Algumas semanas após a rotina de treino, Gabriel já havia evoluído bastante
Os dias já não eram marcados por descobertas, mas pelo refinamento de tudo o que Gabriel havia aprendido. Seu controle sobre o seu Éter se tornou muito mais estável, e ele já não dependia dele para tudo, o Sentire já funcionava quase de maneira instintiva e o Aegis respondia a sua determinação, ainda que vacilasse com frequência.
Naquela manhã, Lilith o aguardava diante de uma longa mesa coberta por pergaminhos, frascos de tinta, penas e diversas placas de pedra gravadas com símbolos antigos.
— Hoje começaremos algo completamente diferente, você já aprendeu a manipular o Éter, agora conhecerá o Arcano.
Gabriel se aproximou curioso.
— Existe diferença?
— Muita. — Lilith sorriu. — O Éter é uma energia que flui naturalmente pelo corpo e pelo mundo, já o Arcano é uma linguagem, você não impõe sua vontade ao Arcano, você conversa com ele através das runas, sem contar que o Arcano acaba sendo muito mais poderoso do que o Éter básico, além do mais difícil de se manusear.
Lilith cruzou os braços ao lado.
— Pense nas runas como palavras, separadas, possuem um significado simples, mas combinadas corretamente, tornam-se frases, e essas frases tornam-se feitiços.
Lilith desenhou lentamente um círculo sobre uma placa de pedra e diversas runas surgiram em sequência, formando um padrão complexo.
— Cada símbolo possui uma função, algumas representam elementos, outras intensidade, alcance, duração, formas, quanto maior o domínio da linguagem arcana, mais complexo pode ser o feitiço. —Assim que concluiu o desenho, o círculo brilhou suavemente. — Observe.
Uma pequena chama surgiu sobre o centro do círculo, queimando sem consumir absolutamente nada, que fez Gabriel arregalou os olhos.
— Então qualquer pessoa pode usar qualquer elemento?
— Em teoria, sim. — respondeu Lilith. — Mas compreender uma linguagem não significa dominá-la, um usuário de afinidade com fogo continuará manipulando fogo de forma muito mais eficiente usando apenas o próprio Éter do que através de um círculo arcano.
Amara colocou um novo pergaminho diante de Gabriel.
— Comece pelo básico.
Ela desenhou duas pequenas runas.
— Terra. — Depois outra. — Água. — Em seguida acrescentou mais alguns símbolos menores. — Crescimento... estabilidade... vida.
Gabriel observava cada traço com atenção.
— Não copie apenas o desenho, entenda por que cada runa está aqui.
Ele assentiu e começou lentamente a reproduzir o círculo. O primeiro ficou torto, o segundo perdeu parte da simetria, mas no terceiro, finalmente conseguiu concluir todas as inscrições, fazendo Lilith sorrir.
— Agora alimente o círculo com uma pequena quantidade de Éter.
Gabriel ajoelhou-se, e deixou seu Éter percorrer lentamente cada uma das runas e o círculo respondeu brilhando por alguns segundos, mas nada aconteceu, até que uma pequena rachadura surgiu no centro da terra e um broto atravessou o solo, pequeno e frágil, mas duas folhas verdes lentamente se abriram sob a luz do sol, e Gabriel abriu um enorme sorriso.
— Funcionou...
— Muito bem. — Lilith respondeu satisfeita. — Não foi um feitiço poderoso, mas compreendeu o princípio. — Ela observava em silêncio. — Você aprende rápido demais...
Gabriel coçou a nuca.
— Acho que ainda tenho muito o que melhorar.
— Tem. — Respondeu rindo. — Mas esse é um ótimo começo.
Naquela mesma tarde foi novamente até o pátio após o treino básico de Arcano, onde Kaelis já o aguardava segurando uma espada verdadeira.
Gabriel parou por um instante.
— Espadas... de verdade?
— Você já passou da fase das espadas de madeira. — Ela ergueu a lâmina.
— Se errar... vai se cortar.
Gabriel respirou fundo.
— Entendido.
Kaelis sorriu discretamente.
— Então venha.
Assim que o combate começou, Gabriel percebeu que tudo havia mudado, Kaelis já não diminuia mais a velocidade, cada golpe era preciso, cada estocada buscava um ponto vital e Gabriel desviava utilizando o Sentire, sentindo os movimentos antes mesmo de enxergá-los, ambas as lâminas colidiram diversas vezes.
Então Amara surgiu ao fundo com os demais e ergueu discretamente uma das mãos e pequenas flechas de luz surgiram ao redor dela.
— Não olhe só para Kaelis.
As flechas partiram, mas Gabriel desviou da primeira, depois da segunda, girando o corpo evitando uma estocada e saltando para trás enquanto outras duas flechas cruzavam exatamente onde sua cabeça estaria.
"Os dois ao mesmo tempo..."
O ritmo aumentava a cada segundo, Kaelis pressionava pela frente e Amara atacava à distância.
Gabriel começou a compreender que o verdadeiro objetivo daquele treino não era derrotar nenhuma das duas, mas sim manter a calma.
— "Respiração, concentração, sentire."
Tudo precisava funcionar ao mesmo tempo e por vários minutos conseguiu acompanhar ambas sem cometer um único erro, até que em um instante a satisfação surgiu.
— "Consegui acompanhar..."
E esse instante foi o suficiente, a espada de Kaelis deslizou rapidamente sobre seu ombro, um fino corte surgiu fazendo Gabriel recuar imediatamente.
Kaelis baixou a espada.
— Viu?
Ele levou a mão ao ombro.
— Eu perdi a concentração...
— Exatamente.
Amara dissipou todas as flechas de luz.
— Não foi falta de técnica.
Kaelis caminhou até ele.
— Foi orgulho.
Gabriel permaneceu em silêncio, e ela sorriu.
— Mas você passou.
Ele levantou a cabeça.
— Passei?
— Seu Sentire já funciona naturalmente. — Ela bateu levemente em seu peito. — Agora você só precisa amadurecer.
Os demais heróis o parabenizaram.
— Parabéns garoto. — Disse Aeron se aproximando e dando um tapinha em suas costas. — Não são muitos que sobrevivem a combinação da Kaelis e Amara.
— Desviou de tantos golpes críticos, impressionante. — Alastor o elogiou.
— Os resultados dos seus treinos realmente valeram a pena em. — Respondeu Lilith.
Amara se aproximou dele.
— Parabénnsss Gabriel. — Ela deu um tapa forte em suas costas.
— Ai... obrigado gente. — Ele sorriu. — Eu vou ficar ainda mais forte e vou devolver esse corte Kaelis.
Todos ficaram em silêncio.
— Ora ora... — Lilith riu surpresa.
— Ahhhh, então venha garoto. — Kaelis estendeu a espada na direção dele. — Quero ver você tentar me superar um dia.
Todos riram, e o dia terminou com êxito na evolução de Gabriel.
Já na manhã seguinte Kaelis o chamou novamente.
— Hoje continuaremos o Aegis.
Gabriel apenas assentiu, já não precisava de explicações, já no pátio ele fechou os olhos e respirou profundamente, a sua determinação começou a preencher cada parte do corpo e uma película translúcida cobriu lentamente sua pele.
Fazendo Kaelis sorrir.
— Melhorou bastante.
Ela ergueu a mão.
— Preparado?
— Sim.
O cascudo acertou exatamente o topo de sua cabeça, mas Gabriel permaneceu imóvel, ele piscou algumas vezes, levou a mão ao local.
— Quase não dói. — Comentou, com os seus olhos brilhando.— Funcionou!
Kaelis sorriu satisfeita.
— Funcionou...
Mas antes que ele pudesse comemorar um peteleco atingiu sua testa.
— AI!
Gabriel levou imediatamente as duas mãos ao rosto e Kaelis começou a rir.
— Cuide dessas suas brechas.
Ele massageava a testa.
— Você fez isso de propósito...
— Claro.
Ela cruzou os braços.
— Corrija isso, é sua maior fraqueja.
Gabriel acabou rindo também.
— Parabéns Gabriel, o seu Aegis básico foi concluído.
Ele sorriu orgulhoso.
— Obrigado.
— Ainda falta muito até dominá-lo... mas agora podemos seguir em frente.
Ela caminhou alguns passos pelo pátio.
— O próximo Thyr será o Impetus.
Gabriel inclinou a cabeça.
— E o que ele faz?
Kaelis olhou para trás.
— Você descobrirá depois.
No dia seguinte, era o treino de Alastor, que já o esperava diante da velha sala escura.
— Vamos.
Gabriel sorriu.
— O pega-pega de novo?
— Quase isso.
Alastor retirou duas pequenas adagas da cintura e jogou uma delas para Gabriel.
— Hoje o objetivo mudou.
Gabriel segurou a arma.
— Hoje o objetivo será derramar uma gota de sangue do outro.
Gabriel arqueou uma sobrancelha.
— Só isso?
Alastor abriu um sorriso discreto.
— Como já está chegando ao fim do treinamento... espero que consiga.
— "...Ou não." pensou consigo mesmo.
Os dois entraram na sala, e assim que a porta fechou ambos desapareceram. O silêncio dominou completamente o ambiente, Gabriel controlou a respiração e já não precisava mais fechar os olhos para se concentrar.
— "Sentire."
E após alguns segundos ele disparou imediatamente, mas encontrou apenas uma pequena xícara sobre um armário e a voz de Alastor ecoou das sombras.
— Errado.
Gabriel virou lentamente o rosto.
— Você me encontrou.
— Sim...
— Você deixou isso escapar.
Gabriel franziu a testa.
— O quê?
— Sua empolgação.
Silêncio, Gabriel podia ouvir sua voz, mas não conseguia senti-lo, mesmo com o Sentire.
— Sempre que me localiza... sua presença muda por um instante.
Gabriel permaneceu imóvel.
— "Kaelis dizia para impor minha intenção, mas pra vencer o Alastor eu preciso fazer exatamente o contrário." — Ele parou por um instante. — "...eu preciso escondê-la completamente."
Ele respirou lentamente e sua mente esvaziou, e sua presença desapareceu, Alastor arregalou discretamente os olhos.
— "...Ele conseguiu?"
Após alguns segundos um arrepio percorreu suas costas, ele girou imediatamente, as duas adagas colidiram, as faíscas iluminaram o quarto por um breve instante.
Alastor sorriu.
— Isso.
Após se empurrarem para trás os dois desapareceram novamente entre as sombras, e a perseguição continuou durante algumas horas, Gabriel já conseguia esconder quase totalmente sua presença, mas mesmo assim Alastor ainda mantinha vantagem, dois pequenos cortes apareceram em suas roupas, um na manga de sua camisa e outro próximo à cintura, mas sem uma gota de sangue.
— "Droga..." — Gabriel respirava pesado. — "Mesmo usando o Sentire..."
— Não deixe os sentimentos falarem por você, controle-os. — A voz de Alastor ecoava pela escuridão do quarto.
— "Não consigo prever totalmente seus movimentos."
Enquanto isso Alastor pensava.
— "Será que estou levando isso a sério demais?"
Os dois voltaram a desaparecer, e então Gabriel fez algo inesperado, ele revelou deliberadamente uma pequena quantidade de Éter, apenas por um instante.
Alastor sorriu.
— "Achou que eu cairia nisso?" — Ele seguiu imediatamente o rastro, mas pelo lado oposto, e no segundo seguinte encontrou Gabriel.
As adagas colidiram novamente, os dois se encararam por apenas um instante, no olhar de Gabriel havia determinação, no de Alastor havia expectativa, os dois voltaram a desaparecer, poucos segundos depois uma presença surgiu atrás de Alastor, ele girou imediatamente, e imediatamente outra apareceu ainda mais forte, e sem pensar ele golpeou ambas, mas a lâmina atravessou apenas duas xícaras, fazendo-as caírem e revelando a posição de Alastor.
— "...Isca."
Antes que pudesse reagir, Gabriel surgiu exatamente em seu ponto cego. A adaga deslizou suavemente por sua bochecha, e uma única gota de sangue escorreu, e após alguns segundos em silêncio Gabriel sorriu discretamente.
— ...E você morreu.
As luzes do quarto se acenderam, Alastor tinha o controle sobre a iluminação da sala, e ele levou lentamente a mão ao pequeno corte e depois começou a rir.
— Ora... ora... — Ele olhou para Gabriel. — Você conseguiu.
Gabriel abaixou a adaga.
— Acho que entendi como você me lia.
— Explique. — Alastor relaxou.
— Meu Éter sempre escapava um pouco quando eu ficava nervoso ou animado, você usava isso para descobrir onde eu estava... então fiz justamente o contrário. — Ele apontou para os cacos das xícaras. — Impregnei elas com meu Éter e deixei vazar na hora certa, enquanto você seguia as falsa presenças... eu achei a brecha necessária.
Alastor permaneceu olhando para ele por alguns segundos e depois abriu um sorriso sincero.
— Muito esperto, garoto. — Gabriel devolveu a adaga, e ele as guardou. — Parabéns.
Ele passou por Gabriel em direção à porta.
— Mas não se acostume.
Ele olhou por cima do ombro.
— Na próxima... eu definitivamente mato você.
Gabriel permaneceu alguns instantes em silêncio enquanto Alastor ajeitava as adagas e caminhava em direção à porta. Ele hesitou por um momento, mas antes que o herói pudesse sair, resolveu perguntar.
— Alastor... essas habilidades... você era um assassino, não era?
Alastor parou no mesmo instante. Os seus olhos desceram até a adaga presa à cintura e seus dedos apertaram lentamente o cabo da arma, ele permaneceu imóvel por alguns segundos antes de soltar um longo suspiro.
— ...Ah, que se dane... sim, eu era, mas isso foi antes de conhecer a Kaelis, ela comentou alguma coisa com você, não comentou? Sobre como nos conhecemos.
— O básico... ela contou a história dela e a do Riven.
Alastor deu um sorriso sem humor.
— A minha não é como a deles, não existem castelos bonitos nem finais honrosos... só sangue, vingança, ódio, rancor e desgraça.
Gabriel apenas assentiu em silêncio.
— Eu e Amara nascemos em uma família de assassinos, eles escondiam tudo atrás da fachada de uma tradicional família de médicos aristocratas, mas curar nunca foi o verdadeiro objetivo, nós estudávamos o corpo humano para compreender seus pontos vitais, suas fraquezas, a maneira mais eficiente de matar alguém, e desde pequenos fomos moldados para isso, não era uma escolha... era uma tradição, uma regra... um destino.
Sua voz diminuiu naturalmente.
— Amara nunca conseguiu seguir esse caminho, diferente de mim ela tinha um coração bom demais... e por isso ela era punida constantemente. — Sua voz se contorceu levemente. — ... torturada, e o pior é que eu nunca percebi, nós quase nunca nos encontrávamos, mas, quando acontecia, ela sempre sorria para mim como se estivesse tudo bem.
Gabriel sentiu um aperto no peito.
— Enquanto ela sofria, eu era tratado como um prodígio, cresci nas sombras, vivi nelas, e minha Umbracinese despertou naturalmente, já Amara era exatamente o oposto.
Ele sorriu para cima, encarando a luz do lustre.
— Ela era luz, gentileza... bondade, e ela acabou despertando a Luminocinese, mas as torturas constantes, os venenos e os castigos destruíram seu corpo pouco a pouco, tornando-o cada vez mais frágil.
O silêncio voltou a dominar o quarto.
— Quando completamos dezesseis anos fui escolhido como sucessor da família, nosso pai já havia morrido. e todos os demais me escolheram, mas eu ainda carregava algo que eles desprezavam... humanidade, e tudo isso só existia por causa dela.
Ele virou o rosto lentamente.
— Como resposta...
— Eles decidiram matar a Amara... — completou Gabriel quase num sussurro.
Alastor confirmou com um pequeno movimento de cabeça.
— Naquele dia eu havia recebido uma missão, precisava assassinar um rei de outro reino, meu tio foi enviado comigo para garantir que eu cumprisse o serviço, mas, no caminho, senti que alguma coisa estava errada e resolvi voltar.
Seus punhos se fecharam.
— Meu tio tentou me impedir, disse que eu havia ficado fraco... e tentou me matar quando percebeu que eu tinha entendido o que estava acontecendo e não iria abandona-la, e então... eu arranquei o coração dele com as minhas próprias mãos e o deixei apodrecer onde caiu.
Gabriel permaneceu estático.
— Quando cheguei em casa... encontrei a Amara.
A voz de Alastor quase desapareceu.
— Ela estava caída no chão... cercada pelas pessoas que um dia chamei de família, coberta de sangue, hematomas e lágrimas.
Ele desceu lentamente os olhos.
— Foi naquele instante que deixei de ser humano.
Seu olhar tornou-se completamente frio, as luzes do quarto piscaram por um instante.
— Não houve discussão... nem luta... apenas um massacre.
Outra pausa.
— Depois deixei uma carta, para qualquer idiota que restou e pensasse em buscar vingança.
"Aos que restarem... ou a ninguém, talvez.
Esta família me ensinou a matar. Me moldou como uma lâmina, como se eu jamais tivesse nascido com um coração.
Mas vocês erraram ao acreditar que eu seria cego como todos os outros.
Erraram quando tocaram nela.
Vocês criaram um monstro.
E esse monstro escolheu proteger... não obedecer.
Cada golpe desferido esta noite foi uma resposta.
Um nome riscado, um grito silenciado, uma cicatriz lavada, uma dívida paga
Amara viverá!
Mesmo que eu precise carregar para sempre o rancor, o ódio e o peso de ter exterminado minha própria família.
Não chamem isso de traição.
Eu fui fiel à única coisa verdadeira que encontrei neste inferno de ferro e sangue.
O amor de uma irmã que ainda sorria em meio a esse inferno.
Que o silêncio desta casa seja eterno.
Que as sombras contem esta história.
Eu jamais voltarei.
E aos que desejarem vingança...
Venham.
Eu os reunirei ao restante... na mesma pilha de cadáveres.
Alastor"
Quando terminou de recitar aquelas palavras, Alastor permaneceu calado durante alguns segundos antes de continuar.
— Depois fugi com Amara, vivi como ladrão, mercenário... qualquer coisa que nos mantivesse vivos, até o dia em que encontrei e tentei roubar Kaelis dentro de uma taberna. — Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto. — Eu achei que seria fácil.
Gabriel acabou sorrindo também.
— E não foi né...
— Nem um pouco, Riven me derrubou antes que eu pudesse perceber, e depois disso Kaelis decidiu nos acolher após um interrogatório imenso.
O sorriso desapareceu novamente.
— Lilith tentou tratar Amara e foi aí que descobrimos a verdade, ela estava amaldiçoada, o rancor daqueles que morreram naquela noite havia se voltado contra ela, consumindo seu corpo lentamente, e cada vez que utilizava Éter, a maldição avançava ainda mais.
Gabriel apertou os punhos.
— Eu consegui me adaptar ao grupo, mas Amara não, ela passou a atuar apenas como suporte, porém continuava piorando. Então me afastei dos heróis para cuidar dela.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Um dia ela teve pesadelos com nossa antiga casa e saiu escondida enquanto eu dormia e voltou até lá, cunca contei o que realmente aconteceu naquele lugar.
Sua voz tornou-se pesada.
— Ela encontrou apenas ruínas, as cinzas, o cheiro de sangue ainda impregnado nas paredes e continuou caminhando pelos corredores onde era torturada e reviveu cada lembrança.
Gabriel já conseguia imaginar a cena.
— No salão principal encontrou minha adaga... e a carta presa a uma coluna, ela leu tudo... caiu de joelhos... e chorou.
Gabriel abaixou a cabeça.
— Não chorou por eles... chorou por mim.
Alastor respirou fundo.
— Antes de ir embora, um dos sobreviventes apareceu buscando vingança, mas mesmo doente, Amara lutou e conseguiu derrotá-lo... mas quando eu cheguei...
Sua voz falhou pela primeira vez.
— ...ela estava mais pálida que o normal, cambaleando, eu corri para a segurar, e ela estava morrendo em meus braços.
Seus dedos tremiam discretamente.
— Foi a primeira vez que senti medo, medo de perder a única pessoa que realmente importava para mim.
Ele respirou profundamente antes de continuar.
— Foi naquele instante que despertei algo que não existe em registro algum, uma variação corrompida do Vita... que eu nomeei como Umbra Vitae.
Gabriel ergueu a cabeça.
— Um Vita que utiliza a morte... em vez da vida, a maldição dela era alimentada pelo rancor dos mortos, então usei a própria morte daqueles que a amaldiçoaram para consumir o rancor restante dela e funcionou.
Alastor sorriu discretamente.
— Amara foi curada.
O sorriso permaneceu apenas por um instante.
— E eu perdi minha Umbracinese para sempre como resposta.
Os dois permaneceram em silêncio.
— Mas eu nunca me arrependi, nem por um único segundo.
Gabriel demorou alguns instantes para encontrar palavras.
— Espera... então você perdeu o seu Éter?
Alastor assentiu.
— Pedi para a Lilith confirmar isso... e também pedi que guardasse segredo, quando salvei a Amara, minhas sombras desapareceram completamente, mas para ser sincero... eu nunca me importei muito, mas eu ainda consigo me esgueirar por algumas sombras do castelo graças a Lilith.
Ele fechou lentamente a mão.
— Só dela estar viva... já valeu qualquer preço.
Gabriel sorriu de leve.
— Você realmente ama sua irmã.
Alastor soltou uma pequena risada.
— Mais do que qualquer coisa neste mundo.
Os dois deixaram o quarto em silêncio. Assim que atravessaram a porta, encontraram Aeron encostado na parede do corredor, de braços cruzados, com os olhos marejados de lágrimas, como se já estivesse esperando pelos dois havia algum tempo.
— Cara... essa história é linda e trágica ao mesmo tempo.
Alastor fechou o rosto no mesmo instante.
— Para de chorar seu bebezão chorão.
Aeron começou a chorar e abraçou Alastor, o confortando por tudo, enquanto Gabriel ria da situação.