A Etérea e os Gêmeos
Gabriel conseguiu anular o ataque de Lilith
— Parabéns garoto, você evoluiu absurdamente. — Afirmou Lilith.
— Você é bastante talentoso mesmo. — Respondeu Amara surpresa.
— Isso foi cansativo. — Respondeu ele, caindo sentado no chão logo após.
— Agora não temos mais nada para te ensinar. — Disse Lilith, o chamando para perto.
— Eu sei que a Kaelis pediu pra você se enturmar com a gente e tal, mas eu não sou muito de me abrir com os outros, então... Memoriam. — Lilith conjurou uma Magia Arcana de Éter, que compartilhava fragmentos de sua memória com Gabriel.
“Lilith era uma garotinha quieta, sem amigos, mas com uma incrível aptidão para o Arcano junto a uma Éter excepcional para uma garota da sua idade, mas sendo excluída pelos demais devido a seu Éter de Mimetismo Demoníaco, aos doze anos se tornou a mais jovem a se tornar uma aventureira sendo reconhecida até mesmo por Kaelis e se tornar de seu grupo, mesmo com Riven discordando, e expandindo ainda mais sua fama, tendo capacidade para utilizar qualquer elemento.”
— Uau, você é mesmo incrível. — Afirmou Gabriel.
— É, eu sei. — Respondeu Lilith.
Alastor se aproximou, o levando para seu treinamento.
— Minha vez senhor gênio. — Disse Alastor. — Hoje vai ser como antes, uma espécie de pega-pega por entre as sombras, onde o objetivo é derramar uma gota de sangue do outro. — Afirmou Alastor, Gabriel concordou e ambos entraram no quarto.
Quando entraram o quarto, ambos ocultaram suas presenças até seu limite, Gabriel conseguiu localizar Alastor em meio às sombras, e isso o fazia se empolgar, Gabriel foi em sua direção, mas encontrou apenas uma xícara a sua frente.
— Errado Gabriel, você pode ter me localizado, mas você deixa esse sentimento fluir, o que torna fácil pra pessoa perceber e te enganar. — Alastor o repreendeu.
“Então eu devo ser o oposto da Kaelis agora, invés de impor minha intenção, eu devo ocultá-la por completo” — Gabriel deduziu, entrando em estado de transe por um momento, fazendo sua presença sumir por completo, surpreendendo até mesmo Alastor.
“A presença dele se apagou quase que por completo? Como pode?” — Alastor se impressionou com a evolução de Gabriel, sentindo uma presença atrás dele, se virando e golpeando, mas sendo apenas uma xícara que ele posicionou, sentindo Gabriel nas suas costas.
— E você morreu... — Gabriel comentou, fazendo um leve furo em sua bochecha.
— Hora... hora... Você me pegou. — Respondeu Alastor. — Como conseguiu?
— Quase igual ao Sentire, eu esvaziei a minha mente, usando meu tato para sentir tudo dentro desse quarto, sentindo um desconforto vindo da sua direção, acho que isso tem a ver com meu Éter de Afinidade também. — Gabriel supôs.
— Cara, essa sua evolução é mesmo assustadora. — Respondeu Alastor. — Mas você não vai me superar no meu domínio, na próxima eu definitivamente “mato” você.
Gabriel relutou um pouco sobre fazer uma pergunta a Alastor, mas fazendo assim mesmo.
— Alastor, essas suas habilidades, você é um assassino, não é? — Gabriel perguntou.
Alastor parou por um instante, olhando para sua adaga em sua mão, a apertando com força e se virando para Gabriel.
Alastor ficou em silêncio por alguns segundos, encarando o chão, como se pesasse se aquilo merecia ser dito.
— …Ah, que se dane. — Suspirou por fim. — Sim, eu era assim, mas isso foi antes de conhecer a Kaelis. — Ele desviou o olhar. — Ela falou com você, não falou? Sobre nos conhecer-mos.
— Falou… — Gabriel respondeu baixo. — Ela contou o dela, e o do Riven.
— O meu não é como o dela. — Alastor ergueu os olhos para o teto. — Não tem castelos bonitos nem finais honrosos, só sangue, vingança, ódio, rancor e desgraça.
Gabriel engoliu em seco, mas assentiu.
— Eu e Amara nascemos em uma família de assassinos, eles se escondiam atrás da fachada de médicos… — Ele soltou um riso curto, sem humor. — …mas curar nunca foi o objetivo, éramos uma família de aristocratas assassinos, usando as habilidades e conhecimentos médicos como disfarces profissionais, estudar, e compreender o corpo humano, junto a suas fraquezas, desde pequenos, fomos moldados para matar, era uma tradição, uma regra, um destino que nos foi imposto.
A voz dele diminuiu.
— Amara nunca conseguiu seguir isso, ela tinha um coração bom demais. — Ele hesitou por um instante. — Por isso… ela era punida, torturada, e eu nunca soube disso, mesmo nas raras ocasiões em que nos víamos, quando brincávamos, eu nunca reparei, ela sempre apresentava um sorriso puro e inocente.
Gabriel sentiu o estômago afundar.
— Enquanto ela sofria, eu era considerado um prodígio, cresci nas sombras, vivi nelas, e a Umbracinese despertou como algo natural. — Ele fechou a mão devagar. — Amara era o oposto, luz, bondade pura, ela despertou a Luminocinese, mas o corpo dela não aguentou, as constantes punições e envenenamento a quebraram, e seu corpo adoeceu se tornando frágil.
O silêncio se estendeu.
— Quando fizemos dezesseis anos, fui escolhido para assumir a chefia da família. Nosso pai já estava morto. — Alastor respirou fundo. — Mas eu ainda tinha algo que eles desprezavam, humanidade, e isso só existia por causa dela.
Ele virou o rosto, seu maxilar estava tenso.
— E como resposta…
— Decidiram matar ela. — Gabriel completou, quase num sussurro.
Alastor assentiu com a cabeça.
— Naquele dia, eu tinha uma missão, assassinar um rei, não era Uther, era de outro reino. — Ele fez uma pausa curta. — No caminho, senti que algo estava errado e decidi voltar.
Os dedos dele se fecharam em punho.
— Meu tio estava comigo como testemunha da missão e tentou me impedir, me chamou de fraco e me atacou, e quando eu entendi sobre o que se tratava. —Sua voz permaneceu firme. —Eu o matei, arrancando seu coração com as minhas mãos, o deixando apodrecer naquele local.
Gabriel prendeu a respiração.
— Quando cheguei em casa… — Alastor hesitou, uma vez mais. — …eu vi Amara.
O silêncio agora estava pesado.
— Ela estava no chão, cercada por aqueles que um dia eu chamei de família, coberta por sangue, lágrimas, hematomas. — A voz dele ficou mais baixa. — E ali… eu deixei de ser humano.
Ele ergueu o olhar, frio.
— Não houve hesitação, discussão, luta. Apenas um massacre unilateral, eu exterminei todos naquela casa.
Uma pausa.
— Depois, deixei uma carta. Para quem fosse estúpido o bastante para voltar ou se vingar.
“Aos que restarem, ou ninguém, talvez…
Esta família me ensinou a matar. Me moldou em lâmina, como se eu nunca tivesse nascido com coração.
Mas vocês erraram em pensar que eu seria cego como os demais…
Erraram ao tocar nela. Vocês criaram um monstro.
E esse monstro escolheu proteger, não obedecer.
Cada golpe que dei esta noite foi uma resposta.
Um nome riscado, um grito silenciado, uma cicatriz lavada.
Amara viverá.
Mesmo que eu precise carregar o rancor e ódio, e o peso de ter matado, minha própria família dentro de mim para isso.
Não chamem isso de traição.
Eu fui fiel à única coisa verdadeira que encontrei em meio a esse inferno, de ferro e sangue.
O amor de uma irmã que ainda sabia sorrir.
Que o silêncio desta casa seja eterno.
Que as sombras contem a história.
Eu não voltarei.
E aos que tentarem se vingar, venham.
Eu os reunirei aos juntamente aos demais, em uma pilha de cadáveres!
– Alastor”
Quando terminou, Alastor demorou a continuar.
— Depois disso, fugi com Amara, vivi como bandido fiz qualquer coisa para mantê-la viva. — Seus ombros cairam. — Até conhecer Lilith, eu tentei roubá-la numa taberna, achei que seria fácil.
Um canto de ironia passou pelo rosto dele.
— Não foi, Riven me pegou, e quando fui interrogado, Kaelis nos acolheu.
Gabriel que estava imóvel pela primeira vez esboçou uma reação de ânimo.
— Lilith tentou ajudar Amara, foi quando descobrimos a verdade. — A voz de Alastor endureceu. — Ela estava amaldiçoada, e depois do massacre… o rancor dos mortos se voltou contra ela, estavam a matando lentamente, cada célula, lentamente, e sempre que usava Éter, a dor piorava.
Gabriel sentiu o peito apertar novamente.
— Eu me adaptei ao grupo, mas infelizmente Amara não, ela agia como suporte, mas ela piorou, e eu me afastei do grupo para cuidar dela.
O olhar dele escureceu.
— Um dia, ela teve pesadelos com a antiga casa, e sem me avisar, ela voltou até lá sozinha, eu nunca contei a ela o que aconteceu naquele dia.
Alastor fechou os olhos por um instante.
— Quando chegou, ela encontrou ruínas, cinzas, o cheiro dos corpos queimados e de sangue ainda preso às paredes, ou o que restarão delas. — A voz ficou rouca. — Ela caminhou pelos corredores onde era torturada, cada cicatriz ardia.
Gabriel sentiu um nó na garganta.
— No salão principal… ela encontrou minha carta, presa a uma coluna, junto a minha adaga. — Ele engoliu seco. — Ela leu tudo, e caiu de joelhos.
Um silêncio tomou conta por um breve momento.
— E ela chorou, não chorou por eles, chorou por mim.
Alastor respirou fundo, como se aquilo ainda doesse.
— Antes de sair, um remanescente apareceu, querendo vingança. — Ele cerrou os dentes. — Mesmo frágil, Amara lutou e o incinerou.
A voz dele falhou.
— Quando cheguei… era tarde, ela estava pálida, caída em meio aos corpos, eu a segurei, mas ela estava morrendo nos meus braços.
Alastor apertou as mãos, tremendo levemente.
— Foi a primeira vez que senti medo. — Admitiu. — Medo de perder a única coisa boa que tive nessa vida.
Ele ergueu o olhar, sério.
— Ali, naquele desespero, despertei algo que não existe em registro algum, uma variação corrompida do Thyr Vita, o Thyr Umbra Vitae. — Um Vita que não usa vida, usa a morte. — Ele respirou fundo. — A maldição dela se alimentava do rancor dos mortos, então eu usei isso contra eles, usei a morte de quem a feriu para libertá-la e funcionou.
Alastor desviou o olhar.
— Amara foi curada. — Ele fechou os olhos por um segundo. — E eu perdi minha Umbracinese no processo.
O silêncio caiu entre os dois.
— Mas eu não me arrependo. — A voz dele era baixa, firme. — Nem por um instante eu me arrependo desse sacrifício.
— Espera... você perdeu o seu Éter? — Gabriel perguntou.
— Sim, quando fui ver Lilith outro dia, eu pedi a ela para me confirmar, e pedi também para que ela mantivesse isso em segredo, ao curar Amara, minhas sombras foram extinguidas, e para falar a verdade eu nem me importo tanto. — Ele cerrou os punhos, olhando fixamente para eles. — Só dela estar viva e bem, eu já estou feliz. — Alastor respondeu sorrindo.
Quando saíram do quarto, Aeron estava os esperando do lado de fora.
— Garoto, seu último desafio de hoje, seu corpo deve estar aquecido, e seria um desperdício se você encerrasse por hoje. — Afirmou Aeron.
— Sim, seria mesmo. — Gabriel o respondeu, enquanto o acompanhava até o pátio.
— Hoje serão quinhentas repetições de cada! — Aeron declarou.
— SIM! — Gabriel assentiu, começando a dar quinhentas voltas pelo pátio.
Ao anoitecer, Gabriel estava deitado no chão, completamente suado e com uma toalha cobrindo seu rosto, arfando bastante, mas em um ritmo controlado, diferente de antes.