O pequeno cochilo de Agnes mal começou e já estava se tornando um pesadelo. O ar, antes apenas quente, agora fervia, e nuvens de vapor começaram a se formar perto do chão, subindo em fantasmas brancos que se misturavam com a nevasca de cinzas. A física daquele lugar estava se desfazendo aos poucos, o chão húmido como poças de lodo cinzento e o cheiro igualmente carbonizado do ar quente parecia adoecer Agnes de formas que ela não resistiria por muito tempo.
Mas pra piorar, Agnes viu, com um terror que transcendia o medo animal, que o céu estava começando a se rasgar. Fendas azuis e brancas, como rachaduras em vidro, se abriram entre as nuvens de fogo, e delas caíam raios diferentes ou melhor familiares.
Estes não eram os pilares líquidos de energia sobrenatural que ela havia testemunhado. Eram raios "naturais", o tipo que ela conhecia de seu antigo mundo: ziguezagues instantâneos de eletricidade pura. Eles caíam com uma fúria indiscriminada, buscando o caminho de menor resistência. Onde o raio sobrenatural era um feixe reto e previsível, este era o caos encarnado algo que em tal mundo era o mais próximo que se tinha de uma ordem, e isso tornava a carcaça gigante, com suas vinhas resistentes e ossos úmidos mas pouco condutivos, a armadilha mais perigoso do mundo dando preferência para corpos orgânicos mais condutivos/Agnes.
Um raio natural atingiu a espinha dorsal do leviatã de osso, e a estrutura inteira brilhou com uma luz azulada por uma fração de segundo, o som de um milhão de chicotes estalando de uma só vez.
Agnes estava exposta. Correndo sem rumo pela base da carcaça, a água quente da inundação de seu ninho ainda escorrendo por suas pernas, ela era um alvo em um campo de tiro. O pânico era uma névoa branca em sua mente, mas através dele, ela viu algo que a fez parar, congelada no lugar.
No auge do céu tempestuoso, algo estava se movendo contra a corrente.
Era uma ave. Mas chamá-la de ave era como chamar um sol de vela. Era uma entidade de tamanho impossível, com asas tão vastas que pareciam cobrir o horizonte. E brilhava. Não com luz refletida, mas com uma luz própria, um brilho carmesim intenso que pulsava como um coração. Ela voava com uma graça majestosa em meio ao pandemônio, indiferente aos ventos e à energia caótica. Um pilar de raio sobrenatural desceu do céu, mirando diretamente a criatura. Em vez de se desviar, a ave abriu seu bico de luz sólida e devorou o raio. Engoliu a fúria do céu como se fosse um mero verme.
Era o ser mais poderoso que Agnes poderia ver com seus olhos mortais, algo que só poderia ser lido ou visto em obras de ficção. Uma criatura que não apenas sobrevivia à tempestade, mas se alimentava dela. Por um instante, Agnes esqueceu seu próprio perigo, paralisada pela visão de um deus ou de um demônio em seu elemento natural.
A visão durou apenas um segundo. Um raio natural, atraído pela longa lança de osso e madeira em sua mão, como uma premonição, ela largou a lança e se atirou o mais longe que consegui. O raio atingiu o chão ao seu lado transformando a lança em um bastão em chamas. A explosão a jogou para a frente, a pele de suas costas formigando com a eletricidade estática, o cheiro de ozônio preenchendo seus pulmões.
A hipnose foi quebrada. Ela precisava de um abrigo. Agora!
Seus olhos desesperados varreram a área e encontraram um vislumbre de pelo negro emaranhado perto das vértebras cervicais do esqueleto gigante, seu corpo estáva novamente em cansasso físico e mental e a distância percorrida foi imensa, mas ao vislumbrar algo – seja lá o que fosse – deu esperança a ela.
O macaco. O agressor que ela havia ferido. Era ele, imóvel, o corpo grande caído de lado, a lança improvisada ainda cravada em seu braço. Morto. Perda de sangue, provavelmente, a poça ainda fresca e viscosa provava isso.
E em sua morte, ele era a única esperança dela.
Correndo em ziguezague, a mente focada em um único e terrível objetivo, ela alcançou o cadáver. O corpo ainda estava quente. Usando uma das presas afiadas em sua posse e as unhas-garra, ela trabalhou com uma urgência febril até mesmo ferindo sua mão no processo, arrastando o corpo mais próximo do osso, seu plano era afastar os raios criando um telhado de vinhas e usar o corpo como um pára raio, mesmo em desespero ela ainda pensava como uma engenheira, mesmo não tendo completa certeza que esse plano insano funcionária.
E como esperado, seu plano parecia ter ido por água abaixo, algumas vinhas mortas e secas que cresciam ali ofereciam uma cobertura mínima. Mas não era o suficiente, mas com um pouco de improviso ela sabia exatamente o que fazer.
Com as mãos tremendo ela arrancou as vinhas e puxou o corpo ainda mais perto o cobrindo com as vinhas secas, ela cortou o abdômen da criatura. O cheiro que subiu foi denso e nauseante, uma onda de calor e odor de vísceras que a fez recuar, engasgada.
O nojo a paralisou. Sua mente humana gritava em protesto, em horror absoluto à ideia de... entrar, uma coisa eram filmes, outra era fazer pessoalmente e principalmente, sem a mínima certeza de que isso iria funcionar.
Um raio natural atingiu a costela diretamente acima dela.
O osso estremeceu, e lascas de vinhas secas voaram ao seu redor.
O impulso final.
Não havia mais escolha. Não havia mais Agnes, a engenheira. Havia apenas uma criatura esperta que não queria morrer. Cobrindo sua boca e nariz com o couro remendado de sua túnica e prendendo a respiração, ela mergulhou de cabeça na cavidade aberta.
O interior era... quente. E apertado. E terrivelmente úmido. Ela estava cercada por uma escuridão carnuda, o cheiro avassalador a envolvendo, entupindo seus sentidos. Era um fedor viscoso, a antítese de tudo que era limpo e vivo, mas era um abrigo. Os sons da tempestade se tornaram abafados, distantes. O brilho ofuscante dos raios foi reduzido a um pulsar fraco através da parede de carne e couro.
Encolhida em uma posição fetal, o rosto pressionado contra algo que ela se recusava a identificar, Agnes se forçou a parar de tremer. O nojo ainda estava lá, uma bile subindo por sua garganta, mas a exaustão era mais forte. Ela precisava descansar. Precisava desligar. Em uma tentativa desesperada de ignorar o cheiro, o toque, a realidade de seu refúgio grotesco, ela forçou seus olhos a se fecharem.
Só um pouco, pensou ela, a mente à beira do delírio. Só até a chuva parar. Depois... um banho. Eu preciso de um banho.
E então, pela primeira vez desde que seu mundo se tornou cinzas, ela falou. A palavra escapou de seus lábios em um som que não era totalmente humano. Era um rosnado baixo, feral, mas por baixo dele, havia uma nota inconfundível de lamento, o eco de uma jovem que um dia se preocupou com coisas como apartamentos e prazos.
"Nojo..."
(E assim… adormeceu)