Tragédia
Isolados em um plano fora do tempo-espaço, jazem os Primordiais, seres da aurora da criação, que transcendem a compreensão e lógica, capazes de moldar e distorcerem a realidade sem esforço, como quem molda montes de terra igual uma criança, seres que habitam isolados da realidade, pois caso tocassem outro plano, o universo colapsaria sob o peso de sua presença. Mas houve um instante em que quatro deles colidiram, e duas ondas de choque de seu embate ecoaram para além do véu da existência. Galáxias se apagaram, estrelas se despedaçaram em cinzas, planetas colapsaram, leis e conceitos antes imutáveis se contorceram sob o impacto. O impacto não foi imediato, ele não destruiu tudo de uma vez. Ele se espalhou, silencioso, imperceptível, infiltrando-se nas engrenagens do destino, alterando caminhos, cruzando linhas que jamais deveriam se encontrar, mundos inteiros, até outros planos foram tocados por essa distorção, ainda que nunca viessem a compreender sua origem.
Um desses planos era Tiryak.
Uma dimensão onde a magia não era um milagre raro, mas uma verdade viva. Onde o impossível poderia se tornar real, e caminhar lado a lado aos mortais, e a realidade aceitava ser dobrada. Feras ancestrais habitavam florestas e bosques, criaturas aladas cortavam os céus, montanhas respiravam Éter.
Em Tiryak, o extraordinário não causava espanto.
Ele fazia parte da ordem natural das coisas.
Foi nesse mundo, moldado pelo fantástico e silenciosamente tocado pelo eco dos Primordiais, que o destino começou a se desviar.
Gabriel vivia no Reino de Aethernys, no planeta Samsyra, em uma viela humilde, ele era uma criança de 8 anos, extrovertida, com cabelos curtos e acobreados, olhos verdes e um olhar determinado, junto a seus pais, Kalchas, um homem de 24 anos, cabelo loiro comprido, mas sempre amarrado, barba, e profundos olhos azuis escuros, aleijado por uma tragédia que ocorreu antes do nascimento de Gabriel, e Astradamas, uma alta mulher de 25 anos, ruiva, algumas sardas e olhos verdes, junto a Gabriel, ambos trabalhavam para manter o sustento da família, mesmo criança Gabriel fazia entregas para ajudar com a casa, já que seu pai estava acamado.
Até que um dia Gabriel teve um sonho diferente de todos os anteriores, vívido, lúcido.
“Que sonho estranho” — Gabriel pensou, olhando para os lados, mas sem conseguir se mover, apenas assistindo de cima.
A figura de um rei, o rei de Aethernys.
“O rei?” — Ele divagou.
— Eu, Rei Uther Pendragon, o Pilar Leste Varanth, o nomeio [*******], como Herói de Aethernys. — O som de uma multidão comemorando ao fundo assustou Gabriel, que o fez acordar.
“Mas que porcaria, eu não consegui ver o rosto dele…”
Gabriel acordou logo após, mas mantendo em segredo de seus pais, por achar ser apenas um sonho incomum. Gabriel costumava brincar com alguns meninos por entre as vielas, ele estava no portão prestes a sair quando sua mãe o chamou.
— Gabriel, cuidado com as caixas velhas da loja do senhor Ramil. — Ela o alertou, com um grito gentil.
Gabriel soltou os ombros.
— Tá bom mãe! — Ele respondeu, saindo logo após.
Ele se juntou com um grupo de crianças e começaram a brincar.
— Ei Gabriel, sua mãe é superprotetora em. — Afirmou um de seus amigos.
— Verdade, uma mãe coruja. — Respondeu outro.
Eles pararam de brincar por um instante, e o maior dos meninos foi até as caixas que a mãe de Gabriel o alertou para tomar cuidado, empurrando alguns meninos no caminho.
— Vejam, essas caixas são inofensivas. — Afirmou ele, cutucando a caixa com um graveto que estava no chão. — Viram? Sua mãe realmente é muito chata Gabriel.
Mas após algumas batidas na caixa ela se rompeu, e um gato selvagem de duas caudas saiu e o atacou, o arranhando todo e fugindo logo após.
— Aii… que droga… — O garoto resmungava de dor.
— Bem que minha mãe disse. — Respondeu Gabriel.
Os demais garotos riram.
— Ei isso não tem graça, Gabriel você armou isso pra mim, isso vai ter volta. — O garoto rugiu enquanto corria para casa ferido.
— Cara o que deu nele? — Perguntou um dos amigos de Gabriel.
— Eu não sei, mas acho que você deveria tomar cuidado Gabriel. — Respondeu outro.
Gabriel engoliu seco, e logo após voltaram a brincar, ao anoitecer, Gabriel estava dormindo em sua cama, ao lado de seu pai, enquanto o valentão apareceu com um pedaço de pau nas mãos, para quebrar as janelas da casa de Gabriel.
— Agora vocês vão ver hehehe. — Ele ergueu o pedaço de madeira prestes a golpear, mas antes que pudesse seus pais apareceram.
— Hector?! — Sua mãe exclamou. — O que pensa que está fazendo?
Seu pai caminhou até ele nitidamente furioso.
— ORA SEU! — Ele puxou a madeira de suas mãos e o puxou pela orelha. — Você vai ver só viu.
Eles o levaram embora.
A paz permaneceu no reino de Aethernys durante 6 anos, até que um incidente ocorreu, o vilarejo em que moravam foi invadido e atacado por orcs, os cidadãos estavam preocupados, nervosos.
— Onde estão os heróis? — Perguntou um morador desesperado.
— Ouvi que estavam em uma missã… — Ele foi abatido por uma flecha antes que pudesse responder.
— Mas que dro… — Um enorme cutelo o partiu ao meio.
Um grupo de orcs, estava matando e destruindo tudo, e seguiram para a viela em que Gabriel morava, ao notar o ataque, sua mãe fechou e trancou todas as portas e janelas, mas o orc os farejou, afinal todos os outros fugiram e os que restaram foram assassinados.
O orc invadiu sua casa, arrombando a porta e destruindo parcialmente a parede com um chute, vendo os três juntos, Kalchas que estava na cama abraçando a mãe de Gabriel junto a ele, seu olho brilhou em um púrpura profundo, e uma voz ecoou pela mente do orc.
— “É ela, não a mate, mas se livre dos demais!”.
O orc caminhou lentamente em suas direções, até que Gabriel se soltou e avançou em direção ao orc, que o chutou para debaixo da cama onde estava seu pai, o fazendo colidir com uma velha caixa de madeira com entalhes dourados que estava semiaberta, ao a abrir, Gabriel encontrou e pegou uma antiga espada que seu pai havia recebido como agradecimento de um antigo nobre no passado e usou para enfrentar o orc, que havia pegado sua mãe pelo pescoço, o atacando e cortando suas costas superficialmente.
— Gabriel! — Sua mãe gritou.
— Gabriel, pegue sua mãe e fuja. — Seu pai pediu, apertando suas pernas, com um olhar de impotência.
O orc jogou a mãe de Gabriel para fora de casa, onde ela bateu a cabeça e ficou inconsciente e se voltou para Gabriel, o olhando com desdém, enquanto ria com desprezo
— FRACO! — Decretou o orc, com sua voz rouca.
— O quê? — Kalchas se surpreendeu. — Ele fala.
Gabriel tremia, sua postura era totalmente amadora. Mas Gabriel investiu novamente, apenas para ser bloqueado pelas mãos nuas do orc, que o arremessou pela janela com uma mão.
— GABRIEL!! — Seu pai gritou, tentando ir até eles, mas caindo no chão sem poder se locomover. — MERDAAA!
Gabriel recobrou os sentidos rapidamente, olhando ao seu redor e vendo tudo em chamas, onde morava, seus amigos, dezenas de cadáveres e sangues espalhados, um grupo de orcs o percebeu, e começaram a caminhar em sua direção, mas logo após o líder deles atravessou a parede e todos pararam, ele tinha aproximadamente 2 metros, grandes presas inferiores, e um enorme cutelo como arma, o orc menosprezava Gabriel, e “brincou” com ele, balançando seu cutelo em direção a Gabriel, que era empurrado diversas vezes enquanto bloqueava os seus “ataques”.
— GABRIEL! — Seu pai gritava desesperado, enquanto sua mãe permanecia inconsciente.
Kalchas tentou se rastejar até Gabriel preocupado, o orc notou que ele pretendia interferir, e destruiu a passagem, o impedindo de ir até Gabriel, que estava caído no chão, o orc gargalhava.
— BWAHUAHAHUWA!
— GABRIEL!! — Seu pai gritava desesperado, a voz já tremulando.
O orc pegou Gabriel pelos cabelos, rindo de sua cara, mas Gabriel o golpeou no olho com uma pedra que havia pego no chão, o orc o soltou, e Gabriel aproveitou esse instante para tentar cortar sua cabeça, mas foi chutado para cima, Gabriel vomitou sangue, o orc pela primeira vez segurou seu cutelo com a intenção de matar, Gabriel tentou bloquear o ataque com sua espada, mas teve seu braço espada e peito partidos pelo seu golpe. Caindo no chão quase sem vida, o orc se virou indo lentamente em direção a sua casa, para tirar a vida de seus pais.
— “Então eu vou morrer aqui? E meu pai... minha mãe? Alguém, por favor, salve eles, ajude eles, por favor” —A visão de Gabriel escurecia, seus últimos pensamentos que vinham, era sobre a segurança de seus pais, enquanto sua visão ficava turva e seus olhos se fechavam.
— NÃO! — Gabriel gritou, abrindo os olhos, emanando uma aura de cor magenta e despertando inconsciente e incompleto algo desconhecido para ele, o Thyr e o Éter.
Seus ferimentos se fecharam por um breve momento, a dor havia desaparecido, seus sentidos se tornaram mais aguçados, Gabriel subiu por algumas caixas que estavam na rua, pulando em cima do orc que se virou com o seu grito, Gabriel usou o resto de sua espada quebrada para enfiar no olho perfurado do orc, que se debateu contra a parede para o tirar de cima dele, e sem muito esforço arrancando a espada.
— Eu não vou morrer aqui! E não vou deixar que machuque meus pais! — Gabriel exclamou.
Mas o orc o agarrou novamente, Gabriel apertou firme o braço do orc, o perfurando com os dedos, mas o orc o esmagou contra o solo violentamente, fazendo sua visão turvar.
— N…nã…o… — Ele murmurava enquanto cuspia sangue.
Ele se virou para o lado e viu sua mãe sendo carregada inconsciente, a cabeça sangrando, sendo levada pelo orc para um portal, ele tentou levantar sua mão, mas não restava força, ele cedeu e desmaiou.