A ossada do leviatã era um cemitério, mas para uma engenheira, era como uma oficina a céu aberto. Após explorar cada costela, cada vértebra e cada fenda, finalmente ela cansou de mentir para si mesma: não havia um único lugar seguro. Nenhum. Cada abrigo era o ninho de outra criatura, cada caverna uma armadilha em potencial. Se ela queria um lar, teria que construí-lo.
Ela encontrou o local perfeito: uma pequena depressão perto da pata traseira do esqueleto, protegida dos ventos de cinzas e com uma visão clara de duas das principais rotas de passagem de bestas. Em sua mente, um monólogo começou, a voz calma e analítica de sua antiga vida, um costume passageiro em sua vida na faculdade que parece ter retornado brevemente.
‘Análise de terreno concluída. A fundação é estável, composta por osso compactado e cinzas sedimentadas. A integridade estrutural da pata do leviatã oferece proteção contra impactos de cima. O primeiro passo é o material. Aquele concreto de cinzas e sangue era um bom protótipo, mas a resistência à tração era patética. Preciso de um aglutinante melhor. Talvez aquele lodo das baratas…’
Ela nunca havia construído uma casa com as próprias mãos. As plantas que desenhava eram para linhas de produção, estruturas de aço e concreto armado. Mas os princípios eram os mesmos. Carga, suporte, isolamento. Em seus dias na faculdade, ela sonhava com desafios maiores. Projetar habitats que pudessem suportar o vácuo, a radiação cósmica, a pressão atmosférica de uma lua de Saturno. Pobres sonhos. A ironia era tão densa que chegava a ser sufocante. Ela estava construindo um lar, sim. Mas estava no inferno, e a única humanidade para a qual o construía era a que restava dentro dela.
A confiança, no entanto, era real. Ela já não sentia o pânico desesperado de seus primeiros dias. Ela podia fugir. Podia caçar. Podia lutar. Agora, ela podia construir.
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A ideia de um diário surgiu da necessidade de organizar os pensamentos. O problema era o papel. A solução, como sempre, foi grotesca e engenhosa.
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(A seguinte seção foi extraída de um pequeno livreto, cujas páginas amareladas foram feitas de uma polpa de fibras de cipó de raio e um lodo fermentado secretado por criaturas parecidas com baratas, que Agnes apelidou carinhosamente de "devora-ossos". A tinta era uma mistura de fuligem e sangue.)
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É estranho escrever. As palavras parecem alienígenas saindo de minhas garras. Descrevo o processo de fabricação deste "papel" em meu guia de couro, mas duvido que alguém além de mim vá ler isso. E se lerem, provavelmente será alguma aberração demoníaca que o usará para limpar os dentes. De qualquer forma, é um registro. Prova de que eu pensei. De que eu existi aqui.
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Dia 1: A receita do concreto precisa ser melhorada. A primeira mistura secou rápido demais e rachou. O suco dos bulbos de cipó de raio, extraído com uma prensa rudimentar, é um péssimo aglutinante. E tem um gosto horrível de batata crua. Comi carne de hiena corredora para tirar o gosto.
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Dia 2: Encontrei um tipo diferente de cinzas perto de uma das costelas, mais precisamente aquela que está quebrada como uma coluna antiga.
As cinzas, mais escuras e finas. Parecem ter propriedades diferentes, bem mais argilosas. Construí uma pequena parede de teste. Parece mais promissora. Minha carne de hiena está acabando. A necessidade de uma fonte de alimento estável é crítica.
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Dia 5: A construção está terminada. Um pequeno abrigo de extração, meio cavado, meio construído, com uma única entrada defensável. O teto é uma placa de couro de macaco esticada, impermeabilizada com a resina que descobri por acaso enquanto caçava, tenho esperança de que não seja algo nojento. O verdadeiro avanço, no entanto, é a fazenda. Usei a oportunidade de testa o traço da minha argamassa através de potes, meio feios, mas potes e os depositei com uma mistura de cinzas e dejetos (de várias espécies, incluindo os meus). Plantei pedaços de cipós de raio. A esperança é que cresçam sem a necessidade de uma carcaça ou de sementes, algo que essas plantas não parecem produzir. Vi alguns crescendo em ninhos de aves e em dejetos fossilizados de bestas-rocha. A teoria é sólida. Comi alguns ovos de uma "galinha da névoa", uma ave estranha que só aparece depois das tempestades. O gosto é bom. Mas não lembra em nada os de galinha comum.
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Dia 6: Sucesso! As plantas cresceram com uma velocidade alarmante. Os bulbos são abundantes. Como imaginei, por não terem sido atingidos por raios, eles não possuem carga elétrica. São apenas... batatas infernais… talvez morangos seja mais apropriado devido a aparência avermelhada e muito parecida com um coração. A má notícia é que minha última caça foi roubada por aqueles ratos malditos. Levaram a carne e um cantil de água que eu havia deixado do lado de fora. O cantil estava cheio de suco de bulbos verdes cozidos. Espero que tenham tido um choque elétrico bem forte, mas teria que produzir outra dose para testes.
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Dia 10: Ratos malditos! Ratos malditos! Ratos malditos! Vou matá-los. Matar todos! Eles invadiram meu lindo abrigo de extração. Tive que usar as "granadas de raio" neles. Eu não as havia testado antes, mas o vapor da fervura de bulbos verdes, quando contido em um estômago de hiena selado e depois perfurado, é... eficiente. Muito eficiente. Eles provavelmente voltarão. Usei um treno improvisado para levar todo o material que pude para a área de construção, considerando que já havia feito algumas viagens, talvez não vá precisar de mais. Demorou horas. Comi carne de rato cozida por um dos raios da minha nova arma. É estranhamente bom. Um sabor defumado, e seu sabor azedo parece ter evaporado junto com outros líquidos. Preciso usar esse método mais vezes.
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Dia 11: Tive que improvisar um abrigo no meio do caminho. A caverna que eu usava como ponto seguro foi tomada por uma cobra cega. Por sorte, uma Harpia Cinzenta (finalmente dei um nome àquela ave) estava se alimentando por perto. Minha mira melhorou. O impulso de velocidade me colocou perto o suficiente. A lança atravessou uma das asas para garantir que não escapasse para o ar. Tive que pular em seu pescoço para quebrá-lo. Foi... confuso. Comi a carne dela e os restos de um "gorgorejador" que ela estava comendo. Esse bicho é um enigma. Uma fusão de peixe e lobo que dispara raios pelas guelras. Abri um, mas não encontrei nada que explicasse a habilidade insana, talvez seja células que produzem raios? Essas coisas caem do céu a todo o tempo, talvez seja uma adaptação natural. Minha túnica rasgou na luta, ela já estava meio estragada. Vou fazer uma nova amanhã. O couro do gorgorejador é elástico e resistente vai dar um bom traje. Notei algo... estou ficando mais cheia. Não gorda, talvez nem seja possível devido a escassez de alimento nesse inferno. Mais substancial. Meus seios estão ligeiramente maiores. É a primeira prova real de que sou... fêmea, eu acho. Este corpo não tem os órgãos habituais para indicar isso, como as lampreias… porque eu lembrei disso?
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Dia 13: Cheguei à base. É bom ver o buraco tomando forma. Comecei a construir um forno de concreto para experimentos futuros. Talvez um dia eu possa substituir estas tochas perigosas por luzes elétricas. Afinal, eletricidade não falta neste inferno, até mesmos essas tochas parecem ter raios dentro deles… as vezes até escuto os raios sem que eles estejam caindo… muito perigoso e bem estranho... Melhor não pensar nisso. LEMBRAR DE NÃO PENSAR NISSO. (A frase em maiúsculas parece ter sido escrita com pressa, a tinta muito mais escura e espessa, quase como se o autor tivesse perfurado a própria pele para escrevê-la.) Comi galinha da névoa com pasta de bulbo hoje. A pasta é rosa e tem gosto de purê de batata. Vou fazer mais vezes.
Dia 14: Ajeitei algumas coisas. Me senti... observada hoje. Espero que não sejam os ratos. Eles geralmente evitam esta área por causa da falta de abrigo nessa região. Bem… agora tem um… porquê eu coloco tanto “...” Não faz muito sentido eu seguir uma norma de escrita em um diário de anotações. De qualquer forma, a entrada da base agora tem uma quantidade criminosa de armadilhas mortais. Resolvi usar a parte final do couro do gorgorejador para acelerar meu projeto de "besta atiradora". Tenho vários virotes prontos, até um com a ponta de um extrato de bulbo verde, algo que nem eu gosto de chegar perto. Acho que consigo me virar. Comi uma sopa de bulbos e carne de hiena feitas com minha nova panela de concreto. Funciona. É bom, melhor do que usar aquelas folhas de cipó raio, tudo que eu cozinhava nelas tinha gosto de batata.
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Agnes parecia concentrada em sua escrita, usando um montinho de blocos de concreto como base, o céu estava se pondo e da base recém-construída. Lá dentro, à luz trêmula de uma tocha queimando com gordura animal, Agnes estava focada. Ela está muito focada
Para perceber, a sombra de um sorriso em seus lábios pela primeira vez. Ela está segura. Ela está no controle.
E nas sombras da grande carcaça a uma distância pequena, porém ilimitada, uma silhueta de armadura negra a observa, imóvel e paciente, esperando a noite chegar… como se dividisse a mesma alegria de Agnes, mas por motivos completamente diferente
(Começou)