O cheiro de café requentado e poeira. O som abafado do trânsito da manhã a três andares de distância. O peso familiar de seu edredom quentinho.
Agnes acordou.
Ela estava em sua cama, em seu quarto. O mesmo quarto apertado em que viveu durante toda a faculdade, abarrotado de livros de engenharia, projetos inacabados e roupas que ela nunca teve tempo para guardar direito. Mesmo com o novo salário de projetista, ela nunca se deu ao trabalho de se mudar ou contratar alguém para arrumar sua casa. Era um caos, mas era o seu caos. E nunca pareceu tão gloriosamente, maravilhosamente normal.
Um alívio tão profundo e genuíno a inundou que ela riu. Um som alto e feliz que se transformou em um grito de pura alegria. Foi um sonho. Um pesadelo horrível e sem fim sobre cinzas, monstros e fome, mas apenas um sonho.
O som agudo de seu celular tocando na mesa de cabeceira a trouxe de volta à realidade. Ela atendeu, a voz ainda embargada de felicidade. "Alô?"
"Agnes? É o Kenji. Você já devia tá aqui. Se tá bem? Parece... ofegante." A voz de seu assistente era jovem e ansiosa. "Só ligando para confirmar, o teste final da linha de produção é hoje à tarde. Às duas."
O teste. A fábrica. A S-17. Um calafrio percorreu sua espinha, um eco fantasma do pesadelo. A imagem de rotores girando e a sensação de queda piscaram em sua mente.
"Kenji", disse ela, a voz subitamente séria.
"Eu... eu não estou me sentindo bem. Acho que peguei alguma coisa." As palavras saíram antes que ela pudesse pensar. Era uma mentira.
Agnes nunca ficava doente, nunca faltava. Era um ponto de orgulho. Mas a ideia de voltar àquele lugar, de ficar naquela passarela... era insuportável e até mesmo assustadora.
"Eu não vou poder ir hoje." Houve uma pausa surpresa do outro lado da linha.
"Oh. Certo. Sem problemas, Agnes. Eu... eu cuido de tudo, eu acho. Melhoras." Ela desligou antes que o rapaz pudesse falar mais alguma coisa, o coração batendo forte. O que ela tinha feito? Não importava. Hoje, ela tiraria o dia para si. Para se banhar em normalidade.
Levantando-se da cama, ela notou algo estranho. O quarto parecia... um pouco maior. O espaço entre a cama e a escrivaninha, onde ela sempre tropeçava, parecia ter alguns centímetros a mais. Devo ter arrumado as coisas ontem e não me lembro, pensou ela, descartando a anomalia.
Sua mente estava focada em uma única coisa, um desejo que parecia vir das profundezas de sua alma. Um banho quente. Ela precisava sentir a água quente em sua pele, lavar os vestígios daquele pesadelo.
No banheiro, ela ligou o chuveiro, a água saindo em uma nuvem de vapor. Entrou e deixou a água quente cascatear por seus ombros, um suspiro de puro prazer escapando de seus lábios. Enquanto a água escorria, ela pensava no sonho. Nas garras, na estranha anatomia do seu corpo naquele sonho, na fome... era tão vívido, tão real. Um calafrio a percorreu, apesar do calor.
Ao sair do banho, ela se enrolou em uma toalha macia e felpuda, a sensação, um luxo indescritível. Parou em frente ao espelho, ainda embaçado pelo vapor. Passou a mão para limpar um círculo e ver seu reflexo. Ver seu rosto humano, normal.
Foi quando o grito de terror rasgou sua garganta.
Não era o seu rosto.
O reflexo no espelho era uma abominação. Uma massa pulsante de carne retorcida, sem forma definida. Infinitos olhos se abriram em sua superfície, todos fixos nela com uma malevolência antiga. Dezenas de bocas se abriram em sorrisos silenciosos e famintos. A coisa no espelho não era um reflexo; era algo olhando para ela de volta, do outro lado.
Com um som de fratura que parecia vir do centro do mundo, o espelho se estilhaçou. Dos cacos quebrados, não caíram pedaços de vidro, mas cipós. Cipós de um prata metálico e doentio, que se moveram como serpentes, chicoteando para fora do quadro. Eles se enrolaram em seus tornozelos, em seus pulsos, em seu torso, apertando com uma força esmagadora. Eram frios, com a frieza de um túmulo. Agnes gritava, um som agudo de puro terror, pedindo por ajuda, por qualquer ajuda, enquanto as vinhas prateadas a arrastavam para a escuridão que se abria nas rachaduras do espelho…
…
Agnes acordou… de verdade dessa vez.
O grito ainda estava em sua garganta, mas o som que saiu foi um "mmrphh" abafado e desesperado. Sua boca estava tampada. Algo carnudo, seco e com gosto de terra estava enfiado entre seus dentes. Em um espasmo de adrenalina e pânico remanescente do sonho, ela mordeu.
A casca seca se partiu, liberando um sabor familiar e amiláceo. Batata, uma batata cozida que ficou secando ao sol. O gosto a acalmou por um instante, familiar e até um pouco saboroso, a calma foi o suficiente para sua mente registrar a realidade. A escuridão, o calor, o cheiro... o nojo.
Ela estava de volta. Dentro do macaco.
Uma onda de náusea a dominou, e ela engoliu em seco, forçando o vômito para baixo. O espaço era apertado demais para se dar a esse luxo. O bulbo que ela havia mordido era parte de um cipó de raio. Ela o cuspiu um pouco como se tentasse tirar o ar fétido da boca, com os olhos se acostumando à leve penumbra, observou seus arredores.
A cena havia mudado. Os cipós secos que ela usara para cobrir a entrada não estavam mais mortos. Eles haviam ganhado uma nova e terrível vida. Enraizaram-se profundamente na carcaça, espalhando-se como um sistema nervoso. Um brilho esverdeado e sobrenatural emanava dos ossos do macaco, pulsando em um ritmo lento como se estivesse se transformando ou incubando uma vida alienígena. E os cipós... eles haviam se especializado. Pequenos apêndices, afiados como agulhas hipodérmicas e bulbosas, se separavam dos ramos principais, perfurando a carne morta e injetando uma seiva verde e brilhante nas veias da criatura. Estava... se alimentando do cadáver ou talvez se fundido com ele?
Um arrepio percorreu seu corpo. Ela se moveu para sair daquele túmulo de carne, e foi quando sentiu a fisgada. Uma dor aguda em seu antebraço direito.
Ela olhou para baixo. Um daqueles apêndices afiados não estava no macaco. Estava nela. Havia perfurado sua pele, suas veias se destacando sob a derme rosada, visivelmente conectadas ao cipó. Ele pulsava em sincronia com o resto da rede, injetando o mesmo líquido estranho diretamente em sua corrente sanguínea e olhando mais de perto era possível ver pequenos brotos prata esverdeado crescendo em volta no apêndice.
Com um gemido de horror, ela agarrou o apêndice e tentou arrancá-lo. A dor foi desumana, uma agonia elétrica que a fez gritar, o som novamente abafado pela carne ao redor. Não era apenas uma farpa; estava enraizado, conectado.
Mudando de abordagem, o pânico dando lugar à precisão desesperada, ela pegou a presa afiada que usava como faca em sua pulseira de couro. Com a mão tremendo, posicionou a ponta na base do apêndice, onde ele se encontrava com sua pele, e pressionou. Cortou a conexão com sua carne, separando à força. A dor a fez ver estrelas, estranhamente a sensação de cortar o apêndice era praticamente a mesma de cortar a própria carne, mas ela estava livre agora.
Se empurrando dos restos mortais, ela saiu da carcaça, caindo de joelhos nas cinzas. O apêndice, agora decepado, continuava em sua pele, a ponta parecendo a bunda de uma vespa, ainda bombeando lentamente seu líquido estranho em suas veias.
O céu era de um vermelho profundo e sem estrelas. O ar era frio. O deserto, silencioso e desolado. Em quilômetros de visão, havia apenas a carcaça colossal e o crânio solitário.
Ela olhou para o braço violado, para o sangue e as cinzas que manchavam sua pele, para o horizonte infinito. O sonho. A realidade. A dor. Era demais.
Agnes chorou. Pela primeira vez em anos, não foram soluços silenciosos de desespero, mas um lamento alto e quebrado. Era real. Era doloroso. E ela estava com tanto… tanto medo.
(Fim do capitulo)