Prólogo:
A chuva caía sem parar, forte e pesada. Gotas batiam nas águas turbulentas do rio lá embaixo e se perdiam na floresta escura que cobria tudo. No alto do penhasco, enfrentando a tempestade, havia apenas um garoto.
Era difícil ver o seu rosto através da água que caía, mas a forma como ele estava parado, olhando fixo para o vazio, mostrava que ele estava sofrendo muito. Lágrimas frias, iguais à chuva, escorriam pelo seu rosto e se misturavam à tempestade. Ele não soluçava, apenas chorava em silêncio, como se a tristeza já tivesse secado tudo dentro dele.
De repente, o garoto perdeu as forças. Ele caiu de joelhos no chão molhado, e suas mãos afundaram na lama. Era um sinal de que ele havia desistido.
— A culpa é toda minha! — A voz dele estava baixa, mas cheia de dor, quase como um grito abafado. — Que droga que eu fiz…
O ambiente ficou em suspense.
Um raio forte cortou o céu, iluminando tudo por um momento rápido. Naquele clarão, a sombra do garoto ficou nítida. Logo atrás dele, onde a floresta começava, surgiu um detalhe horrível.
Um braço.
Era um braço magro e jovem, parecido com o de uma criança, e estava coberto de sangue. Gotas vermelhas e escuras pingavam lentamente dos dedos, caindo na terra como se tivesse matado alguém.

CAPÍTULO 1
Após o Prólogo, somos levados a uma cena onde um rio de forte correnteza atravessa uma floresta densa.
Vemos Lucius, que aparenta ter doze anos, saindo do rio com seu irmão Adrian nos braços. Adrian está enrolado, parecendo ter entre quatro a cinco anos. O garoto mais velho manca devido a uma perna machucada. Ele caminha até uma árvore e, sem forças, cai encostado nela.
Lucius olha para o irmão e sussurra: — Não se preocupe, Adrian. Eu vou cuidar de você.
No Antebraço direito de Lucius ele possui uma marca diferente, como se fosse uma tatuagem. Em sua cintura, ele carrega duas pequenas trombetas, medindo 30 cm. Elas estão amarradas juntas: uma tem bordas brancas, e a outra tem bordas vermelhas.
No lado oposto da cintura, ele carrega três pequenos tubos de amostras, semelhantes aos usados por cientistas. Um está vazio; os outros dois estão cheios, um com castanhas e outro com aveia.

Lucius deita Adrian ao lado, em um local que parece estar confortável. Ele pega o seu tubo que estava cheio de castanhas e derrama um pouco em suas mãos.
Olhando mais à frente, Lucius percebe um pequeno pé de pimentas vermelhas com algumas pimentas prontas para a colheita. Ele caminha até elas, escolhe cuidadosamente algumas e preenche um dos tubos de amostras que estava vazio.
— Essas pimentas serão bem úteis — ele murmura para si mesmo.
Adrian estava chorando. Lucius aproxima sua mão das lágrimas do irmão. Assim que as lágrimas tocam seu dedo, elas desaparecem, e sua mão começa a emitir um brilho.
O garoto transfere essa aura para a palma de sua mão esquerda.
De novo com a mão direita, ele pega algumas das pimentas. Quando ele ativa sua energia nelas, as pimentas se dissolvem. Com isso, surge uma aura em sua mão direita.
Ele funde essa aura com a que estava na mão esquerda.
E por último, ele repete o processo, pegando uma de suas castanhas. Ele a transforma e a junta com as duas cores que já estavam fundidas.
Agora os três elementos estavam juntos (o Cálcio da castanha, o fósforo da pimenta e o sódio das lágrimas) e se tornaram uma só. Lucius leva a aura combinada em direção a sua perna esquerda. Assim que ele encosta, a perna absorve o que estava em sua mão.
Essa Aura que foi apresentada, representa a Dádiva, a fonte de poder da humanidade.
Lucius respira fundo, sentindo o efeito imediato.
— Pronto, isso já vai me ajudar.
Depois, Lucius rasga a manga direita de sua camisa e a transforma em uma atadura limpa com sua aura. Com isso, Lucius enfaixa a perna ferida. Ele se levanta e avalia a melhora para conseguir mancar. Adrian ainda chora, mas agora está bem mais contido.
Após uma longa caminhada, Lucius encontra uma pequena casa em meio à floresta, mais distante do rio. Ela se assemelha a um bar antigo, com uma janela grande na lateral, usada para servir clientes, e a porta principal à frente. Ao lado, há uma mesa de sinuca completamente destruída e os restos da fundação de uma casa desmoronada.
Lucius olha para Adrian e diz: — Olhe, Adrian. Podemos ficar por aqui por um tempo, pelo menos até minha perna ficar melhor.
Ao entrar na casa, Lucius percebe que ninguém aparece por ali há anos. Há destroços por toda parte: pedaços de telha, madeiras, espumas de colchão e até um vaso sanitário quebrado.
Primeiro, Lucius limpa um pequeno canto. Depois, ele pega um pedaço de madeira e o transforma em uma cama simples. Ele usa as espumas encontradas no chão para criar um colchão. Em seguida, rasga outra manga da camisa e um pedaço do lençol que cobria Adrian, convertendo o tecido em um forro de cama.
Após deixar Adrian confortável e dormindo, Lucius senta no canto oposto da casa. Ele abaixa a cabeça, coloca as mãos no cabelo e desaba, chorando em silêncio para não acordar o irmão.
— Como viemos parar aqui? — ele sussurra. — Ontem estava tudo bem, era só mais um dia comum. Mas do nada apareceram aqueles monstros e tiraram tudo o que a gente tinha.
Seus punhos se fecham.
— Nós nunca fizemos mal a ninguém! Por que isso teve que acontecer? Por que eles tiveram que tirar você de mim, mãe? Eu juro por Deus que vou me tornar mais forte, e farei de Adrian uma pessoa muito poderosa. E assim, vamos acabar com aqueles que tiraram tudo de nós!
Lucius pensa: Pai, onde você estava quando mais precisávamos de você?
Mesmo em lágrimas, o rosto de Lucius está cheio de maldade e seus olhos queimam com uma determinação fria.
No dia seguinte, Lucius continua limpando e reformando a casa.
Adrian acorda e, ainda deitado, pergunta: — Irmão, você está aqui?
Lucius se aproxima: — Não se preocupe, Adrian, eu sempre vou estar aqui.
— Onde a gente está?
— Onde será a nossa casa por algum tempo. Podemos dizer que será um lar temporário.
— E cadê a mamãe? — Adrian pergunta.
Lucius não hesita na mentira: — A mamãe saiu e não disse quando volta, mas pediu para você fazer tudo o que eu pedir, e também para eu cuidar de você.
— Está bom! E o que você está fazendo agora? — Adrian pergunta, feliz.
— Deixando essa casa um pouco melhor para nós vivermos. Pelo visto, não vem ninguém aqui há décadas.
— Irmão, tem alguma coisa que eu possa fazer? — Adrian pergunta.
— Não precisa, coma alguma coisa enquanto eu arrumo o que falta.
Adrian senta na mesa onde Lucius deixou algumas frutas e grãos. Enquanto Adrian se alimenta, enquanto Lucius arruma as paredes da casa. Ele olha para o irmão e pensa: Preciso despertar a dádiva dele com urgência, mas qual será o tipo de poder que ele domina? Ele ainda é muito novo para conseguir manifestar sua dádiva. Mas quanto mais rápido eu descobrir mais rápido eu vou conseguir pensar no que fazer..
Nosso tempo é curto. Quanto antes ele despertar, melhor será para mim.
Depois de terminarem, Lucius chama Adrian para fora.
— O que é aquilo? — Adrian pergunta, referindo-se à mesa de sinuca quebrada.
— Eu não faço ideia. Deve ser uma mesa de comemoração, ou algo do tipo. Mas mudando de assunto, Adrian, você lembra o que você sempre quis aprender?
Lucius cria uma pequena bola de fogo.
— Claro! Hoje você vai me ensinar! — Adrian diz, com muita empolgação.
— Não. — Lucius apaga o fogo. — Hoje vamos iniciar o despertar da sua energia. Só que pode doer um pouco. E já que você é um bebê, acho que não vai aguentar.
— Eu não sou bebê! — Adrian grita, com raiva. — Logo, logo eu vou fazer cinco anos!
— Ah, então você acha que consegue resistir a dorzinha? — Lucius pergunta, provocativo.
— Sim! — Adrian responde, cheio de confiança, as mãos na cintura.
Eu sei que vai doer porque ele é muito novo, Lucius pensa. Mas eu preciso descobrir qual é o tipo dele para se criar um plano..
— Tudo bem, Adrian, vamos começar. Pode queimar um pouquinho e talvez doer também, mas prometo que você vai ficar bem.
Adrian, como qualquer criança empolgada, diz: — Está bem, eu aguento.
Lucius decide usar uma pequena quantidade de pimenta para a primeira vez. Ele pega a pimenta vermelha, converte-a em aura e avisa: — Adrian, se prepare.
Lucius leva essa aura vermelha até o pescoço de Adrian. Assim que a energia é absorvida, Adrian cai imediatamente de joelhos, com uma mão no chão e outra no pescoço. Ele começa a tossir muito.
Lucius permanece em pé, sem expressar nenhuma reação.
Adrian fica todo vermelho, sentindo a pele queimar por dentro. Chorando, ele pede ajuda, sem ar e sem voz. Ele sussurra: — Lucius, está doendo muito!
— Eu disse que ia doer, mas que você vai ficar bem. — Lucius responde em tom arrogante. — Você ainda é muito novo, então eu preciso acelerar seu metabolismo, transferindo a pimenta para todo o seu corpo.
Enquanto Adrian grita e chora de dor, Lucius apenas assiste à agonia de seu irmão, sem hesitar.
Após alguns minutos, Adrian para de sentir aquela dor. Lucius diz: — Viu? Eu disse que você ficaria bem.
Ainda sufocado pela queimação, Adrian diz: — Não quero mais falar com você! — E corre para dentro de casa.
Lucius grita, em tom de deboche: — Eu nem usei muito, Adrian! O problema é que você é muito novo, por isso sente tanto. Mas é só uma pimentinha!
Na próxima vez, eu aumento a dose. E com certeza ele irá demonstrar sua dádiva pela primeira vez, Lucius pensa para si mesmo.
Pela noite, Lucius volta para casa carregando alguns peixes que conseguiu pescar.
Adrian está deitado na cama, de costas, e não dá as boas-vindas. O silêncio é pesado.
— Voltei, Adrian. — Lucius diz, tentando soar normal. — Ainda está bravo comigo?
Adrian permanece em silêncio.
— Tudo bem. Vou cozinhar o que consegui para a janta.
Lucius começa a preparar o fogo em uma estrutura de tijolos com uma pequena grelha. Enquanto ele mexe na lenha para o fogo se espalhar, o choro de Adrian rompe o silêncio.
— Eu não quero ficar com você! — Adrian grita, com a voz embargada. — Quando a mamãe vai chegar?!
Lucius para. Uma lágrima cai na brasa, evaporando instantaneamente.
— Eu quero a minha ma...
Antes que Adrian terminasse a frase, Lucius se vira bruscamente, agarra o irmão pelos ombros e cai de joelhos para ficar olho no olho com ele.
Adrian recua, assustado. Ele nunca tinha visto Lucius daquele jeito. O irmão mais velho tinha lágrimas escorrendo pelo rosto, mas não era um choro comum; eram lágrimas de desespero, de alguém que se perdeu em meio à agonia.
— A mamãe nunca mais vai voltar! — Lucius grita, a voz falhando. — E não é como se ela tivesse nos abandonado! Alguém a levou de nós, deixando eu e você sozinhos no mundo!
Adrian, sem entender a gravidade das palavras, para de gritar, mas continua soluçando.
Lucius chora junto, encostando a testa na do irmão.
— Ela morreu, Adrian... para nos proteger. Ela deu a sua própria vida por nós. E por isso, ela nunca mais irá voltar.
A realidade atinge a criança. Adrian começa a chorar desesperadamente e se joga nos braços de Lucius. Os dois se abraçam, compartilhando a dor da perda.
Depois de um tempo, Lucius afasta Adrian gentilmente e olha em seus olhos.
— Adrian, eu sei que o que aconteceu mais cedo te machucou. Mas é isso que vai nos ajudar. Com isso, conseguiremos ir atrás daquele que tirou a vida da nossa mãe. E eu preciso que, no momento, você suporte essa dor. Porque o seu irmão não vai conseguir sozinho. Eu preciso da sua ajuda.
Lucius implora, chorando.
— Mas, Lucius...aquilo me queima muito. — Adrian diz, com medo.
— Eu sei, mas eu te peço só mais uma vez. Absorva novamente a capsaicina da pimenta, e com certeza, eu terei uma ideia para te transformar em uma pessoa muito mais forte do que eu.
— Se eu fizer isso... eu serei muito forte? — Adrian pergunta, com um tom inocente e triste.
Lucius seca as lágrimas, forçando um sorriso empolgado.
— Sim! Você será muito forte.
— É para fazer isso agora?
Lucius sorri, aliviado.
— Não. Por hoje, já foi o suficiente. Mas amanhã começaremos o seu despertar. E lutaremos pela memória de nossa mãe. Agora, vamos comer e dormir, porque amanhã será um longo dia.
No dia seguinte, algumas horas depois do café da manhã, Lucius e Adrian estão do lado de fora da casa.
Lucius mostra uma laranja para o irmão.
— Quando você sentir queimar, eu vou te dar essa laranja. Não importa o que aconteça, não solte ela.
— Mas se queimar... — Adrian tenta argumentar.
— Não solte. Entendeu? — Lucius interrompe, sério.
Na primeira vez, Lucius havia usado apenas um pedaço de pimenta. Mas, desta vez, ele extrai a essência de três pimentas ao mesmo tempo, escondendo a quantidade de Adrian. Ele foca toda a sua Dádiva na mão direita, concentrando a carga tóxica.
Antes mesmo que Adrian percebesse o perigo, Lucius transfere a energia de sua mão para o pescoço do irmão com um toque rápido.
— AGH!
Imediatamente, Adrian fica vermelho. Ele cai no chão, tossindo violentamente, sentindo uma queimação terrível rasgar seu corpo por dentro. Ele rola na terra, levando as duas mãos ao pescoço, em agonia.
Lucius observa friamente, Até o momento em que ele puxa um dos braços de Adrian e força a laranja em sua mão.
— Não solte ela! Ou teremos que fazer isso de novo! — Lucius ordena, com um tom de arrogância.
Adrian, com os olhos vermelhos e lacrimejando, vomita e tosse em desespero. Ele não consegue dizer uma só palavra. Mas, aos poucos, sob o estresse extremo, algo acontece.
Uma pequena aura começa a surgir ao redor do corpo de Adrian.
— Isso, Adrian! Continue! — Lucius diz, em êxtase.
Neste momento, Adrian desperta sua Dádiva completamente. A aura cobre seu corpo por inteiro, pulsando. Mas, apesar de toda a energia, nada acontece com a laranja em suas mãos. Ela permanece intacta.
Lucius começa a rir.
— Hahahaha! É isso, Adrian!
A risada é alta, meio assustadora. Lucius apresenta um lado que Adrian não tínha visto ainda, como se o irmão carinhoso de ontem tivesse desaparecido, dando lugar a um cientista louco.
— Você é um Estimulador!

Ele olha para o sofrimento do irmão com satisfação.
— Não podia ser mais perfeito. Agora já posso livrá-lo dessa dor.
Lucius coloca as mãos no pescoço de Adrian e começa a absorver toda aquela aura de pimenta de volta para si.
Imediatamente, Adrian para de sentir a dor. A queimação desaparece como se nunca tivesse existido.
Mas o preço é cobrado.
Lucius cai no chão, tremendo, com sintomas de convulsão. Seu corpo não aguenta a toxicidade repentina que ele retirou do irmão.
— Irmão?! Irmão? O que você está fazendo? Me responde! — Adrian grita, desesperado, sem entender o que está acontecendo.
Lucius para de tremer, mas tem um leve desmaio.
— Por favor, Lucius... não me deixa aqui sozinho... — Adrian chora de medo
Depois de alguns minutos, Lucius acorda. Ele vê Adrian do seu lado, dormindo de exaustão e medo. Ele cutuca o irmão.
— Ei, Adrian. Você está bem?
Adrian abre os olhos aos poucos. Ao ver Lucius acordado, ele começa a chorar de felicidade e o abraça com força.
— Que foi, Adrian? Até parece que eu voltei dos mortos — Lucius diz, sorrindo fraco.
— Pensei que você não acordaria mais!
— Pois é... essa é uma grande consequência do meu poder. Preciso ter mais cuidado. Mas, pelo menos, você ficou bem, certo?
— Sim, estou bem... mas ainda não entendi. O que é aquilo que você me chamou? Estipulador?
— Estimulador. — Lucius corrige. — É meio difícil de te explicar agora, pois estou exausto. Mas só precisa saber o seu poder é bem diferente do meu, mas graças a isso, eu vou conseguir criar um plano perfeito para te deixar muito forte.
— Ah, é? Como? — Adrian pergunta, curioso.
— Vamos para dentro de casa — Lucius responde, apoiando-se no irmão para levantar. — Eu te explico melhor daqui a pouco... ou amanhã... sei lá.
Os dois caminham juntos para dentro da casa, a silhueta dos irmãos marcada contra a luz do fim da tarde.
Dentro de casa, Lucius pega a laranja que foi usada para o despertar.
— Adrian, pensa rápido.
Ele jogou a laranja para Adrian que rapidamente segurou com a mão direita.
Lucius pensa: Um Estimulador destro? Isso será muito interessante.

Os dois caminham juntos para dentro da casa, a silhueta dos irmãos marcada contra a luz do fim da tarde.
Ainda dentro da casa, após a explicação inicial, Lucius olha nos olhos do irmão.
— Eu sou um conversor, eu consigo converter a minha aura em elementos químicos, já você consegue fortalecê-los. Eu e você funcionaremos como uma dupla em perfeita sintonia. Posso dizer que seremos como uma lança e um escudo, você será o meu ataque e eu serei a sua defesa. Você ainda não consegue usar o seu poder de forma ativa, mas logo estará preparado.

— E porque você acha que eu serei mais forte do que você? — Adrian pergunta, inocente.
— Sobre isso…eu preciso pensar um pouco mais.
Lucius coloca a mão no queixo, calculista. — Talvez por você ter despertado a sua Dádiva tão jovem, isso pode fazer alguma diferença no futuro.
— Mas vamos dar um passo de cada vez.
— Darei o meu melhor! — Adrian empolgado.
— Eu sei que vai. Lucius confiante
Ao cair da noite, Adrian já está deitado em um sono profundo, exausto pelo seu despertar forçado.
Lucius está sentado à mesa, olhando fixamente para as duas trombetas. Ele pega a trombeta com detalhes em branco e sussurra:
— Pelo visto, já vamos nos encontrar novamente... Mas antes de te chamar mais uma vez, eu preciso pensar mais um pouco.
Lucius desvia o olhar para um canto da casa onde havia acumulado algumas "tralhas" que poderiam ser úteis. Naquela pilha de sucata, viam-se objetos variados: abridores de garrafa, tampas de metal, garrafas de vidro, latinhas amassadas e um rádio velho quebrado.
Lucius vai até essa pilha de sucatas, ao analisar a sucata, ele pensa:
— O'Que pode ter de útil por aqui, pense um pouco Lucius.
Lucius pega o rádio que estava no meio das tralhas, então ele comenta:
— Engraçado como isso já foi um dos objetos mais importantes para a humanidade, nunca tinha visto um de perto, será que ele ainda funciona?
Lucius tenta ligá- lo e logo em seguida dá leves tapas no rádio até que uma pequena tampa cai, Lucius vira a parte traseira para ver o que era aquela peça que faltava e então ele se depara com pilhas. Imediatamente os seus olhos brilham. E o conhecimento se instala em sua mente.
— E se eu criar uma fonte de energia que acumulasse tudo o que Adrian gerar com a sua Dádiva? — ele murmura para si mesmo. — Talvez seja loucura minha... pois por qualquer deslize eu posso acabar o perdendo, ele seria como uma bomba-relógio, mas se eu tomar as medidas corretas ele só explodirá no tempo certo.
Amanhece. Duas semanas se passaram desde aquele dia.
Lucius já está com a perna curada, caminhando normalmente. Seu foco total é na evolução de Adrian.
A rotina é rígida: todos os dias, Lucius pede para Adrian comer uma pequena quantidade de pimenta e ficar em estado de concentração.
— Quanto mais tempo você controlar a aura em volta do seu corpo enquanto sente a queimação, melhor será o domínio sobre a sua técnica — Lucius instrui, observando o irmão suar e tremer levemente, mas mantendo a aura estável. — Está indo muito bem.Se continuar assim, você evoluirá muito rápido.
Adrian abre um sorriso forçado, mas feliz por sentir que Lucius está orgulhoso.
— Viu só? A pimenta não é tão ruim assim — Lucius provoca.
— Já me acostumei! — Adrian diz, limpando o suor da testa. — Acredito que hoje já seja uma das minhas comidas preferidas... Mas, Lucius, por que eu tenho que comer pimenta mesmo?
— Porque você ainda é muito novo, e a pimenta vai ajudar na aceleração do seu metabolismo. Graças à Capsaicina, a substância que traz essa sensação de queimação.
Lucius aponta para o peito do irmão.
— Quanto mais você comer, mais rápido seu metabolismo gira e mais energia você produz. A quantidade que você anda comendo todos os dias já está ótima. Então não se preocupe, continue fazendo dessa forma.
Adrian dá mais uma mordida em uma pimenta que guardava no bolso e senta em posição de lótus na frente da casa, focando em sua aura.
Enquanto Adrian treina, Lucius se apronta para sair. Ele percebeu que grande parte de seu plano já está bem encaminhado graças às tralhas pela casa, mas falta um elemento crucial.
— Irei até o rio — Lucius avisa. — Tentarei voltar o mais rápido possível. Qualquer coisa, você já sabe como se proteger, mas não se preocupe, que eu não irei muito longe.
Adrian concorda com a cabeça, concentrado.
Lucius pega a trombeta com detalhes em vermelho e a amarra na cintura. Do outro lado, prende seus tubos de amostra, ainda abastecidos com pimenta, castanhas e aveia.
Partindo sentido a floresta ao fundo conseguimos perceber algumas armadilhas ao redor da casa, algumas cordas, caminhos de pólvora pelo chão, algumas árvores cortadas para caírem com apenas uma pancada mais forte e um grande buraco tampado com um vidro circular disfarçado com alguns galhos e plantas para mantê lo escondido.
Enquanto Adrian controla sua Dádiva, eu preciso encontrar o último componente, Lucius pensa, falando sozinho. Mas como vou achar Ósmio por aqui?
Ele começa a listar mentalmente os materiais que já possui na casa:
Pilhas: Delas, ele consegue extrair o Zinco do ânodo e o Manganês do cátodo para condução.
Abridores de garrafa: Ele mexe nos bolsos e sente o metal. Prata... isso é o que mais tem de sobra.
Lâmpada quebrada: Do filamento que estava preso ao teto, ele consegue extrair o Tungstênio.
— Para completar tudo isso e criar o acumulador perfeito, eu só preciso realmente do Ósmio por sua densidade, se eu criar com a minha dádiva, não terá o mesmo efeito pois nada se iguala ao elemento sendo encontrado de forma natural. — ele suspira, olhando para o chão da floresta e para os destroços da civilização antiga.
O Ósmio é o elemento natural mais denso da tabela periódica. Lucius precisa dessa densidade para conter a pressão da dádiva de Adrian.
— Será muito difícil. Mas eu preciso encontrá-lo. Nem que seja qualquer outro metal que se aproxime o máximo possível da densidade do Ósmio.
— Sem isso, a fonte de poder vai explodir antes mesmo de chegar até ele.
Lucius está tão perdido em seus pensamentos sobre o Ósmio que acaba não prestando atenção imediata ao seu redor.
Depois de uma longa caminhada, olhando para o chão, ele percebe que existem muitas folhas caídas, bem mais do que o de costume. Quando levanta o olhar, percebe que as árvores não estão mais como antes. A partir de um certo ponto da floresta, a vegetação parou de dar frutos e parece continuar apenas na direção do rio.
— Mas o que está acontecendo com essas árvores? — Lucius se pergunta.
Chegando próximo ao rio, ele vê aquele pequeno pé de pimenta de onde colheu amostras. O arbusto, antes carregado, agora está murcho. Só sobraram aquelas pimentas que ele havia deixado para amadurecer. O resto do pé morreu.
— Este arbusto estava cheio... — ele murmura. — Mas agora parece que a vida dele se foi.
Lucius caminha até a beira do rio. Ele sente que a água não está normal. Agachando-se, ele coleta um pouco de água com a mão e percebe imediatamente, pelo cheiro e viscosidade, que não está potável.
Crack.
Um barulho do outro lado do rio quebra o silêncio.
Lucius se assusta e se joga atrás do arbusto de pimentas. Quando ele tenta espiar, consegue ver duas silhuetas não identificáveis do outro lado da margem.
Grrrr...
Um rosnado baixo ecoa.
Nesse momento, um flashback atinge Lucius como um soco: ele correndo pela floresta com Adrian nos braços, silhuetas perseguindo-os pelo chão e pelas árvores naquela noite fatídica.
Lucius volta a si, suando frio. Ele espia novamente. As duas criaturas têm forma humanoide, uma com cerca de 1,80m e a outra um pouco menor, 1,70m. Ainda não é possível ver seus rostos, mas a postura é bestial..
A memória de Lucius muda. Ele se lembra de sua queda no rio naquela noite. Ele vê a imagem de sua mãe com o braço esticado na beira de uma cachoeira, gritando, tentando alcançá-lo, mas ele já estava longe demais, sua última imagem foi de sua mãe tendo a cabeça arrancada naquela noite..
O medo no rosto de Lucius se transforma em puro ódio.
— Eles vão pagar pelo que fizeram naquela noite... — ele sussurra, os dentes trincados. — Mas eu sei que na força bruta não vou conseguir vencê-los agora. Eu preciso levá-los até a nossa casa. Terei que usar as armadilhas.
Ele observa as criaturas pegarem um pedaço de pano preso em um galho – um retalho da roupa dele ou de Adrian.
— Será que eles estão nos caçando? — Lucius avalia o rio. É extenso e tem correnteza. — Não sei se eles sabem nadar, mas a água pode me dar o tempo necessário para pegar distância.
Lucius começa a agir. Ele colhe todas as pimentas que restavam naquele pé seco e concentra sua Dádiva, transformando as em fósforo em uma aura volátil na palma da mão direita.
— Eu vou precisar usar fogo, mas preciso ser cauteloso para não incendiar a floresta inteira.
Lucius amontoa galhos secos no início da trilha, perto do arbusto. Encostando a mão direita, ele impregna a madeira com a aura de fósforo altamente inflamável.
— Acho que isso já serve.
Ele se levanta e grita: — EI, IMBECIS! ESTÃO PROCURANDO POR ALGUMA COISA?!
As criaturas viram as cabeças bruscamente. Ao verem o garoto, gritam em um som agudo e pulam na água para atravessar o rio. Mas, como Lucius previu, a profundidade e a correnteza os atrasam.
Lucius corre.
Com a mão esquerda, ele toca nas árvores ao longo da trilha que não podem ser queimadas. Em cada toque, ele converte sua aura em Bromo, um retardante de chamas natural, criando um corredor de segurança. Já com sua mão direita ele vai criando o que parece ser um longo pavio que se conecta com os galhos secos do início da trilha.
— Ainda bem que não tem muitas árvores pelo caminho, senão eu ficaria esgotado.
Quase na metade do trajeto, a aura de pimenta acaba.
— É só o que dá para fazer. Se eu usar o fósforo do meu próprio corpo, eu não vou chegar até em casa.
Lucius para e se vira. Ele cria uma pequena chama na ponta do dedo indicador direito e aponta para o fim da trilha, ele faz o gesto de uma arma com a mão, aponta para o fósforo e diz:
— Bang.
A pequena chama cai direto na ponta da trilha. O fogo percorre o caminho como um pavio de pólvora.
As criaturas, já estavam saindo do rio, veem o fogo vindo em sua direção, mas, por ser baixo, acham inofensivo e avançam. Quando passam pelo arbusto impregnado de fósforo, a colisão acontece.
BOOM!
Um fogo alto e químico cresce. As criaturas são atingidas gravemente, com a pele queimando. Elas rolam no chão molhado, conseguindo apagar as chamas, mas a dor as deixa furiosas. Elas se levantam e voltam a correr, agora com mais ódio.
Lucius corre desesperado, ele pega em seu bolso os dois abridores de garrafa que carregava com ele. Usando a prata dos abridores Lucius cria um espada proporcional ao tamanho dele. Ele golpeia duas árvores precariamente cortadas, derrubando-as no caminho para atrasar os monstros.
— Estou quase lá! Já estou vendo o buraco daqui!
Chegando próximo à armadilha, ele pula sobre ela e cai propositalmente do outro lado, fingindo exaustão.
Logo em frente da casa, Adrian, que estava em concentração, se assusta com os barulhos.
— Lucius?! Você está bem?
— FIQUE AÍ! NÃO SAIA DAÍ! — Lucius grita em desespero.
Adrian paralisa na porta e vê as duas criaturas se aproximando.
— O que são eles?! — Adrian pergunta, trêmulo.
— SÃO AQUELES QUE ESTÁVAMOS PROCURANDO!
Os monstros, cegos pela fúria, correm em direção a Lucius e com isso eles pisam nos galhos que cobriam o buraco. O vidro camuflado cede com o peso.
CRASH!
No momento em que caem, Lucius se levanta rapidamente. Ele usa sua Dádiva para manipular os cacos de vidro quebrados e fundi-los novamente no topo, selando o buraco instantaneamente com uma nova camada transparente e reforçada.
As criaturas ficam presas no fundo, pulando e arranhando as paredes de terra, incapazes de sair.
Lucius fica em pé sobre o vidro, olhando para baixo com superioridade.
— Consigo perceber o quão burros vocês são. Se trabalhassem juntos, facilmente sairiam daí. Mas, dessa forma, ficarão aí para sempre.
Adrian observa, paralisado. Os monstros não param de gritar.
— Eu queria fazer algumas perguntas — Lucius continua, frio. — Mas pelo visto eu não teria nenhuma resposta, porque não passam de animais selvagens.
Lucius começa a rir, um som beirando a psicopatia.
— Adrian Você sabe o que acontece se o Nitrogênio for colocado sob pressão em um espaço confinado?
— Não.
Ele se agacha, coloca as mãos sobre o vidro e grita:
— COMBUSTÃO!
Uma explosão abafada e direcionada ocorre dentro do buraco. Os monstros gritam enquanto são consumidos pelo fogo e pela pressão. Lucius assiste sem nenhuma reação, enquanto Adrian grita o nome do irmão, horrorizado, mas Lucius não escuta, preso no êxtase de sua primeira vingança.
Lucius finalmente se vira para Adrian, sorrindo.
— ATRÁS DE VOCÊ! — Adrian grita.
Lucius olha tarde demais. Uma terceira criatura, muito maior que as outras, salta em sua direção. Seu braço direito possui um enorme machado no lugar de sua mão.
Lucius transforma sua espada em um escudo num reflexo desesperado.
CRAACK!
O escudo se estilhaça com o impacto brutal. Lucius é arremessado para trás, colidindo violentamente com a mesa de sinuca destruída. Moedas velhas voam para o alto em uma nuvem de poeira e sangue.
Lucius cospe sangue, incapaz de se levantar.
— LUCIUS! — Adrian grita, travado.
O monstro caminha lentamente até Lucius que está caído.
— ADRIAN! — Lucius grita, arrastando-se. — VÁ ATÉ O CAMINHO NA FRENTE DA CASA! E ATIRE FOGO NELE!
— Eu não consigo fazer isso! — Adrian chora.
— SE VOCÊ NÃO FIZER, NÓS DOIS VAMOS MORRER AQUI! — Lucius berra, o sangue escorrendo pela boca.
A criatura continua indo lentamente enquanto arrasta o seu machado ao chão..
Adrian continua paralizado.
— VAI, ADRIAN, CARALHO!
Nesse momento Adrian corre até a ponta do fio da armadilha. Em meio ao desespero, ele tenta criar fogo, mas só saem brilhos sem resultados de queimação.
Eu não estou conseguindo... Por que eu não estou conseguindo?! Eu não posso perder o Lucius também!
Adrian em desespero grita:
A angústia de Adrian atinge o pico. Sua Dádiva não gera calor, mas sim uma sobrecarga de energia nervosa.
ZIZZZT!
Um brilho intenso, como o reflexo de um raio, emana de Adrian. Ele não produz fogo, mas sim uma Descarga Elétrica. O raio atinge a ponta do fósforo que estava ao chão, acendendo-o instantaneamente.
A chama corre pelo caminho até alcançar a corda, queimando-a até se romper.
No momento que a criatura começa a esticar o braço para pegar Lucius, lá do alto vem, um tronco gigantesco, preparado como um pêndulo, despencando em alta velocidade.
BAM!
O tronco acerta a criatura em cheio, arrastando-a até colidir com uma árvore grossa, o impacto faz com que outras árvores caiam sobre ele, soterrando-o sob toneladas de madeira.
Depois que a poeira baixa, Adrian corre até o irmão.
— Lucius! Você está bem?
— Eu pareço estar bem? — Lucius tosse sangue. — Ele me deixou cheio de fraturas... Me ajude a levantar e leve-me até ele.
— Você quer ir lá? É perigoso demais!
— É mais perigoso se o deixarmos vivo.
Apoiado em Adrian, Lucius caminha até o local. A criatura ainda está viva, mas imóvel, presa sob as árvores, debatendo-se e rosnando.
— Veja, Adrian... Esses monstros estavam naquela noite. Eles participaram da morte da mamãe.
Lucius olha com ódio.
— Maldito!
— Então foram eles que mataram a mamãe? — Adrian perguntou.
— Não. — Lucius responde, sério. — Existe alguém muito mais poderoso que deve comandar essas criaturas. A mamãe não perderia para essas merdas, mesmo que cinquenta deles atacassem de uma vez. Mas eles estavam lá. Então eles também são culpados.
Adrian olha para as árvores caídas. — Graças a Deus as armadilhas deram certo.
— Pois é. Então já saiba como usá-las. E agora você vai aprender o que deve ser feito com quem for pego por elas.
Lucius se ajoelha próximo da criatura, posicionando uma mão de cada lado da cabeça da criatura..
— Sabe, Adrian, o Oxigênio é algo incrível. Da mesma forma que ele alimenta as chamas, ele também a destrói completamente. Eu poderia queimá-lo como aos outros... mas já que você me feriu, sua morte será agoniante, e não apenas dolorosa. Adrian, você sabe de onde o Oxigênio também pode ser extraído? Da água.
A Dádiva de Lucius envolve a cabeça do monstro, criando uma bolha de água densa extraída do ar e da própria saliva da criatura.
O monstro se debate, com os pulmões ardendo. Lucius começa a rir, uma risada de crueldade. E, naquele momento, contagiado pela adrenalina e pela sobrevivência, Adrian começa a rir junto, uma risada nervosa e infantil que se mistura à do irmão.
Aos poucos, a criatura para de se mexer. Lucius só interrompe a bolha quando tem certeza de que o monstro está morto.
Quando a terceira criatura é finalmente silenciada pela bolha d'água, Lucius se levanta com a ajuda de Adrian.
Caminhando de volta para casa, eles atravessam a zona de conflito: árvores destruídas, o chão marcado pelo caminho de pólvora e o buraco de onde ainda saía uma fumaça fétida.
— Que cheiro horrível! — Adrian diz, tapando o nariz.
Lucius olhou para o buraco. — É o cheiro deles queimando. Por isso fede tanto.
Ao se aproximarem da casa, Adrian nota os destroços. — Olha só! Nem a mesa sobreviveu!
— Pois é. Fui arremessado com tanta força...que se ela não estivesse ali eu teria ido muito longe mais longe.
Ele pausa, olhando para os destroços da mesa de sinuca, nota que existem alguns brilhos pelo chão.
Seus olhos se arregalam, e um grande sorriso surge em seu rosto.
— Moedas... — ele sussurra, em êxtase.
Ignorando completamente a dor das fraturas, Lucius tenta correr, tropeça, mas se levanta e avança até onde algumas moedas de 1,00 real estavam espalhadas.
— Calma, Lucius! Você está ferido! — Adrian grita, preocupado.
Lucius ignora o irmão, chegando até as moedas. Ele cai, percebe que havia uma gaveta ao lado da mesa cheia de outras moedas.
Em extrema felicidade, ele as recolhe, a dor sumindo diante do objetivo alcançado.
— Olha, Adrian! Era a última coisa que eu procurava! Agora, os nossos elementos estão completos! Conseguiremos criar o nosso núcleo!
— Núcleo? — Adrian pergunta, sem entender.
— É meio difícil de te explicar agora, mas no momento certo você vai saber. — Lucius aperta as moedas. — Essas moedas possuem minérios de níquel. Podemos criar Ósmio a partir disso.
— Ósmio? — Adrian repete.
— É o metal mais denso e um dos mais raros do mundo. Eu realmente preciso que você domine logo sua Dádiva. E deu para perceber que você já avançou bastante.
Adrian desanima. — Mas eu sofri tanto para criar um pouco de chamas e nem isso eu consegui.
— Você foi muito além das chamas, meu irmão. — Lucius o interrompe. — O fogo é apenas o oxigênio queimando. O raio é o oxigênio gritando de tanto poder. Para você ter uma noção, eu não consigo converter o oxigênio para o nível de raio, nem consigo transformá-lo em gelo. Você o estimula, e eu apenas o converto para sua forma primária.
Lucius toca no ombro de Adrian.
— Agora você entende quando eu disse que seríamos perfeitos juntos? Eu crio o elemento e você o fortifica, nos deixando invencíveis. Agora, com a sua evolução e a minha, não mataremos apenas três desses monstros, mas sim centenas. Você será incrível se aprimorar sua habilidade.
Lucius suspira de dor.
— Infelizmente, eu vou ter que tirar alguns dias, na verdade longos dias de descanso, porque estou completamente quebrado. O bom é que eu vou acompanhar o seu treinamento mais de perto.
Adrian, olhando para as próprias mãos, sorri de uma forma diferente.
— Eu vou fazê-los sofrer, irmão. Igual você me ensinou. Vou fazer o mesmo com cada um deles.
Lucius, que nunca tinha visto Adrian falar daquela forma, apenas acredita que seja um breve momento de empolgação por ter despertado o seu poder.
— Tudo bem. Agora me ajude a chegar na cama e depois recolha algumas dessas moedas e traga para dentro de casa. Preciso muito descansar.
Adrian dá apoio a Lucius e o leva para dentro de casa.
(Neste ponto, a narrativa introduz um Time Skip de alguns meses.)
Alguns meses se passam. Adrian agora tem 6 anos e Lucius 13 anos.
Acompanhamos o progresso através de quadros mentais: Adrian evoluindo com o treinamento rigoroso, Lucius ensinando-lhe a Tabela Periódica, Adrian montando armadilhas ao redor da casa e, por fim, caçando pequenos animais e peixes.
O tempo passa. Aquele cenário onde existia muita vida está quase seco, as árvores daquela região estão quase sem folhas. Adrian está suado e sem camisa. Ele segura um abridor de garrafas com a mão direita e coloca a esquerda por cima. Lucius, completamente recuperado, está ao lado dele.
— Vamos, Adrian. Mude a composição deste abridor. Mude para um metal mais fraco e depois volte para a prata. E, para finalizar, mude para algo mais forte que a prata. Foque nos metais que eu te ensinei.
Adrian se concentra. Ele consegue mudar a prata para Bronze sem danificar o abridor.
— Isso! — Lucius exclama, contente. — Continue sem danificar o objeto!
Adrian então retorna o abridor para a prata e, depois, o transforma em Ouro. Após isso, ele cai de joelhos, exausto e ofegante, mas o abridor se mantém intacto.
— Você está pronto, Adrian. Você se aprimorou e finalmente dominou aquilo que mais queríamos. — Lucius pensa: Em tão poucos meses, será que ele é um prodígio? Droga eu odeio prodígios, mas ele realmente será muito forte.
— É bom você se preparar, porque acredito que amanhã começaremos a nossa missão. — Lucius diz.
Adrian está muito cansado para falar, mas apenas levanta a mão, fazendo um "joinha".
No dia seguinte, Lucius espera Adrian do lado de fora.
Adrian sai de casa e se dirige à Lucius. — Por que será que nunca mais apareceu outra daquelas criaturas?
— Não faço ideia — Lucius responde, confuso. — Aqueles estavam um pouco longe daqui. Eu que acabei os trazendo pra cá. Pensando bem, eu podia ter simplesmente fugido, não é? Mas e se eles nos achassem de alguma forma estaríamos ferrados.
— É uma pena — Adrian diz, soberbo. — Eu me sinto preparado e sei que se enfrentasse um deles, conseguiria matar pelo menos um.
Adrian cria uma bola de fogo na mão e a arremessa em galhos secos ao chão.
— Não se empolgue tanto. — Lucius o repreende. — Mesmo praticando lutas corpo a corpo, ainda não teríamos chances contra eles no mano a mano.
— Duvido! Eu consigo deixar um buraco em uma árvore se eu quiser! — Adrian argumenta.
— Ah, é? Mas depois que você faz isso, vira um inútil sem poder algum. E só o fogo ainda não seria o suficiente.
Lucius cria uma pequena bola d’água na mão, apaga o fogo nos galhos e diz:
— Vamos lá. Vamos tentar a primeira vez com a única moeda. Lembre-se que, por não ter domínio completo, temos que usar algo que se aproxime do que queremos.
Adrian, em tom de deboche e desrespeito, responde:
— Já entendi. Você diz isso sempre. Já sei que o Níquel é o mais próximo do Ósmio e da Platina. Mas já que não temos Platina nem Ósmio, vamos usar o Níquel dessas moedas, que é o que mais chega perto dos dois.
— Eu sabia que alguma hora você ia aprender! — Lucius sorri, animado.
Lucius pega uma moeda e, usando sua Dádiva, a transforma em um pequeno bloco de Níquel na palma da mão direita.
— Pronto. Agora, enquanto eu seguro e te dou suporte, aprimore essa pedra para Ósmio!
Adrian posiciona as mãos ao lado da pedra na mão de Lucius e diz: — Vou tentar.
Adrian começa a descarregar sua Dádiva. A pedra muda aos poucos, mas Lucius solta um grito assustado.
— Ah! Está queimando!
A pedra cai no chão.
— Você está bem? — Adrian pergunta.
Lucius pega a pedra. — Estou bem. — Diz Lucius ignorando a dor.
Vamos continuar. Agora não vou soltar mais, e você não para de forma alguma!
Adrian acredita na palavra do irmão. — Está bem!
Lucius usa o braço esquerdo segurando o antebraço direito para dar apoio. Adrian força a evolução do Níquel. Ele percebe as pontas dos dedos de Lucius começando a queimar, mas Lucius resiste. Adrian hesita e simplesmente para. O Níquel se desfaz em pó.
Lucius, em desespero, grita: — NÃO! NÃO! NÃO!
Ele tenta pegar os restos, mas não obtém sucesso.
Adrian, assustado, toca o ombro de Lucius. — Irmão, você está bem?
Lucius se levanta, tirando a mão de Adrian de seu ombro, e dá um soco no rosto dele.
—- Eu disse pra você não parar!
Adrian, com lágrimas nos olhos, grita: — OLHA A PONTA DOS SEUS DEDOS, DROGA!
Lucius, revoltado: — Eu não quero saber de como está ou como vai ficar a merda dos meus dedos! Isso é só o começo! Por mim, eu sacrifico meu braço inteiro para conseguir essa droga de Ósmio!
— Não faz isso com você! — Adrian implora.
Lucius segura Adrian pela gola. — O quê? Você acha que isso é dor comparado com tudo o que nós vivemos? Eu vi a nossa mãe ter a cabeça arrancada na minha frente!
Adrian chora mais. — Mas se você perder seu braço, Lucius, você não vai conseguir vingar a mamãe!
— E você acha que perder a porra de um braço vai me matar?! — Lucius grita. — Enquanto eu respirar e eu me mover, eu farei de tudo para acabar com aquele monstro! Eu jurei para mim mesmo que eu só vou morrer depois que eu conseguir isso! Agora, queime meus dedos, minha mão, meu braço inteiro, se for preciso, mas transforme a droga deste Níquel em Ósmio!
Lucius pega três moedas e cria um bloco maior de Níquel.
— Se prepare — Lucius diz, com a voz embargada pela dor e determinação. — Você só vai parar no momento em que obtivermos sucesso.
A cena se repete. Adrian se esforça ao máximo. As pontas dos dedos de Lucius ficam completamente queimadas, o fogo químico avançando para a palma da mão. Lucius grita, mas força a voz: — NÃO PARA!
Adrian aumenta a força. Lucius tem todos os dedos e a palma da mão queimados. Mas, finalmente, a alteração do Níquel funciona.
O metal se transforma em uma pedra densa de Ósmio Puro.
Lucius solta a pedra no chão e cai de joelhos, segurando o braço queimado.
— Conseguimos! — ele diz em êxtase. — Finalmente conseguimos, Adrian!
Adrian percebe a gravidade das feridas do irmão. — Seus dedos...! Lucius, faça algo rápido!
Lucius cobre os dedos com água convertida de sua aura junto a óxido de zinco. Adrian coloca a mão sobre as feridas de Lucius, usando o Estímulo para deixar a água mais gelada.
— Nossa, isso alivia muito... — Lucius sorri, .
— Eu disse que você ia se ferir. Adrian preocupado.
—- Você acha que acabou? Isso é só o começo. teria como eu impedir isso de acontecer, mas eu ainda não consigo controlar dois elementos ao mesmo tempo.
— Mas eu já vi você manipulando mais de um elemento ao mesmo tempo! — Adrian protesta.
— Isso é diferente. Eu preciso manter toda a minha força no Níquel para você não destruí-lo. Amanhã será muito mais difícil. Amanhã completaremos o que estamos esperando todo esse tempo.
— Peraí, amanhã? Com sua mão nesse estado? — Adrian pergunta, preocupado.
— É melhor ferrar com tudo de uma vez do que esperar curar para abrir o ferimento novamente. — Lucius explica, a lógica distorcida pela obsessão.
— O que você está planejando?
— Vamos criar o núcleo amanhã. E não importa o'que pode acontecer. Se o seu núcleo ficar pronto, será o dia mais feliz da minha vida.
— Está louco, Lucius! Eu não posso deixar você fazer isso! — Adrian gritou, em uma discussão acalorada.
Lucius revidou, a voz fria: — Cala a boca, Adrian! Você não tem que deixar nada. Apenas entenda que só isso poderá derrubar o que procuramos. Se nem a mamãe pôde contra eles, quem dirá nós dois?
Adrian rebateu, indignado: — De que adianta, se você não ficar bem, como vai se vingar?!
— Eu te disse que eu não vou parar! Não importa como vai estar o meu corpo! Se eu ainda respirar, eu ainda vou lutar!
— Você disse que ainda não consegue se proteger durante a transição de elemento por falta de experiência! Por que não esperamos um pouco enquanto você treina e se aprimora? — Adrian implorou.
— Porque não temos tempo, quanto mais rápido fizermos isso, mais rápido sairemos daqui. Amanhã, usarei o máximo que eu tiver para me proteger.
Lucius olhou para o irmão, suavizando a voz minimamente: — Você vai ficar mais tranquilo se eu fizer isso?
— Lucius, apenas fique bem.
Adrian se virou, andando até o bloco de Ósmio, pensando: Irmão. Eu não sei o que eu vou fazer se eu perder você.
Lucius muda o clima com a sua empolgação:
— Nem acredito que o principal elemento da nossa criação estava todo esse tempo debaixo do nosso nariz.
— Por que essa mesa tinha tantas moedas? E Para que serviam? — Adrian perguntou, curioso.
— Pelo que eu vi em livros, elas eram algum tipo de objeto de valor, talvez de troca. Não sei dizer ao certo.
— Então, essa mesa valia alguma coisa, e nós a destruímos completamente.
— Não é como se eu tivesse tido escolha, né? — Lucius respondeu.
— Mas acredito que se tivesse algum valor real, não a teriam deixado largada por aqui.
Adrian se abaixou e pegou o bloco de Ósmio. Pela primeira vez, sentiu o peso do metal mais denso do mundo. Ele era mais pesado do que aparentava, parecendo um metal comum, mas com uma gravidade surpreendente.
— Vamos para dentro — Lucius chamou. — Preciso cuidar melhor dessa queimadura.
No dia seguinte, a mão de Lucius ainda estava em péssimo estado.
Ele foi até uma árvore morta e disse: — Dessa aqui eu não vou conseguir extrair nada.
Ele se aproximou de uma árvore viva. Ao encostar a mão nela, ele começa a espalhar a sua dádiva pela mão, então aos poucos algumas folhas ficavam secas, seu braço direito foi sendo coberto por um material resistente e escuro, feito de Carbono convertido da seiva.
— Acho que isso vai servir — Lucius murmurou. — Mas não sei se consigo manter a proteção enquanto estarei focando no núcleo.
Adrian saiu de casa. — Já está tudo pronto?
— Sim. Criei até essa proteção para te deixar mais calmo e garantir que você não desista no meio. — Lucius riu.
—- E porque você já não fez isso ontem?
— Não coloquei fé que seria tão doloroso, mas hoje eu já tenho consciência disso. A gente erra uma vez para não errar nunca mais, não é? Pelo menos agora, já deixei tudo pronto. Se acontecer alguma coisa, corremos para casa, me deito e coloco o meu braço dentro daquele balde e tá tudo certo.
Lucius pegou um galho um pouco mais resistente de uma árvore, transformando-o em uma pequena caixa. Dentro, ele colocou todos os itens necessários:
A pilha (ânodo(Zinco) e cátodo(Manganês)).
O resto da lâmpada (Tungstênio).
O abridor de garrafa (Prata).
E, por fim, Adrian colocou a Pedra de Ósmio.
— Tudo está aqui dentro — Lucius disse. — Hoje será mais difícil porque vou usar a minha base de Criador. Faça o mesmo de ontem, mas dessa vez, use mais poder. O máximo que você conseguir.
— Hoje será a última vez que eu vou colocar a sua vida em risco — Adrian disse, sério.
— Prometo que essa será a última vez que vou te pedir algo que vai me machucar, pelo menos é o que eu espero. — Lucius sorriu.
Lucius segurou a pequena caixa por baixo com as duas mãos. Adrian colocou suas mãos em cima da caixa onde estava visível os itens. Os dois, usando o poder ao mesmo tempo, fizeram um brilho surgir da caixa. Lucius posicionou sua mão esquerda sobre a de Adrian; a direita se manteve em baixo da caixa, para segurar todo o impacto e usar a proteção do Carbono.
A caixa de madeira queimou completamente. Um grande brilho está na palma direita de Lucius. Sua proteção de Carbono começou a derreter e seu braço começou a queimar.
— AH! VAMOS, ADRIAN! — Lucius gritou.
Adrian estava no seu máximo. O desespero nublou seu rosto. O braço de Lucius estava piorando.
— Quando eu disser "JÁ!", use tudo o que você tem! — Lucius gritou em meio à dor. — Um... dois... JÁAAAAA!
Os dois gritaram em sintonia. O brilho ficou maior, intenso. Lucius segurou firme para absorver todo o dano para ele.
BOOM!
Houve uma explosão direcionada. Lucius voou para longe, caindo a uma distância considerável. Adrian caiu mais próximo, tonto. Sua visão embaçou, e seus ouvidos apitaram. Por mais que gritasse o nome de Lucius, só ouvia sussurros.
Uma fumaça densa tomou conta do local. Adrian estava desgastado e teve dificuldade para se levantar.
Em meio à fumaça, ele percebeu um pequeno brilho: uma esfera perfeita com pequenos raios azuis ao redor. A esfera estava na mão de Lucius, que a segurava firmemente, com o braço direito coberto por queimaduras extremas, com alguns arranhões pelo corpo, mas estava inconsciente.
Adrian começou a chorar. — Lucius! Não!
Ele tentou se levantar mas caiu. em algumas tentativas ele continua a cair estando sem força. Até finalmente ele conseguir chegar até Lucius
— Vamos, se levanta, droga! Como vou te levar para casa se não sobrou forças?
Adrian lutou contra a exaustão para carregar Lucius de volta para casa. Em uma dessas quedas, a esfera caiu da mão de Lucius e rolou pelo chão. Adrian não percebeu. Naquele momento, ele só queria salvar o irmão e nem se lembrou da esfera.
Depois de muitas quedas, ele conseguiu chegar à entrada.
— Só mais um pouco...
Adrian conseguiu jogar Lucius na cama. Ele pegou o balde que havia preparado — água com elementos de Sódio, Nitrogênio, Oxigênio e Carbono, a combinação de Lucius para criar um analgésico e anti-inflamatório. Ele colocou o braço direito de Lucius dentro do balde.
Adrian, chorando em desespero, caiu de joelhos ao lado da cama. — Por favor, não me deixe sozinho.
Ele colocou as mãos na água e reduziu a temperatura dela. Exausto, ele adormeceu sentado ali mesmo, com os braços cruzados sobre as pernas.
Depois de algumas horas, Lucius despertou. Ele reparou em Adrian dormindo, sentado ao lado da cama. Ele tentou se mexer, mas o corpo estava dolorido.
— Adrian... ei, Adrian... — Lucius chamou.
Adrian acordou aos poucos. Ao perceber que Lucius estava bem, ele sorriu e gritou, empolgado: — Você acordou!
De forma fria e seca, Lucius fez uma única pergunta: — Onde está o núcleo?
A alegria de Adrian se apagou rapidamente. Ele perguntou: Núcleo?
— Ah, ele deve estar lá fora... — Adrian murmurou.
Lucius usou o braço esquerdo para agarrar a gola da camisa de Adrian.
— Você está dizendo que deixou lá fora?! Tem noção do quanto foi doloroso fazer aquilo?!
— Com certeza ainda está lá! Você sabe que ninguém vem aqui! — Adrian se defendeu.
— Foda-se! Nunca se sabe o que pode acontecer! O mínimo de descuido, e então perderemos tudo! AGORA, VAI LÁ FORA BUSCAR AQUELA MERDA E TRAGA ELE PARA MIM!
Adrian, sem falar nada, se levantou e correu para fora. Ele logo viu a esfera largada no chão.
— Eu falei que ainda estaria aqui — ele pensou.
Quando Adrian a pegou, percebeu que era algo muito além de uma simples esfera de metal. Era incrivelmente pesada.
— Como é pesada... — ele comentou. — Então tudo aquilo virou só isso? Não parece ser nada poderoso como Lucius disse.
Adrian voltou para dentro de casa para mostrar a esfera a Lucius.
— Viu? Eu disse que estava inteira! — Adrian exclamou, mostrando a esfera de Ósmio a Lucius.
Lucius olhou para a esfera nas mãos de Adrian com um brilho que o irmão nunca tinha visto.
— Adrian, finalmente nós conseguimos.
Ele pegou a esfera com sua mão esquerda, fascinado dizendo: — Isso aqui tem a capacidade de acumular uma quantidade enorme de energia.
A floresta não é mais como era antes, e a água não demonstra melhorar. logo teremos que ir embora daqui. Temos que encontrar outro lugar.
— Mas para onde vamos? — Adrian perguntou.
— Não sei. Mas antes de irmos, vamos explorar a região. — Lucius disse. — Vamos, na verdade, o mais longe possível daqui, no sentido contrário do rio desta vez, e ver se encontramos alguma civilização.
— Uma civilização? — Adrian perguntou, curioso, por nunca ter ouvido falar de tal coisa.
— É um lugar com várias pessoas concentradas onde se forma uma população. — Lucius explicou.
— Não é perigoso conhecer novas pessoas?
— Acredito que podemos evitá-las.
Adrian estava animado. A única coisa que ele pensava era: Vamos, Lucius. Pode deixar que eu cuido logo do seu braço!
Adrian trouxe um pequeno pedaço de pano. Lucius deixou a esfera ao lado da cama, mantendo o braço direito no balde. Com a mão esquerda, ele pegou o pano e o transformou em uma grande atadura.
— Segure isso, Adrian e enrole por todo o meu braço.
Com grande desconforto e dor, Lucius tirou o braço queimado de dentro do balde. Adrian, cuidadosamente, enrolou o braço de Lucius firmemente da ponta dos dedos até o bíceps assim cobrindo toda a queimadura.
— Você realmente conseguiu destruir o seu braço. Dizia Adrian, enquanto enrolava.
— Mas por que será que essa marca não foi danificada? — Adrian perguntou, olhando para a marca que Lucius tem no braço.
— Também não sei te responder. Mas pelo visto, por mais que o braço fique queimado ou cicatrizado, ela continuará aí.
— Afinal Lucius, Para quê vamos usar esse Núcleo? — Adrian perguntou.
— Logo, logo você vai saber. — Lucius finalizou.
Adrian terminou de enfaixar, e Lucius gerou uma aura de Óxido de Zinco no braço enfaixado para acelerar o processo de cura ao longo dos dias, tornando a bandagem mais medicinal. Ele a colocou de volta no balde.
— Bom, você vai ter que se virar por mim e por você por um tempo agora — Lucius disse, deitado. — Mas lembre-se de tirar um tempo para treinar.
— Pode deixar, não vai ser a primeira vez que cuido de você!
O tempo passou. Lucius se adaptou. Com meses de tratamento e o auxílio de Adrian, o braço de Lucius se curou, mas a cicatriz permaneceu. Ele mantinha a atadura por todo o braço direito, mesmo agora curado, logo pela manhã junto com o nascer do sol, Lucius parece estar empolgado.
Ele pegou uma mochila.
— Vamos, Adrian! Não temos o dia todo!
— Já estou pronto! — Adrian disse, animado.
Adrian olha para os pés e diz:
— É estranho usar isso aqui.
Adrian está usando um tênis pela primeira vez.
— Eu também não estou acostumado, mas teremos um longo caminho pela frente então é bom se proteger. Vamos logo, temos que aproveitar o dia e devemos voltar antes de anoitecer.
Com novas vestimentas (Adrian de camisa azul e bermuda preta junto a Lucius de camisa acinzentada, calça preta e com seu braço enfaixado), eles partiram.
— E para onde a gente vai? — Adrian perguntou enquanto caminhavam.
— Eu não faço ideia — Lucius respondeu, seco.
— Espera, o quê?!
— Só precisamos achar uma cidade bem longe daqui. Ainda não vamos abandonar nossa casa, ela é nosso porto seguro, pelo menos por enquanto. porque a floresta está irreconhecível, os animais estão cada vez mais difíceis de se encontrar e a água está cada vez mais estragada. Não sabemos o que há por aqui. Usaremos o dia para nos distanciar o máximo possível.
Depois de um longo tempo, eles finalmente avistaram o fim da floresta com árvores completamente secas. Os olhos dos dois brilharam, e eles correram até lá.
Ao chegarem, o brilho se apagou: o que existia além da floresta era um grande Deserto, com uma longa estrada de asfalto completamente destruída, que talvez seja uma antiga rodovia. Partes da estrada estavam cobertas pela areia, e ao lado, o que parecia ser o leito de um rio que estava completamente seco.
— Olha isso... parece não existir nada seguindo adiante — Adrian comentou.
— Então é só isso que nos restou? — Lucius disse.
Está cheio de restos de carros.
Lucius olhou na direção contrária ao rio.
— Deve haver algo para aquele lado. Vamos naquele sentido.
— Tem certeza?
— Sim. Quanto mais longe formos, melhor vai ser para nós, se nada surgir na nossa visão voltamos e tentaremos de novo amanhã para outro sentido.
— Por que diabos você está querendo ir para um lugar tão longe?
— Porque é preciso. Agora, vamos. — Lucius pensou, sério:
Naquele dia em que perdemos nossa mãe, eu conheci aquele cara. Não sei se ele está ligado às criaturas, mas desta vez eu não vou arriscar. Então para garantir a nossa seguraça eu usarei alguma população como isca. Depois de usar a Trombeta, vamos embora. E se a minha teoria estiver certa, as criaturas virão e atacarão a cidade ao invés de nós.
Adrian olhou para a cintura de Lucius, onde estavam os três tubos de vidro. — Por que você carrega esses vidros vazios?
— Ah, isso aqui? Você nunca tinha percebido? — Lucius disse. — Eu sempre os usei para guardar frutos quando saía para explorar. Agora, guardo apenas este, cheio de moedas, e os outros eu deixo vazio. Se eu achar algo útil pelo caminho, eu coloco aqui.
Pelo deserto, havia carros destruídos e um avião caído, como se tivesse ocorrido uma grande guerra.
Lucius se aproximou de um dos carros. — Olha só. Esses carros estão cheios de fibras de Carbono.
Ele absorveu o material, transformando-o em pequenas pedras de Carbono e as guardou em um de seus potes. — Se eu tivesse usado isso, duvido que meu braço sofreria tanto.
— O que são esses carros? — Adrian perguntou.
— Segundo os livros, era um meio de transporte comum dos humanos, mas parecem estar aqui há anos. Eles usavam um combustível com vários elementos químicos... álcool, gasolina e diesel também. Mas não sinto nenhum tipo de líquido neles, nem óleo ou água. Nitrogênio, Hidrogênio e Carbono são abundantes pelo mundo. Como deixaram esses veículos chegarem nesse estado?
Adrian olhou para o lado e viu uma coisa enorme. — Olha, Lucius! Tem um carro gigante com asas!
Lucius olhou, desapontado. — Isso não é um carro, Adrian. É um avião. Também era um meio de transporte, mas para longas distâncias, porque com isso a humanidade voava.
— Será que um dia eu vou conseguir voar pelos céus? — Adrian perguntou, empolgado.
— Não quero estragar, irmão, mas eu acredito que não. Agora, vamos andando, porque não temos avião e nem um carro para chegarmos mais rápido.
Depois de algumas horas andando. Subiram em uma parte mais alta e avistaram uma cidade distante, parecia estar a mais ou menos 10 KM de distância deles, parecia ser uma cidade bem cuidada comparada a todo aquele deserto, com casas e prédios cobertos por plantas.
— Então aquilo é uma cidade! Vamos até lá, Lucius!
— Vamos! — Lucius respondeu, seco. — Mas lembre-se, evitaremos as pessoas. Quanto menos nos simpatizamos, mais fácil será. Chegando lá encontraremos um lugar mais vazio possível.
— Do que você está falando? — Adrian perguntou.
— Vem comigo e depois resolvemos isso.
Se aproximando da cidade o tempo vai mudando, parece que teremos uma forte chuva pela frente, Lucius viu uma grande construção com um subterrâneo aberto na parte de fora da cidade, como se fosse um shopping. Por mais que seja grande, aquela parte tem bastante areia, alguns carros abandonados, soterrados e com muitas plantas.
— Ali, Adrian. Vamos lá embaixo. Não parece ter ninguém por aqui.
Antes de entrar eles ainda acabam se molhando um pouco com a chuva, agora escondidos, Lucius e Adrian entram no subterrâneo e a chuva começa a cair mais forte com fortes raios.
— Pronto, Adrian. Vai ser aqui. — Lucius disse.
— O que você está querendo fazer? — Adrian perguntou.
— Se passaram quase dois anos, Adrian. Mas finalmente conseguimos o núcleo. Hoje é o dia em que o usaremos para melhorar as suas habilidades.
— Sério? E como faremos isso?
Lucius abriu a bolsa que carregava e tirou as duas Trombetas: uma com detalhes em vermelho, outra com detalhes em branco.
— Com isso aqui. — Lucius disse.
— Isso não são apenas trombetas? — Adrian questionou.
— Não. Elas vão muito além. Você pode fazer um desejo para elas.
— Um desejo?
— Sim, um desejo. Porém, temos uma condição.
— E qual é a condição? — Adrian perguntou.
— Você deve dar algo em troca..
— Isso é sério, Lucius? Você parece estar me enganando.
— Claro que é! Eu já usei. Como você acha que eu dominei a Tabela Periódica sendo tão novo? Você se torna muito mais forte com isso aqui.
— Como?! — A empolgação de Adrian explodiu.
Nesse momento, Lucius deixou a trombeta com detalhes brancos cair no chão. De forma inocente, ele falou: — Droga, Adrian, pega para mim, por favor.
Quando Adrian se abaixou, Lucius o golpeou pelas costas, fazendo-o desmaiar.
— Desculpe, Adrian, mas é necessário.
Lucius pegou um dos abridores de garrafa que estava na bolsa e o transformou em uma pequena faca, e com isso fez um pequeno furo no dedo de Adrian. O sangue começou a escorrer. Lucius colocou o sangue na trombeta com detalhes em branco. Aos poucos, os detalhes foram ficando vermelho. Algumas folhas no local ficaram amareladas, e uma brisa fria surgiu.
— Exatamente a mesma sensação daquele dia. — Lucius murmurou.
Atrás de Lucius, um Homem Misterioso surgiu, vestindo um sobretudo marrom e com uma aparência simpática.
— Pelo visto, nos encontramos de novo, garoto.
Lucius se assustou e se afastou. — Pois é. Mas até que esse dia demorou para chegar.
— Então você queria ter me encontrado antes? Não sabia que a sua saudade por mim era tão grande assim — o homem disse.
— Na verdade é mais pela necessidade, afinal, só você pode me dar o que eu quero.
O homem sorriu. — Espera um pouco. O que eu tinha para fazer com você eu já fiz. Agora, a minha conversa é apenas com o outro garoto.
— Calma! — Lucius interrompeu. — É justamente para ele, mas eu vou falar por ele pois ele ainda é muito novo para se decidir.
— Mas por que você está se intrometendo?
— Porque essa decisão vai impactar nós dois.
O homem sorriu. — Agora eu fiquei interessado. O que você quer dizer com isso?
Lucius precisava de uma certeza.
— Antes de te falar, eu quero te fazer uma pergunta. Quero saber se você está envolvido na morte de minha mãe.
O Homem Misterioso começou a gargalhar, como se fosse uma piada hilária.
— Claro que não! Por que acha isso?
— Porque ela morreu no mesmo dia em que eu te conheci.
— Apenas Coincidência, meu garoto. Eu não sou aquele que faz o mal, muito menos o que faz o bem. Eu só sou aquele que faz o necessário.
— Então quem fez aquilo?
— Um dia você irá descobrir. Mas não serei eu que vou te contar. Agora, volte para o assunto anterior, pois já voltei a ficar com tédio.
— Está bem. — Lucius disse.
— Se eu não me engano, você propõe conhecimento ou poder, certo? Então hoje a minha escolha, será poder.
— Ah, é? — disse o homem.
— O que pretende fazer com seu irmão?
Lucius pegou o núcleo de Ósmio da mochila. — Está vendo essa pequena esfera? Ela foi criada com os melhores elementos possíveis para se acumular energia. A quantidade de acúmulo pode ser infinita.
O homem pegou a esfera. — Uau. É bem pesada. Mas o que você quer com isso?
— Eu quero que você a coloque dentro do corpo do meu irmão. Porém, que ninguém consiga ver, e nem que ele mesmo consiga sentir.
O homem perguntou, surpreso. — Só isso?
— Não. Eu quero que tudo o que ele usar de poder durante toda a sua vida, essa esfera absorva uma pequena porcentagem do seu poder e se acumule dentro dele, sem sair nada.
— Então, uma pequena porcentagem de tudo que ele usar, será transferida para essa esfera, deixando um poder se acumulando, é isso?
— Isso — Lucius disse. — Como se fosse um cofre. Porém, que esse núcleo só quebre com uma única condição.
— E qual seria?
Quando Lucius vai começar a falar, cai um forte trovão que engole a fala dele e acaba deixando em aberto a condição que ele propôs para aquele homem.
O homem sorriu, achando a proposta bem interessante.
— Mas — Lucius continuou. — Quando esse núcleo for destruído, eu quero que todo esse poder acumulado corra por todo o corpo dele, o deixando extremamente poderoso.
— Você sabe que dependendo da quantidade de acúmulo, o corpo dele precisará estar pronto para resistir a isso, né?
— Pode deixar que eu vou deixá-lo preparado. — Disse Lucius olhando para Adrian.
— Você tem certeza disso? — ele perguntou, gargalhando. — Por causa dessa escolha, esse deve ser o contrato mais ousado que eu já fiz.
— Eu sei o quanto isso é importante, então acredito que ele fará a coisa certa.
— Mas ele está de acordo com isso?
— Acredito que não. Por isso o desmaiei.
— Mas eu preciso que ele aprove essa ideia.
— Já que eu estou junto nessa, não podemos usar algum pacto de sangue ou algo do tipo?
O homem ficou empolgado. — Realmente, nunca pensei que isso aconteceria um dia. Em toda a minha vida, eu nunca encontrei alguém tão ousado como você. Você é muito interessante, garoto. Por esse contrato eu também quebrarei uma regra. Pegue o dedo dele que está com sangue. E encoste no meu.
Eles encostaram os polegares, firmando o pedido de Lucius.
— Com isso, está feito — o homem disse. — Agora, onde ele carregará a marca?
Lucius olhou para Adrian. — Coloque na panturrilha esquerda dele.
— Está certo. — O homem tocou na panturrilha de Adrian. E a marca surgiu como se algo estivesse queimando a pele de Adrian.
Adrian acordou com a sensação de muita dor. Ele a segurou, gritando e chorando. Lucius olhou para o irmão friamente, em pé.
O Homem Misterioso não estava mais ali. Ele já estava distante, andando sozinho no meio do deserto.
— Interessante... Agora, temos o Sexto Remanescente. Será que teremos o nascimento dos Ungidos mais uma vez? — Ele disse, sorrindo