O tempo passava, marcado não por um sol, mas pelo ciclo das marés de fogo no céu. Um dia inteiro, talvez mais, havia se esvaído desde que Agnes acordara no coração da besta. A dor em seu braço, onde o apêndice do cipó a havia violado, havia diminuído para uma pontada surda, a ferida fechada e coberta por uma gaze improvisada que ela mesma tecera com as fibras finas e resistentes das vinhas. Foi a primeira coisa que ela fez após a tempestade: dar um nome àquelas plantas. "Cipós de Raio". Era simples, descritivo. Dar nome às coisas era um pequeno ato de ordem em meio ao caos absoluto, principalmente agora que ela sabia que ela tinha quase certeza de que não era apenas um sonho.
Seu primeiro grande projeto foi lidar com o cadáver do macaco. O refúgio que a salvara agora era uma fonte de recursos. Ela passou horas arrancando o couro escuro e grosso. No processo, notou algo estranho. Onde o couro se encontrava com a carne, uma reação estava ocorrendo, a pele se desfazendo em uma substância espessa e pegajosa, quase como uma resina. A engenheira dentro dela, a mulher que entendia de reações químicas e propriedades materiais, ficou fascinada. Em vez de descartar a gosma, ela encontrou o crânio do macaco, passou um tempo desagradável limpando-o da massa encefálica e, com cuidado, depositou a substância dentro, como se fosse um béquer de laboratório. Uma análise para quando tivesse tempo. Se é que um dia teria.
A fome retornou, e ela se voltou para a fonte de vida da carcaça: os cipós de raio. Colheu alguns dos bulbos carnudos que cresciam ao longo deles. O primeiro que comeu era seco, quase enrugado, e o sabor familiar de batata cozida a inundou, um conforto fantasmagórico. Encorajada, ela mordeu um mais vermelho e viçoso. O erro foi imediato. Uma descarga elétrica percorreu sua mandíbula, fazendo seus dentes estalarem e seu corpo convulsionar por um segundo. A lição foi aprendida: secos e pálidos eram "maduros"; vermelhos e carnudos eram "verdes" e ainda carregados de energia. Um pensamento nostálgico a atingiu: ‘será que, se os cozinhasse, os verdes também perderiam a carga elétrica?’ A ideia de uma fogueira, de comida cozida, era uma fantasia tão distante que chegava a doer… ‘pera ai eletricidade!?’ uma ideia se formou em sua mente, mas teria que esperar um pouco.
Com o estômago forrado, ela se dedicou às suas ferramentas. A lança que foi carbonizada agora foi refeita e aprimorada. Em suas andanças cautelosas ao redor da carcaça, encontrou a carapaça vazia de uma criatura parecida com uma tartaruga gigante, infestada por insetos que lembravam baratas. Ela não ousou entrar, mas conseguiu quebrar um pedaço afiado da couraça e, com as fibras tecidas de cipó de raio, prendeu-o firmemente à ponta de sua lança enquanto fazia isso, percebeu o quanto as fibras eram resistentes, e até mesmo úteis em todos os sentidos, sua mente de engenheira começou a trabalhar em utilidades e estruturas diversas, mas deixou isso para depois também e resolve continuar a melhoria de equipamentos.
A presa de hiena que usava como faca também foi melhorada: horas foram gastas afiando sua borda em uma pedra de osso fossilizado, e ela trançou um cabo de couro e cipó, tornando a empunhadura muito mais firme e útil.
Os dias seguintes foram um borrão de observação cautelosa e graças constante de bases. Agnes se tornou uma naturalista em um inferno pessoal, catalogando a fauna e bons local para acampamentos e até mesmo criou um pequeno livreto com folhas de couro e catalogou as mais comuns.
* Besta-Rocha: Observação inicial falha. A criatura solitária que encontrei era uma anomalia. Elas se movem em bandos, manadas colossais que fazem o chão tremer. Evitar a todo custo. Sua passagem levanta nuvens de cinzas que podem ser usadas para cobertura perdi um dos melhores locais de descanso graças as patas desses colossos, parecem sentir vida ao seu redor e tem um claro senso de superioridade em relação aos outros seres, eles rodam pela carcaça como reis e ao anoitecer entram dentro dela para dormir.
* Ratos-Carniceiros: Comportamento social complexo. Organizados em bandos hierárquicos, mas com uma falha tática fatal: subestimam ou superestimam alvos. Atacam criaturas solitárias em grupo, um comportamento que testemunhei levar à morte de vários deles. Um grupo cercou uma estranha borboleta gigante, de asas negras e corpo pálido. A borboleta, sem se mover, simplesmente exalou um gás de sua tromba(eu tenho quase certeza que se chama brócolis, mas parece errado de alguma forma, ser que eu estou esquecendo das palavras?), os ratos mais próximos derreteram em poças de gosma corrosiva e foram sugados como suco pela borboleta. (Apelido para a nova espécie: Borboleta Hálito da Morte). Em contrapartida, os ratos entram em pânico e se dispersam quando atacados ou cercados, a menos que um líder esteja presente para forçar uma contra-ofensiva. Nota estranha sobre Reprodução: extremamente prolíficos, parecem ser hermafroditas. A cópula é constante, cessando apenas durante o período de gestação (duração desconhecida).
Foi durante uma dessas observações que a fome a atingiu de novo, uma fome mais aguda, causada pela energia que seu corpo gastava para se curar. A carne seca das hienas havia acabado, e os bulbos não eram suficientes. Ela olhou para os ratos. Eram pequenos, mas eram muitos.
E ela era rápida.
Depois de muito estudo e de ganhar confiança, ela escolheu seu alvo: um rato solitário, afastado do bando. Ela se agachou, sentindo a energia se acumular em seus músculos. Era uma habilidade que descobrira por acidente: queimar os nutrientes em seu corpo para um impulso de velocidade explosiva. Com um grunhido, ela disparou. O mundo se tornou um borrão por três segundos. O impulso causou uma dor lancinante em suas pernas, como se os músculos estivessem sendo rasgados, mas a velocidade era inegável. Ela interceptou o rato antes que ele pudesse reagir, a lança perfurando sua lateral de sua cabeça.
A vitória foi amarga. O gosto da carne do roedor era terrível, rançoso e azedo. Mas a fome, amplificada pela dor do impulso, a forçou a engolir cada pedaço nojento. A lição foi clara: a habilidade era uma arma de desespero, cara demais para ser usada a todo momento. Superando a dor ela guardou as sobras e separou as partes úteis do rato, o couro não parecia muito resistente, mas poderia ser útil para outros usos, mas os dentes do roedor pareciam bem resistentes e afiados e teria sua utilidade e para não desperdiçar o resto, tirou de um de seus bolsos um bulbo de cipó e o colocou na carne, agora tudo o que ela precisa é esperar uma noite até ter uma nova fonte de água no deserto.
Sua prioridade mudou. Ela precisava de um novo lar. A carcaça do macaco, embora a tenha salvado, estava infestada por aqueles cipós de raio e os outros abrigos eram apenas temporários e muitas vezes eram destruídos por outras bestas ou após a chuva de raios. A ideia de ser enraizada novamente, de se tornar parte daquela simbiose grotesca enquanto dormia, era um terror constante e ela não queria passar pelas infinitas experiência de caçada ou ter que se esconder durante a noite debaixo das cinzas.
‘A noite não, de novo não!’ não dá pra dizer que Agnes estava só com medo, era o mais puro pavor, a noite nesse inferno era cheia de sons bizarros e da mais pura ausência de luz, se até mesmos as bestas-rocha se abrigam na carcaça a noite é porque tais sons sinistros não eram apenas de efeitos sonoros de horror.
Ela passou o resto do "dia" correndo pela vasta extensão da ossada colossal, buscando informações, procurando por uma nova toca. Um lugar seco, seguro, e, acima de tudo, livre de vinhas.
O capítulo de sua exploração terminou quando ela se aproximou da pata traseira do esqueleto. O céu acima começou a mudar. As nuvens de fogo, que haviam se retirado para o horizonte, começaram seu lento retorno. A luz ambiente começou a "escurecer", não com sombras, mas com um brilho vermelho que absorvida todos os outros aspectos da luz. cada vez mais intenso e ainda mais estressante para a mente de Agnes. E com a escuridão, veio o calor. Um calor seco e sufocante que subia das cinzas, anunciando a chegada da noite infernal.
(Fim do capítulo)