CAPÍTULO 03: O ASSISTENTE K-R-HD

13/02/2017
Ribeirão Preto, São Paulo
Com todas as adversidades e eloquência de seu novato, ele era excepcional. Era um pequeno luxo tê-lo mantido sob o manto de sua estranheza tão bem, mesmo com a orientadora advinda dos confins do inferno. Por outro lado, havia um talento natural naquele rapaz — o universo brinca como uma verdadeira criança com a sina dos outros.
O micélio ter se exaurido após o hipercrescimento era um fato tangível, registrado e incoerente, não havia um estímulo específico para padrões novos e sem dados. Se houvesse um meio de estimular a sua plantação de outra forma, sem sobrecarregar a capacidade metabólica e ainda assim conferir resultados.
— Seria do caralho — replicou ao sentar no balcão.
— O quê?
Para a sua infelicidade, o rapaz não lia mentes, se este fosse capaz, não perderia um segundo da genialidade de Benício. Grunhiu em descaso, não valia desperdiçar o seu tempo se explicando enquanto o seu raciocínio conquistava novas fronteiras. Limites dos quais nasceram para serem repartidos em estilhaços.
— Quero que faça o relatório desse experimento, chame de ‘tensão-micelar’ — assistiu a confusão e exasperou. — Agora!
Sem demora, seu novo bode expiatório se esgueirou à escrivaninha e pôs-se a digitar sem erro — disciplinado até para redigir relatórios, que bênção! Concluiu o seu jantar, já partindo para o Petri na máquina, coletou uma parcela de seu distúrbio e levou para uma breve análise em seu microscópio.
Havia na imagem refletida no monitor uma quebra massiva de DNA e proteínas desnaturadas, uma assinatura de estresse extremo. Se a cultura estava seca daquele jeito, estava no jeito para se tornar inflamável se o laser batesse no combustível ao lado da máquina. E considerando a extensão do micélio, se tornaria fácil um incêndio.
Pelo menos, seu assistente, muito sabido, desligou o laser. A quebra era diferente do comum, geralmente é feita por danos em alguma hélice, mas dessa vez, ela se esticou demais. Então, se quebrou e não havia como reparar, era questão de tempo até começar a definhar.
— Eu terminei, doutor.
— Certo, envie no e-mail que está gravado na página três do quinto contrato na gaveta do meio.
— Por quê?
— Só faça — ordenou. — Envie através do meu e-mail.
— Certo.
Alguns minutos se passaram no silêncio dos papéis e vários arquivos em pastas sendo organizados pela sala por ambos. Até que o som de uma ligação ressoa pelo recinto em eco, assustando KRHD — sonolento. Benício atende e o outro lado desliga no mesmo instante.
Este se dirige ao monitor, já executando diversos cliques no reiniciar da página até que um e-mail apareça na caixa de entrada e ele clique imediatamente. Era de um remetente oculto — coisa que sabia bem que seu assistente nunca havia visto em sua vida inteira.
Se tratava de uma obrigação disfarçada de convite no campus universitário de seu novo orientando — que desgraça. E ao mesmo tempo — que bênção —, fazia alguns meses desde a última vez que estivera naquele lugar e se deparou com a Santa daquele hospício. Talvez, atormentar-se um pouco indo até lá valesse a pena ao atormentá-la.
— Vou palestrar no seu campus em breve, esteja preparado para apresentar ao meu lado.
— Como é? — viu-o paralisar e ignorou, continuando.
— E contate a sua orientadora, ela precisa estar presente na sua primeira grande palestra.
— Calma, doutor.
— Também quero que ela seja a mediadora das possíveis perguntas da plateia.
— Doutor, pelo amor de deus.
— Sabe, odeio responder perguntas, então creio que ela tenha o mínimo de conhecimento acerca da minha extensa sabedoria, entende? Com isso, ela consegue responder.
— Jesus, KEBHD.
— Ou não? Ela emburreceu nesses últimos meses?
Rubem revirou os olhos e partiu contra Benício, puxando ele pelos ombros para uma escuta ativa — olhos nos olhos, próximos o suficiente para calar Érico. Este, no entanto, apenas calou-se ao ser empurrado contra a bancada enquanto seu assistente investia tempo em trazer autoridade em seu toque nos ombros.
— Qual é a tese que vamos trabalhar na palestra, doutor?
— Se trata da Modelagem Computacional multiescala¹ de processos físicos extremos² e sua analogia com sistemas complexos em matéria Condensada³ — respondeu seco, se divertindo sob a fachada séria.
— Vou conversar com a Célia, mas preciso que vocês não briguem dentro do campus, entende?
Érico sorriu e empurrou contra a parede frente à bancada o seu assistente, Rubem, havia vacilado em sua segunda sentença. Se quer dar ordens a alguém, jamais abaixe o tom de uma para a outra — autoridade alguma obedece pedido sem confiança. Benício seguiu a ordem de calar-se, mas os pedidos não eram bem o seu jeito de trabalhar.
— Você não manda em mim, KRHD. Acha de bom tom usar de sua força contra a minha pessoa? Se quer um inimigo, te garanto que sou muito bom nisso. Pergunte à Célia qual a opinião dela.
Mandou sua ameaça como um sopro de furacão direto no rosto de sua vítima da vez. Porém, diferente de qualquer outro, suas ameaças sempre se tratavam de promessas com vínculo vitalício e integral. Era de conhecimento geral o seu desdém às boas normas da sociedade.
— Não, doutor. Meu comportamento foi um ultraje, me desculpe — um sorriso surgiu tímido.
Um cheiro de matéria orgânica queimada e decomposta impregna a câmara, danificando em seguida os sensores ópticos remanescentes. E enfim, o fogo tomou forma, seu empurrão levou-o a bater contra o laser — maldito sorriso de homem safado. Foi questão de um segundo até vê-lo atravessar a fronte do doutor até o outro lado.
Em poucos segundos, um extintor surgiu ao lado de seu rosto — lacre partido, cano estendido e, enfim, a substância clara prevaleceu contra as chamas. Érico tornou o seu olhar para o rosto de Rubem e viu o foco em provocar enquanto apagava o fogo, o que criou uma tensão no mundo das cinzas.
— Está dispensado — proferiu assim que seu assistente baixou o extintor e sorriu como se tivesse vencido.
— Nem um obrigado antes, doutor? — sorriu, abrindo uma postura de garanhão.
Benício revirou os olhos e balbuciou pela sala, enquanto amassava o seu jaleco.
— Doutor, doutor, doutor…
— Sim, doutor — pairou Rubem, guardando o extintor do lado de fora do laboratório.
— Que doutor o que — exclamou, enfim, Érico. — Vaza daqui, vá embora, está tarde!
E antes que houvesse protesto da parte de seu assistente, jogou a placa de Petri na direção da porta e ele desviou, tempo suficiente para Benício fechar a porta, deixando ele lá sem escolha senão ir para casa. Que diabos. De certa forma, não era tarde de verdade.
— KEBHD — chamou, batendo à porta. — Eu preciso das minhas coisas para poder voltar! — lamentou Rubem.
— Entre — replicou. — Não terminamos.
O assistente Ribeiro entrou se esgueirando, à espreita de fugir caso outra placa lhe fosse jogada ao rosto. Enquanto o drama se estendia, Benício revirou os olhos e apontou para o monitor, pedindo por uma análise dos dados obtidos. Ambos precisavam de um mapa para se guiar nas águas turvas daquele experimento.
— Como você quer que seja a conclusão do mapeamento? — questionou, entorpecido pelo sono de outrora.
— Afirme que: o sistema biológico atuou como um transdutor não-linear.⁴ Justifique por: ele converteu o estímulo em um pulso informacional coerente⁵ que interagiu com o vácuo.⁶
— Mas qual foi a informação? E bem, temos que lembrar de considerar os picos de voltagem que nada tinham a ver com o estímulo. Além disso, o estresse da rede pode ter captado outra coisa ao invés do fóton.
— Tudo isso que você citou se refere ao visual, o biológico, KRHD. O mapeamento se refere ao processo de resultados, então não desperdice seu tempo buscando coerência no reino fungi.⁷
— Mas se é o biológico que concentra essa distorção, não deveria ter uma análise mais aprofundada de sua cultura?
— Certo, mas qual cultura? Estamos aqui faz um tempo, vá e olhe para a tal cultura, está necrosada⁸!
— Você torturou um organismo vivo com estímulos aleatórios até ele morrer — balbuciou.
— Não — revirou os olhos, revidando em descaso — a necrose é só um efeito colateral do alto acoplamento.⁹
— Se é assim, doutor — apontou para o monitor e cruzou contra a imagem da cultura — a flutuação do interferômetro¹⁰ foi coincidência, ou pior.
— Não exagere — partiu para o lado da cultura, pegou e jogou fora a substância.
— A flutuação foi causada pela contração física do fungo alterando a geometria local¹¹ da câmara.
— Olhe bem, KRHD, onde está essa alteração geométrica?
— Mais um ponto que você deveria considerar! Você não mediu o espaço-tempo, mediu a agonia de uma rede viva.
— Quer adicionar à constituição direitos aos fungos? Pois vá! Aqui terá toda e qualquer forma de teste biológico, tudo justifica os fins, e se questiona os meus meios, observe!
O eco de seu alerta se instaurou nas camadas dos móveis, o levante de dados se entrelaçou de forma expressa, como um trem bala de guerra — estratégico. Assistiu ao seu lado o seu mero assistente se perder nos variados dados que surgiram em seu breve instante de eloquência.
— Ao ignorar a parte biológica, trago: correlação versus causalidade¹². Com isso, quero dizer: o único sinal relevante por aqui aconteceu durante a falha do equipamento. Quando o laser piscou.
— Depois do laser vieram as luzes e depois o ruído, eu me lembro, mas o que isso significa?
— Você é muito lento: o sistema inteiro era muito ruidoso, pense: por que ruído? Por que necrosar?
— Um grito de morte?
— A adição de um ser vivo, aqui, introduziu variáveis incontroláveis¹³, como o metabolismo¹⁴ e as respostas ao estresse.
— Sugere que tentemos isso de novo, em um humano? — se alarmou, embasbacado, mas sem conter um sorriso estreito de animação pela busca de resultados.
— Observe os dados de EEG do fungo¹⁵, antes de morrer, havia uma janela de dois segundos, onde suas oscilações elétricas¹⁶ aumentaram em complexidade.
— A dor pode abrir uma dobradura no espaço-tempo?¹⁷
— A energia dela pode. Essas oscilações são a entropia de Shannon¹⁸ mais alta antes de colapsar. Então, precisamos de um intermédio entre a dor produzida, a energia acumulada e os estímulos em sincronia com o vacilo das oscilações.
— Então, não foi pela tortura a oscilação.
— Foi causado pelo último suspiro de um sistema ao processar informação caótica.

Espero que estejam gostando dessa dinâmica dos personagens e do enredo, hoje o Érico estava bem mais tranquilo. ⭐ Enfim, desejo-lhes uma semana maravilhosa, pessoas lindas. ✨
Glossário:
¹ Técnica que simula fenômenos em diferentes escalas (ex.: atômica, molecular, macroscópica) para entender sistemas complexos.
² Fenômenos que ocorrem sob condições de alta energia, pressão ou temperatura, como explosões ou colapsos.
³ Área da física que estuda materiais com muitas partículas interagentes (sólidos, líquidos) e comportamentos emergentes.
⁴ Dispositivo ou sistema que converte um tipo de energia em outro, mas cuja resposta não é proporcional à entrada (ex.: saturação, histerese).
⁵ Sinal que carrega informação de forma organizada e previsível, em oposição a ruído aleatório.
⁶ Referência à possibilidade de sistemas biológicos influenciarem flutuações quânticas do vácuo (conceito especulativo).
⁷ Classificação biológica que agrupa os fungos, organismos eucariontes como cogumelos, bolores e leveduras.
⁸ Em biologia, tecido morto por falta de irrigação ou lesão; aqui, o micélio entrou em necrose.
⁹ Em física/engenharia, quando dois sistemas interagem fortemente, trocando energia de maneira significativa.
¹⁰ Variação nas medidas de um interferômetro, indicando possíveis alterações no caminho óptico ou no espaço-tempo.
¹¹ Ideia de que mudanças mecânicas em um organismo poderiam distorcer o espaço ao redor (conceito fictício/teórico).
¹² Princípio científico: duas variáveis podem variar juntas (correlação) sem que uma cause a outra (causalidade).
¹³ Fatores que não podem ser mantidos constantes em um experimento, introduzindo incertezas.
¹⁴ Conjunto de reações químicas que mantêm um organismo vivo, incluindo produção de energia e síntese de moléculas.
¹⁵ Eletroencefalograma adaptado para medir potenciais elétricos em fungos, inspirado em pesquisas sobre bioeletricidade em redes de micélio.
¹⁶ Variações periódicas na diferença de potencial elétrico, observadas em sistemas biológicos como sinais de comunicação.
¹⁷ Metáfora para distorção geométrica do contínuo espaço-tempo, como previsto pela relatividade geral em campos gravitacionais intensos.
¹⁸ Medida da incerteza ou da quantidade de informação em um sistema, usada na teoria da informação para quantificar a complexidade de um sinal.
Repeti algumas palavras no glossário para reforçar o significado delas. ✨