PRÓLOGO: EM BUSCA DE UM ASSISTENTE

11/02/2017
Ribeirão Preto, São Paulo
As engrenagens vacilaram uma última vez naquele fim de tarde com o Dr. Benício que, ao notar mais um teste falho, jogou longe a chave de fenda e partiu para o computador, digitando o seu relatório. E como havia concordado — por contrato —, começaria as entrevistas.
Finalizou as observações e o parágrafo sobre as prováveis razões de sua falha, berrando:
— Zé da Cuia, pode mandar!
Um apelido desagradável ao seu quase ex-assistente que fez questão de agendar as entrevistas daquele dia. Zé da Cuia surgiu por conta de um acidente durante uma experiência — uma da qual Benício rejeitou desde o início a necessidade de fazê-la.
Uma vez deixou um conjunto de cogumelos de ponta cabeça, devido a uma tese de que as frutas — quando postas de cabeça para baixo — distribuem melhor o açúcar e consequentemente, aceleram o amadurecimento. Ocorre que os cogumelos murcharam, e como estavam presos ao teto, após o almoço de ambos, estes caíram nele no retorno e o doutor riu, muito.
Deste modo, até parece que se conheciam pelo menos há alguns meses, no entanto, mal faziam duas semanas desde que ele havia tomado a pior decisão de sua vida. Benício era desagradável, dono de um caráter imoral e indubitável de questão, porque seu comportamento era desprezível. Não tinha como negar.
— O que é um círculo em uma esfera? — perguntou o doutor ao jovem que abriu a porta, sorridente; sem sequer dar-lhe a chance de ser visto por si.
— A representação da segunda dimensão de uma terceira? — respondeu, confuso.
— Criança, se está me perguntando, nem deveria pisar nesse laboratório. Próximo! — gritou, enquanto caçava a chave pelo chão.
— Senhor Érico! É um prazer te conhecer pessoalmente, eu sou um grande fã do seu trabalho! — brandou outro candidato, entrando na sala branca.
— Dean ou Sam?¹ — revirou os olhos, encarando o jovem.
— Quem?
— Saia daqui e nem pense em voltar. Próximo!
— Boa tarde, Dr. É um grande prazer participar dessa entrevista com o senhor.
— Claro, deve ser mesmo. Você tem três segundos para achar a chave de fenda! — exclamou depressa, assustando o jovem.
— Como… o quê — balbuciou, olhando para todos os lados.
— Um… Dois… Vaza do meu laboratório, anda, xô daqui! — berrou, se deparando com a chave próximo à porta. — Próximo!
— Com licença… Dr. Benício? — abriu a porta mais um.
— Nem entra aqui — observou o cabelo de cuia e o expulsou, rindo dele — tu é ridículo, troca esse cabelo, quer saber. Raspa! Venha o próximo!
— Oi, professor doutor Érico Benício — entrou uma jovem, se deparando com Benício curvado como um cão, segurando a chave com a boca.
Ele largou, abrindo a boca e a seguiu latindo várias vezes. Ela foi embora. Talvez desista de participar do meio acadêmico com veteranos. Quando ela saiu, ele voltou e pegou a chave de fenda, indo contra a porta e abrindo-a por conta própria, se deparando com um estudante muito alto e pálido como um cadáver.
— Não! — esbravejou, batendo a chave no rosto dele.
Não é como se quisesse um assistente feito um Frankenstein² o acompanhando na pesquisa durante as longas noites. Naquele momento, Zé da Cuia chegou na porta, indignado com mais um doutorando saindo do prédio catatônico.
— Você eu não conheço, mas gostei, qual é o teu nome? — indagou, avaliando.
— Você é um canalha, Érico! Pra sua sorte, tem mais um candidato, eu me demito de vez! Até nunca mais!
— Te vejo no inferno! — Se despediu, sacana.
— Nem o inferno te quer, seu saco de… oh, boa sorte, colega! — parou, cumprimentando o último candidato do dia e partiu, mostrando o dedo do meio para o seu antigo chefe.
— Aí, você, coloca esse parafuso naquela máquina ali — ordenou, sem fazer muita questão de ser cordial.
O jovem se apressa, em silêncio, e decide consertar a falha que o doutor não havia visto. Parafusando e mudando a intensidade da bobina de campo magnético³, a interferência da manifestação dos lasers naquele campo começaram a mudar em sequência, as luzes piscam e Benício desliga a máquina.
— Certo, está anoitecendo, me traz o jantar e nós continuamos daqui.
O jovem retira o jaleco branco e o guarda no armário, antes de sair. Enquanto isso, Érico retorna ao computador, adicionando um tópico e mudando sua conclusão no relatório. Após enviar, escuta seu celular tocando na bancada e logo se levanta, atendendo à ligação.
“Dr. Benício, vi que botou um novo assistente na coleira, testa ele essa noite e se der tudo certo, manda ele assinar.”
E desligou.
Estava acostumado com aquelas chamadas de voz curtas e com as ordens sucintas, apesar de seus assistentes não durarem muito, mesmo após os testes. Tomou nota de suas observações e pensou ainda mais sobre as notas, criando observações em notas com mais observações das notas.
Era cíclico essa coisa toda e até oportuna demais. Se os seus assistentes desistem rápido demais, nem chegavam ao ponto de realmente terem que esconder alguma coisa deles. Os testes eram idiotas, mas tinham o seu devido fundamento, lá no fundo.
Passou uns quinze minutos desde que decidira ficar encarando a máquina e analisar o número que ele havia colocado em cada ponto do experimento. Érico precisava que núcleos atômicos⁴ pudessem absorver e reemitir energia em algumas frequências específicas⁵ sob campos magnéticos intensos⁶, mas não era naquele laboratório que faria isso.
A noção — até agora, puramente teórica — de que um campo de energia suficientemente forte e organizado poderia acoplar-se ao tensor métrico de Einstein⁷ e alterar a geometria local, em função de sua pesquisa, era uma necessidade de que: a Ressonância Magnética Nuclear (RMN)⁸ e a Teoria Quântica de Campos em Espaços Curvos⁹, se juntassem ao Efeito Casimir Dinâmico¹⁰.
Isto é, as duas placas daquela máquina, precisavam vibrar no vácuo em uma frequência muito alta, para poder — em tese —, converter fótons virtuais¹¹ em fótons reais, ou seja, luz.
Mas tudo isso era uma falácia muito grande.
Que tipo de cientista ignora a necessidade absurda de uma energia absurda em uma situação mais absurda ainda? Porém, isso é bem válido em um teste, como aquele em seu laboratório. O impressionante, nesse momento, foi que, com uma alteração, seu candidato havia estabilizado aquele erro.
Supostamente, isso deveria ser impossível, a menos que pense muito rápido. Se ele tivesse diminuído demais, poderia ter explodido, se aumentasse demais, pegaria fogo e as placas quebrariam ao meio. No entanto, ele, com um único número e um único ponto da fórmula, ajustou e estabilizou.
Seus investidores podem achar que ele precisa de mais testes, tal qual os outros precisaram, mas se fosse por questão intelectual e alinhamento aos seus interesses, aquele jovem já era seu assistente naquele instante. Pois, quando se consegue estabilizar uma coisa dessas, você consegue a primeira parte que uma pesquisa precisa — provas de que é possível.
— Com licença, eu trouxe o seu jantar.
— Eu não te disse o que eu queria — replicou, encarando a máquina.
— Não disse, mas nesse papel aqui — mostrou, levando para o doutor. — Aqui tem um cronograma da sua rotina alimentar, achei na recepção. Hoje é um podrão da esquina do Escocês com molho extra e refrigerante zero. Certo?
— Eu te amo.
— Como?
— Se fode, quero que vá ali e crie um relatório do que você fez na minha máquina.
— Sim, senhor! É pra já — riu sutilmente, se dirigindo para a escrivaninha bagunçada.
E agora, os testes bobos começaram!
— O que você acha de cabelo de cuia? — perguntou, escorando contra a bancada, próximo à escrivaninha.
— Bem, em mim, não acho que combinaria, nas outras pessoas, assim, elas fazem o que elas quiserem, e no senhor… — parou de digitar, virando para olhar Benício de baixo para cima. — Creio que ficaria bem de qualquer forma, mas está muito bem do jeito que está.
Ele concluiu rápido sua última sentença, voltando para o relatório, sentindo o peso do olhar do doutor à espreita. Não demorou muito e Érico se aproximou um pouco mais, ficando na ponta da bancada.
— Você se exercita, toma Sol? Alguma coisa?
— Sim, antes de ir à universidade, eu faço uma caminhada matutina, sabe? Acordo junto com o raiar do Sol, direto na pele.
Três pontos já foram: não teria um assistente feio, cadavérico e nem estropiado de saúde em seu laboratório. Já era melhor que grande parte de seus fãs e voluntários em seu tempo de doutorado. Mas ainda tinha alguns testes e um tempo para testar a boa paciência do garoto.
— Dean ou Sam?
— É difícil escolher um entre os irmãos Winchester, mas o Dean tem o meu coração, doutor.
Mais três pontos: era um homem — pensava isso por conhecer a série, puta babaquice —, não teria que lidar com um assistente sofrendo por mulher — havia muito baba ovo escroto com potencial para sequestro naquela área — e enfim, tinha bom gosto, quem gosta do Dean, geralmente tem bom gosto para tudo.
Enfim, faltava um teste final, que parecia bem mais bobo do que precisava ser.
— O que é um círculo em uma esfera?
— Um círculo em uma esfera é uma curva fechada na superfície esférica, definida como o conjunto de pontos que estão a uma distância esférica constante, medida ao longo da superfície, de um ponto central. Se o plano do círculo passa pelo centro da esfera, trata-se de um círculo máximo¹² – como o Equador na Terra. Caso contrário, é um círculo menor.
— Diminua a explicação.
— É uma curva na superfície esférica onde todos os pontos estão à mesma distância do centro da esfera. Pode ser um círculo máximo, como um meridiano, ou menor.
— E se alguém disser que é "a representação da segunda dimensão de uma terceira", o que você diz?
— Eu digo que é uma analogia poética, mas matematicamente imprecisa. A interseção de uma esfera, objeto tridimensional, com um plano, objeto bidimensional, resulta numa circunferência, objeto unidimensional na superfície esférica. A ‘segunda dimensão de uma terceira’ sugere uma projeção hierárquica incorreta. É mais correto dizer que é uma seção bidimensional de um volume tridimensional¹³.
É com certeza, ele é o cara.
— Terminou aí?
— Falta eu terminar a conclusão, doutor… então, o que a minha alteração fez na experiência? Quer dizer, qual a finalidade dela?
— Vamos chegar lá. Está vendo aquela gaveta ali, a última na bancada? Abre ela e pega a prancheta.
E assim o fez, pegou a prancheta e uma caneta de tinta preta, entregando para Érico que o assistia de um jeito muito estranho. Ele latiu, sete vezes e riu. O estudante se manteve impassível, como se nada tivesse acontecido.
— Certo, é um contrato de confidencialidade. O que acontece no laboratório, fica no laboratório; entendeu?
— Ah, claro, é uma pesquisa estatal secreta?
— Um pouco mais fundo do que isso, mas é praticamente isso sim.
— O que acontece se vazar alguma coisa?
— Você morre.
— Isso é sério?
— Sim. Pode assinar no final, aqui, e nesse outro também — guia, mostrando os pontos certos.
Érico sentiu a hesitação quando ele recuou e suspirou fundo antes de assinar — e com razão, qualquer mínima coisa significava um desaparecimento dos registros nacionais, instantâneo.
— E qual é o seu nome?
— Rubem Ribeiro, doutor.
— Bacana, mas agora você é KRHD, quando perguntarem aqui o seu nome é isso que deve dizer, K-R-H-D. E claro, se perguntarem de mim, sou KEBHD, todo relatório, toda assinatura, de agora em diante, é com a sua sigla.
— O que significa cada letra?
— ‘K’ é de Karigma, o nome do nosso projeto. Bem, ‘R’ pra você por ser Rubem Ribeiro e o meu é ‘EB’ por ser Érico Benício.
— E ‘HD’ é disco rígido?¹⁴
— Não posso contar, ainda.
— Eu percebi que estamos tentando fazer uma grande concentração em massa que vibra, mas falta muita energia e força no mesmo ponto. Suspeito que esteja tentando criar uma fissura no espaço; é isso o projeto? Criar um portal?
— É mais do que isso, mas nessa experiência isolada, que você passou com êxito; parabéns, aliás…
— Eu quem agradeço de poder participar de um teste tão único a essa hora da noite.
— Certo, aqui, isolamos uma parte da pesquisa, nessa experiência, devemos criar uma flutuação mensurável no vácuo quântico¹⁵ via interferência de campos ressonantes…
— Como um micro portal?¹⁶
— Chamamos de micro-dobramento¹⁷, mas sim, é um micro portal que queremos que se localize nesse espaço-tempo.
— Em uma curvatura de escala subatômica?¹⁸
— Exatamente.
— Não é perigoso que a matéria não seja realmente sólida, líquida e/ou gasosa, sabe, quando isso acontecer?
— Um: aprecio que disse ‘quando’ e não ‘e se’; dois: vamos isolar a área quando isso acontecer. E três: se é perigoso é um conceito relativo.
— Mas não isolado.
— Pois é, se um humano entra lá: temos os três estados comuns da matéria; vamos em três fases: implodir, explodir e se misturar; essa última parte se divide em mais partes e por aí vai. Mas temos que manter o foco no agora.
— Com toda razão, doutor. O que sugere para a conclusão?
— Coloque que: ao diminuir a frequência na bobina em sua geração de pulsos de campos magnéticos de 50 Tesla¹⁹ em frequências de 500 MHz²⁰, você se aproximou ao alinhamento dos spins do vácuo²¹. E nada mais do que isso.
— Quer manter em segredo que foi estabilizado?
— Espero que você fique por muito tempo no projeto Karigma, KRHD.

Espero que tenham gostado do prólogo que marca o estopim dessa obra — e uma coisa eu deixo claro: nada é coincidência, todos os meus livros se passam no mesmo mundo. Enfim, desejo-lhes uma semana maravilhosa ✨
OBS: Reconheço que há muitos termos que podem dificultar a leitura, então selecionei alguns e coloquei aqui, em um pequeno glossário, para facilitar o entendimento do que está rolando. Caso, ao longo dos capítulos, a parte teórica fique muito difícil de compreender, vou prover uma explicação mais fácil — a ideia principal é criar um portal.
Glossário:
¹ Referência aos irmãos Winchester, protagonistas da série sobrenatural Supernatural.
² Referência ao monstro criado pelo Dr. Frankenstein na literatura, sinônimo de criatura artificial e grotesca.
³ Componente que gera um campo magnético quando percorrido por corrente elétrica.
⁴ Parte central do átomo, composta por prótons e nêutrons.
⁵ Em física, refere-se a taxas de oscilação ou vibração particulares.
⁶ Campos magnéticos de alta magnitude, medidos em Tesla (T).
⁷ Conceito da relatividade geral que descreve a geometria do espaço-tempo.
⁸ Técnica que utiliza campos magnéticos e ondas de rádio para estudar a estrutura de materiais.
⁹ Ramo da física teórica que une mecânica quântica e relatividade geral.
¹⁰ Fenômeno quântico no qual fótons podem ser criados a partir do vácuo através do movimento rápido de um espelho.
¹¹ Partículas quânticas efêmeras que surgem e desaparecem no vácuo.
¹² Círculo traçado na superfície de uma esfera cujo centro coincide com o centro da esfera (ex.: Equador).
¹³ Descrição geométrica precisa de como um plano corta um objeto 3D.
¹⁴ Dispositivo de armazenamento de dados (HD).
¹⁵ Estado de energia mais baixa possível no espaço, não vazio, mas repleto de flutuações quânticas.
¹⁶ Pequena abertura dimensional hipotética.
¹⁷ Termo fictício para uma dobra espacial em escala reduzida.
¹⁸ Deformação do espaço-tempo em dimensões menores que um átomo.
¹⁹ Unidade de medida de densidade de fluxo magnético.
²⁰ Megahertz, unidade de frequência equivalente a um milhão de hertz.
²¹ Referência hipotética à orientação quântica das flutuações do vácuo.
Caso ainda reste dúvidas, não se intimide, pode me perguntar — estou disponível para qualquer questão. E caso tenha algum termo que não foi explicado, sinta-se livre para sugerir — quando eu revisar oficialmente, adicionarei ao glossário. 🫶☀️