Dizem que a criação do mundo começou com uma explosão que deu origem a tudo o que existe, incluindo a própria raça humana.
Anos atrás nós não os conhecíamos, mas mesmo assim foi por nossa causa que eles vieram até nós, por conta dos nossos pecados atraímos a fome e a irá deles para cima de nós os humanos.
Às duas raças que antes existiam separadas da humanidade e que seriam conhecidas como as raças absolutas desse mundo criaram um ponto de guerra entre a criação.
O planeta Terra que antes era belo e repleto de vida estava conhecendo e sendo manchado com as marcas e feridas que vinham junto com a guerra, e eu iria ter que rastejar nessa mancha, essa mancha que eu não provoquei, foi nessa mancha de sangue na qual eu nasci.
Na noite do dia nove de novembro do ano dois mil do século vinte e um, era para ser um momento feliz, o meu momento feliz e eu estava indo dormir empolgado esperando acordar com os meus pais algumas horas depois quando fosse o meu aniversário, era para o sol ter nascido com um sorriso largo preenchendo o rosto da minha família.
Desde que eu nasci os meus pais estavam tentando largar a Ordem, meu pai se chamava Carlos de Rodrigues, e ele era um homem alto de costas largas e cicatrizes que o tornavam um grande soldado aos meus olhos.
Minha mãe se chamava Helyara Sanchez e ela também era um soldado, mas ela servia não diretamente a Ordem como o meu pai, ela era um soldado da cidade de Kirden onde a base mais forte e preparada da Ordem ficava localizada no nosso país.
Nesse mundo também existe um poder que os humanos despertaram no dia em que o primeiro ponto de abriu ligando à Terra a eles, esse poder permite que algumas pessoas da raça humana consigam manipular a energia das suas próprias almas para ficarem mais fortes, nós chamamos esse poder de Justa Ira.
Meu pai tinha a sua Justa Ira no Estágio Amarelo Claro.
Minha mãe tinha a sua Justa Ira no Estágio Branco Escuro.
Nós três morávamos em uma pequena comunidade remota, tentando ficar o mais afastados possível daquela guerra e da Ordem, e foi nesse lugar que os meus pais me tiveram e me criaram, onde pensavam estar longe dos olhos e das espadas da guerra.
Nessa época já faziam alguns anos que os meus pais haviam deixado a Ordem, eles nunca entravam no assunto então não sei dizer o motivo disso, mas foi na época em que eu surgi na barriga da minha mãe que algo entre eles e a Ordem aconteceu e conforme o tempo foi passando e eu nasci e fui crescendo como uma criança normal, e talvez por ser uma criança que foi criada quase afastada completamente do mundo acabei não notando que uma guerra estava acontecendo nesse planeta, meus pais nunca me ensinaram a lutar de fato, mas eu sabia dar uns bons socos já que na época não conseguia segurar espadas, elas eram pesadas demais para mim e meu pai sempre acabava rindo de mim enquanto dizia que ainda não era hora para eu segurar algo tão pesado com as mãos.
Eu acho que realmente dava para dizer que eu era feliz, pelo menos até a noite do dia nove de novembro do ano dois mil quando dois pontos se abriram de uma só vez a poucos quilômetros de distância de onde nós morávamos, céu e terra se racharam até quebrarem revelando um buraco tão profundo como se estivesse o tempo todo brigando para se ligar a nossa realidade, o ponto que se abriu na terra era escuro e quente e se fosse visto de cima às vezes era possível ver chamas tão vermelhas no seu fundo que o próprio ar parecia queimar, era como se aquelas chamas não precisassem se alimentar do nosso oxigênio.
Já o ponto que se abriu no céu era praticamente cercado por estrelas e galáxias a sua volta e, no fundo era possível ver uma enorme luz branca que muitos diriam que rivalizaria com o próprio sol, mas essa luz era diferente, ela parecia ter uma brisa tão fria emanando dela que as aves próximas do Ponto tiveram suas penas e peles substituídas por gelo.
Desse ponto surgiu algo gigantesco e monstruoso com uma forma e aparência que era difícil de descrever em palavras, mas a sua pele era de um branco prateado e quando aquela coisa saiu completamente do ponto ela veio caindo e se chocando contra à terra, o seu impacto no solo lembrou até mesmo um pequeno terremoto, mas só quem morava perto da comunidade onde eu cresci também foi capaz de sentir.
Pequenos prédios e casas caíram com aquele terremoto, muitos morreram só com a queda dos escombros, e como se isso não fosse o suficiente junto com o Pânico e antes daquele céu noturno ganhar mais uma ferida um anjo saiu do ponto junto com aquela coisa, era um anjo que também tinha a sua pele em um tom branco prateado, mas esse anjo era magro, pouco definido e não possuía asas muito menos um rosto com face, ele apenas tinha um olho direito no que deveria ser o seu rosto, seu olho era dourado e parecia ser cercado por pequenas e brilhantes estrelas brancas ao redor da sua íris e suas mãos pareciam possuir garras.
Enquanto aquele anjo parecia descer lentamente do céu, aquela outra criatura que veio junto com ele finalmente havia se levantado e começou a caminhar em direção a nós.
Já no solo escalando as paredes ferventes do segundo Ponto uma grande espécie de mão vermelha que mais parecia estar queimando em carne viva se agarrou a superfície da terra carbonizando o solo e quando ela se ergueu soltou um tipo de rugido ou urro que pareciam ser de mil leões ao mesmo tempo, foi tão alto e quente que a vegetação próxima a ele começou a queimar e o fogo foi caminhando até a comunidade.
Na época eu não sabia, mas aquela coisa de pele carmesim, era uma Besta Demoníaca Maior (B.D.M.), e depois que aquela coisa se ergueu do ponto à terra se fechou mantendo uma enorme rachadura no local.
Eu e minha família sobrevivemos por pouco ao terremoto causado pela queda da B.A.M (Besta Angelical Maior), meu pai e minha mãe tiveram pequenos arranhões já que assim que eles sentiram a presença das criaturas no momento em que elas surgiram eles já vieram direto me proteger enquanto cobriam os seus corpos com as suas Justa Ira, graças a isso eu acabei apenas batendo a minha cabeça em um dos pedaços da parede da nossa casa que caiu.
- Você está bem Neale? - Helyara Sanchez
- Mãe... eu estou bem, só estou me sentindo meio tonto. - Neale
- Vamos sair logo daqui, a casa pode acabar caindo mais. - Carlos Rodrigues
Meu pai foi o único que conseguiu pegar a sua espada antes de toda a parte da nossa casa do lado de fora do meu quarto acabar desabando, quando saímos pela minha janela, foi possível ver o fogo começando a consumir algumas das casas ao redor da comunidade, tudo estava um completo caos naquele momento, os sobreviventes não sabiam se ajudavam uns aos outros ou simplesmente fugiam rapidamente daquele lugar.
Toda essa confusão fez com que aquelas coisas acabassem notando que as pessoas estavam tentando fugir e isso acabou chamando a atenção e às duas pularam tão alto para cima de nós que o segundo impacto foi daquelas coisas se chocando dessa vez contra as casas e as pessoas, o anjo acabou chegando no centro da comunidade antes das duas bestas e ele fez isso correndo.
Aquelas coisas estavam comendo as pessoas com os pedaços do que um dia já foi a casa delas, enquanto uma vinha na direção da outra.
A B.A.M (Besta Angelical Maior), acabou nós alcançando primeiro enquanto era comandada pelo anjo que estava em pé no centro da comunidade que dava ordens para aquela coisa fazendo gestos estranhos com as suas mãos.
O pavor foi me consumindo enquanto minha mãe corria abraçada em mim, tentando me cobrir com o seu sobretudo para me proteger das chamas, e quando viramos a esquina em uma das ruas para tentar nós afastarmos da multidão, aquele anjo surgiu bem diante da nossa família jogando meu pai que estava na nossa frente para dentro de um dos prédios quebrados e em chamas.
Minha mãe já reagiu pronta para lutar fazendo o seu corpo brilhar com as, milhares de partículas branco escuro da sua Justa Ira, mas o meu pai surgiu novamente do prédio como um vulto rodeado de partículas amarelo-claro atacando o anjo, seu corpo estava todo coberto com as partículas da sua Justa Ira, a energia da sua Justa Ira estava tão intensa que até mesmo a sua espada estava transbordando com a sua Justa Ira naquele momento.
E naquele breve instante em que ele tirou o anjo da nossa frente ele nos mandou correr para longe dali e rápido, e mesmo com o sobretudo da minha mãe sobre a minha cabeça cobrindo boa parte da minha visão, eu ainda consegui ver o meu pai pela última vez, as costas dele pareciam largas e brilhantes com a sua Justa Ira, nós corremos na direção oposta enquanto o meu pai ficou ali naquele beco lutando contra o anjo.
Minha mãe e eu já conseguíamos ver a saída comunidade, mas foi nesse momento que a B.D.M acabou ficando sem humanos para devorar e com isso ela nos percebeu correndo próximos dela, nós não a notamos se aproximando e quando olhamos para cima foi tarde de mais, aquela coisa já estava praticamente em cima da gente, a única reação que minha mãe conseguiu ter foi me empurrar para longe enquanto as suas pernas eram esmagadas pelo corpo daquela coisa, foi tudo tão rápido, mas eu consegui ver tudo lentamente enquanto o chão se cobria com o sangue dela e o espaço a minha volta era preenchido com os seus gritos junto com as suas últimas palavras que ela havia conseguido dizer para mim antes que ela começasse a ser devorada por aquela coisa.
- Corre....pr..kirden.- Helyara Sanchez
Eu não sei o que tomou conta de mim naquele momento, mas eu me agarrei a isso e ao sobretudo que minha mãe deixou comigo e sai correndo para fora daquele lugar, eu era completamente fraco e impotente.
Corri o mais rápido que as minhas pernas me permitiam e por alguma razão eu também tive a sorte que aquelas duas bestas, a Angelical Maior e a Demoníaca Maior começaram a lutar entre si enquanto tudo virava cinza ao redor delas.
Foi então que eu notei que eu estava sendo o protagonista da mais cruel das piadas desse mundo, porque nesse exato dia.
Dez de novembro do ano dois mil, século vinte e um, era o meu aniversário de dezesseis anos onde eu tive como presente, assistir à morte dos meus pais enquanto a mais cruel das sortes me fez sair vivo.
Quando eu parei de correr tentando entender toda a minha situação eu acabei caindo com ódio e com toda a tristeza que eu tinha trancado inconscientemente no meu peito enquanto amaldiçoava e desejava a morte das raças absolutas desse mundo, eu queria rasgar aquelas coisas com as minhas próprias mãos e tudo o que passava na minha cabeça era.
- Dez de novembro...eles morreram dez de novembro. - era o que estava na minha cabeça enquanto meu corpo tremia involuntariamente.
E esse foi o meu primeiro ponto de guerra.