Capítulo 03
Mesmo após ter caído e rolado alguns metros morro abaixo eu ainda consegui alterar durante um tempo entre corrida e caminhada antes das minhas pernas começarem a protestar com dores fortes que se estendiam por todo o meu corpo fazendo com que ele se recusasse a tentar fazer qualquer outro mínimo movimento.
E embora não parecesse ter mais daquelas coisas correndo atrás de mim, aquela sensação fria nas minhas costas continuava ali, talvez fosse o medo tentando me consumir ou apenas a brisa noturna que parecia se recusar a sumir só para continuar me lembrando a cada um dos meus passos do rasgo em meu sobretudo.
Enquanto eu seguia pela floresta tentando retornar a estrada, aquele lugar parecia se recusar a ser o meu aliado, talvez pela escuridão da noite parecer sempre consumir a iluminação a minha volta ou devido ao meu cansaço está me atrapalhando, mas eu não conseguia andar sem tropeçar em algo naquele lugar, mesmo quando tentava andar em silêncio não durava muito, sempre parecia ter algum galho se quebrando bem abaixo dos meus pés, até mesmo as folhas ainda verdes que estavam ali caídas no chão pareciam ser inimigas do silêncio, as aves noturnas pareciam estar mortas e empalhadas, elas não se mexiam nem mesmo para respirar, até as estranhas árvores pareciam ranger os seus galhos para elas mesmas guardando o som dos seus movimentos em suas cascas, tudo ali estranhamente gritava a todo o momento:
FIQUE PARADO!
Depois de ter caminhado por mais algum tempo, mesmo com tudo ao meu redor dizendo para fazer o oposto, eu vi, ainda estava um pouco longe, mas a estrada se mostrava bem na minha frente.
Então caminhando em direção a estrada a minha direita acabei avistando um servo que estava comendo alguma coisa no chão calmamente e quando o vento veio tocando o seu pelo ele rapidamente levantou a sua cabeça e quando o seu olhar pareceu se encontrar com o meu, ele saiu correndo após perceber que não estava mais só.
Pode ter sido apenas um breve momento simples e bobo, mas esse pequeno momento colocou um suave e gratificante sorriso em meu rosto cansado.
“Então até logo…” comentei em minha mente.
E assim que pisei com os meus dois pés na estrada novamente fui recebido com os primeiros raios de sol querendo alcançar a minha pele ao mesmo tempo que a sua luz era refletida em meus olhos escuros como se eles estivessem refletindo várias estrelas ao mesmo tempo, mesmo que ele ainda estivesse nascendo distante no horizonte.
Ainda com apenas aqueles pequenos raios de sol anunciando o nascimento de um novo dia, consegui ver não muito longe dali uma silhueta de um pequeno prédio com nada ao seu redor.
Assim que me aproximei mais do prédio pude ver agora sem a luz do sol atrapalhando a minha visão que ele era um pequeno prédio de dois andares com algumas janelas e paredes quebradas do lado de fora, antes de entrar percebi que acima da porta havia o símbolo de um punho cerrado cercado por chamas, mas esse símbolo tinha sido dividido por uma rachadura na parede ao mesmo tempo que ele parecia ter sido vandalizado por alguém.
Por dentro no primeiro andar mesas e cadeiras estavam jogadas e espalhadas, algumas até mesmo estavam quebradas, a luz do sol ainda não havia chegado dentro daquele lugar, mas dava para ver claramente que haviam várias marcas de luta e sangue das paredes até o teto, mas sem nenhum corpo, a torneira e os armários estavam quebrados junto com os pratos, apenas alguns talheres tinham sobrevivido.
Subindo para o segundo andar consegui ver que ele era o mais inteiro, com apenas duas das seis camas quebradas, era o mesmo para os armários que tinha naquele espaço, os que não estavam quebrados estavam cadeados.
Quando desci novamente para o andar de baixo comecei a vasculhar as coisas, como não havia sobrado muito ali concentrei os meus esforços em procurar por algo como um pé de cabra ou algo que pudesse me ajudar a abrir os armários que ainda estavam trancados enquanto meu estômago continuava se contorcendo de fome.
Então em cima do único armário do primeiro andar que ainda dava para considerar como inteiro encontrei um tubo de ferro que parecia ser resistente o bastante para no mínimo me ajudar a quebrar alguns dos cadeados, e quando voltei para o andar de cima após distribuir algumas batidas para conseguir abrir o primeiro armário que não tinha nada dentro além de teias de aranha e um único pé de uma bota velha, e foi assim com todos os outros.
No último armário que estava com a sua porta amassada como se ela tivesse sido atropelada e com o tubo de ferro agora praticamente destruído após ter quebrado tantos cadeados, o que tornou o meu trabalho um pouco mais difícil e com a porta naquele estado também não foi nada fácil de abrir a porta que ficou gemendo muito alto antes de finalmente ceder.
Na primeira prateleira daquele armário tinha algumas pequenas caixas vazias sem nem um sinal do que havia sido guardado ali dentro, na segunda prateleira tinha uma caixa cheia de parafusos e pregos acompanhados de uma chave de fenda, na última prateleira tinha uma pequena mochila com uma cor verde musgo escuro, com um zíper principal e outros dois bolsos laterais com o mesmo símbolo de um punho cerrado bordado no meio da mochila, dentro dela tinha um tipo de faca que era um pouco menor do que um facão, um tipo de diário com as siglas O.M. gravadas na capa e por muita sorte também tinha um pacote de ração para humanos.
A maioria já tinha sido aberto, mas ainda havia sobrado um que estava fechado ao lado de um pequeno cantil que tinha uma aparência bem gasta, toda a minha atenção se voltou para aquelas duas coisas de um jeito que nem mesmo acabei notando quanto eu havia largado o tubo de ferro que estava na minha mão.
Assim que terminei de comer e beber da água daquele cantil, água essa que quase tinha gosto, me sentei em uma das camas próximas à janela pensando em dar uma rápida olhada naquele diário quando fui tomado pelo cansaço que me derrubou ali mesmo antes que eu pudesse ser capaz de ler a primeira página, e enquanto eu dormia o sol havia subido o suficiente para se tornar visível por completo com a sua luz alcançando o segundo andar daquele prédio e a mim com meus longos cabelos pretos que caíram cobrindo o meu rosto enquanto eu era suavemente aquecido, era o meu primeiro descanso depois de tanta coisa ter acontecido.