CAPÍTULO 01: PROTOCOLO K-01-B

12/02/2017
São Paulo, Capital.
Bem diziam que se arrependimento matasse, Rubem já estaria morto e enterrado. O doutor era tudo aquilo que diziam pelo campus — um gênio maluco, um revolucionário canalha e um charmoso babaca.
Quando viu a folha presa ao quadro de novidades no corredor da universidade, amarrotada, cuspida e sobreposta por panfletos de festas, anunciando uma vaga para assistente do mais indecoroso e vulgar cientista que já conhecera, não pôde perder a chance de tentar.
No entanto, tê-lo à sua frente, se provando ser o mais escroto de todos os humanos da face da terra e ainda ser o mais pica das galáxias em sua área — com certeza, havia ganhado no bingo contra uma tia fumante. Porque aquilo sim, era pisar em ovos.
Apesar da prévia de seis colegas de turma, meia dúzia de doutorandos com família já formada! Sendo reduzidos ao escárnio e à humilhação daquele cabresto mal-amado, ainda assim, não podia desperdiçar a chance de participar de um grande projeto — se existia desde 2003, e ainda recebia investimentos, e pior, ainda trazia resultados para a área!
Grande coisa tinha nessa pesquisa, se mesmo depois de tanta descoberta ainda não havia chegado ao fim, o resultado final deveria ser algo inimaginável. Talvez, o doutor fosse um grande perturbado, porque precisava que quem trabalhasse com ele, fosse inabalável com o absurdo que descobririam.
O arrependimento era gigantesco, se não maior do que isso, contudo, a ambição em ter seu nome como título de algo valoroso, ao lado do nome, do título do doutor, era coisa demais para pesar na balança. Desistir não era fiança e sequer negociável.
Já passava das quatro da manhã quando Érico o permitiu voltar para casa, afinal, ainda era doutorando e precisava cuidar de suas próprias pesquisas. E o mais difícil, preencher a papelada e requisitar que o doutor vire seu coorientador¹ — o que poderia ser bem difícil.
Afinal, Célia Soares Martins detestava Benício, se havia razões ou ao menos fofocas sobre o caso? Não, nadica de nada, seu desprezo era de motivação secreta com evidência apenas verbal e emocional, ou seja, o porquê era segredo, mas sabíam por causa de brigas, discussões e sua pouca vontade de esconder o seu ódio contra ele.
E claro, Érico fazia questão alguma de se defender, tantos inimigos feitos pelo caminho, o que mais um mudava, não é mesmo? O pior bate-boca foi em uma mesa redonda, ambos dividindo o palco, sem mediador algum para interferir nas trocas de farpas.
Ele a chamou de ‘nêmesis do caralho’ e a mandou se deitar com seus orientandos, porque — quem não goza gostoso, inferniza a vida dos outros. E a esposa dela estava presente, o filho dela estava presente, os avaliadores da banca estavam presentes. Ela pegou um peso de papel e jogou contra o doutor, o xingou e retirou seu salto, atacando contra ele.
Bem, foi questão de um minuto de silêncio da plateia em choque até alguém decidir chamar os seguranças e algum responsável pelo núcleo de apoio às pessoas educacionais específicas chegar — mesmo não tendo algo a ver com a situação —, o caso era acadêmico e envolvia pessoas.
Mas isso fazia pelo menos um semestre e meio que havia acontecido, talvez estivesse mais calma a raiva da sua orientadora. Porque razão ela tinha, só o contexto que não a favoreceu, ela poderia ter furado os pneus do carro dele e o deixado morrer no trânsito.
Enfim, como esperado, apesar da frágil esperança, ela rejeitou. Entretanto, a coordenação aprovou e restava apenas a parte burocrática. Isso tudo só era fácil, porque o doutor tinha grande mérito em sua área, na área alheia e em qualquer coisa que colocasse as suas malditas mãos.
De qualquer forma, fez o que tinha que fazer: leu, escreveu, estudou, enlouqueceu, voltou aos eixos e escreveu mais um pouco; neste último, estava no ônibus universitário, saindo do campus, no início do crepúsculo, à caminho do laboratório.
Não que houvesse notícia alguma, a estranheza era singular ao comportamento natural de Benício. Assim que abriu a porta da sala branca, assistiu por alguns segundos o doutor deitado sobre a bancada em posição de estrela.
— Nanobiossistemas², né? Qual a linha?
— Como sabe no que estou fazendo doutorado?
— Responda a pergunta.
— A linha que eu sigo é: nanobiossensores físicos-químicos baseados em nanomateriais para detecção molecular de alta sensibilidade.
— Eu quero a formulação, não só a linha da sua pesquisa.
— Certo, a formulação que eu sigo, é: desenvolvimento e caracterização de nanobiossensores baseados em nanomateriais funcionalizados para detecção seletiva de biomoléculas, explorando fenômenos físico-químicos em nanoescala. Agora, por quê?
— Pra ter certeza — replicou, se levantando e saltando da bancada.
— Certeza de quê?
— Tu consegue descobrir sozinho, só acompanhe. Lembra da máquina de ontem?
— Sim, lembro, ela é quase um mini acelerador de partículas particular.
— Não chame ela assim, o nome dela é LC-Mk1, então, respeite!
— Certo, devo perguntar por quê?
— Não — afirmou, negando com a cabeça, enquanto toca com a caneta na ponta do nariz de KRHD. — Agora, imagine se adicionarmos um sistema biológico, como o micélio³, ao circuito de ressonância da LC-MK1.
— Certo, você quer melhorar a sensibilidade do aparato?
— Por quê? — perguntou, rindo, esperando que ele conclua com o raciocínio que já havia chegado há horas.
— Porque ele atuaria como um transdutor biológico⁴ que converteria as oscilações mecânicas em… em quê?
— Certo, aí que está: em quê? Pense comigo, se precisávamos que vibrasse, vibrou; precisávamos que houvesse força, tencionou; e enfim, precisávamos que…
— Que transformasse os fótons virtuais em fótons reais, no vácuo?
— Exatamente, KRHD. O ponto aqui é: se tivermos um meio biológico que pratica fotossíntese…
— Podemos ter um meio informacional natural⁵! Elas vão rastrear quando isso ocorre e podemos… meu Deus!
— Sistemas vivos interagem com o vácuo quântico⁶ de forma diferente — balbuciou. — Vamos usar o fungo como uma lente biológica⁷ para focar as oscilações.
— Doutor? Precisamos substituir as placas de carbono.
— Certo, substitua por acrílico e esterilize antes… quando colocar lá, deixe separadas por um centímetro.
— Por quê?
— Só faça. Eu vou colocar uma coisa no meio delas.
— Fungo?
— Ágar-ágar com uma cultura jovem de Physarum Polycephalum⁸; pegue a porta de acesso para eu injetar lá, vá!
— Desse jeito, precisamos substituir muita coisa, doutor.
— Então, substitua. Se você sabe o que está fazendo, não peça permissão, jamais!
— Os loucos são assim e nunca acabam bem.
— Está me chamando de louco, Rubem?
— Não, doutor, eu não.
— Quem, então? O padre Fábio de Melo⁹?
— Perdão, foi força do hábito.
— Então, responda antes de eu jogar essa placa de petri¹⁰ na sua cara — ameaçou, se aproximando de forma bizarra.
— Ah, bem, eles não acabam bem, porque, bem…
— Tira o pau da boca.
— Porque loucura e liberdade dividem uma linha tênue, doutor! — se apressou ao ser puxado com uma mão no ombro. — Lembra de Nietzsche¹¹, é, ele, ele afirmou que há uma tensão em razão e loucura, ser livre é racional, não é mesmo?
— Continue.
— A tensão existe, porque a loucura é uma forma de sabedoria enquanto a razão, é um tipo de aprisionamento. Então, os loucos não acabam bem, porque são gênios incompreendidos, e por isso, acabam presos por sua razão.
— Gosto de como você pensa rápido.
— Obrigado, doutor.
— Troque os lasers de Terawatt¹² por lasers de diodo de 5W¹³; troque a bobina anterior por uma de cobre resfriada à água, deve ter em algum canto, ela tem que gerar 0,5 Tesla¹⁴, no máximo?
— Algo errado? — indagou confuso, o doutor parecia em dúvida sobre sua listagem.
— Não, é que a vibração vai ocorrer por piezoelétricos de qualidade inferior¹⁵, talvez os números mudem.
— É só um teste, podemos adaptar depois.
— Tem razão, coloque duas webcams em direção ao micélio e transmita no monitor do notebook guardado na segunda gaveta. Não quer anotar nada?
— Eu tenho uma boa memória, doutor.
— Certo, coloque um par de eletrodos de EEG¹⁶, aqueles de fios de prata clorada na dispensa, insira depois no ágar. Eu vou medir os potenciais elétricos do fungo¹⁷.
E assim fizeram, no entanto, o que demorou duas horas para montar, precisava de mais vinte e quatro horas para o fungo se adaptar entre as placas de acrílico. Para a sorte de Rubem, ele pôde fazer o relatório no laboratório e pôde seguir para a casa antes do horário planejado.

Espero que estejam gostando dos meus malucos preferidos, apesar do jeito de KEBHD nesse livro em questão. 🤡 Enfim, desejo-lhes uma semana maravilhosa, queridas pessoas. ⭐
Glossário:
¹ Professor que orienta junto com outro um trabalho acadêmico.
² Área de pesquisa que integra nanotecnologia e sistemas biológicos.
³ Rede de filamentos que formam o corpo dos fungos.
⁴ Sistema biológico que converte um tipo de sinal (ex.: mecânico) em outro (ex.: elétrico).
⁵ Ideia de que sistemas vivos podem processar/transmitir informação de forma não convencional.
⁶ Estado quântico de energia mínima, não vazio, mas com flutuações.
⁷ Metáfora para usar um organismo vivo para focar/amplificar fenômenos físicos.
⁸ Meio de cultura sólido (ágar) com um fungo plasmoidal conhecido como “mofo de limo”, usado em experimentos de computação biológica.
⁹ Padre e cantor brasileiro conhecido.
¹⁰ Recipiente de laboratório para cultivo de micro-organismos.
¹¹ Filósofo alemão que explorou temas de loucura, razão e liberdade.
¹² Lasers de potência extremamente alta (1 terawatt = 1 trilhão de watts).
¹³ Lasers de baixa potência, mais comuns e seguros.
¹⁴ Intensidade de campo magnético moderada (para comparação, ressonância magnética usa 1.5-3 T).
¹⁵ Materiais que convertem vibração em eletricidade, mas com baixa eficiência.
¹⁶ Dispositivos usados em eletroencefalografia, um exame que mede a atividade elétrica do cérebro através de eletrodos colocados no couro cabeludo. No contexto, estão sendo adaptados para medir atividade elétrica em fungos.
¹⁷ Referência a pesquisas reais que investigam a capacidade de certos fungos (como o Physarum polycephalum) de transmitir sinais elétricos através de suas redes de micélio, sugerindo uma forma rudimentar de comunicação ou processamento de informação biológica.
Caso tenha alguma dúvida ou sugestão de item para o glossário, não se intimide, me pergunte/avise. ☀️🫶