco. A ponta de osso endurecida perfurou a carne. A criatura uivou de dor e surpresa, puxando o braço de volta e se afastando da entrada. O sangue escuro pingava na cinza. A vantagem era dela. O ninho não era apenas um abrigo, era uma fortificação. A besta era mais forte, mas ela era mais inteligente.
A luta foi um impasse tenso. O macaco circulava do lado de fora, guinchando de raiva, mas hesitava em tentar entrar novamente. Agnes permaneceu em seu refúgio, a lança apontada, o coração batendo forte. Finalmente, com um último rosnado de frustração, o macaco desistiu, segurando o braço ferido enquanto se afastava e desaparecia na escuridão crescente.
Ela havia vencido. Havia defendido seu lar.
Exausta, mas com uma sensação de triunfo que nunca havia conhecido, Agnes pegou a água que havia guardado no início da jornada e com dois grandes goles secou o recipiente improvisado e com uma nota mental “criar um cantil de água” se encolheu no fundo de seu ninho.
O mundo lá fora estava escuro e perigoso, mas ali dentro, ela estava segura principalmente depois de criar um alarme primitivo com os ossos e vinhas que ela possuía. Pela primeira vez, ela se permitiu fechar os olhos de verdade. E, por um breve período, dormiu.
O despertar foi abrupto e úmido.
A água quente e formigante enchia seu ninho. A tempestade havia chegado. Os ossos da grande carcaça acima dela estavam fazendo seu trabalho. A fúria dos raios era apaziguada em sua queria e transformada em água, mas seu pequeno refúgio improvisado não tinha drenagem com também havia vários pequenos bulbos carnudos responsáveis por se livrar do excesso de água dentro da estrutura.
A água subia rapidamente, quente como um banho, mas com a mesma sensação elétrica que ela havia sentido antes. Estava se afogando em terra firme.
Em pânico, ela se arrastou para fora, empurrando as vinhas. O mundo do lado de fora era um pandemônio. O céu era uma convulsão de luz, os raios caindo em pilares líquidos por toda parte. As cinzas, agitadas pela energia, flutuavam no ar como uma nevasca escura refletindo o um tom azul escuro dos raios no ambiente, tornando a visibilidade um borrão cinzento com poucos pontos brilhantes ao fundo. O calor era intenso ao nível de nuvens de vapor subirem da carcaça ao ceus, se transformando em nuvens igualmente carregadas, como o bafo de uma fornalha e o chão de cinzas parecia ligeiramente vermelho.
Um raio atingiu o osso a poucos metros de onde ela estava, com um som de rasgo ensurdecedor. Ela se jogou para o lado por puro reflexo, o calor da descarga chamuscando sua pele.
Seu ninho estava inundado. O exterior era uma zona de guerra. Ela estava exposta, encharcada e no meio da fúria do sétimo círculo. O breve momento de paz havia acabado. Agora, ela era forçada a encontrar, e rápido, um novo abrigo dentro daquela enorme e aterrorizante carcaça.
(Fim do capítulo)