A dor, violenta momentos antes, havia desaparecido.
Adrian ainda estava deitado no chão, olhando para a panturrilha esquerda. A marca, que antes queimava, agora estava perfeitamente formada. A mesma marca sutil que Lucius tinha no antebraço.
Lucius estendeu a mão.
— Você está bem?
Adrian aceitou o aperto, confuso.
— Estou, mas… eu não me lembro bem. O que acabou de acontecer aqui? Quando me dei conta, senti a minha perna queimar, mas logo parou.
— Que estranho — Lucius respondeu, adotando um tom de inocência.
— Quando minha marca foi criada, eu não senti nada. Ela simplesmente apareceu. — Lucius pensou: “Aconteceu exatamente do mesmo jeito comigo.”
Ele pegou a Trombeta que agora estava tingida de vermelho, e a jogou para Adrian.
— Antes que eu me esqueça, pegue isso.
Adrian a apanhou, e só ficava uma dúvida. — Ué, por que está me dando a sua Trombeta?
Lucius mexeu em sua mochila, revelando a sua própria. — A minha está aqui comigo. Agora, cada um tem a sua.
Os olhos de Adrian brilhavam, enquanto admirava a sua trombeta. — Agora eu tenho a mesma marca do Lucius e uma Trombeta também! — Ele repetiu algumas vezes, pulando no lugar.
Mas o entusiasmo logo cedeu à dúvida. Ele coçou a cabeça. — Mas o que eu vou fazer com isso?
Lucius cai no chão em um tom de comédia. — Eu não sei se ela se mantém útil. Só sei que, antes de usá- la, ninguém consegue tocá-la. Mas depois que seu sangue escorre por ela, apenas você consegue tirar o som dela..
Lucius pegou a Trombeta das mãos de Adrian e assoprou. Não saiu nada. Ele a devolveu.
— Agora, tente você.
Quando Adrian assoprou. Soou um barulho alto, como se estivesse anunciando a entrada de um rei. O eco rapidamente se expandiu pelo estacionamento.
Bem longe dali, em um local sombrio, a silhueta de um homem sentado em um trono se ergueu. Ele apertou os braços do assento até quebrá-los. — Te encontrei. — disse ele, com a voz carregada de raiva e empolgação.
De volta ao estacionamento, Adrian estava radiante. Ele imediatamente começou a amarrar o artefato na cintura, para ficar igual ao irmão.
Lucius continuou a sua explicação. — Eu não sei o motivo de tudo isso acontecer, mas é justamente essa marca e essa Trombeta que nos deixa mais fortes.
— Estranho, não estou sentindo nenhuma diferença — Adrian comentou.
— É porque as coisas estão nos detalhes. — Lucius pegou uma pequena folha do chão e a entregou ao irmão. — Use a mesma força que você sempre usou para conduzir o fogo.
Adrian, acostumado a extrair apenas uma pequena e fraca chama, concentrou-se. Mas, impulsionado pela marca, o fogo que saiu de sua mão não era mais uma pequena chama: era uma explosão de chamas vivas. Adrian se surpreendeu com o poder.
— Nossa! Como eu consegui fazer isso?!
— Viu só? Eu disse que isso ia te ajudar muito! — Lucius respondeu, sorrindo. — Mas vá com calma. Você ainda não consegue dominar todo esse poder.
Adrian usou a outra mão para abafar o fogo, apagando-o rapidamente. — Pode deixar que eu vou treinar muito! E vou te encher de orgulho!
— Eu sei que vai. Sempre disse que você seria mais forte do que eu. Mas agora, vamos nos preparar para ir embora. Não podemos esperar a chuva passar, pois vai ficar muito tarde. — Lucius disse.
Adrian olhou em volta, coçando a cabeça. — Lucius, você não está esquecendo nada?
— Que eu saiba, não. — Lucius fechou a mochila.
Adrian, então, fez um formato redondo com as mãos. — O Núcleo!
Lucius respondeu rapidamente: — Ah, ele está dentro de você.
Adrian suspirou, aliviado, e começou a andar. Mas parou, voltando o olhar para o irmão.
— O quê?! Meu Deus! — O desespero tomou conta dele. Ele pôs as mãos na barriga. — Como é que eu vou cagar aquele negócio? Ai meu Deus, eu tô ferrado!
Lucius gritou. — Calma, Adrian! Ele está dentro de você graças à Trombeta. Por mais que o núcleo esteja aí, você nunca vai senti-lo.
— Como não? Ela era muito pesado e possuía alguns elementos!
Lucius tentou a explicação técnica. — A intenção do Núcleo sempre foi ser seu. Diferente de mim, que sou um Conversor, você, como Estimulador, consegue absorver os elementos. Você pode absorver o fogo e extraí-lo como quiser. Pensando nisso, o Núcleo não é um peso físico. Ele ficará dentro de você, acumulando tudo o que você usar para o seu benefício.
— Nossa… eu não entendi quase nada. Mas só de não precisar cagar aquela bola de metal já me deixou aliviado.
— Com o tempo, você vai entender. O importante é você não quebrar o Núcleo, pois você precisa criar um corpo muito mais resistente antes que isso aconteça. Mas fique tranquilo, pois eu avisarei a hora certa de destruí- lo.
— Mas e se—
— E se nada. Eu te avisarei e ponto. Por enquanto, esqueça o Núcleo. Até porque, você nem o sente mesmo.
Quando se preparavam para partir, ouviram uma voz humana chamando de cima:
— Tem alguém aí embaixo?
Lucius imediatamente fez sinal para Adrian se preparar. Eles assumiram uma posição de combate.
Um homem de aparência amigável, talvez com uns trinta anos, apareceu na rampa. Ele estava acompanhado de sua filha, que parecia ter a mesma idade de Adrian. A menina estava tímida, segurando uma bola colorida e escondida atrás das pernas do pai.
— Calma, filha. São apenas dois garotos — disse o homem, sorrindo gentilmente.
Lucius, direto e defensivo, questionou: — O que vocês querem aqui?
O homem ficou confuso. — Quem deveria estar fazendo essa pergunta era eu, né? Eu nunca vi vocês pela cidade. Eu e minha filha estávamos vindo de uma cidade a alguns quilômetros daqui. Estávamos aqui em cima, esperando a chuva passar, e ouvi um som alto que nunca tinha escutado antes. Logo desci para ver o que era.
Lucius olhou para a Trombeta de Adrian, pensando: Deve ter sido a Trombeta.
— Pronto, já posso ser considerado inocente? — perguntou o homem.
— Entendi. Pode ficar tranquilo. Eu e meu irmão já estamos de saída. — Lucius tentou encerrar o assunto.
— Calma, garotos! Não precisam ter tanta pressa. Fiquem hoje pela cidade e amanhã de manhã vocês vão embora.
— Obrigado, mas se sairmos agora, conseguiremos chegar antes do anoitecer.
— Nossa, mas onde vocês moram para ter tanta pressa assim?
— Nós moramos depois da Floresta da Acolhida.
O homem ficou surpreso. — Meu Deus, garoto! Nós costumávamos ir lá de quinze em quinze dias. Me diga que vocês vieram com algum veículo.
— Não, viemos a pé logo pela manhã. E agora estamos indo.
— Vocês devem ser malucos. — o homem disse, vendo Lucius andar. Ele olhou para a perna de Adrian. — Uma criança com tatuagem? Certamente são malucos.
Já na saída, Lucius parou e se virou.
— O que você costuma fazer na floresta?
O homem, respondeu: — Geralmente formamos grupos para buscar frutos.
“— Como a tropa de exploração? Lucius pensou.”
— Mas já faz um tempo que as árvores do início da floresta não estão mais dando frutos. Temos que ir cada vez mais fundo para conseguir alguma coisa. O que levava vinte dias para nascer, hoje se passa meses. E sinto que só piora com o tempo.
O que será que está acontecendo com a Floresta? Lucius refletiu, percebendo a urgência de sua saída.
Adrian ficou parado, olhando para a garota que estava escondida atrás do pai.
Lucius se despediu: — Bom, já vamos indo. Vamos, Adrian.
— Tudo bem, vamos — Adrian concordou, mas o homem os chamou mais uma vez.
— Ei, garoto! Essa é minha filha, Amanda, e eu sou o Fábio. Se voltarem algum dia, vocês serão muito bem recebidos.
Lucius apenas acenou, mas Adrian virou e gritou, animado:
— Meu nome é Adrian, e esse é meu irmão, Lucius! — Lucius começou a arrastar Adrian pela parte de trás da camisa, mas o garoto continuou, acenando: — Até uma próxima!