Capítulo 02: Floresta
Depois de algum tempo, quando eu finalmente parei de correr vi que o asfalto parecia se abraçar aos meus pés com aquela poeira úmida da noite ficando grudada nos meus tênis que agora estavam com uma aparência velha e gasta como se eu os tivesse usado a minha vida toda, e enquanto caminhava cansado lembrando do som que as minhas solas faziam antes quando ainda estavam encharcadas com o sangue da minha mãe.
Quando eu parei de focar a minha atenção no som, notei que agora junto com aquele silêncio eu estava seguindo pela estrada da rota, trezentos e cinco e ela tinha tanto as suas marcas que foram causadas pelo tempo quanto pela guerra, tudo o que eu tinha nesse momento era a minha blusa azul escura de mangas compridas por debaixo do sobretudo marrom com detalhes em prata que era da minha mãe e que agora estava sobre o meu corpo.
Então eu parei com lágrimas silenciosas que o meu coração não conseguiu guardar escorrendo pelo meu rosto enquanto os últimos momentos dela ficavam se repetindo na minha mente, de novo e de novo, me torturando conforme a noite parecia continuar avançando no mesmo ritmo lento dos meus passos, o balançar das árvores acompanhava a brisa gelada da madrugada.
Mesmo com a estrada ficando no meio de uma floresta relativamente grande e mesmo que ela parecesse não ser uma estrada muito usada ela ainda sim, estava estranhamente silenciosa.
O som dos grilos, corujas, sapos e até mesmo os passos dos animais noturnos simplesmente não pareciam existir ali, e quando eu consegui notar o meu corpo havia parado ali mesmo com o zumbido causado pelo silêncio gritando dentro dos meus ouvidos durante alguns rápidos segundos, mas que a minha mente fez questão de prolongar.
Foi só depois disso que então aquele estranho silêncio ganhou som fazendo os meus sentidos se aguçarem ao ponto em que toda a minha própria pele ficasse toda arrepiada enquanto os meus olhos pareciam insistir em procurar algo na escuridão.
O som que eu estava começando a entender eram de rosnados baixos que vinham acompanhados do clique-clack de várias patas, e mesmo estando com o meu corpo cansado as minhas pernas moveram-se antes mesmo que o meu cérebro pudesse pensar no que fazer ou para aonde ir, só acabei aceitando que eu precisava continuar fugindo enquanto me jogava para fora da estrada e adentrando pelo lado esquerdo da floresta o mais rápido possível para me esconder do que fosse que estivesse atrás de mim.
Quando parei as minhas costas estavam apoiadas em uma árvore alta e larga de aparência velha, mas aquelas coisas ainda continuavam se aproximando enquanto ainda mantinham os seus rosnados baixos, conforme elas vinham se aproximando e eu tentava controlar a minha respiração ofegante tampando a minha boca e nariz com medo de que ela pudesse ser ouvida e quanto mais elas se aproximavam mais rápido o meu coração parecia bater contra as minhas costelas, essa foi a primeira vez que eu senti que queria que ele parasse de bater para não me denunciar.
Naquele momento em que apoiei a minha cabeça contra aquela árvore, pronto para espiar as minhas próprias costas enquanto os meus olhos insistiam em tremem com o meu medo de ser descoberto, mas mesmo assim eu olhei e quando uma delas saiu da escuridão dos arbustos com as outras surgindo logo atrás, e eu entendi que aquelas eram B.D-m (Bestas Demoníacas menores), elas devem ter saído do ponto que se abriu no chão junto com aquela outra mais poderosa.
Os olhos delas tinham um brilho intenso e avermelhado que pareciam lembrar as portas do próprio inferno, a maioria delas parecia ser quadrúpede enquanto as outras pareciam ser capazes de andar tanto em quatro patas quanto nas duas de trás, as suas peles pareciam ser duras como carapaças carmesins negras que durante a noite era como se devorasse a pouca luz do ambiente com ondas de calor envolvendo os seus corpos enquanto as suas garras cravavam no chão sempre que davam um passo à frente.
Eu havia contado cinco delas vasculhando a área próxima a mim, farejando como se sentissem o cheiro de alguma coisa próxima, foi quando as minhas mãos desceram da minha boca e se agarraram ao sobretudo da minha mãe enquanto eu tentava controlar o meu medo para que aquelas coisas não ouvissem o meu coração acelerado.
E conforme me acalmava a minha mente era invadida com lembrança da minha infância com o meu pai, na época em que eu ainda tinha os meus oito anos de idade e ficava observando ele treinar com a sua espada.
Ele praticava com ela todos os dias e mesmo assim tinha momentos em que ele parecia simplesmente se tornar mais forte e eu não entendia como aquilo acontecia.
“— Pai? porque você parece se tornar mais forte assim do nada? — Neale” — como qualquer criança que ama e admira os seus pais, os meus olhos sempre carregavam a um brilho cheio de admiração.
“— Hmm…, ah! É verdade, você não consegue ver o que eu estou fazendo não é? bom deixa eu ver… isso acontece porque agora eu estava treinando com a minha Justa Ira.- Carlos Rodrigues”
“ — E o que é Justa Ira? — Neale”
“— Como eu devo te explicar…, Justa Ira é o nome do poder que nós humanos damos para quando alguém manifesta a energia da sua própria alma, mas tem poucos humanos que são capazes de usar. — Carlos Rodrigues”
O meu pai sempre parecia falar mantendo um leve sorriso no seu rosto.
“— Conseguiu entender direitinho? — Carlos Rodrigues”
“— Hmm… acho que sim. — Neale”
“— Acha… tudo bem, vem cá, me dê a sua mão, vou tentar te mostrar na prática. — Carlos Rodrigues”
Naquela hora em que o meu pai tocou a minha mão com a sua Justa Ira, foi como se algo fizesse todo o meu corpo tremer de uma só vez, mas só por dentro, era como se aquela energia que me invadiu estivesse procurando algo dentro de mim.
“— O quê?... O que foi isso? — Neale”
“— Você conseguiu sentir?… isso foi a minha Justa Ira tentando ”conversar” com a sua alma. — Carlos Rodrigues”
O meu pai falava enquanto mantinha um certo olhar de surpresa no seu rosto.
“— Aqui segure no fio da minha espada… consegue sentir alguma coisa também? — Carlos Rodrigues”
Eu fiquei tão rapidamente fascinado com aquilo que só consegui balançar a minha cabeça, empolgado após falar que havia sentido um pouco de algo naquela lâmina.
“— Isso que você sentiu também foi um pouco da minha própria Justa Ira armazenada nessa lâmina, normalmente essa energia não se armazena nas coisas, tirando os metais… bom agora chega de explicações por hoje, vai lá ver se a sua mãe precisa de algo está bem. — Carlos Rodrigues”
“— Está bem. — Neale”
Eu saí correndo atrás da minha mãe, empolgado com o que eu havia acabado de sentir deixando o meu pai sozinho com a sua espada.
“— Quem diria, ele consegue sentir… — Carlos Rodrigues”
De volta ao momento presente onde eu continuava abraçado a mim mesmo como se estivesse tentando segurar o meu medo dentro do meu corpo, foi quando eu senti uma das partes geladas do sobretudo que estava usando naquele momento, era um dos enfeites de prata que cobriam quase todo o sobretudo.
Foi quando eu entendi que uma parte da Justa Ira da minha mãe devia estar armazenada naqueles enfeites e isso podia estar me tornando um alvo para aquelas coisas, então tentando agir o mais rápido possível eu acabei tendo que rasgar uma das poucas coisas que haviam sobrado da minha família, separei toda a parte superior da inferior do sobretudo que agora cobria apenas uma parte das minhas costas que eram invadidas pelo vento gelado que acompanhava a noite.
Sem fazer movimentos bruscos peguei um punhado de terra do chão para dar mais peso para aquele pedaço de tecido rasgado, e quando terminei o joguei em uma direção oposta à minha com toda a força que eu tinha.
Assim que o barulho da queda chegou até às bestas elas saíram correndo atrás, e eu ainda esperei um pouco antes de voltar a correr na direção oposta que parecia continuar seguindo em direção a estrada, mas por dentro da floresta.
Enquanto eu corria para longe aquelas bestas haviam chegado no tecido e só as garras delas já fizeram o tecido meio úmido queimar com o calor antes mesmo delas começaram a rasgar, nesse tempo eu já estava longe correndo com uma força de vontade que eu nem sabia que tinha.
Mas outra das bestas apareceu correndo atrás de mim com uma velocidade incrível, pelo visto eram seis delas e aquela logo me alcançaria sem nenhuma dificuldade enquanto eu estava sofrendo só para desviar das árvores e do terreno irregular.
Olhando para trás, coisa que eu talvez não devesse ter feito, ela estava quase em cima de mim, prestes a me matar quando eu caí rolando morro abaixo batendo em arbustos e pedras cravadas no solo enquanto um rugido distante que invadia a floresta a fez parar de me perseguir para olhar ao seu redor, como se aquilo fosse um chamado, ordenando para que voltassem.
Assim ela só sumiu e eu estava em algum canto da floresta coberto de lama, folhas e possíveis arranhões, mas levantei-me rapidamente não havia tempo para parar e verificar se eu tinha quebrado alguma parte do meu corpo ou não, eu tinha que continuar caminhando.
“— Pr… Kirden. — Helyara”
Eu tinha que chegar até lá…
De algum jeito…
Até essa Kirden.